Ficha tcnica
Ttulo: Fugitivas - quinto e ltimo livro da srie rfs
Ttulo original: Runaways
Autor: V. C. Andrews
Srie: rfs
Gnero: Romance
Editora: Bertrand Brasil
Digitalizao: Airton Smile Marques e lvaro Zermiane
Reviso: Marcilene Chaves
Numemrao de pginas: cabealho.

Sinopse

Fugitivas  o quinto volume da Srie rfs, ltimo romance que encerra a srie iniciada com Borboleta, onde a autora narra as peripcias das quatro adolescentes 
rfs, seus sucessos e fracassos, e o encontro providencial das quatro no lar de adoo Lakewood House.
"Um por todos e todos por um" era o lema de Brooke, Crystal, Raven e Borboleta. No triste lar de adoo administrado por Louise e Gordon Tooey, pelo menos as meninas 
amavam umas s outras, chamando-se de "irms", e, juntas, conseguiam esquecer o passado e desfrutar a vivncia efmera de um verdadeiro lar.
Mas eis que descobrem um segredo ainda mais assustador do que o rudo das pesadas botas de Gordon ecoando no piso de madeira. Abalada a frgil esperana de uma vida 
melhor, resolvem escapar da nica forma que lhes  possvel: num carro roubado. Sonham ansiosas por acordar no dia seguinte de manh num outro lugar, mais acochegante 
e feliz, onde possam vislumbrar a perspectiva de uma vida melhor.
Cada uma tem um sonho. Raven quer tornar-se cantora; Borboleta quer danar; Crystal acalenta planos de cursar uma faculdade; e Brooke tem esperana de encontrar 
a me na Califrnia.
Na estrada desimpedida,  medida que se afastam de Nova York sentem que a tristeza diminui, e a gentileza das pessoas lhes acena como algo seguro e real.
Mas a estrada  um lugar perigoso e logo ficam sem dinheiro e mais vulnerveis do que nunca. Inteiramente ss sob a amplido de uma estrada que parece sem fim, elas 
podem questionar somente umas s outras se convm desistir de seus sonhos ou se realmente esto a meio caminho de uma vida segura e feliz.
Livros que compem a Srie rfs: Borboleta - vol. 1, Crystal - vol. 2, Brooke - vol. 3, Raven - vol. 4 e Fugitivas - vol. 5
V. C. ANDREWS

Fugitivas
Volume Final Srie rfs
Traduo A.B. Pinheiro de Lemos
BERTRAND BRASIL
Copyright  1998 by the Virgnia C. Andrews Trust and The Vanda Partnership.
Publicado mediante contrato com o editor original, Pocket Books, New York.
Depois da morte de Virgnia Andrews, a famlia Andrews passou a trabalhar com uma escritora escolhida com o maior cuidado, a fim de organizar e completar suas histrias, 
alm de criar romances adicionais, como este, inspirado por seu gnio na fico.
Este livro  uma obra de fico. Nomes, personagens, lugares e incidentes so produtos da imaginao da autora ou usados de maneira fictcia. Qualquer semelhana 
com eventos reais, como locais ou pessoas, vivas ou mortas,  mera coincidncia.
Ttulo original: Runaways
Capa: Silvana Mattievich, usando ilustrao de Lisa Falkenstern
Editorao: Art Line
2001
Impresso no Brasil/Printed in Brazl
CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
A581f
Andrews, V. C. (Virgnia C.)
Fugitivas
V. C. Andrews; traduo A. B. Pinheiro de Lemos. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001 352p. - (Srie rfs; 5)
Traduo de: Runaways Continuao de: Raven ISBN 85-286-0799-2
1. Romance norte-americano. I. Lemos, A. B. Pinheiro de Lemos (Alfredo Barcelos Pinheiro de), 1938-. II. Ttulo. III. Srie.
00-1622
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Prlogo

Abri os olhos abruptamente, ao som abafado de choro passando pelas paredes. Os quartos se encolhiam ao tamanho de closets quando se punha as escrivaninhas e cadeiras, 
junto com uma cmoda e duas camas, e mais uma mesinha-de-cabeceira entre elas. Para se ter o mximo de espao possvel, as camas ficavam encostadas na parede. Meu 
ouvido quase se tornava parte do papel de parede quando eu dormia.
Duas das novas crianas, que chamvamos de No-Nascidos, dormiam no quarto ao lado. Choramingavam como cachorrinhos  noite. Ns os apelidvamos de No-Nascidos 
porque vir para c, um lar de adoo provisrio, era como nascer de novo, s que desta vez para viver no limbo. Haviam chegado ontem e passavam sua primeira noite 
na Lakewood House, o lugar que Crystal, Borboleta, minha companheira de quarto Raven e eu batizramos de Casa do Inferno.
As informaes sobre os novos tutelados do Estado, como os rfos eram chamados, espalhavam-se por aqui mais depressa do que gelia num po fresco. Quando se tratava 
de descobrir alguma coisa sobre os No-Nascidos, todos se tornavam de repente estudiosos aplicados.
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Se voc sabia de alguma coisa, sentia-se quase que na obrigao de partilhar com eles.
Segundo Potsy Philips, um rfo que tinha o hbito de azucrinar cada nova criana que chegava ao nosso lar de adoo temporrio, aqueles No-Nascidos no tinham 
pai. Haviam passado vrios dias sozinhos com a me morta antes que algum os notasse ou se importasse com eles.
Que novidade havia nisso?, pensei. H anos que estvamos ali sem que algum notasse ou se importasse conosco. Na verdade, no  bem assim. Ns nos importvamos uns 
com os outros. Nem todos se davam bem, mas tive sorte de encontrar aqui amigas de verdade, minhas irms... Raven, Crystal e Janet, a quem chamamos de Borboleta, 
por ela ser muito franzina. Todas chegamos na casa a-intervalos de poucas semanas e nos tornamos grandes amigas. Quando sentamos vontade de chorar, ou as esperanas 
ficavam to baixas que no podamos sequer imaginar que um dia voltassem a subir, ou sempre que tnhamos notcias felizes para partilhar, sabamos que podamos contar 
com as outras. E isso significa mais do que qualquer coisa para ns.
Continuei deitada na cama, pensando se os novos rfos teriam a mesma sorte, mas logo percebi que j estava quase na hora de levantar e brilhar. Louise Tooey, nossa 
me de adoo, bateria nas portas dentro de dez minutos. Se voc no se levantasse e se vestisse depressa, o marido de Louise, Gordon, poderia subir em seguida, 
as botas ressoando como malhos nos degraus e tbuas do assoalho, ao se encaminhar para seu quarto. Se voc permanecesse na cama, ele era capaz de arrancar as cobertas 
com um movimento brusco. Olhava furioso para a pessoa, como um enorme abutre, os olhos arregalados, esbugalhados, os lbios grossos retrados para mostrar os dentes.
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- Onde pensa que est? Num hotel? Quer o caf da manh servido na cama? Tenho de interromper meu trabalho para vir aqui? Vai ganhar dez demritos!
O rosto bronzeado tornava-se vermelho-escuro, os msculos e veias no pescoo pareciam grossos elsticos prestes a se partirem. Seu nome subia de posio no Quadro 
de Honra, um enorme painel de cortia pendurado na sala de jantar. Quando voc chegava a vinte demritos, tinha de ficar de castigo no quarto, com mais um dia para 
cada cinco demritos alm dos vinte.
Uma simples olhada nos quartos explicava por que era uma punio to rigorosa ficar de castigo ali. No tnhamos permisso para pendurar qualquer coisa nas paredes, 
nem mesmo cartazes ou retratos. Supostamente, era para proteger o papel de parede, que parecia prestes a descolar por completo a qualquer momento e a se jogar na 
lata de lixo por iniciativa prpria. E j comeara a se soltar em alguns pontos. Tambm no se podia ter rdios ou aparelhos de CD, porque as paredes eram finas 
demais. Se algum ouvisse msica, por mais baixo que fosse, incomodaria os outros... especialmente Gordon e Louise. Se voc era bastante afortunado para chegar com 
um gravador ou outro aparelho similar, tinha de guard-lo no depsito. S podia us-lo durante o perodo de recreao, precisando at assinar o registro de entrada 
e sada de seu prprio aparelho!
Todos os quartos tinham duas janelas. Os quartos dos residentes mais antigos, como ns quatro, ofereciam uma vista do lago. No havia cortinas, apenas persianas 
desbotadas, quase todas com defeito. Tnhamos de usar um lpis no rolo para mant-las na posio. Framos informadas de que as persianas eram outrora de um amarelo-vivo, 
enquanto o papel de parede era de tonalidade branca, com crculos azuis que pareciam violetas recm-desabrochadas. Agora, as paredes tinham a cor de um ovo cozido 
de duas semanas, ou seja, cinza-
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sujo, enquanto os crculos estavam mais para violetas mortas, desbotadas e ressequidas, iguais quelas guardadas entre as pginas de um dirio.
Apenas para nos fazer apreciar a sorte que tnhamos por estar ali, Louise gostava de descrever a Lake-wood House como fora no passado, quando seus pais e avs a 
mantinham como uma pousada. Ela parava para verificar todos na sala de recreao, corria o olhar ao redor e suspirava, os olhos marejados de lgrimas, enquanto contemplava 
os velhos assoalhos de carvalho, as paredes gastas, a tinta descascando no teto.
- Nos velhos tempos, crianas, esta era a pousada mais procurada no norte do Estado de Nova York, aninhada entre duas montanhas, com um lago alimentado por gua 
de fonte, to cristalina que se podia divisar os olhos dos peixes nadando l no fundo.
Algumas das crianas menores podiam sorrir. Parecia um lugar maravilhoso. Agora, no entanto, o lago era salobro, cheio de algas, com lodo no fundo, um lugar proibido 
para todos ns. No se podia pescar. O velho cais estava apodrecido, com dois botes furados quase que totalmente submersos ao lado. Se Gordon surpreendia algum 
a menos de trs metros da beira do lago, o resultado eram vinte e cinco demritos, com um dia de confinamento imediato. Ningum sabia qual poderia ser a punio 
para uma segunda violao dessa norma. Gordon deixava isso para nossa imaginao. Talvez ele pusesse uma criana dentro de um barril.
Havia um rumor de que Louise e Gordon guardavam velhos barris de conservas vazios nos fundos da casa. Se o comportamento de alguma delas era muito ruim, eles a metiam 
num dos barris e o tapavam, deixando apenas alguns buracos abertos para a respirao. A criana ficava apertada ali por dias, tendo que urinar e fazer as necessidades 
na cueca ou na calcinha. Quando o castigo terminava, o barril era virado de lado e rolado por dezenas
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de metros. S depois ela era retirada, lacrimejando e tonta. A maioria dos No-Nascidos menores quase que se mijava na roupa s de ouvir a histria. Quando, em seguida, 
viam Gordon avanando pelo corredor, os olhos castanhos-avermelhados esquadrinhando a sala e as crianas,  procura de qualquer comportamento indevido, elas tremiam 
da cabea aos ps e prendiam a respirao.
Gordon era suficiente para proporcionar a qualquer garoto ou garota pesadelos para o resto da vida. O fato de ele e Louise haverem se qualificado como pais de adoo 
, como diz Crystal, um testemunho eloqente e conclusivo de que as crianas rfs ocupam o ponto mais baixo no poste totmico social.  assim que Crystal costuma 
falar. D para pensar que ela j foi professora universitria ou algo parecido.
Esfreguei os olhos para afugentar o sono, passei os dedos pelos cabelos e sentei na cama. Raven continuava em sono profundo, a perna direita por cima do cobertor, 
os cabelos escuros espalhados sobre o travesseiro.
Raven , de longe, a mais bonita de ns quatro. Seu rosto  to lindo quanto o de uma modelo. Todas invejam seus cabelos cor de bano, descendo at os ombros. Ela 
s precisa tomar uma chuveirada e passar xampu para seus cabelos brilharem, como se uma fada madrinha os tivesse tocado com sua varinha de condo.
Ei, bela adormecida! - chamei. Ela no se mexeu. - Raven, querida, est na hora de acordar!
Nada. Nem sequer uma contrao muscular em todo o seu corpo. Estendi a mo, tirei meus tnis, depois as meias, transformando-as numa bola e arremessando-a atravs 
do quarto. Acertei a parte posterior da adorvel cabea de Raven. Foi o suficiente para despert-la.
- O que...
Ela virou-se, olhou para mim e sorriu. Tornou a afundar no travesseiro, como se este fosse feito de marshmallow.
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Levante-se e brilhe, antes que voc-sabe-quem aparea e faa voc-sabe-o-qu.
Sa da cama para abrir a gaveta da cmoda e pegar uma calcinha limpa. Temos de partilhar a nica cmoda, o refugo de uma loja de terceira, que j se encontrava naquele 
quarto quando o primeiro turista chegou da cidade de Nova York, no tempo em que os trens estavam na moda e a Lakewood House aparecia numa revista de turismo chamada 
Summer Homes.
- Meus avs construram esta casa para ser a sede de uma pequena fazenda - dissera-nos Louise pela milsima vez no dia anterior. - No conseguiram ganhar a vida 
com a fazenda e passaram a aceitar hspedes. Fizeram de Lakewood House uma pousada de prestgio. Meus pais tambm foram bem-sucedidos. Mas a economia mudou desde 
ento. Gordon e eu decidimos: por que desperdiar tudo isso? Por que no aproveitar a propriedade para fazer um lar de adoo temporrio? Vocs, crianas afortunadas, 
sero as beneficiadas.
Crianas afortunadas? Ela acha mesmo que  uma boa ao? Alguma vez Louise e Gordon se importaram com alguma outra pessoa seno com eles prprios? Crystal, que  
bastante inteligente para se tornar presidente dos Estados Unidos, se as mulheres conseguirem algum dia alcanar esse posto, disse-nos que Louise e Gordon recebem 
dinheiro por cada criana que chega. O dinheiro aumenta  medida que a criana cresce... e ainda por cima h iseno de impostos!
- Hoje  sbado - resmungou Raven. - Por que no podemos dormir at mais tarde no sbado?
- Aborde o assunto na prxima reunio da diretoria - gracejei. -  melhor se levantar logo, Raven, antes que os dois banheiros fiquem ocupados.
Em nosso andar tnhamos de partilhar o banheiro com seis outros rfos. Gordon vivia nos fazendo um sermo sobre a inconvenincia de deixar a gua quente
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aberta por tempo demais. Estvamos convencidas de que ele era o inventor do banho de chuveiro de dois minutos. A Lakewood House tinha seu prprio poo, mas ele nos 
ameaava com a horrvel possibilidade de ficarmos sem gua e de se ter de traz-la do lago em baldes.
- Detesto isso - murmurou Raven.
Por um momento, fitei-a com os olhos arregalados, como se ela tivesse dito algo inesperado.
Tambm detesto, pensei, mas nenhuma das duas tem pais em perspectiva a cerc-la. E tudo indicava que nunca teramos. Crystal, que era um prodgio em computao, 
passava mais tempo do que todos com o nico computador doado a Lakewood House. Costumava nos apresentar fatos incrveis, em particular sobre crianas disponveis 
para adoo. Em qualquer dia, garantia ela, havia quase 50 mil crianas esperando para serem adotadas nos Estados Unidos. No viviam mais com a me ou o pai e tinham 
sido declaradas por tribunais como disponveis para adoo. De um modo geral, no entanto, permaneciam em instituies administradas ou financiadas pelo estado. Boa 
sorte para todas. Segundo Crystal, a populao de crianas disponveis para adoo cresce 33 por cento mais depressa do que a populao dos Estados Unidos em geral. 
Talvez acabemos dominando o mundo, gracejei em certa ocasio, mas ningum riu.
Vesti a calcinha e estendi a mo para ojeans no instante em que Crystal entrou no quarto, o rosto vermelho. Ainda estava de pijama, o que no seu caso  excepcional. 
Crystal  a Miss Pontualidade.
- Ela comeou de novo! E pior ainda! Parece... uma rvore petrificada!
Olhei para Raven, que saltou da cama e vestiu seu roupo, seguindo-nos para o quarto de Crystal e Borboleta, esta ltima com as pernas encolhidas, as mos cerradas, 
os olhos fechados e apertados com tanta fora,
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que as plpebras pareciam costuradas. Os lbios estavam contrados, as narinas tremendo a cada respirao pesada. Trocamos olhares. Ultimamente, Borboleta vinha 
entrando naqueles transes catatnicos mais e mais vezes. No era preciso ser cientista espacial para compreender o motivo. Ela era solitria e frgil, tinha medo 
de rejeio. Entrar naquele transe era como se meter num casulo. Crystal, nossa psicloga infantil de planto, dizia que Borboleta tentava retornar ao tero. Raven 
achava que ela estava maluca, mas eu a compreendia. Nunca fiz qualquer comentrio, mas s vezes gostaria de poder voltar tambm.
Sacudi o brao de Borboleta e todo o seu corpo se mexeu, como se fosse uma pea nica slida, sem qualquer articulao.
- Borboleta, pare com isso. Estamos todas aqui. Sabe muito bem o que vai acontecer se continuar assim. Gordon e Louise viro ver como voc est. Chamaro a ambulncia 
e voc ser levada para uma enfermaria psiquitrica.
Tornei a sacudi-la, mas no houve qualquer reao. Crystal adiantou-se at a beira da cama.
- Precisamos nos unir - murmurou ela. Olhei para a porta.
- Feche a porta, Raven.
Depois da porta fechada, ns trs cercamos a cama - Raven e eu de um lado, Crystal do outro. Tornamos a trocar olhares. Depois, como se estivssemos mergulhando, 
respiramos fundo e nos inclinamos para a frente, as cabeas se encostando. Unidas dessa maneira, iniciamos o cntico. Era a nossa cerimnia secreta.
- Somos irms. Sempre seremos irms. Uma por todas e todas por uma. Quando uma est triste, todas ficam tristes. Todas precisam ser felizes, para que cada uma seja 
feliz. Somos irms. Sempre seremos irms.
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As plpebras de Borboleta tremeram.
- Somos irms - continuou Crystal, acompanhada por Raven e por mim. - Sempre seremos irms.
Borboleta abriu os olhos, a boca se mexeu... e no instante seguinte ela se ps a entoar o cntico conosco. Paramos e recuamos. Borboleta olhou para cada uma de ns.
- O que aconteceu?
- Voc est bem agora - declarei. - Vamos nos vestir e descer para o caf da manh. Estou morrendo de fome.
Fora Crystal quem tivera a idia de nos juntarmos para o cntico, por causa de Borboleta. Afinal, Borboleta era a responsvel por nossa unio. Ali, ningum era mais 
vulnervel. Crystal fora sua primeira protetora, porque partilhavam o quarto. Raven e eu entrramos em cena para impedir que as garotas mais velhas se aproveitassem 
das duas. Crystal usava o sarcasmo e a lngua afiada para humilhar qualquer pessoa que ousasse escarnecer de Janet por seu tamanho e timidez. Assim, ns trs passamos 
a cerc-la como irms protetoras. Diante disso, era inevitvel que nos tornssemos mais ntimas.
Crystal costumava nos chamar de Quatro Orfteiras, parodiando as Quatro Mosqueteiras. Vivamos dizendo: "Todas por uma e uma por todas." Por enquanto, ou talvez 
para sempre, ns quatro ramos a nica famlia que tnhamos.
Crystal assegurava que o ritual e o cntico acabariam com nosso sentimento de abandono e solido. Era como uma professora.
- O ser humano  um animal gregrio - dissertava ela. - Os grupos religiosos e de meditao so sempre favorveis s recitaes coletivas. H segurana em ouvir 
outras vozes dizendo as mesmas coisas ou emitindo
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rudos similares. O contato  ntimo, representa um compromisso.
Eu no entendia direito o que tudo isso significava, mas sabia que fazia sentido, porque em geral funcionava.
Mais uma vez dera certo naquela manh. Mas eu no podia deixar de temer o dia em que no mais adiantaria.
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1 - Uma tnue esperana

Enquanto me preparava para o caf da manh, no pude deixar de me preocupar com Borboleta. Especulei como minhas outras irms e eu framos poupadas do mesmo destino. 
Afinal, cada uma de ns tinha uma histria mais ou menos trgica, como eu comeava a compreender.
Quase fui adotada, pouco antes de completar treze anos, por Pamela e Peter Thompson, um jovem casal que no tivera filhos. Pamela era a mulher mais linda que eu 
j tinha visto. Estranhei ela querer que eu a chamasse pelo nome, em vez de mame, mas fiz o que me pedia. Os rfos aprendem desde cedo a fazer qualquer coisa... 
isto , quase tudo, para agradar aos pais em potencial.
Pamela ganhara concursos de beleza e me escolhera porque me considerava uma verso dela quando mais jovem. Ningum jamais me dissera antes que eu era bonita, ou 
que tinha um potencial de beleza. Assim, quando Pamela e Peter me escolheram justamente por esse motivo, minha surpresa foi total. Mas tambm me senti feliz. Pela 
primeira vez na vida pensei que talvez fosse mesmo uma pessoa especial, que no era apenas uma garotinha que ningum queria.
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Logo descobri que Pamela no me julgava especial pelo que eu era de fato, mas sim pelo que pensava no que poderia me transformar. Todas as roupas bonitas e aulas 
de elegncia fizeram sentir-me uma princesa a princpio, mas depois comearam a me sufocar. No tinha permisso para me empenhar nos esportes em que me saa to 
bem. No podia sequer ser eu mesma. E fui me sentindo cada vez mais confusa. Queria agradar Pamela, que era a minha nova me, mas tambm sabia que agrad-la implicaria 
na perda de mim mesma.
Peter bem que tentou ajudar. Explicou a Pamela que eu podia me destacar nos esportes e ao mesmo tempo ganhar concursos de beleza. Mas Pamela foi se tornando mais 
e mais exigente e rigorosa. Finalmente, quando parecia que ela jamais ouviria os sonhos que eu tinha no corao, fiz a nica coisa que me passou pela cabea para 
faz-la compreender. Cortei meus cabelos compridos e bonitos... os cabelos que ela tanto gostava de lavar e escovar; os cabelos que me ajudariam a ganhar seus preciosos 
concursos de beleza.
Pamela teve um acesso de raiva ao me ver daquele jeito. Depois, comeou a ficar ofegante, com dificuldade para respirar, declarando que estava  beira de um colapso. 
Disse que eu seria um tremendo embarao para ela, e que no prestava como candidata de um concurso de beleza... ou como sua filha. Peter no sabia como lidar com 
a fria de Pamela. Por isso, mandara-me de volta ao Servio de Proteo  Infncia e Adolescncia. Passaram-se anos e eu ainda aqui, na Casa do Inferno.
As experincias de Borboleta devem ter sido muito piores do que as minhas, j que mal consegue falar a respeito. Mas descobrimos um pouco ao longo dos anos. Entretanto, 
ao tentar falar ou quando alguma coisa a lembra daquele tempo, Borboleta entra em choque. Sua me adotiva, Celine Delorice, era uma mulher de trinta
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e poucos anos, que no passado tivera uma carreira promissora como bailarina. Casara-se com um prspero industrial, Sanford Delorice, que apoiava suas tentativas 
de se tornar uma prima ballerina. Mas, pouco depois do casamento, Celine sofrera um grave acidente de carro, sendo obrigada a passar o resto de sua vida numa cadeira 
de rodas. Persuadira Sanford a adotar uma criana. Escolhera Borboleta por ela ser uma garota delicada e ter os ps perfeitos. Achava que Borboleta se tornaria a 
bailarina que ela esperava que fosse. Comeou a trein-la quase que no mesmo dia em que a tirara do orfanato e a levara para casa.
Borboleta era uma boa bailarina, mas no uma grande bailarina. No progredira to depressa quanto Celine esperava. Em vez disso, comeara a ficar paralisada pelo 
medo, sob a presso e a possibilidade de fracasso. Celine Delorice acabara sofrendo um colapso nervoso. Pelo menos fora isso que Borboleta nos contara. Pouco depois, 
Sanford a devolvera ao sistema, alegando que a deficincia fsica da esposa no permitia que criassem corretamente uma criana. Crystal achava que tinha de haver 
mais alguma coisa, mas nunca pressionou Borboleta, que podia se transformar numa pedra se algum insistisse para que falasse sobre seu passado.
Apesar do seu ar reservado, Raven no era muito diferente de ns. Vivera por algum tempo com sua famlia de verdade, um tio, depois que a me fora presa por um crime 
relacionado com drogas e internada num centro de reabilitao. No conhecamos os detalhes essenciais, mas alguma coisa acontecera, fazendo Raven vir para c. Ela 
se limitou a nos dizer que o casal de tios no tinha condies para cri-la, especialmente o tio. Disse-me que os problemas na casa deles envolviam sua prima Jennifer. 
Eu queria que Raven confiasse em mim o suficiente para explicar o que acontecera. Mas Raven parecia
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ter dificuldades para confiar em qualquer pessoa, incluindo Crystal, Borboleta e eu.
A situao de Raven era muito mais complicada do que a nossa. Como tinha a me biolgica viva em algum lugar, o Estado tornava sua adoo quase impossvel. Isso 
sempre acontecia quando havia alguma possibilidade, por menor que fosse, de a criana voltar para a me ou para o pai biolgico.
Crystal era a nica que tivera uma boa experincia com pais adotivos. No falava muito a respeito, mas descrevera a obsesso de Thelma por novelas de TV e a obsesso 
de Karl por ser eficiente e organizado. Disse que ele era contador, que encarava a vida como um equilbrio entre dever e haver. Fazia-lhe prelees constantes sobre 
sensatez. Crystal garantiu que seus pais adotivos eram muito simpticos, mas creio que achava, pela maneira como os descrevia, que ambos viviam em um mundo de fantasia. 
Quando morreram, num acidente de carro, nenhum dos parentes quisera ficar com ela. Assim, Crystal voltara ao sistema.
E agora aqui estvamos, as Orfteiras, to diferentes entre si, mas atradas umas pelas outras, sentindo-nos seguras em nosso pequeno grupo. Cada uma acrescentava 
alguma coisa de que todas precisavam; cada uma se dispunha a correr o risco de dor ou aflio para proteger a outra ou o grupo. Olhando para ns, ningum pensaria 
que tnhamos algo de especial para nos manter unidas.
Eu costumava usar jeans, uma camisa de malha ou um velho bluso. Tinha tnis e um par de sapatos finos, mas preferia meus velhos tanques, como Raven os chamava, 
com meias soquetes. Sempre usava a fita rosa que minha me verdadeira prendera em meus cabelos, antes de me deixar no orfanato. Claro que j desbotara por completo. 
Amarrava-a no pulso. Quase nunca usava
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batom ou maquilagem. Passava um desodorante de basto em vez de gua-de-colnia... quando me lembrava. Raven sempre andava de saia ou vestido.
Crystal usava roupas simples. Os cabelos castanho-escuros eram penteados para trs, presos num coque ou num rabo-de-cavalo. Raramente usava batom, muito menos maquilagem. 
Podia passar o dia inteiro com uma mancha de tinta no queixo, porque raramente se olhava no espelho.
Borboleta ainda guardava muitas das roupas que tinha quando vivia com os Delorice. Eram vestidos graciosos e elegantes, tnis de vrias cores, e at um lindo bluso 
de couro rosa. Poder-se-ia dizer que o seu crescimento fora tolhido pela infelicidade. Quase no crescera. Os cabelos dourados eram crespos. S usava batom quando 
Raven a ajudava a se maquilar.
Apesar das quatro personalidades diferentes, tnhamos uma coisa especial, algo que sabamos que as outras garotas cobiavam. Talvez fosse apenas a "unio". Talvez 
houvesse algum vnculo espiritual. Mas de uma coisa podamos ter certeza: a confiana que tnhamos umas nas outras.
Apesar do incidente com Borboleta, terminamos de nos vestir e descemos para o caf da manh dentro do horrio. A Lakewood House era fisicamente um dormitrio perfeito 
para cerca de duas dzias de crianas abandonadas. E pouco mudara desde os dias em que se tornara uma pousada. Ainda havia uma ampla sala de recreao, outrora ocupada 
por mesas pequenas, para jogos de tabuleiro, cartas, domin e at uma novidade de que nenhuma de ns jamais ouvira falar antes: um jogo chamado mah-jongg. Louise 
dizia que era o jogo mais popular entre as mulheres que se hospedavam na pousada. Ela nos mostrara as peas, todas com letras asiticas.
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Advertira-nos que nunca deveramos tocar naquelas peas. E explicara que ela e Gordon s esperavam o momento certo para vend-las como antigidades.
A maior parte da casa era antiga, ou apenas maltratada. A escada que descemos para alcanar o refeitrio oscilava e rangia. Os canos gemiam como velhos com artrite, 
as janelas ficavam emperradas com o frio no inverno, s vezes at mesmo no vero, e com bastante freqncia o sistema eltrico no funcionava. Gordon detestava fazer 
qualquer trabalho de manuteno. Costumava esperar s o absolutamente necessrio. No trocava um degrau rachado da escada de madeira, por exemplo, mesmo sendo perigoso, 
at saber se algum fiscal viria inspecionar a propriedade. Se alguma coisa quebrava em nossos quartos, ou se havia problemas de encanamento;- ele nos atribua a 
culpa e o deixava quebrado pelo maior tempo possvel.
Logo percebemos que Louise tinha quase tanto medo de Gordon quanto ns. Se alguma vez ela o contradizia em nossa presena, Gordon lanava-lhe um olhar furioso, o 
rosto vermelho, os olhos luzindo como carves em brasa numa lareira, os msculos do pescoo se contraindo, as artrias e veias dilatando-se, e as mos enormes fechadas, 
como se fossem malhos. Tinha uma fora excepcional. Quando queria se exibir, deixava que as crianas o observassem derrubando uma rvore. Fazia isso com um machado, 
nunca parando at rachar-lhe o tronco. As lascas voavam ao seu redor, como mariposas amarelas; as rvores pareciam feitas de papel. Essas demonstraes de fora 
ficavam gravadas indelevelmente na memria das crianas. E ai de quem se tornasse alvo da fria de Gordon.
No entanto, sempre que havia visitantes ou agentes do governo na casa, Gordon se transformava num gigante sorridente e gentil, que ficava circulando com
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uma criana pequena nos ombros, protetor e carinhoso. Ver algum com uma fora fsica to bvia se comportar com tanta ternura era comovente para as pessoas de fora. 
Uma ocasio ele me surpreendeu a observ-lo com repulsa durante um desses desempenhos dignos de um Oscar. Lanou um olhar em minha direo, virou-se para me fitar, 
com uma expresso fria e assustadora. Tive de me afastar apressada, o peito vibrando com as marteladas do corao. Evitei-o por vrios dias, at que finalmente ele 
deu a impresso de que esquecera.
Nenhuma das crianas ali parecia interess-lo. Conhecia nossos nomes e sabia quais poderia usar quando queria fazer uma demonstrao para os agentes do governo. 
Mas em geral deixava para Louise o trabalho de cuidar das crianas. Ela era a verdadeira administradora da Lakewood House; Gordon era o tpico capataz.
No entanto, ele sempre a pressionava para manter uma certa distncia das crianas. Protestava, na nossa presena, recomendando-lhe em voz alta:
- Tem se envolvido demais com essas crianas, Louise. Estou avisando.
Mais tarde, Louise explicou que Gordon e ela haviam recebido ordens expressas para, de qualquer forma, no ficarem ligados demais a uma criana. A lgica era a de 
que s estvamos ali temporariamente. Muito em breve voltaramos para nossos pais de verdade, ou iramos para uma famlia adotiva. Ningum queria que nos sentssemos 
tristes por partir, ou contrariados com a nova casa. S podia ser uma piada. Quem haveria de se ressentir por deixar aquele lugar? De minha parte, sentia-me feliz 
por Gordon se manter a distncia, ainda mais porque sempre insistia com Louise para fazer a mesma coisa.
s vezes ela nos contemplava como se fssemos realmente seus filhos. Como no tivera nenhum,
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lamentava nos perder. Uma me autntica no poderia ser mais possessiva de vez em quando. Mas a afeio sincera era como um contrabando por aqui. Ela tinha de olhar 
primeiro ao redor, para ter certeza de que Gor-don no se encontrava por perto, para dar um beijo na testa de uma criana ou apert-la contra seu peito.
Louise no era a nica que tentava fazer com que nos sentssemos uma famlia. Uma velhinha meiga que preparava nossas refeies dirias insistia para que a chamssemos 
de vov Kelly. Sempre tinha palavras gentis ou um sorriso para ns. Vov Kelly morava na aldeia prxima de Mountaindale. Trabalhava para a famlia Tooey desde o 
tempo em que a Lakewood House ainda era uma pousada. Tinha apenas 1,60m de altura, o rosto redondo, as faces sempre rosadas, principalmente quando trabalhava na 
beira do fogo quente. Tinha olhos suaves, to azuis quanto as penas de um gaio. Os cabelos eram da cor de chumbo escuro, ainda mais crespos que os de Borboleta. 
Sempre usava uma touca quando estava na cozinha. Disse-nos que s viera para os Estados Unidos quando j tinha quase doze anos. Ainda falava com um sotaque irlands. 
Crystal comentou que ela a fazia pensar num leprechaun.
- Seria maravilhoso se vov Kelly fosse mesmo um leprechaun e nos levasse ao tesouro, para podermos sair daqui - murmurei.
Crystal,  claro, no acreditava nessas histrias, mas gostvamos de pensar que havia um pote cheio de ouro  nossa espera.
Especulamos sobre o que vov Kelly serviria no caf da manh, ao descermos para o refeitrio. 
Nota de rodap:
No folclore irlands, um duende revelador de tesouros ocultos a quem conseguisse agarr-lo. (N. T.)
Fim da nota de rodap.
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Enquanto espervamos na fila pela nossa vez, Crystal disse que ten-cionava passar o dia na biblioteca, usando o computador. O sonho de Crystal era se tornar uma 
doutora. Vinha pesquisando sobre bolsas de estudos para universidades. Afirmava que se encontraria na Internet qualquer coisa que se quisesse descobrir.
- At mesmo o meu futuro? - indaguei.
- Como j informei antes, existem estatsticas sobre crianas disponveis para adoo. A cada ano, cerca de quinze mil deixam os lares provisrios ao completarem 
dezoito anos, sem terem encontrado uma famlia permanente. Quarenta por cento dos que deixam o sistema acabam sendo sustentados pelos servios de assistncia social.
- Obrigada pelas palavras de estmulo - murmurei. - Miss Boas Notcias.
- Voc pode se casar - sugeriu Raven. -  o que farei, assim que encontrar algum bastante rico.
- Por que algum rico se casaria com voc? - perguntei.
- Porque sou a garota mais linda que ele vai conhecer - respondeu ela, virando de lado e agitando as compridas pestanas pretas. - E sou a prxima Selena, que far 
sucesso com uma cano atrs da outra.
Borboleta soltou uma risada. Raven abraou-a e acrescentou:
- Algum me ama. Borboleta tambm ser uma bailarina famosa, Crystal. Inclua isso na sua estpida estatstica.
- Detesto desapontar ou desanimar, mas  muito difcil ter sucesso na indstria de entretenimento - insistiu Crystal. - E lembre-se do que aconteceu com Selena.
Raven esticou a lngua para ela, enquanto segurava a mo de Borboleta.
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- Vamos apanhar nossa comida, Borboleta, e deixar Crystal entregue a seu mau humor. Ela no sabe acreditar. Podemos ser qualquer coisa, desde que acreditemos.
As palavras de Raven soavam otimistas, mas eu sabia que eram em grande parte para animar Borboleta, que ainda tremia pelo episdio daquela manh.
Enquanto espervamos na fila para nos servirmos, corri os olhos pelo refeitrio.
Ao longo das paredes havia fotos dos velhos tempos da Lakewood House: grupos  beira do lago ou em cadeiras no jardim. As pessoas vestiam-se de uma maneira formal 
na maioria das fotos, os homens de palet e gravata, as mulheres de vestido longo, gola alta e punhos de babados, todos de rosto plido, todos parecendo anos e anos 
mais velhos do que de fato eram. Havia muitas fotos de famlias porque a Lakewood House hospedava famlias. As crianas que agora viviam na casa olhavam atentamente 
para as fotos, em geral com um sorriso sonhador, imaginando-se parte de uma daquelas famlias, abraando a me, segurando a mo do pai, de p ao lado dos irmos 
e irms, com direito a um nome e sobrenome.
A impresso era a de que Lakewood House fora outrora um lugar lindo e feliz, com muito riso e msica. Segundo vov Kelly, os hspedes sentavam-se na varanda em torno 
do prdio, conversando pela noite adentro, enquanto os grilos cantavam e as corujas espiavam pela noite enluarada, curiosas pelo murmrio de vozes, o som de portas 
de tela, o grito de uma criana. s vezes, embora eu nunca dissesse, nem mesmo para uma Or-fteira, tinha a impresso de ouvir risos fantasmas, at mesmo os passos 
rpidos de crianas felizes correndo pela casa, passando pela porta de tela, descendo os degraus para brincar no gramado vioso, seguras, alegres, transbordando 
de esperana.
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Talvez algum dia pudssemos sair correndo daquela casa para um lugar repleto de segurana, felicidade e bons sonhos.
A zoeira das conversas, pratos e talheres batendo, risos e rangidos, que nos recebeu naquela manh, era uma centena de decibis mais alta do que nos dias de semana. 
As crianas na escola sabiam que tinham dois dias de folga pela frente. Podiam esquecer os deveres escolares durante esse tempo, exceto nas horas finais da tarde 
de domingo. Nos dias sem chuva, podamos jogar softball ou descer at as quadras de tnis e vlei, dilapidadas, com o piso rachado, e participar de jogos de duplas, 
assim que conclussemos nossas tarefas. Raven e eu ramos as campes das quadras; e eu era sempre a capit do time de softball. Louise permitia que os mais velhos 
fizessem um piquenique, desde que levassem algumas crianas menores e as vigiassem. Confiava crianas pequenas mais a ns quatro do que a qualquer outro grupo.
Muitas vezes, porm, Gordon arrumava um trabalho para ns. Pintvamos a casa, cortvamos a grama, recolhamos as folhas cadas, ou lavvamos as janelas. L dentro, 
limpvamos o cho, ajudvamos com a loua, tirvamos o p e passvamos o aspirador. Sempre nos informavam de que aquele era o lugar onde vivamos, por isso tnhamos 
de cuidar dele da melhor maneira possvel.
- Com isso, vo apreciar nosso lar ainda mais - explicava Louise, a fim de atenuar o peso das tarefas determinadas por Gordon.
- No precisa justificar coisa alguma que eu mando fazer. Elas devem trabalhar pelo que recebem. - Gordon virava-se para ns, os olhos parecendo lanar raios laser. 
- E no quero ouvir reclamaes.
As tarefas eram rotativas. Nenhuma de ns quatro teria de trabalhar na cozinha naquele fim de semana. Entramos no refeitrio, longo e amplo, com as maiores janelas, 
da casa, as nicas que tinham persianas novas,
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pois ali eram recebidos os agentes do governo em suas visitas. Avistamos Meg Callaway dirigindo a fila. Havia uma mesa comprida na outra extremidade da sala, onde 
estava a comida. Meg tinha quinze anos, era alta e magra, com aparelhos nos dentes que mais pareciam um pra-choque de carro. Crystal dizia que ela podia ser a filha 
de Ichabod Crane, de Sleepy Hollow. Lera uma descrio dele afirmando que tinha um pescoo longo e um nariz to grande, que dava a impresso de algum ter posto 
um cata-vento em seus ombros.
Meg sempre tentava se infiltrar em nosso grupo, ser uma de ns. Mas qualquer que fosse a qumica que existia entre ns, nela no existia. Era furtiva e astuta, to 
ciumenta que Raven dissera que seus olhos,no podiam deixar de ser verdes de inveja, independente de qualquer outra coisa. Vivia sussurrando e tentando nos jogar 
umas contra as outras. Espalhava boatos a torto e a direito, na expectativa de que virassem conflitos e a fizessem parecer a herona de todos. Ningum gostava de 
Meg, mas muitos tinham medo de se tornarem alvo de alguma maldade se no fingissem gostar dela. Por duas vezes, na semana que passou, eu a surpreendera tirando coisas 
das crianas menores.
- L vem Cachinhos Dourados e as trs ursinhas - zombou ela, quando nos aproximamos da mesa com a comida.
Depois de estudar Borboleta por um momento, Meg contraiu os lbios, alteados nos cantos, em seu arremedo de sorriso gelado, e acrescentou:
- Por que Cachinhos Dourados estava chorando desta vez? Algum despejou cola em suas sapatilhas de bal?
- Vamos at l fora, depois do caf, e lhe mostrarei por que ela estava chorando - murmurei.
O sorriso de Meg desapareceu no mesmo instante. Ela virou-se para uma garota de dez anos que a ajudava
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- J mandei voc ir buscar mais torradas - resmungou, evitando olhar para mim.
Levamos nossa comida para a mesa habitual.
- Por que o po est to duro? - indaguei. Crystal terminou de tomar seu suco de laranja e fez sinal com os olhos para nos aproximarmos.
- Ouvi uma conversa entre vov Kelly e Gordon ontem, quando trabalhava no computador. Vov reclamou que ele tem comprado po dormido de dois dias, porque  mais 
barato. E disse que sabe tambm que ele no vem comprando carne de primeira. Gordon negou, recomendando que ela no se metesse no que no era da sua conta. Vov 
respondeu que a comida era, certamente, responsabilidade dela. Foi quando Gordon respondeu que talvez ela devesse pensar em se aposentar.
- Que canalha... - murmurou Raven, os olhos fuzilando.
- No quero que vov Kelly se aposente - disse Borboleta, com uma cara triste.
Ela quase sempre baixava os olhos depois de falar, como se temesse as reaes que suas palavras provocariam nas pessoas que a ouviam. Sua me adotiva devia ter sido 
uma tirana.
- No se preocupe, isso no vai acontecer - assegurei. - Ser que ningum o fiscaliza, Crystal? Ningum verifica como ele usa o dinheiro que deveria ser gasto conosco?
Ela deu de ombros e, aps um momento, disse:
- As contas so conferidas. Ele deve fazer acordos as escondidas com os fornecedores.
- Deveramos denunci-lo.
Ns quatro ainda estvamos inclinadas sobre as bandejas, sussurrando. Parecia uma conspirao.
- Se no dermos nosso nome, ele pode acusar vov de ser a responsvel, agora que ela se queixou - ressaltou
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Crystal. - E no creio que qualquer uma de ns queira assinar uma denncia contra Gordon Tooey.
Como se fosse uma deixa, Gordon entrou no refeitrio nesse instante. O burburinho logo diminuiu. Ele esquadrinhou a sala como se procurasse por um intruso, os olhos 
escuros contrados em fendas mnimas, as mos enormes nos quadris. Usava uma camisa branca, as mangas compridas enroladas at os cotovelos. Tinha no brao direito 
a tatuagem de um tubaro, feita quando servira na marinha.
- Espero no ver ningum voando hoje. Logo depois do caf, todos vo cuidar das tarefas determinadas. Teremos uma inspeo dentro de uma semana e quero tudo aqui 
brilhando.
Tive vontade de gritar: "Pois ento queime tudo e comece do zero." Mas apenas fiquei olhando para minha comida. Louise apareceu afobada por trs dele, desmanchando-se 
em sorrisos. Devia ter cinqenta e poucos anos, uma morena de 1,78m, os cabelos descendo at os ombros. Eu achava que seus surpreendentes olhos de um azul-celeste 
eram lindos. Ela tinha um jeito diferente de olhar para a gente, como se estivesse nos ligando e desligando, enquanto falava. Assim, a pessoa nunca sabia se tinha 
sua ateno total. Era como se tivesse mesmo medo do que Gordon lhe dizia, que poderia formar um relacionamento mais profundo se fitasse por tempo demais uma das 
tuteladas do Estado, sofrendo depois se e quando a criana fosse adotada.
- Bom-dia para todos! - Ela olhou mais para o teto do que para ns, depois virou-se para as janelas. - No  um dia glorioso? Vamos todos fazer o nosso trabalho, 
com rapidez e eficincia, para depois termos tempo de desfrutar o ar fresco e o sol. Sabem, crianas, h muitos anos as pessoas vinham para estas montanhas a fim 
de se recuperarem de doenas do pulmo, como a tuberculose.
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Porque temos o melhor ar do mundo. Vocs so afortunadas por viverem aqui.
Louise bateu palmas, antes de se encaminhar para uma mesa, a fim de ajudar algumas das crianas menores.
- Ela tem melado nas veias em vez de sangue - murmurei. - No posso imaginar os dois fazendo amor. parecem leo e gua. Louise deve manter os olhos fechados durante 
todo o tempo, prendendo a respirao at ele acabar.
Raven riu to alto que atraiu por um instante a ateno de Gordon. Todas baixamos os olhos para nossos pratos. Quando tornamos a olhar, ele estava deixando o refeitrio. 
Houve um suspiro de alvio coletivo.
- Sejam bem-vindos para outro alegre fim de semana de trabalho escravo na Casa do Inferno - falei, e bastante alto para que as crianas da mesa ao lado ouvissem.
Algumas riram, outras olharam para a porta, querendo se certificar de que Gordon sara mesmo.
- No quero pintar aquela cerca de novo - declarou Raven. -  melhor ele no me dar esse servio. O cheiro da tinta me fez tossir por vrios dias.
- Isso acontece porque  ruim para seus pulmes - explicou Crystal.
- Vamos comer logo e sair, mesmo que seja para trabalhar - sugeri, querendo mudar de assunto.
A lista de tarefas j fora fixada no quadro de avisos. Eu teria de cortar a grama. No me agradava, mas pelo menos trabalharia ao ar livre. Crystal e Raven deveriam 
recolher as folhas cadas no cho. Borboleta iria tirar o p e polir os metais na sala de recreao.
- Acha que ela se sente bastante bem para ficar sozinha esta manh? - perguntei a Crystal, antes de sairmos.
- No haver problemas. No  mesmo, Borboleta?
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- Estou bem. - Ela me ofereceu seu sorriso mais envolvente. - Juro que estou.
- Se algum a importunar, especialmente se for Megan Callaway, trate de me avisar - recomendei.
- No gosto de ser dedo-duro.
- No ser dedo-duro se a pessoa for maior do que voc e exagerar, Borboleta - assegurei.
- Todo mundo aqui  maior do que eu.
Olhei para Crystal. Sempre olhava para Crystal quando precisava de outra resposta ou uma explicao melhor.
- Todo mundo tambm  maior do que vov Kelly, mas isso no faz dela uma pessoa inferior... e muito menos uma cozinheira pior, no  mesmo? - disse Crystal. - Quando 
pensamos no que ela consegue realizar com o que tem...
-  isso mesmo - concordei. - Os melhores perfumes esto nos menores frascos.
Borboleta voltou a ficar radiante.
- Teremos um piquenique hoje no almoo - anunciei. - Perto da quadra de tnis.
Vov Kelly nos preparava sanduches para os fins de semana. Podamos escolher entre sanduche de queijo e presunto, ou apenas queijo, manteiga de amendoim, gelia 
ou ovo, levar uma garrafa de leite ou suco, um bolinho ou um cookie. Estendamos uma manta na grama para comer. Quase nos sentamos como pessoas reais nos fins de 
semana de tempo bom. Raven detestava quando eu dizia isso.
- Somos pessoas reais - protestava ela, furiosa. - No  culpa nossa se ningum tem notado isso ultimamente.
Os fins de semana eram quase como audies para ns. Os pais adotivos em potencial visitavam a propriedade para nos ver e conversar com qualquer criana que eles 
pudessem querer levar para casa. Obrigar-nos
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A trabalhar na propriedade era um meio de aumentar nossas possibilidades, argumentava Gordon. Assim, os pais e mes candidatos  adoo compreenderiam que trabalhvamos, 
que nada tnhamos de mimados em nossa vida como tutelados do Estado. Mal havamos estendido a manta para o piquenique, Louise se aproximou,  procura de Borboleta.
- Ah, voc est aqui, Janet! Um casal viu suas fotos e vieram conhec-la.
Louise falou em seu tom de voz oficial. Sempre que assumia esse tom, meu corao disparava.
- Quem so? - perguntou Borboleta.
- Sr. e sra. Lockhart. Vamos logo, Janet. Ajeite o vestido, por favor. - Louise adiantou-se para arrumar os cabelos de Borboleta. - Detesto quando as pessoas aparecem 
sem pelo menos avisar um dia antes.
- As pessoas no costumam aparecer aos sbados e domingos? - indaguei.
- Entendeu o que eu quis dizer. - Como eu sacudisse a cabea, ela acrescentou: - Sinceramente, Broo-ke, voc s vezes  to... pouco cooperativa. Por que no segue 
o exemplo de Crystal? Ela sabe quando falar e quando tem de ficar calada.
- Falo quando tenho algo para dizer e quando sei que minhas palavras vo adiantar alguma coisa - declarou Crystal.
- Est vendo? - Louise mal percebeu o sarcasmo de Crystal. - Por favor, Janet, no fique encurvada e no contraia tanto os olhos. Vamos embora. O sr. e a sra. Lockhart 
esto esperando.
Borboleta olhou para ns, nervosa. Levantei o polegar.
- Boa sorte - disse Raven.
- No posso entender por que ela at agora no foi escolhida - comentei, enquanto as duas se encaminhavam
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para a casa. - Borboleta  adorvel, doce e inteligente.
Crystal largou o livro e fitou-nos.
- Cada uma de ns tem algo especial, se algum se desse ao trabalho de notar. Hoje em dia as pessoas escolhem crianas quase como escolhem qualquer outra coisa. 
No nos vem como pessoas, mas apenas como um tipo de mercadoria. Essa casa  como uma loja de departamentos. Estou cansada de esperar, cansada de me sentir como 
um produto em exposio.
Ela falou com uma emoo inesperada. Franzi as sobrancelhas, surpresa.
-  exatamente assim que me sinto - acrescentou Raven. - Detesto ser examinada como um animal de loja de bichos de estimao.
-  melhor se acostumar com a idia de as pessoas ficarem de olho em voc, Raven - gracejei. - Voc  linda... todos olham para voc.
Raven ficou inibida.
- No peo a ateno de ningum... Alm do mais, no preciso desse tipo de ateno. Sabe que sempre tento fazer com que as pessoas vejam a verdadeira Raven, a cantora 
cheia de sonhos.
- Eu s estava brincando, Raven. Sabemos que no  de propsito que voc atrai os rapazes para a seguirem como cachorrinhos. Mas eles fazem isso.
Agora eu me sentia embaraada; Raven estava bastante transtornada.
- Sei que vocs me compreendem. Acontece apenas que s vezes me sinto triste. Acho que nunca vou encontrar algum que goste de mim pelo que sou, e no apenas por 
causa de minha aparncia.
Crystal e eu trocamos um olhar, desoladas. Sabamos como era sentir que nunca seramos amadas.
Borboleta demorou a voltar. J tnhamos acabado de comer e arrumvamos as coisas quando ela apareceu
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de cabea baixa, andando devagar. Crystal tinha razo ao afirmar que ramos como mercadorias numa loja de departamentos, pensei, enquanto observava Borboleta. O 
que deve ser feito durante uma audincia por sua vida, por sua famlia? Tentar falar corretamente? Sorrir tanto quanto puder, para que pensem que  uma pessoa feliz? 
s vezes examinam voc de uma maneira mais meticulosa do que um mdico. E voc se pergunta se lavou direito atrs das orelhas. Est com mau hlito? No deveria ter 
posto as melhores roupas? Quais seriam as respostas certas para perguntas idiotas como: "Gostaria de viver conosco?"
Se gostaramos? O que vocs acham? Detestaramos. Preferimos continuar aqui, no ser ningum.
- Como eles eram? - perguntou Raven, assim que Borboleta nos alcanou.
- Simpticos - respondeu ela.
- Velhos ou jovens? - indagou Crystal.
- No muito velhos. Ela  bonita. Os olhos e os cabelos so da minha cor. Disse que eu poderia passar por sua filha legtima.
- Uau! - exclamou Raven. - Adeus, Borboleta. O rosto de Borboleta revelou um medo sbito.
- Onde eles moram? - perguntou Crystal.
- Perto de Albany
- Isso  timo - disse Crystal. - Aposto que vo matricul-la numa boa escola.
- No ficaremos aqui para sempre, Borboleta - declarei, ao perceber sua tristeza ante a perspectiva de nos deixar. - E Raven, Crystal e eu adoraramos ter a mesma 
oportunidade que voc est tendo agora. Estamos felizes por voc.
Ela balanou a cabea, a compreenso surgindo em seus olhos.
- Vamos jogar pingue-pongue - sugeriu Raven, Pegando-a pela mo.
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Havia uma mesa por trs da casa.
- Irei daqui a pouco - disse Crystal. - Tenho de dar um pulo na biblioteca.
Borboleta olhou para mim.
- Irei depois tambm. Quero reunir a equipe de softba e jogar um pouco.
Todas nos separamos. Fui para o closet ao lado do escritrio de Louise em que ficavam guardados os equipamentos esportivos e os aparelhos de rdio e CD.
Ao entrar, avistei os Lockhart, o casal que se encontrara com Borboleta. Pareciam mesmo simpticos, jovens, felizes, bem-vestidos, o tipo de pais que amariam e cuidariam 
bem de algum to doce quanto Borboleta. Como as paredes eram finas, bastava encostar o ouvido na parede que separava o closet da sala de Louise para ouvir a conversa. 
Esperava escutar boas notcias e ser a primeira a anunci-las.
- Sei como se sentem - disse Louise. - Ela  mesmo adorvel. Mas devo fornecer mais alguns detalhes a respeito dela, a fim de que no tenham surpresas desagradveis.
- Surpresas desagradveis? - repetiu a mulher, cautelosa.
- Difceis  uma palavra melhor, eu suponho. Ela tem ido muitas vezes ao psicoterapeuta. Vou ler um trecho do seu relatrio: "Janet sofre de um senso de inferioridade 
profundamente enraizado. Seus ataques catatnicos so uma decorrncia direta disso. Retira-se, ento, para um estado de imobilidade, fechando assim todos os sentidos, 
como uma defesa contra o medo de rejeio."
- Catatnica? Aquela garotinha?
- Isso mesmo - confirmou Louise. - J tive de chamar a ambulncia algumas vezes.
Fiquei boquiaberta. Isso nunca acontecera. Nem uma nica vez.
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- Oh, no...
Percebi o tom de profunda resignao. A recusa do casal comeara. Furiosa, sa do closet e subi a escada, entrando no quarto de Crystal. Esperava encontr-la ali, 
antes de sua sada para a biblioteca. Ela olhou para mim e no mesmo instante baixou a mochila com os livros.
- O que aconteceu?
- Louise est sabotando Borboleta. Ouvi-a falar aos pretensos pais sobre a condio psicolgica de Borboleta, fazendo-a parecer uma luntica que cai em estados catatnicos 
a toda hora e precisa de constante ateno mdica.
Crystal limitou-se a acenar com a cabea.
- Por que ela est fazendo isso, Crystal?
- Muito simples. J expliquei. Os responsveis por instituies como esta recebem mais dinheiro  medida que as crianas sob seus cuidados se tornam mais velhas. 
Por isso, quanto mais tempo o sistema deixa de encontrar pais adotivos para crianas como ns, mais dinheiro entra. Somos como uma mquina de fazer dinheiro para 
os Tooey.
- Mas isso  terrvel! - exclamei, furiosa. - Como Louise pode nos usar desse jeito?
- No caso de Louise, acho que  muito complicado. No fundo, ela detesta abrir mo de qualquer criana daqui. Gordon quer o dinheiro, mas Louise gosta de ns,  sua 
maneira. Pensa em ns como seus prprios filhos.
- De que adianta ter algum gostando de voc se outra pessoa s dificulta sua vida e quer transform-la na criana perfeita?
Eu j passara por isso antes... e no podia acreditar que fosse acontecer de novo.
- Tem alguma alternativa? - indagou Crystal. Fitei-a nos olhos.
- Tenho.
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- E qual ?
- Vamos fugir daqui.
Ela no riu, como eu esperava; em vez disso, sustentou meu olhar, balanando a cabea.
-  melhor eu ficar aqui hoje. Borboleta pode precisar de mim. - Crystal soltou um suspiro. - No vamos contar a Borboleta o que Louise est fazendo. Ela ficaria 
muito triste se pensasse que talvez nunca saia daqui. E eu tambm no mencionaria nada sobre essa idia de fugir.
- Eu falo srio, Crystal.
Ela virou-me as costas e olhou pela janela. Eu falava srio. Juro que falava. Mas o difcil agora era fazer com que as outras trs acreditassem m mim.
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2 - Por um triz

Depois de jogarem pingue-pongue, Raven e Borboleta foram at o campo de softball. Levei Raven para um lado e contei o que Louise fizera. Ela quis ento invadir a 
sala de Louise para dizer-lhe umas verdades.
- Vamos virar aquele lugar pelo avesso e arrancar os cabelos daquela vbora - ameaou.
- Eu bem que gostaria, mas no podemos. No quero que ela saiba que fiquei ouvindo a conversa... e quem vai querer encarar Gordon depois?
Raven conteve-se. A imagem de Gordon Tooey enfurecido era suficiente para acalmar at mesmo seu esprito latino. No inverno, quando fazia muito frio e se podia ver 
o vapor da respirao nas narinas de Gordon, eu pensava que era fumaa saindo das ventas de um drago.
- No  justo - resmungou ela. - Deveramos nos queixar a algum.
- Como se algum quisesse nos escutar. Nossa nica esperana  fugir e construir nossas vidas.
- Fugir? - Ela arregalou os olhos. -  uma boa idia...
Raven parecia desapontada por no ter pensado nisso primeiro. Depois de um momento, acrescentou:
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- Realmente  uma boa idia.
- Vamos dar um tempo para conversarmos mais a respeito. Quero traar um plano.
- Fala srio? - Ela sorriu. - Sabe, Brooke, acho mesmo que h uma grande possibilidade.
Em seguida, Raven nos disse que ia subir e se aprontar para ir ao cinema com Gary Davis, um garoto da nossa idade que, no fundo, era somente mais um amigo, apenas 
isso.
Tnhamos permisso para sair com rapazes depois de completarmos dezesseis anos, mas no podamos passar das onze horas da noite. O toque de recolher era imposto 
com rigor. Se se violasse uma das regras, no se poderia sair por um ms, talvez dois. Crystal e eu j saramos para encontros algumas vezes, mas Borboleta ficava 
nervosa quando um rapaz tentava sequer puxar conversa com ela.
Raven sempre procurava promover encontros duplos. Eu no entendia por que, at que Crystal explicou que Raven no gostava de ficar a ss com os rapazes com quem 
saa. Ento perguntei por que Raven aceitava os convites. Crystal disse que Raven era uma otimista, sempre procurando encontrar o melhor nas pessoas.
Como j tivera muitos namorados, Raven sempre se dispunha a nos dar conselhos sobre rapazes, como descobrir se eram sinceros, ou se apenas queriam emoes vulgares. 
Ela tambm conhecia muitos meios de se livrar dos que tentavam ir longe demais. Aparentemente, tinha muita experincia em se esquivar de avanos indesejveis. Dizia 
que metade dos rapazes com quem saa merecia o apelido de "Polvo".
Quando me apaixonei por Bobby Sanders, um garoto da nossa equipe de tnis, perguntei a Raven por que ele nunca me olhava duas vezes. Ela respondeu que, provavelmente, 
era porque eu nunca o deixava ganhar quando jogvamos um contra o outro.
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Os homens no gostam que as mulheres sejam melhores do que eles nos esportes, Brooke. Abala seus egos.
- Apenas tento tornar o jogo mais divertido.
- Nada disso. Voc tenta vencer. Sempre tenta vencer.
Ela fez a acusao com um sorriso. Eu no podia negar. Raven tinha razo. No era da minha natureza perder qualquer coisa deliberadamente. Ser que isso tornava 
impossvel encontrar algum para me amar?
Eu detestava pedir a opinio de Crystal nessas questes. Ela tirava os culos, limpava as lentes, pensava por um momento e depois comeava a descrever os hbitos 
de acasalamento das baleias ou algo parecido.
- No me fale sobre animais - eu protestava. - As pessoas so diferentes.
- Nem tanto.
Ela se punha a falar sobre a evoluo, como as pessoas, no fundo, so muito mais parecidas com os animais do que imaginam.
Poupe-me, eu pensava, e tratava de encontrar alguma desculpa para escapar antes que ela me submetesse a um teste.
Era mais fcil ter uma experincia indireta, atravs de Raven; ficar na cama e esperar por sua volta. Enquanto se despia, ela relatava a noite, e eu acompanhava 
com a maior ateno, as imagens se formando por trs dos meus olhos. De modo geral, Raven gostava de me falar sobre seus encontros tanto quanto eu gostava de ouvir. 
Entretanto, quando ela voltou do encontro com Gary, percebi logo que havia alguma coisa errada.
- No sei o que deu em Gary esta noite - disse ela, furiosa. - Acho que ele  igual aos outros. Suas mos estavam em toda parte. E quando finalmente o empurrei para 
afast-lo, ele comeou a rir.
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Raven fez uma pausa, respirou fundo, tremendo um pouco.
- Ele me disse que todos sabiam para que servem garotas como eu. E que ouvira histrias a meu respeito.
- Que tipo de histrias? Os garotos andam espalhando mentiras sobre voc?
Minha raiva era to grande, que eu tive vontade de entrar naquele carro para dizer a Gary o que pensava dele e de seus amigos nojentos. Depois de respirar fundo 
vrias vezes, Raven explicou:
- Quando eu era mais jovem e morava com minha me, jurei que nunca seria como ela, Brooke. Cada vez que ela levava outro homem para casa, eu a odiava ainda mais. 
No tanto pelo que fazia comigo, mas muito mais pelo que fazia com ela prpria. Nunca pude compreender por que mame era assim.
Fez uma pausa.
- Quando vim para c e comecei a freqentar a escola, detestei que os outros pensassem em ns como sendo "aquelas rfs, aquelas garotas do lar de adoo", como 
se fssemos inferiores. Depois, percebi como os rapazes se sentiam atrados por mim. Era muito fcil me sentir algum quando desfilava pelos corredores parecendo 
mais sensual do que a maioria das garotas. Acho que provocava um pouco,  verdade, mas me sentia bem, quase poderosa s vezes. No era apenas uma daquelas "rfs". 
Talvez minha me fizesse tudo aquilo para no se sentir insignificante. Sei que no faz sentido para voc, mas talvez ela tentasse tambm ser notada. E acabou envolvida 
por tudo, a bebida, as drogas...
Raven respirou fundo outra vez.
- Isso no vai acontecer comigo, Brooke. Mas no me envergonho de os rapazes olharem para mim e me desejarem. J no sinto tanto dio de minha me. Mudei um pouco, 
mas todas mudamos, no  mesmo?
- Este lugar faz a gente mudar - murmurei, incapaz
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de esconder minha amargura. - No a culpo por se exibir, Raven, mas no se esquea de que  perigoso.
- Sei disso. Gary falou que muitos dos rapazes com quem sa antes garantiram que tinham avanado at o fim. Juro que no  verdade. Essa ser sempre a grande diferena 
entre mim e minha me, Brooke. Terei de gostar de um homem antes de fazer tudo com ele. Aqueles desgraados inventam histrias.  muito... frustrante. Quero que 
gostem de mim, mas no quero ter uma pssima reputao.
- Isso no tem importncia, Raven. Voc sabe quem voc . As pessoas que gostam da gente, as pessoas que realmente se importam conosco, vo compreender.
- Ser mesmo? Somos rfs, Brooke. No temos ningum para nos defender. Quem somos no importa tanto quanto o que as pessoas pensam que somos.  como uma maldio 
de que no conseguimos nos livrar. E nada fizemos para a merecer.
Raven virou-me as costas. Enquanto mergulhava no sono, especulei se ela estava certa. Torcia para que no.
Borboleta no teve mais notcias sobre os Lockhart durante toda a semana seguinte. Finalmente, ao caf da manh, Louise passou por nossa mesa para avis-la de que 
os Lockhart no poderiam adot-la.
- Eles ainda no esto preparados para cuidar de filhos - comentou Louise. - Mas no se preocupe, querida. Algum dia, muito em breve, um casal simptico vir aqui 
para busc-la.
Uma pausa, e ela acrescentou, olhando para mim, Crystal e Raven:
- Todas vocs.
- No vamos prender a respirao enquanto esperamos, Louise - comentei.
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- No  uma boa atitude, Brooke. Seja positiva.
- Ora, sou sempre positiva.
Raven olhou para mim e sorriu. Louise empertigou-se e foi para outra mesa, a fim de instruir algum sobre o uso correto dos talheres. Borboleta parecia estar murchando. 
Baixou a cabea, ficou mexendo na comida sem levar nada  boca, empurrando os ovos de um lado para o outro no prato.
Trocamos alguns olhares sugestivos, e depois Crys-tal entrou em ao:
- No fique triste por isso, Borboleta. Se no a quiseram, provavelmente no seriam mesmo bons para voc. No vai querer ficar de novo com pessoas erradas, no ?
Borboleta levantou os olhos e sacudiu a cabea. Tinha as faces marejadas de lgrimas. Era como se todas ns tivssemos sido rejeitadas mais uma vez.
- Quando as pessoas certas aparecerem, Borboleta, voc saber. Haver uma espcie de qumica entre vocs, um sentimento agradvel. Aquela impresso de que se conhecem 
h muito tempo.
Crystal daria uma grande mdica, pensei. Sabia como fazer uma pessoa se sentir melhor.
- Eles gostaram de mim - murmurou Borboleta. - E eu tambm gostei deles. Eram simpticos.
- Se mudaram de idia, no eram bons para voc - interferi. - Ouviu o que Crystal disse. Ela tem razo.
No queramos contar como Louise sabotara suas chances. Sem esperana, Borboleta poderia se tornar ainda mais retrada do que j era. Eu sabia disso porque tambm 
me sentia assim.
- Alm do mais - acrescentei, piscando para Raven -, tenho outra idia, que apresentarei em breve.
- No faa isso - advertiu Crystal.
- No se preocupe. No direi nada enquanto no tiver um bom plano.
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Um plano para qu? - perguntou Borboleta, agora intrigada.
- Para...
- Brooke!
Crystal arregalou os olhos e alteou as sobrancelhas, como costumava fazer ao se zangar.
- Seja paciente - pedi a Borboleta. -  uma surpresa.
Crystal sacudiu a cabea.
- Falsas promessas podem magoar muito mais, Brooke.
- No ser falsa. Vai ver s.
- Estou com voc - declarou Raven, virando os olhos negros como nix para Crystal.
- Por que no me surpreendo ao ouvir isso? - murmurou Crystal, tornando a balanar a cabea.
Tratamos de terminar de comer.
Era a ltima semana de aula. A maior parte do tempo agora era consumida em revises para as provas finais. Havia o inevitvel excitamento no ar, a expectativa pelas 
frias de vero. Os mais velhos no lar de adoo temporrio podiam candidatar-se e conseguir empregos. Empresas diversas, lojas, e at mesmo escritrios de profissionais 
liberais precisavam de ajuda extra no vero e enviavam pedidos para a Lakewood House. Louise os punha no quadro de avisos. Os interessados preenchiam os formulrios, 
que ela encaminhava aos empregadores. Era parte da estrutura da agncia governamental apelar para a cooperao da iniciativa privada. Para ns, parecia mais caridade. 
Os empregadores gostavam de se gabar quando contratavam crianas rfs. Crystal, Raven e eu trabalhamos muito no vero Passado e por isso tnhamos algum dinheiro 
em nossas Poupanas. E eu tinha planos para usar esse dinheiro. Mas seria preciso ser muito mais dramtica para convencer Crystal... e, sem ela, seria impossvel 
incluir Borboleta.
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Alm do mais, apesar de sua atitude pessimista e de suas prelees, eu realmente amava Crystal. Amava todas elas e todas me amavam.
Naquela noite de sexta-feira, o ltimo fim de semana antes das provas finais, Louise subiu antes do jantar e entrou no quarto de Crystal e Borboleta. Raven e eu 
havamos comeado a estudar quando ouvimos os gritos de Louise.
- Vocs conhecem as regras sobre cigarros nesta casa! - berrou Louise para Crystal e Borboleta. - Gordon fica zangado. Este prdio pode ser destrudo pelo fogo em 
minutos.
- No temos nenhum cigarro - respondeu Crystal. - Nenhuma de ns jamais fumou. Sei o que o fumo pode fazer a uma pessoa.
- Claro que ela no fuma - comentei, quase rindo, entrando no quarto e me postando ao lado de Louise. - Seria a ltima pessoa deste mundo a ter um cigarro em seu 
quarto. Vive at repreendendo quem fuma. Se nos olhasse direito e visse realmente quem somos, saberia disso.
- No se meta no que no  da sua conta, Brooke, ou lhe darei dez demritos.
Louise tornou a se virar para Crystal e Borboleta, que estava encolhida em sua cadeira. Percebi que ela comeava a sentir falta de ar.
- Eu gostaria que vocs, meninas, no me pusessem nesta situao. Mas tenho de cuidar de vocs como se fosse a sua me.
- Por que est fazendo isso, Louise? - perguntei. - Quem lhe disse que Crystal e Borboleta estavam fumando?
- No interessa - resmungou ela. - E agora voltem para o seu quarto. As duas.
Raven avanou para ela. Segurei-a pelo brao e balancei a cabea.
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- Espere um pouco, Raven. Ela vai descobrir que se enganou dentro de um minuto.
Subitamente, Louise atravessou o quarto, at a estante improvisada de Crystal. Comeou a arrancar os livros das prateleiras e acabou descobrindo um mao de cigarros. 
Levantou-o, segurando-o com o polegar e o indicador, como se fosse uma coisa nojenta.
- E o que  isto, posso perguntar?
Crystal sacudiu a cabea, os olhos arregalados.
- No sei como esse mao foi parar na minha estante, Louise.
- Talvez tenha andado at a estante. - Louise lanou um olhar furioso para Borboleta, agora vermelha de medo. - Isto vale vinte demritos. As duas ficaro confinadas 
no quarto este fim de semana.
- Mas tenho de ir  biblioteca amanh para usar o computador! - protestou Crystal.
- No vai mesmo. Vocs duas voltaro para o quarto assim que acabarem de comer. Seus nomes iro para o quadro de avisos e ningum poder entrar aqui at o final 
do castigo.
Louise lanou um olhar furioso para Raven e para mim. No pude deixar de interferir:
- Sabe muito bem que algum ps o mao de cigarros aqui, Louise. Crystal jamais fumaria, e no pode sequer imaginar Borboleta fumando.
- Foi voc quem ps o mao aqui, Brooke? - perguntou ela, os olhos contrados, como se pudesse perceber a verdade dentro de ns.
- Claro que no. Nenhuma de ns fuma, Louise. Tem de acreditar nisso.
- Eu aconselharia vocs duas a voltarem para seu quarto, antes que eu tambm lhes d vinte demritos.
Eu j ia responder, quando ouvimos Gordon subindo a escada.
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- O que est acontecendo? - indagou ele.
- Nada. Tenho tudo sob controle.
Louise pareceu ficar assustada com Gordon, que olhou furioso para mim e para Raven, voltando depois a fitar Louise. Viu o mao de cigarros na mo dela.
- De quem  isso?
- J tenho tudo sob controle, Gordon - repetiu ela, um pouco mais suave. - As partes culpadas receberam sua punio.
- Sorte delas que tenha sido voc e no eu - murmurou Gordon, os msculos dos maxilares se contraindo.
Todo tipo de raiva entrava em erupo dentro de Gordon Tooey, pensei. Um dia ele explodiria. Era um "homem bomba", como Crystal costumava dizer. Ele seguiu em frente, 
as botas ressoando no assoalho do corredor, a caminho dos aposentos do casal. Todas deixaram escapar o ar retido nos pulmes, at mesmo Louise.
- Isso no  justo.
Eu ia falar mais, porm vi Crystal balanar a cabea, quase me suplicando para permanecer em silncio.
- Um absurdo - murmurei, virando-me e saindo do quarto, acompanhada por Raven.
Depois que ouvimos Louise se afastar, voltamos ao quarto de Crystal e Borboleta. As duas pareciam atordoadas. Crystal batia nos livros, angustiada.
- Tenho de ir  biblioteca para usar o computador. H algumas coisas de que preciso para terminar meus trabalhos.
- Escreva o que devo fazer e irei  biblioteca por voc, Crystal - propus.
Ela arriou na cadeira.
- Quem fez isso conosco? - indagou, desnorteada com a rapidez dos acontecimentos.
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- Acho que no  preciso muito esforo para adivinhar - murmurei. - A doce Megan Callaway. Ela planeja h dias vingar-se de ns, ainda mais depois que a embaracei 
no refeitrio.
- Ento, por que ela no ps o mao no seu quarto?
- Provavelmente pensou que voc e Borboleta sofreriam mais se ficassem presas no quarto do que Raven e eu. Alm disso, ela sabe tambm que tudo que acontece a uma 
de ns, acontece com todas.
- Detesto este lugar. - Crystal no era de dizer isso com tanta veemncia. - Ele transforma todas as pessoas em... monstros.
- Podem deixar que cuidarei de Megan - prometi.
- No vai me adiantar de nada agora - lamentou-se Crystal.
- No gosto de passar o dia inteiro no quarto - choramingou Borboleta. - Principalmente quando faz bom tempo. As flores pequenas precisam de sol.
Era um comentrio que a me adotiva fizera, e que ela recitava com freqncia.
- Pense mais um pouco em minha sugesto, Crystal - murmurei, fitando-a nos olhos.
Ela olhou para mim por um momento, depois para Borboleta, e voltou a se concentrar em seus livros.
Algumas das outras crianas saram de seus quartos para ver o que causara a comoo. Megan e sua companheira de quarto estavam na outra extremidade do corredor. 
Percebi o ar de satisfao no rosto de Megan quando a notcia passou de boca em boca pelo corredor.
- Vou at ela dizer que sabemos que  a culpada - murmurei para Raven.
J ia avanar para Megan quando Raven me segurou.
- Tenho outra idia, Brooke. Venha comigo.
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Confusa, mas intrigada, desci a escada atrs dela. Fomos para o closet que servia como depsito. Raven acendeu a luz. Acenou com a cabea para a cmera Polaroid 
de Patty Orsini.
- Tem at filme, Brooke. Ela est guardando as trs ltimas chapas para uma ocasio especial. Foi o que me disse ontem.
- E da?
- Estou pensando numa ocasio muito especial. Raven exibia um sorriso malicioso ao pegar a cmera na prateleira.
- Isso pode valer cinqenta demritos - adverti.
- Vamos apenas tom-la emprestada. No se preocupe.
Ela guardou a cmera por baixo da blusa e samos de l. Voltmos para o quarto, onde Raven descreveu seu plano.
- Raven, voc  incrvel! - exclamei, excitada. - Por que no pensei nisso antes?
Ela ficou na porta, que deixamos entreaberta, enquanto espervamos. As meninas se revezavam no banheiro, preparando-se para dormir. Megan Callaway, como sempre, 
saiu do quarto com sua toalha. Usava o roupo e foi tomar um banho de chuveiro. Assim que ela fechou a porta, Raven acenou com a cabea para mim. Fomos at o banheiro. 
Raven abriu a porta, enfiando seu carto de plstico da biblioteca entre a lingeta da fechadura e o batente. Eu tinha a cmera nas mos. Raven abriu a porta sem 
fazer barulho e entramos no banheiro. Assim que ela puxou a cortina do boxe, bati a foto, antes que Megan sequer soubesse o que estava acontecendo. Foi uma foto 
estupenda, um nu frontal. Ela gritou, enquanto saamos.
Histricas de excitamento, voltamos ao quarto, fechamos a porta e esperamos a Polaroid completar o trabalho. A imagem emergiu, clara e perfeita. A vingana
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estava nas pontas dos nossos dedos. Pusemos cmera de lado e mostramos nosso prmio a Crystal.
Quem, seno Megan, iria plantar os cigarros naquele lugar? - ela se admirou.
- Tenho certeza de que foi Megan mesmo quem fez essa bandalheira, Crystal.
- E agora todas ns vamos ter mais problemas - comentou ela.
- A essa altura j nem me preocupo mais - eu disse.
Crystal olhou na direo de Borboleta.
- No se preocupe que no vamos envolver vocs duas. Deixe tudo com Raven e comigo.
Megan Callaway no tinha idia do que faramos, mas sabamos que falaria com Louise. Por isso, escondemos a foto atrs de uma salincia no papel de parede, confiantes 
de que no seria encontrada mesmo com uma busca meticulosa no quarto. Por qualquer motivo, porm, Megan no disse nada a Louise.
No dia seguinte, iniciei a aplicao do plano. Ao entrarmos no refeitrio, sentei-me ao lado de Megan.
- No foi nada engraado o que vocs fizeram ontem  noite - murmurou ela.
- Nem tivemos essa inteno.
Abri a mo, e ela viu a foto. Empalideceu como um fantasma, antes que uma onda de vermelho se espalhasse por seu rosto.
- No h um s garoto aqui que no v ver esta foto... e no pense que pode nos denunciar a Louise, Porque ela nunca encontrar nada conosco.
Megan estava quase em lgrimas.
- Suba agora e diga a Louise que voc plantou o mao de cigarros para se vingar de Crystal ou de Borboleta. Se fizer isso, eu lhe darei a foto e ningum mais aver. 
Caso contrrio...
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Olhei para Billy Edwards. Depois me levantei e me encaminhei para o lugar em que ele estava sentado. Megan observou, horrorizada, quando sentei a seu lado e comecei 
a conversar, sem desviar os olhos dela. Vi-a engolir em seco, depois se levantou e saiu do refeitrio, de cabea baixa.
No queria que me encontrassem com a foto, se ela me denunciasse. Por isso, entreguei-a a Raven, que foi escond-la no closet de depsito. J estvamos quase acabando 
de comer quando Crystal e Borboleta entraram. Crystal exibia uma expresso indicando que ela e Borboleta haviam sido dispensadas do castigo no quarto.
- O que voc fez? - perguntou, antes mesmo de se sentar.
- No muita coisa. Mostrei-lhe a foto, disse que todos os garotos daqui a veriam. Mas prometi entregar a ela se confessasse o que fizera.
- Ela confessou - murmurou Crystal. - Vai ficar confinada no fim de semana.
- Raven merece todo o crdito - comentei. - A idia foi dela.
- Sei como lidar com esse tipo de lixo - gabou-se a jovem.
- Vou para a biblioteca. - Crystal fitou-nos em silncio por um momento. - Obrigada por nos ajudarem, mas eu gostaria...
- Que nunca tivesse acontecido? - sugeri. Ela acenou com a cabea.
- J disse o que acho que devemos fazer.
- Deixem-me pensar a respeito.
- A respeito do qu? - indagou Borboleta. Olhei para Crystal, que inclinou a cabea.
- De fugir.
- Fugir?!
Raven quase saltou da cadeira para tapar a boca de Borboleta. Disse a ela para falar baixo. Algumas crianas
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olharam para ns. Gordon conversava com vov Kelly sobre um defeito no fogo.
- Fugir? - repetiu Borboleta, a voz mais baixa, quando Raven tirou a mo de sua boca.
- Isso mesmo - confirmou Raven. - Por que no? Estou cansada de trabalhar para Gordon e Louise, fingindo que  para desenvolver nosso carter e ajudar a pagar a 
estadia. Eles esto nos explorando. Crystal descobriu sobre a comida, no foi?
- Mas... ningum jamais poder nos adotar se fugirmos - lamentou Borboleta. - E mesmo que pudessem, no iam querer adotar fugitivas.
- Ningum ser adotada aqui, Borboleta... pelo menos no uma de ns.
- Por que no? Quase fui adotada esta semana, no  mesmo? Pode acontecer. Voc mesma disse que podia. E que eu devia querer isso. Falou...
- Louise impediu a sua adoo.
Ela me fitava com seus olhos grandes, bonitos e tristes.
- Como assim?
Relatei o que eu ouvira e o que acontecera. Borboleta ficou angustiada, os olhos tremeram.
- Eles acham que sou louca?
- No - interveio Crystal. - Sabem que voc no  louca, mas usam de todos os recursos e todos os motivos para nos manter aqui, e tudo por causa do dinheiro. E tambm 
porque tudo  isento de impostos. Brooke est certa.
- J  tarde demais para ns, Borboleta - murmurou Raven. - Adolescentes criam muitos problemas. Os pais querem que seus filhos nunca passem dos cinco anos.
- Raven tem razo - declarei. - Uma vez ouvi Gordon dizer isso. Crianas pequenas, problemas pequenos; crianas maiores, problemas maiores. De qualquer
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forma, no sei se ainda quero ser adotada. Estou sozinha h tanto tempo que parece a coisa certa, como um sapato velho ou algo parecido.
- Eu tambm acho isso - murmurou Raven.
- Neste caso, devemos partir. - Virei-me para Crystal. - Vamos finalmente assumir o controle de nossas vidas.
- Para onde iremos? - perguntou Borboleta.
- Oeste - respondi. - Califrnia.
- O que significa atravessar todo o pas - comentou Borboleta, num sussurro.
- Podemos parar onde quisermos e sempre que assim decidirmos - respondi. - Mas meu palpite  que iremos at o fim.
Todas ficaram caladas, pensativas, imersas na imaginao e nos sonhos.
- L voc pode se tornar uma bailarina com muito mais facilidade, Borboleta - acrescentei. - E voc pode se tornar uma mdica, Crystal. E voc uma cantora ou atriz, 
Raven. Pode comparecer a audies todos os dias, todas as semanas, at se tornar uma estrela.
- E voc, Brooke? - perguntou Crystal. Pensei um pouco.
- Eu poderia ser eu mesma.
Raven no queria, mas entreguei a foto a Megan, como havia prometido.
- Acordo  acordo - ressaltei.
- No se pode fazer acordos com pessoas assim - declarou Raven. - Acredite em mim, Brooke. Tenho experincia.
Havia muita coisa que ela sabia sobre pessoas mesquinhas e manipuladoras, mas eu no queria me transformar numa pessoa cheia de dio. Enfiei a foto por baixo da 
porta de Megan e esqueci o assunto.
Devotei o tempo que podia, durante toda a semana
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seguinte, no planejamento de nossa fuga e para onde iramos-, alm de estudar para as provas finais. Pedi a Crystal que consultasse um computador para determinar 
o melhor percurso do Estado de Nova York  Califrnia.
- Como viajaramos? - indagou ela. - Ns quatro no podemos pedir carona durante toda a viagem.
- Deixe essa parte comigo. Estou trabalhando nisso.
- Trabalhando nisso? Vamos de trem? De avio? Como posso planejar um roteiro se no sei o que voc est planejando?
Tive medo de dizer. Afinal, se ela soubesse o que eu planejava, talvez quisesse desistir antes mesmo de comearmos.
- Por enquanto, o plano  viajar de carro - respondi.
- De carro? E onde vai conseguir um carro? No tem habilitao, no tem dinheiro suficiente para comprar um carro. Mesmo que juntssemos todo o nosso dinheiro, que 
tipo de carro poderamos comprar? E tambm no teramos o suficiente para as despesas de viagem. Com toda sinceridade, Brooke, eu no...
- Ser que pode fazer isso por mim? Por favor? Eu sabia que ela gostava de um desafio e adorava demonstrar sua capacidade no computador.
- Est bem. Vou acessar o Automvel Clube na Internet. Eles fornecem roteiros e mapas. Para onde vamos, na Califrnia?
Crystal pegou uma caneta e um bloco enquanto falava.
- Vamos pensar primeiro em Los Angeles.
- Certo. - Ela pensou um instante. - J estamos quase no vero. Podemos fazer um percurso pelo meio do pas ou ir pelo norte. Providenciarei vrias rotas e Pensaremos 
nos prs e contras de cada uma.
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-  exatamente o que eu gostaria de fazer: pensar nos prs e contras.
Ela me fitou, aturdida, e sorriu.
- No vou fazer nada se comear a me gozar Brooke.
- No estou lhe gozando - disse, mas no pude deixar de sorrir. Abracei-a. - Faa isso. E deixe o resto comigo.
- Ainda me parece uma maluquice, Brooke. Farei isso mais como um exerccio intelectual do que por qualquer outra coisa. No sei como ser possvel.
Crystal pegou sua pasta e saiu para ir  biblioteca. Eu sabia que ainda precisaria me esforar muito para persuadi-la. Ela teria uma centena de razes objetivas 
e lgicas para que meu plano falhasse. Mas nenhuma das duas podia saber que, naquela mesma noite, Gordon a pressionaria tanto, que ela concordaria com qualquer coisa 
que eu propusesse, mesmo que fosse para fugir num tapete mgico.
Pouco antes das dez horas, Crystal retirou-se, a fim de tomar um banho e relaxar. Alm de pesquisar uma rota para a nossa viagem, ela passara o dia inteiro trabalhando. 
Amanh teria suas provas finais e queria tirar a nota mxima em tudo.
Cerca de quinze minutos depois de Crystal entrar no banheiro, Raven fechou seu livro, jurando que nunca mais estudaria.
- No me importo se for reprovada em tudo - declarou, irritada.
Raven era uma boa aluna, mas, quela altura, todas ns cansramos de estudar.
Eu j ia concordar quando ouvimos o grito de Crystal. Foi to alto, que passou pela porta fechada do banheiro e tambm pela porta fechada do nosso quarto. Sa para 
o corredor e vi Gordon se afastando, com uma caixa de
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ferramentas na mo. Ele olhou para trs, com uma expresso culpada, antes de descer. Raven olhou para mim depois para a porta do banheiro, os olhos cheios de espanto 
e medo. Borboleta apareceu no corredor.
- O que aconteceu? - perguntou ela.
- No sei... - murmurei, avanando para o banheiro. - Crystal?
Ouvi um soluo. Entramos todas no banheiro. Crystal estava sentada na borda da banheira, uma toalha enrolada no corpo, os braos se enlaando, toda trmula. Ainda 
estava molhada e com espuma de sabonete nos cabelos.
- O que houve? - perguntei, enquanto Raven fechava a porta.
- Ele... ele... entrou aqui e...
- Gordon? - indagou Raven. - Enquanto voc tomava banho?
Crystal nos fitou, os olhos cheios de lgrimas. Acenou com a cabea.
- No o ouvi chegar. Estava quase dormindo na banheira.
- No tinha trancado a porta? - perguntou Raven.
- Claro que tranquei. Ele deve ter usado sua chave. No bateu nem fez barulho. Quando dei por mim, ele estava parado aqui, me olhando. Eu tinha a cabea recostada, 
os olhos fechados. Subitamente, senti sua presena e olhei. O rosto de Gordon estava... muito vermelho... ele tinha um sorriso alucinado. Por um momento, no fui 
capaz de emitir qualquer som.
- O que ele fez? - perguntei, com a respirao acelerada.
- Comeou a me apalpar.
- Eu sabia! - murmurou Raven.
- Ele tocou em voc? - indaguei.
- Ele estendeu a mo e disse...
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- Disse o qu? - pressionou Borboleta.
- "Deixe-me ver se estas mas j esto maduras." Foi nesse momento que gritei e ele retirou a mo. "S vim consertar um vazamento na pia", justificou-se ele, "No 
precisa armar um tumulto." Gritei de novo, ele se virou e saiu.
- Vazamento na pia? Ningum disse que havia um vazamento na pia. - Dei uma olhada nos canos. - Ele no veio aqui consertar nenhum vazamento.
- Devemos contar a Louise - Borboleta props.
- De que adiantaria? - murmurei - Gordon diria que Crystal deixou a porta destrancada, que no podia saber que ela estava na banheira.
- Brooke tem razo - interveio Raven.
- E as coisas que ele disse? - indagou Borboleta. - Foram horrveis. Gordon no se referia a mas realmente.
- Ele vai negar tudo, Borboleta - expliquei. - Deixem-me pensar um pouco, por favor.
Tornamos a olhar para Crystal. Ela ainda tremia. Raven tambm sentou-se na borda da banheira, passando o brao em torno dela.
- Calma, calma...
- Fiquei... apavorada.
- Vamos nos unir - sugeriu Borboleta.
- Agora? - indaguei.
Raven disse que sim. Encostamos ento nossas cabeas.
- Somos irms. Estamos juntas. Nada de ruim pode acontecer a uma de ns enquanto estivermos unidas.
Crystal ps-se a entoar tambm. A cor comeou a voltar ao seu rosto.
- Foi horrvel - balbuciou ela.
- Sei como  isso. - Raven fitou uma a uma. - Tambm o surpreendi me olhando algumas vezes.
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- Voc nunca me contou - murmurei. Ela deu de ombros. - Mas ele nunca tocou em voc, no ?
Eu no podia acreditar que Gordon fosse to srdido.
- No. Nunca. No contei porque no queria deixar ningum com mais medo dele. Mas se algum dia Gordon tentasse tocar em minhas mas, eu faria sua voz aumentar algumas 
oitavas.
- O que isso significa? - perguntou Borboleta.
- No importa. - Olhei para Crystal. - Sente-se bem agora?
- Muito melhor. Vou me enxugar e ir para a cama. Obrigada.
- Vamos todas nos deitar - sugeri. Comeamos a nos encaminhar para a porta.
- Brooke... Virei-me.
- O que ?
- Quero conhecer seu plano - disse Crystal. - Todos os detalhes. Depois das provas de amanh.
Balancei a cabea em concordncia, um pouco triste porque fora preciso aquele incidente desagradvel para que Crystal aceitasse o meu plano.
- Espero que voc tenha mesmo um plano - acrescentou ela, fazendo um esforo para reprimir os soluos.
- Claro que tenho. E muito bom. Conseguiu os mapas?
Ela acenou com a cabea.
- Amanh. - Olhei de Borboleta para Raven e Crystal. - Amanh vamos nos reunir e dar os retoques finais.
Eu me sentia ao mesmo tempo to furiosa pelo que Gordon fizera com Crystal e to ansiosa em partir, que
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no consegui fazer com que a imaginao parasse de funcionar a mil. Precisava descansar um pouco para as provas, mas era como se minha mente tivesse se transformado 
numa mquina de fliperama, com a idia da fuga saltando de uma possibilidade emocionante para outra, iluminando a escurido, pondo para ressoar campainhas e sinetas.
Acabei me levantando e fui ao banheiro. Parei de repente ao voltar, porque avistei uma luz acesa na frente da Lakewood House. Raven dormia profundamente, no notara 
coisa alguma. Curiosa, fui at a janela. Divisei dois vultos andando pelo caminho dos carros. Um deles, definitivamente, era Gordon. No dava para me enganar, com 
toda a sua corpulncia, por mais escuro que estivesse l fora. O outro homem era bem mais baixo. Por um.momento, cheguei a pensar que os dois discutiam. Gordon ergueu 
os braos, mas baixou-os em seguida. Passou ento um dos braos pelos ombros do outro homem. Os dois sumiram na curva do caminho. Reapareceram um instante depois, 
junto da caminhonete de Gordon. Eu soube que uma porta fora aberta, porque a luz dentro do carro acendeu. Mas ningum entrou. Logo em seguida o homem mais baixo 
se afastou. Gordon fechou a porta da caminhonete e ficou observando o homem, que foi pegar o carro dele e partiu.
Gordon continuou parado ali por mais um minuto. Depois, virou-se e levantou os olhos, como se sentisse minha presena na janela. Meu corao foi parar no estmago. 
Tratei de recuar e esperei. Quando tornei a olhar, ele desaparecera, e a escurido parecia ainda mais densa do que antes.
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3 - Como ladras na calada da noite

Eu queria iniciar os preparativos para a viagem assim que as aulas terminassem no dia seguinte. Era difcil me concentrar em qualquer outro assunto. Havia coisas 
que precisvamos levar na viagem. Pensei em passar pela loja de departamentos antes de voltarmos para a casa. Mas esquecera que Raven, Crystal e eu teramos de trabalhar 
no refeitrio. Crystal me lembrou quando nos encontramos na rea dos armrios na escola e eu lhe disse o que queria fazer.
- No podemos. Precisamos voltar logo e ajudar vov Kelly a preparar o jantar. Se nos atrasarmos, Gordon sair  nossa procura.
Depois do que Gordon fizera com ela no banheiro na noite anterior, Crystal sentia um terror absoluto pela perspectiva.
- Pare de se preocupar, Crystal. No vamos nos atrasar. S precisamos de vinte minutos para andar at a casa.
- Compraremos o que for necessrio amanh - insistiu ela, o rosto contrado pelo medo. - Teremos a tarde inteira para isso, no ?
Crystal parecia no acreditar que amos mesmo
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fugir. Era como se me tratasse com a maior condescen dncia. Raven lanou-me um olhar de advertncia Inclinei a cabea para indicar que compreendia.
- Est bem - concordei, relutante. - Vamos embora.
Pegamos o nibus de volta, em vez de iniciarmos os preparativos para a viagem. Nem mesmo conversamos a respeito no nibus. Junto com os outros estudantes, limitamo-nos 
a falar sobre as provas que acabramos de concluir. Comecei a sentir que talvez Crystal tivesse razo, talvez no passasse de uma quimera, uma fantasia.
Entretanto, um fato extraordinrio: as provas finais no haviam sido to difceis quanto eu previra. Quase tudo que cara eu havia estudado pouco antes ou consegui 
recuperar, do fundo da memria, com a maior facilidade. Era como se o crebro estivesse eletrificado pelo excitamento e cada pensamento um cartaz em non, anunciando 
onde fora arquivado.
Crystal manteve-se pensativa. Disse apenas que fora bem nas provas, mas recusou-se a discorrer a respeito, o que era prprio dela. Em geral, ela nos fazia uma resenha 
de suas provas, quer quisssemos ou no, dando notas ao professor ou professora sobre a escolha dos pontos mais importantes. Eu sabia que o ato de Gordon na noite 
passada era como um peso de chumbo em sua mente. Sentia-se apavorada em v-lo ou ser vista por ele, mas tinha o mesmo pavor do plano que eu propusera.
Quando chegamos na Lakewood House, ela entrou correndo no prdio e subiu para seu quarto, a fim de trocar de roupa, esperando evitar um encontro com Gordon.
- Ela ficou na pior - comentei para Raven. - Tir-la daqui  a melhor coisa que podemos fazer por ela.
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- A melhor coisa que podemos fazer por todas ns. - falou Raven. - Espero que voc tenha um bom plano, Broke.
Tenho mesmo.
Borboleta, que nos seguia como um cachorrinho ansioso, escutou e arregalou os olhos em preocupao. No estava na lista de servio, mas mesmo assim foi trabalhar 
conosco na cozinha. Agora que sabia o tipo de maldade de que Gordon era capaz, sentia-se nervosa demais para ficar em qualquer lugar sozinha.
Eu queria discutir os planos em detalhes assim que fosse possvel, mas com vov Kelly pairando ao nosso redor era difcil conversar na cozinha. Fiquei to frustrada 
que at pensei que podia estourar como um balo cheio. Raven e eu trocvamos olhares de expectativa a todo instante, mas trabalhamos com a devida eficincia, ao 
lado de Crystal e Borboleta, empilhando os pratos, arrumando os talheres e preparando as bandejas.
- Vamos nos encontrar no seu quarto logo depois de lavarmos a loua e l explicarei tudo - sussurrei para Crystal, assim que iniciamos o trabalho na cozinha.
Ela acenou com a cabea. A todo instante, seus olhos se desviavam do trabalho para a porta. No era difcil perceber que estava apavorada.
Gordon apareceu uma vez, parando na porta da cozinha e olhando para ns. Raven, a mais destemida, fitou-o com seus olhos pretos enfurecidos, depois virou-me as costas. 
Vi o canto superior direito dos seus lbios tremer. Crystal, quase trmula da cabea aos ps, manteve os olhos abaixados, os dedos agitando-se, descuidados, em torno 
das travessas quentes, at que queimou o polegar. Gordon alargou o sorriso e se retirou.
Raven murmurou um insulto baixinho.
- O que foi, minha cara? - perguntou vov Kelly.- Nada - respondi no mesmo instante. - 
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Apenas estamos com fome. Gostaramos que chegasse logo a hora de servir e comer.
Isso levou-a a contar uma histria sobre a Lake-wood House no auge de seu prestgio como pousada descrevendo como os hspedes apreciavam a comida e se empanturravam 
a ponto de explodir.
- Tinham de fazer longas caminhadas depois das refeies. Ao voltar para casa em meu carro, podia avist-los andando pela estrada. Depois, muitos dormiam nas enormes 
cadeiras de madeira ou nas redes da varanda. Todos queriam ter certeza de que valia a pena o dinheiro que gastavam.
Vov Kelly arrematou com uma risada. Suspirou em seguida, balanou a cabea, enquanto corria os olhos pela cozinha.
- Era muito diferente quando a me e o pai de Louise dirigiam a casa. Eu gostaria que vocs tivessem conhecido Lakewood House naquele tempo.
Ela olhou para Borboleta, que escutava as histrias como se fossem contos de fadas.
- Ah, esse seu rostinho to meigo... - murmurou ela, abraando Borboleta. - Se eu fosse vinte anos mais moa, pode ter certeza de que a adotaria... adotaria todas 
vocs.
Vov Kelly voltou a se concentrar no preparo da comida. Sentiramos saudade dela, pensei, com uma profunda tristeza. Tive vontade de me adiantar, abra-la tambm 
e dizer:Adeus, vov Kelly. Esta  a ltima vez que a ajudaremos na cozinha. Obrigada por gostar de ns, por se importar conosco, por nos tratar como trataria seus 
prprios netos. Agora, aceite o meu conselho e saia daqui logo depois que partirmos."
 claro que no falei nada. No podamos revelar coisa alguma; e no queramos sobrecarreg-la com os
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nossos segredos. Servimos o jantar, comemos e limpamos tudo o mais depressa que podamos. Megan notou que trabalhvamos com o maior empenho e resolveu zombar-
Puxa, vocs resolveram trabalhar como nunca esta noite. O que esto tentando fazer? Cair nas graas de Gordon?
- Ele no tem nada de bom - respondeu Raven.
- Gostaria que eu repetisse isso para ele? Crystal lanou-me um olhar amedrontado.
- Deixe-nos em paz, Megan - intervi.
Ela me fitou em silncio por um momento, decidindo se deveria ou no me desafiar. Ainda se ressentia do que fizramos e de ter amargado um fim de semana confinada 
no quarto.
- Estou de olho em vocs - disse Megan. - E terei minha oportunidade. Podem apostar.
Ela virou-se e deixou o refeitrio.
- Se ela descobrir o que estamos planejando... - murmurou Crystal.
- Ela no vai descobrir - garanti. - Teremos partido muito antes de Megan desconfiar de qualquer coisa.
Demos boa-noite para vov Kelly. Como j fizera uma centena de vezes antes, ela nos agradeceu por sermos boas ajudantes. Subimos para os nossos quartos, junto com 
os outros, que ainda tinham de estudar para as ltimas provas do dia seguinte. As crianas menores foram assistir  televiso na sala de recreao. Depois de esperar 
um pouco, Raven e eu fomos nos juntar a Crystal e Borboleta, no quarto delas. Fechei a porta sem fazer barulho. Podamos finalmente conversar sobre o Plano. O ar 
era to denso, que eu tinha a sensao de andar por um quarto cheio de teias de aranha.
- Onde esto os mapas? - perguntei, quase num o sussurro.
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Crystal virou-se e ajeitou-os, lado a lado, em sua escrivaninha.
- Este  o roteiro por dentro do pas e este  pelo norte - informou ela. - H tambm um caminho pelo sul. Mas descobri que ainda pode estar nevando nas Montanhas 
Rochosas, tornando a passagem difcil. Achei melhor evitar essa possibilidade. Pegaremos a 17 East at a Jersey Turnpike, para comear.
- Quanto tempo leva para chegarmos  Califrnia? - perguntou Borboleta.
- Depende da rota que seguirmos. Mas se algum viajasse durante o dia inteiro, todos os dias, sem contemplar as paisagens no caminho, provavelmente demoraria quatro 
dias.
Crystal virou-se para mim, ao final da resposta, e acrescentou:
- Muito bem, Brooke, fiz o que me pediu. E agora nos diga como tenciona atravessar todos os Estados Unidos da Amrica.
Recostei-me, os braos cruzados sobre o peito.
- Vou guiar o carro - respondi, dando de ombros, como se fosse a coisa mais bvia.
- Voc no tem carteira de motorista - lembrou ela, no mesmo instante. - No fez o exame.
-  preciso ter a habilitao para ser legal, no para guiar. No esquea que fiz o curso de motorista.
- Pode ser, mas ainda precisa de um carro para guiar.
Era como se estivssemos jogando xadrez com palavras.
- Temos um carro.
- Temos? - Crystal olhou para Raven, que deu de ombros, e depois para Borboleta, que tinha os olhos arregalados de surpresa. - E onde est?
- Ali fora. - Sorri e acenei com a cabea para a janela. -  nossa espera.
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Crystal comeou a sorrir, pensando que era uma brincadeira minha. Parou de repente, ao compreender o que eu queria dizer. Levantou-se e foi at a janela. Borboleta 
e Raven a acompanharam. As trs olharam para a caminhonete de Gordon.
- Quer levar o carro dele? - perguntou Raven.
- Por que no? Ele no tira o dinheiro que deveria ser nosso?
Elas ficaram me olhando fixamente, em silncio, como se eu tivesse pirado por completo. Depois, Crystal recuperou a calma e assumiu seu ar de professora.
- Se levar o carro - disse ela -, Gordon colocar a polcia atrs de ns.
- No por algum tempo. De qualquer maneira, s precisamos do carro para nos afastarmos o suficiente at encontrarmos outro meio de transporte, talvez um nibus ou 
um trem. Podemos estudar esses mapas e encontrar um caminho fora das estradas mais movimentadas. No precisamos atravessar o pas em quatro ou cinco dias, nem mesmo 
em dez. No h pressa.
-  preciso dinheiro para ir devagar, Brooke - comentou Crystal. - Viajar  caro.
- Sei disso. Amanh vamos ao banco para retirar nossas economias. A no ser que vocs tenham gasto em alguma coisa que ignoro, calculo que, juntas, temos quase mil 
e quatrocentos dlares.
- No  muito dinheiro, quando se considera o que pretendemos fazer - respondeu Crystal. - Provavelmente gastaramos tudo nos primeiros dias. Temos de pensar nas 
despesas de gasolina, pedgio e comida. Para no falar em quartos de hotel e problemas imprevistos com o carro.
- E da? Arrumaremos trabalho pelo caminho. Voc, Raven e eu j trabalhamos numa poro de coisas. E Borboleta... - Sorri para ela. - Talvez Borboleta consiga
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que as pessoas lhe dem dinheiro sem a menor dificuldade, se danar numa esquina ou algo parecido.
- Isso  fantasia, um sonho - murmurou Crystal balanando a cabea. - Eu sabia desde o incio.
- Pare de dizer isso! - exclamei. - No  fantasia. Eu planejei tudo. Sei onde Gordon guarda as chaves do carro. Ele as deixa naquele velho bluso de couro que fica 
pendurado na parte de dentro da porta de seu quarto. J o vi pr as chaves ali.
- Vai entrar no quarto de Gordon e lhe roubar as chaves? - perguntou Borboleta.
- Claro. No ser difcil. Louise no tranca a porta durante a noite.
Borboleta continuou a me fitar, espantada com a minha coragem.
- Talvez ele nem chame a polcia - sugeriu Raven subitamente, pensativa. - Talvez apenas saia em nossa perseguio no caminho.
Isso me deixou quieta por um momento, imaginando um furioso Gordon Tooey em disparada pela estrada, a boca contorcida, as narinas tremendo, os olhos esbugalhados, 
enquanto ia apertando o acelerador at o fundo para nos alcanar. Se nos pegasse, no havia como saber o que faria. Seria melhor se fssemos apanhadas pela polcia.
Crystal olhou para os mapas.
- Poderamos envi-lo para outro lugar com uma pista falsa - murmurou ela.
- Como? - perguntei.
- Deixaremos aqui a rota que no escolhermos. Talvez... fingindo que a deixamos cair na pressa de partir. Ele a encontrar e pensar que tem uma maneira fcil de 
nos encontrar, partindo na direo errada.
- Brilhante, Crystal! - exclamei, encorajada por ela oferecer uma sugesto. - Genial!
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Ainda  um risco muito grande, Brooke. No sei.
Ela tirou os culos para limpar as lentes, enquanto balanava a cabea.
 melhor do que ficar sentada aqui esperando at completar dezoito anos... ou at que Gordon tente tocar em uma de ns outra vez. No h como prever quem poder 
ser a prxima.
Virei-me para Borboleta e fitei-a nos olhos. Estava decidida a usar todo e qualquer recurso para fazer Crystal compreender que no havia outra sada.
- Ela tem razo, Crystal - murmurou Borboleta. - Estou disposta a tentar, se voc tambm for.
- No precisamos gastar dinheiro em quartos de hotel se usarmos a caminhonete - continuei. -  bastante espaosa para ns quatro dormirmos, se baixarmos o encosto 
do banco de trs. Amanh de noite, depois que todos estiverem dormindo, Raven e Crystal iro  cozinha e pegaro tanta comida quanto puderem. Isso tambm nos ajudar 
a poupar algum dinheiro. Daqui at l, todas devem escolher as roupas que couberem numa fronha. No podemos levar muita coisa. Usaremos essas fronhas como travesseiro.
- J vem pensando nisso h algum tempo, no ? - perguntou Crystal.
- H mais tempo do que voc pode imaginar.
- No esqueam a escova de dentes - disse Borboleta.
At mesmo Crystal teve de rir.
- Agora - murmurei -, vamos estudar o mapa Que usaremos.
Crystal olhou para Raven e Borboleta, a fim de se certificar de que elas continuavam de acordo. Depois, apontou para um dos mapas. Todas nos reunimos ao seu redor.
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- Deixaremos esta rota para Gordon encontrar - disse Crystal. - Passa pela Pensilvnia, Virgnia, Flrida, Texas. Talvez ele chegue at a Flrida antes de compreender 
que seguiu uma pista falsa. A essa altura, j estaremos longe.
Borboleta riu. Calculamos onde poderamos chegar no primeiro dia e no segundo, todas falando ao mesmo tempo. Era uma sensao maravilhosa... uma sensao de esperana.
Mais tarde, foi quase impossvel dormir. Minutos depois que a luz do nosso quarto foi apagada, Raven me chamou.
- O que ?
- No vai mudar de idia, no , Brooke? A voz dela tremia um pouco.
- Claro que no. Acha que estamos fazendo a coisa errada?
Subitamente, tambm me senti apavorada.
- No se preocupe, Brooke. No importa o que nos acontea na estrada, no ser nem a metade to ruim quanto o que poderia acontecer se ficssemos.
- Boa-noite, Raven.
- Brooke...
- O que ?
- Eu estava pensando... esta  a nossa ltima noite aqui.
Pensei um pouco. Era verdade. Adeus a estas quatro paredes. Para sempre. Adeus  sensao de me sentir uma pessoa insignificante, annima e solitria. Amanh... 
amanh pegaremos a estrada, a caminho do nosso futuro.
- Eu no poderia me sentir mais feliz por isso. No me importo com o quanto ser difcil para ns depois de partirmos. Estou contente por irmos embora... contente 
por finalmente assumirmos o controle de nossas vidas.
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- Eu tambm. Boa-noite.
Boa-noite.
Fechei os olhos para o meu sonho.
Agora que a ltima semana de aula se arrastava, os alunos no precisavam mais ir  escola, a menos que tivessem alguma prova para fazer. Todas fizemos nossas ltimas 
provas pela manh e podamos ir embora. Mas Louise e Gordon no sabiam disso. Em vez de voltarmos para Lakewood House, fomos ao banco retirar nosso dinheiro. A caixa 
ficou desconfiada. Crystal receou que ela telefonasse para Louise, mas isso no aconteceu. Passamos o resto do dia comprando pequenas coisas que poderamos precisar 
na viagem.
Ao chegarmos na casa, encontramos nossas tarefas fixadas no quadro de avisos, como sempre. Gordon no abriria qualquer exceo naquele dia, independente das provas 
finais na escola. Fomos trabalhar, fazendo um esforo para ocultar nosso excitamento e ansiedade. Para todas ns, era uma sensao estranha circular pela propriedade, 
sabendo que naquela noite deixaramos aquele lugar para sempre. Durante o jantar, trocamos olhares conspiradores. Borboleta estava to nervosa que quase no comeu. 
Obriguei-a a fazer um esforo e comer alguma coisa, porque no queria que nenhuma de ns fizesse qualquer coisa diferente que pudesse despertar suspeitas ou atrair 
olhares curiosos sobre o nosso comportamento.
Com a sensao de que borboletas se agitavam no nosso estmago, subimos para os nossos quartos, a fim de esperar a passagem do tempo, a escurido e o silncio que 
se seguiam depois que todos dormiam. Louise passou pelos quartos para perguntar como nos saramos nas provas.
- Espero que todo mundo s tenha tirado A -
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comentou ela. - Sempre me orgulhei do desempenho  de minhas crianas na escola. No ano que vem, Crystal ser a oradora da turma. Imaginem s, uma das crianas de 
Louise Tooey como oradora da turma!
Ningum falou muito, pois espervamos que ela seguisse logo adiante se no respondssemos. Mas Louise demorou, falando sobre o vero iminente, a perspectiva de empregos, 
as melhorias que tencionava fazer na propriedade. Finalmente ela nos desejou boa-noite e desceu para seu escritrio.
- Pensei que ela nunca mais iria embora - murmurei, aliviada. - Vamos nos deitar e fazer tudo da maneira habitual. Mas fiquem vestidas sob as cobertas, para podermos 
partir depressa.
Ns quatro tremamos de expectativa e prendamos a respirao de tanta ansiedade.
Foi ficando tarde. Ouvi Louise e Gordon subirem para seu quarto. Tive impresso de que Gordon andara bebendo, pelo tom de sua voz. Torci para que fosse isso mesmo, 
pois assim ele dormiria mais depressa. J o vira fazer isso antes. Quando bebia, Gordon podia dormir em qualquer lugar, at mesmo numa daquelas velhas e incmodas 
cadeiras de madeira, os braos e pernas pendendo, como apndices de algum gigantesco inseto morto.
Levantei-me pouco depois da meia-noite, o corao batendo forte. Raven sentou-se na cama. Era bvio que ela ficara deitada de olhos abertos, observando-me.
- J est na hora? - perguntou ela.
- J, sim. V chamar Crystal e desam para a cozinha. No deve haver mais ningum l embaixo. No faam barulho e tomem o maior cuidado. E no esqueam que no podemos 
levar coisas demais. Vou pegar as chaves da caminhonete.
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Falei como se a coisa mais simples do mundo fosse  entrar no quarto dos Tooey e pegar as chaves.
Voc  que tem de tomar cuidado, Brooke - advertiu ela. - Se houver algum imprevisto de Gordon pegar voc,  melhor desistir.
- No h a menor possibilidade - assegurei, tomando coragem.
- Talvez devssemos unir as cabeas e entoarmos nosso cntico.
- Estou bem, Raven. No se preocupe. Posso fazer isso sem problemas.
Eu me sentia ansiosa em pegar logo as chaves de Gordon. S ento saberia o que ia mesmo acontecer.
Antes de sair da cama, bati de leve na parede para o quarto de Crystal e Borboleta. Uma das duas bateu em resposta.
- Vamos embora - murmurei.
No calcei os sapatos, para poder andar mais silenciosamente pelo corredor. Sa do quarto e deparei com Crystal e Borboleta na porta do outro quarto.
- Estou bem - sussurrei, antes que Crystal pudesse perguntar. - Voc e Raven devem descer agora para pegar a comida. Borboleta, fique de vigia.
As duas se afastaram apressadas. Virei-me e olhei pelo corredor, na direo do quarto de Louise e Gordon. O corredor era iluminado por trs lmpadas fracas no teto. 
Uma claridade amarela derramava-se pelas paredes encardidas. A porta do quarto de Gordon e Louise parecia mais distante do que nunca. Cada passo provocava um rangido 
nas tbuas do assoalho; para mim, esses rangidos soavam muito alto. Hesitei, atenta ao barulho de algum acordando. Seria difcil explicar por que eu andava por 
ali descala, se fosse descoberta. Tambm tinha medo de que alguma das crianas me visse e armasse uma confuso.
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As batidas dentro do meu peito pareciam cada vez mais fortes e rpidas. Tive medo de perder o flego, ficar tonta e cair. O que me levara a pensar que tinha fora 
e habilidade para fazer aquilo?, perguntei-me, agora que devia faz-lo. Crystal tinha razo. Era uma fantasia. Eu no seria capaz de abrir a porta do quarto e tatear 
no bluso de couro,  procura das chaves. E se o bluso casse? E se as chaves fizessem barulho? E se Gordon no estivesse dormindo?
Comecei a entrar em pnico. Meu corao ameaava parar. Raven tinha razo. Deveramos ter nos encontrado para entoar nosso cntico. Eu me mostrara confiante demais. 
Olhei para trs. Borboleta esperava na outra extremidade do corredor, quase prendendo a respirao. V-la ali, pequena e ansiosa, mas tambm esperanosa, restaurou 
minha coragem. Tinha de tir-la de LakewoodHouse. De qualquer maneira.
Acenei para mostrar que estava tudo certo, embora no me sentisse nada bem.
Tornei a olhar para a porta do quarto de Louise e Gordon, avanando de novo, encostada na parede. Finalmente cheguei ali. Fechei os olhos, respirei fundo e experimentei 
a maaneta, que girou. A porta se entreabriu, com um rangido mnimo.
J entrara naquele quarto uma dzia de vezes, por uma razo ou outra, s vezes levando alguma coisa para Louise. Sabia que a porta se abria para um pequeno vestbulo. 
 esquerda ficava o quarto, com duas janelas grandes, dando para o lago, com um closet anexo. A direita havia duas cmodas e a porta do banheiro.
Continuei empurrando a porta at ter espao suficiente para me esgueirar. Entrei depressa, encostando a porta em seguida, a fim de que a claridade vinda do corredor 
fosse mnima. L estava eu, parada no escuro, no vestbulo do quarto de Gordon e Louise, prendendo a respirao. J entrara. Era tarde demais para recuar agora.
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Em pequenos movimentos, levando quase que uma hora s para virar o corpo, encontrei o casaco onde Sempre ficava. Enfiei os dedos no primeiro bolso. As pontas do 
meu polegar e indicador tocaram no chaveiro.
Foi nesse instante que uma luz noturna acendeu.
Fiquei paralisada.
- O que foi? - resmungou Gordon.
- Tenho de ir ao banheiro - disse Louise.
- No pode ir sem acender a droga dessa luz e me acordar?
-  para no tropear em alguma coisa - explicou Louise.
Ele soltou um grunhido abafado contra o travesseiro. Eu no mexia um msculo sequer, no soltava a respirao. Ouvi-a entrar no banheiro e fechar a porta. Permaneci 
to imvel quanto podia, esperando. Ouvi a descarga do vaso, vi a luz quando ela abriu a porta, depois ouvi-a voltar para a cama e apagar a luz.
- Desculpe - murmurou Louise.
Gordon no respondeu. Esperei mais um pouco, o suor agora escorrendo pela nuca. Queria ter certeza de que os dois haviam mergulhado de novo num sono profundo. Todo 
o meu corpo se tornara dormente e gelado. Subitamente, experimentei a sensao de que as pernas se derretiam. Dali a pouco cairia no cho, pensei. Era melhor fazer 
logo o que precisava.
Tornei a estender a mo, encontrei as chaves e comecei a tir-las do bolso. O dorso de minha mo tocou em outra coisa. Fiz uma pausa, compreendendo o que devia ser. 
Se fosse mesmo o que eu pensava, seria Maravilhoso. Tirei as chaves, estendi a mo outra vez e Peguei o carto de crdito para gasolina. Era muita sorte, pensei; 
uma tremenda bonificao.
Agora tinha de sair dali, to depressa e silenciosamente quanto entrara. Tornei a abrir a porta, o mnimo
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possvel, o suficiente apenas para poder passar de quatro. Depois que sa, fechei a porta sem fazer barulho. Por um momento, fiquei agachada ali, ouvindo,  espera 
do som aterrador do grito de Gordon vindo atrs de mim Mas o silncio persistiu. No outro lado do corredor avistei Crystal, Raven e Borboleta, observando-me. Raven 
e Crystal haviam voltado da cozinha e tinham um saco com comida. Ergui a mo, com o polegar para cima levantei-me e comecei a me adiantar na ponta dos ps. Todas 
entramos no quarto meu e de Raven, falando em sussurros.
- Voc passou tanto tempo l dentro que pensamos que tinha sido apanhada - disse Raven.
Contei o que acontecera e depois mostrei-lhes o carto de crdito.
- Gordon no apenas vai nos emprestar o carro, mas tambm o dinheiro para a gasolina.
- Tem certeza de que nenhum dos dois a ouviu? - perguntou Crystal.
- Se tivessem me ouvido, Gordon j estaria aqui neste momento. O que conseguiram?
Ela mostrou o que havia no saco, quase tudo produtos enlatados e no perecveis.
- Escolheram bem - comentei. - Estamos prontas. Nada mais pode nos deter agora.
- Tenho medo - balbuciou Borboleta.
Ao compreender que j tnhamos tudo de que precisvamos para partir, ficou apavorada.
- Vamos nos juntar - sugeriu Raven, olhando para mim, Borboleta e Crystal. - Tambm preciso disso.
Olhei para Crystal, que acenou com a cabea. Ns quatro demos a mo e entoamos o cntico baixinho, tomando coragem, acumulando fora. Depois nos separamos, respiramos 
fundo e pegamos nossas coisas. Avanamos pelo corredor como quatro fantasmas, a
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caminho da escada. No momento em que ali chegamos,  Megan Callaway saiu de seu quarto para ir ao banheiro. Todas ficamos imveis.
O que esto fazendo, suas idiotas? - indagou ela, aproximando-se.
- Fale baixo - sussurrei, olhando frentica na direo do quarto de Gordon e Louise.
Ela olhou para as fronhas e o saco com comida.
- O que  isso?
- Estamos fugindo - respondi, como se fosse uma coisa sem a menor importncia.
Ela fitou cada uma, depois fixou-se em mim.
- Fala srio?
- Claro. Se fizer algum barulho, juro que tirarei tantas fotos suas que dar para cobrir todas as paredes do refeitrio.
Mantive os olhos fixos nos dela. Megan compreendeu que eu no teria a menor hesitao. E murchou.
- Por que eu me importaria se vocs fugirem? Ser timo para mim. Boa viagem. E divirtam-se.
Acenei com a cabea para Raven, que recomeou a avanar para a escada. Megan continuou parada l atrs, observando. Crystal ps a mo em meu brao. Olhei para ela. 
Crystal tirou o mapa falso do bolso. Compreendi sua inteno e sorri.
Pouco antes de descermos, ela deixou cair o mapa, como se fosse por acaso. Descemos apressadas, tentando ser to leves quanto o ar, j que nossos passos faziam os 
degraus da velha escada rangerem.
- Ela no ser capaz de se controlar - murmurou Crystal, referindo-se a Megan. - Assim que partirmos, entregar o mapa a Gordon.
- Crystal, voc  brilhante... at um pouco diablica.
- Sei disso - sussurrou ela, sorrindo.
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Atravessamos a casa. Borboleta andou quase que o tempo todo na ponta dos ps.
Abri a porta dos fundos, bem devagar. Contemplei minhas irms, cada uma com os olhos cheios de expectativa e medo.
- Foi muito fcil - murmurei.
Eu tentava parecer mais corajosa do que me sentia, Raven deu um sorriso nervoso. Borboleta ainda dava a impresso de que poderia chorar a qualquer momento. Decidi 
agir mais depressa, antes que ela tivesse tempo de pensar em recuar.
Seguimos para a caminhonete. Em noites de vero como aquela, Gordon deixava-a fora da garagem. Nem sequer a trancava. Com o maior cuidado para no fazer muito barulho, 
abri a porta e sentei ao volante. As outras tambm entraram, Raven ao meu lado, Borboleta e Crystal no banco de trs. Todas as portas foram fechadas, com um suave 
zunido de metal contra metal. Enfiei a chave na ignio, os dedos tremendo um pouco.
- O cheiro dentro desse carro  o de um poro cheio de mofo - disse Raven, tapando o nariz. - Horrvel!
- Aqui est um motivo.
Crystal nos mostrou uma garrafa de vinho ordinrio, que provavelmente derramara no cho.
- Teremos de fazer uma limpeza para podermos dormir no carro - comentou Borboleta.
- Tem certeza de que sabe guiar esta caminhonete? - perguntou Raven.
- Claro que sei - respondi, com um sorriso confiante. - Eu me sa muito bem no curso de motorista. No tirei a maior nota no exame?
- Era apenas um exame. Agora  para valer... e sem um instrutor do seu lado durante o tempo todo.
- Pare de se preocupar. Esto prontas, meninas?
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Todas murmuraram que sim. Virei a chave. A caminhonete pegou no mesmo instante, com um ronco que a fez estremecer toda.
O tanque est cheio. O velho Gordon sempre deixa seu carro preparado. - Olhei para a casa enorme e escura. - Obrigada, Gordon.
Dei a partida, acelerando um pouco depressa demais. Os pneus levantaram algum cascalho, mas segurei o volante com firmeza e desci pelo longo caminho at a rua. No 
queria que as outras percebessem, mas me sentia espantada comigo mesma.
Continuamos at a estrada, que se estendia  nossa frente, como a estrada para Oz, ou seja, uma faixa prateada apontando para o desconhecido.
- Eu bem que gostaria de ver a cara de Gordon pela manh - comentou Raven.
- Eu no - murmurou Crystal.
- Ele vai culpar Louise - declarei. - Sempre a acusa de ser mole demais com a gente.
- Tenho pena dela - disse Raven. - No consigo entender por que Louise casou com um homem assim.
- Ela vai se perguntar a mesma coisa amanh de manh.
Subitamente, soltei uma gargalhada.
- O que foi? - indagou Raven.
- Estava pensando em Megan. Ela vai entregar o mapa falso a Gordon, para bancar a pequena herona. E ele partir por uma direo errada.
- E da? - disse Raven. - No  o que voc queria que acontecesse?
Olhei para Crystal. Ela sorriu, virou-se para Raven e explicou:
- Gordon vai pensar que ela fez isso de propsito, que ajudou em nosso plano.
- Vai ser engraado... ou talvez no. - Crystal respirou fundo. - Ele  capaz de mat-la.
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Todas permanecemos em silncio, pensando na raiva de Gordon.
- Talvez seja melhor voltarmos - sugeriu Borboleta, alguns minutos depois.
- Voltar? Voltar para onde? No h como voltar. S podemos seguir adiante. - Respirei fundo. - No se preocupe, Borboleta. Estamos todas juntas, todas com voc.
Ningum disse nada em contrrio. Ningum podia discordar.
- Conseguimos! - exclamou Crystal, aturdida, os olhos grudados na estrada  frente. - Conseguimos!
- Eu sempre tive certeza de que conseguiramos - declarei.
Por cima de ns, o cu estava todo estrelado.
- Ligue o rdio - disse Raven.
Inclinei-me e liguei. Encontramos uma emissora de rock. Raven aumentou o volume e ps-se a cantar junto, enchendo o carro com sua voz melodiosa.
Comecei a me sentir mais confiante ao volante e acelerei.
Nossa viagem comeara para valer.
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4 - A estrada menos movimentada

No maior excitamento, nenhuma de ns percebeu o quanto nos sentamos cansadas. A tenso era suficiente para esgotar qualquer uma. O fato de ser tarde tornava ainda 
mais difcil permanecermos acordadas. Guiar quela hora da noite tinha uma grande vantagem: no havia muito trfego. Eu conhecia as estradas que nos levariam at 
a rodovia principal, mas depois disso teria de confiar em Crystal e nos seus mapas. Assim que chegamos  rodovia e avistei uma placa que dizia CIDADE DE NOVA YORK 
140 KM, senti o corao palpitar. O fato de estarmos realmente na estrada fugindo, pondo quilmetros e quilmetros entre ns e a nica vida que conhecramos durante 
anos e anos, deixou-nos caladas por um longo momento, absortas em ns mesmas.
Durante toda a nossa vida framos veladas e protegidas por pais adotivos durante um breve perodo e, depois, na maior parte do tempo, pelo sistema. Era sempre difcil 
fazer com que algum que vivera com os pais durante toda a vida compreendesse como era ser uma de ns. Sem famlia, sentamos que ramos sem histria,que framos 
largadas em algum lugar e instrudas para dormir, brincar e comer como crianas normais. Era
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difcil viver como tutelada de uma entidade gigante chamada Estado. Quando tnhamos medo ou nos sentamos solitrias, quando os sonhos se transformavam em pesadelos, 
quando fracassos e desapontamentos ocorriam em nossa vida, no podamos correr para casa e procurar o consolo de papai e mame. Podamos conversar com uma conselheira 
quando chegasse nossa vez,  claro. Podamos ser analisadas e receber recomendaes de manual para curar nosso bom senso da ausncia de sentido, mas quase nunca 
faziam com que nos sentssemos melhor conosco mesmas.
Certa ocasio, quando uma garota na escola me deixara furiosa, acusei-a de ser mimada e de no saber como era viver sem uma famlia de verdade. Ela apenas sorriu, 
e ento eu me inclinei e acrescentei, nossos rostos quase colados um no outro:
- Imagine sentar-se na frente da televiso todas as noites e ver aqueles comerciais sobre crianas com os pais indo para a Disneylndia ou sentados  mesa do caf 
da manh. Imagine olhar para isso e pensar que, no seu caso, no passava de pura fico.
O sorriso da garota evaporou. Todas ao nosso redor baixaram os olhos, envergonhadas por terem nascido com mais sorte do que eu.
Nunca me senti algum especial. Exceto pelo tempo que passei com Pamela e Peter. Mas se me sentir especial significava que teria de ser uma pessoa que no era, ento 
eu no queria. Preferia continuar a ser a menina solitria do que virar o projeto especial de algum, apertada e comprimida em um molde feito para mim.
Agora, guiando aquela caminhonete, correndo pela noite em companhia de minhas maiores amigas, experimentei uma intensa sensao de liberdade. Era como se tivssemos 
nos livrado das correntes de quem ramos; como se, finalmente, estivssemos livres das pessoas
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Que tentavam nos transformar. At poucas horas antes, ramos mais conhecidas pelos nmeros de nossas fichas. Como Crystal dizia com freqncia, estvamos no Sistema, 
rotuladas e descritas por algum funcionrio pblico, nossas histrias resumidas em poucas pginas, incluindo os fatos biolgicos sobre o tipo sangneo, cor dos 
olhos, vacinas.
Nada disso importava para ns agora. Framos lanadas, navegvamos para o espao,  procura de um novo planeta, algum lugar a que pudssemos chamar de lar. Muito 
em breve faramos nossa prpria histria, preencheramos nossas fichas. Pela primeira vez, senti-me no controle de meu destino.
- Cuidado com a velocidade - disse Crystal. - Mesmo a esta hora, pode haver um radar ligado em algum lugar, e no podemos ser detidas, Brooke.
- Sei disso.
Olhei para o velocmetro. A verdade  que no o vigiara. Ficara sonhando e acelerara demais. A velha Crystal, pensei, sempre se podia contar com ela.
Olhei pelo espelho retrovisor. Borboleta arriara no banco, a cabea pendendo para um lado, os olhos fechados. Parecia uma boneca de trapos, vulnervel, dependente. 
Penso que as trs viam alguma coisa de si mesmas em Borboleta, sendo esse o motivo pelo qual ramos to protetoras.
O rdio continuava a tocar. Quilmetros e quilmetros de estrada estendiam-se  nossa frente e desapareciam em meio  escurido. De vez em quando outro veculo se 
aproximava e passava por ns. Eu segurava o volante com firmeza. Sentia-me como o comandante de uma nave espacial, lanada para o espao e nos aproximando mais e 
mais do ponto em que deixaramos a gravidade da Terra. Muito em breve o controle do passado sobre ns seria rompido e no olharamos mais para trs.
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- Talvez seja melhor verificar seu mapa agora, Crystal - sugeri, ao deixarmos de olhar os lugares mais  familiares.
Crystal desdobrou o mapa e encontrou o interruptor para a luz, atrs. Mas no estava funcionando. ELA  inclinou-se, a fim de aproveitar a claridade da frente.
- Podemos seguir pela New York Thruway, 01 pegar a Rota Seis para a Palisades Parkway e encontrar a sada para a 1-95.
- Qual  o melhor percurso?
- Quanto menos pessoas nos virem e puderem nos reconhecer, melhor ser - concluiu Crystal. - Vamos evitar as cabines de pedgio. Pegue a Rota Seis. A entrada deve 
estar prxima.
Ficamos atentas, observando as placas. Quando a avistamos, fiz a curva com perfeio e entrei na estrada.
- Est guiando muito bem - comentou Raven, impressionada. - Eu deveria ter feito tambm o curso de motorista.
E seria de grande ajuda ter outra pessoa para revezar na direo, pensei.
Crystal recostou-se e bocejou.
- Se Megan no acordou ningum, ainda no sabem que fugimos - murmurou ela, depois de um longo momento.
Olhei para o relgio do painel. Eram quase trs e meia da madrugada. Gordon, o crebro encharcado de usque, devia estar apagado em sua cama. Todo mundo dormia. 
Dentro de poucas horas, teriam uma surpresa e tanto.
Raven encostou a cabea na janela. A exausto que adiramos com o excitamento comeava a dominar nossas pernas e braos, at nossos olhos.
- Vamos viajar durante a noite inteira? - perguntou Crystal.
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No acha que  uma boa idia nos distanciarmos o mximo possvel?
Claro que acho. Mas voc est bem? No v acabar dormindo no volante.
 - Estou bem.
Minhas plpebras, no entanto, queriam fechar como portas de elevador. Concentrei-me em mant-las abertas. A emissora de rdio s tinha entrevistas agora.
- Procure msica, Raven - pedi. - Alguma coisa animada, est bem?
Ela sintonizou at encontrar uma msica vibrante, depois tornou a se recostar.
Continuamos em frente. Eu deveria ter mantido a conversa. Borboleta mergulhara num sono profundo. Crystal, apesar dos esforos em contrrio, permitia que seus olhos 
se fechassem a todo instante, tambm pegando no sono. Raven, numa exausto fsica e emocional, parou de falar e deixou a cabea pender para trs. Percebi de repente 
que era a nica acordada. Comecei a contar coisas, a cantar para mim mesma, a me mexer com a msica, qualquer recurso para me manter alerta. Mas comecei meu devaneio 
no momento errado. Pisquei os olhos subitamente ao avistar um cartaz, que dizia: PONTE GEORGE WASHINGTON.
- Crystal? - chamei. - Crystal!
- Como? Ah, desculpe. Devo ter pegado no sono. Onde estamos?
- Deveramos passar pela ponte George Washington?
A cabine de pedgio ficava logo  frente. No havia mais como evit-la.
- No! No! - gritou ela. - Oh, Brooke, voc passou da sada!
- E agora, o que deverei fazer? - perguntei, em pnico.
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- Qual  o problema? - indagou Raven. Borboleta soltou um grunhido e sentou, esfregando os olhos para afugentar o sono.
- Atravesse a ponte - disse Crystal, enquamto desdobrava o mapa. - No d a impresso de que est perdida. Aja de uma forma natural. Como se j tivesse feito isso 
antes. Encontrarei um novo caminho depois
Diminu a velocidade, olhei para a placa com o preo do pedgio e enfiei a mo no bolso para pegar o dinheiro. Uma afro-americana, que parecia ter quarenta anos, 
pegou a nota e me entregou o troco, sem sequer olhar para mim.
- Ela no podia se importar nem um pouco com quem somos - murmurei. - Deve ser um trabalho muito chato.
Olhei  frente para a ponte George Washington, toda iluminada. Era uma viso impressionante, pensei, enquanto comeava a atravess-la, o corao batendo forte como 
um tambor numa parada militar. A cidade de Nova York destacou-se contra o cu noturno.
- Olhem s para aquilo! - murmurou Raven, o espanto transparecendo na voz.
As trs aproximaram o rosto das janelas e contemplaram, boquiabertas, o Empire State Building e as Twin Towers, todos os prdios cintilando. Os jatos comerciais 
pareciam bastante prximos para bater nos edifcios. Era emocionante.
- Aposto que a Broadway est toda iluminada como um parque de diverses - murmurou Crystal, excitada.
- Broadway? - repetiu Raven, quase pulando no banco. - Podemos ver a Broadway?
- Podemos? - acrescentou Borboleta.
- Temos de voltar ao nosso caminho - declarei. Eu tinha dvidas se conseguiria guiar pelo trfego da cidade.
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- Oh!  Por favor, vamos dar uma olhada na Broadway - suplicou Raven. - No pode estar longe, no  mesmo, crystal? J que estamos aqui, podemos tirar o melhor proveito 
do erro.
O que eu fao agora? - perguntei quando nos aproximamos do lado de Manhattan pela ponte.
- Continue pela direita - disse Crystal. - Pegaremos a Henry Hudson Parkway e seguiremos para o centro.  Deixaremos Raven e Borboleta ver a Broadway, antes de entrarmos 
no tnel e voltarmos para o nosso caminho. Todas devem permanecer acordadas agora.
Por sorte, quela hora da madrugada no havia nenhum engarrafamento. Seguindo as instrues de Crystal, entrei na Rua 42 e fui avanando devagar, at que de repente 
samos na Times Square. As luzes e os cartazes eram to espetaculares que tive de parar. Todas ficamos olhando aturdidas para os enormes cartazes, para a quantidade 
de pessoas andando pelas caladas, apesar da hora, e para o trfego ainda intenso.
- Tudo  gigantesco - murmurou Crystal, estendendo a cabea pela janela e admirando um edifcio muito alto. -  lindo!
- Algum dia, Borboleta, seu nome estar nesses cartazes luminosos - comentei. - E voc, Raven, cantar num palco aqui.
- E voc? - perguntou Crystal.
- Serei a dona de um dos teatros. Todas riram. No instante seguinte, tivemos um sobressalto, ao ouvirmos uma batida firme no lado da caminhonete. Era um guarda muito 
alto.
 - O que pensam que esto fazendo aqui? - perguntou ele, abaixando-se para nos fitar.
Ele se empertigou em seguida, olhando para mim. Essa no!", pensei. Se ele pedir minha habilitao e os documentos do carro, estar tudo acabado. S teramos realizado 
uma curta viagem  cidade de Nova York.
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-S queramos ver a cidade  noite, seu guarda - respondeu Crystal. - Viemos visitar minha tia.
- No podem estacionar aqui. Viram aquilo?  "Proibido Estacionar ou Parar".
Ele apontava para a placa na frente da caminhonet
- Sinto muito - murmurei.
O guarda nos estudou mais atentamente.
- A essa altura, vocs j deveriam estar na cama. Sua tia sabe que esto aqui?
- Acabamos de chegar - disse Crystal. - E estamos indo para seu apartamento.
- Sabem como chegar l?
- Sim, senhor - respondeu Crystal. - Recebemos uma boa orientao.
- Pois ento tratem de seguir em frente.
- Obrigada. - Crystal inclinou-se e sussurrou em meu ouvido: - Vamos logo!
Engrenei o carro e parti, outra vez um pouco depressa demais. Prendemos a respirao. Crystal olhou para trs.
- Tudo bem - murmurou ela. - O guarda no est nos perseguindo.
- Voc foi sensacional, Crystal - comentei. - Pensou depressa.
ramos todas boas mentirosas?, especulei. A vida nos fizera assim?
- Temos de nos manter alertas. Vire aqui. Vamos pegar o Tnel Lincoln. - Ela olhou para o mapa. - Vire  esquerda mais adiante e siga em frente.
Apesar da hora e do cansao, era impossvel no permanecer acordada agora. Segui as instrues de Crystal de maneira precisa. Quando entramos no tnel, Borboleta 
teve medo de nunca mais sairmos. Parecia interminvel, mas de repente emergimos no outro lado. Com todo cuidado, as quatro agora atentas s placas e sinais, encontramos 
o caminho para oeste.
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Tornei a olhar para o relgio. Mais algumas horas e Gordon Tooey acordaria. Depois de se vestir, tomar o caf da manh e reclamar de alguma coisa, sairia da Lakewood 
House e descobriria que seu carro desaparecera.
E nesse momento a perseguio comearia.
Continuamos a viajar pelo amanhecer, vendo e sentindo o sol subir pelo cu. Quando se tornou mais claro, contemplamos um cu azul  frente, apenas uma pequena nuvem 
branca aqui e ali, contra o horizonte.
- Por que no paramos para tomar um caf? - sugeriu Raven. - Preciso de um pouco de cafena... e tenho de ir ao banheiro.
- Eu tambm - acrescentou Borboleta.
Fiquei contente por elas pedirem. No queria ser a primeira a dizer, mas j me sentia como um balo cheio de gua. Avistei uma placa anunciando uma parada quinze 
quilmetros adiante.
- Vamos parar ali - murmurei, acenando com a cabea.
Uns dez minutos depois entramos no estacionamento. Samos do carro e nos espreguiamos. Provavelmente por causa da tenso, sentia as costas doendo e as pernas davam 
a impresso de terem sido espremidas no famoso barril de Gordon e Louise.
-  maravilhoso poder me esticar - murmurou Raven.
- Se j est se queixando, imagine como estar quando chegarmos ao Meio Oeste - comentei.
Eu tinha de manter todas elas fortes e determinadas, o que significava que eu precisava ser ainda mais forte.
- Quem est se queixando? Por acaso me ouviu reclamar de alguma coisa, Crystal?
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- No vamos discutir isso aqui. Vamos embora.
 Crystal pegou a mo de Borboleta, e as duas se encaminharam para o restaurante.
Havia trs motocicletas paradas na frente. Atravs da janela, avistei trs rapazes de bluso de couro, olhando para ns. Ou melhor, olhando para Raven.
- L vamos ns outra vez - adverti.
- O que foi?
Raven remexia em sua bolsa e no notara os motoqueiros.
- Brooke est avisando que voc j arrumou um f-clube l dentro - explicou Crystal.
- Ahn... Parecem com os homens com quem minha me costumava sair. Significam encrenca. E das grandes.
Raven estremeceu um pouco, enquanto enlaava o prprio corpo.
- No se preocupe, Raven. No deixaremos que eles a incomodem.
Borboleta sempre se mostrava ansiosa em proteger Raven. Sabia o que era ser o alvo de atenes indesejveis.
- Vamos entrar e sentar - declarei. - Eles nos deixaro em paz se os ignorarmos.
Abri a porta do restaurante. Depois que pedimos, levantei-me para ir ao banheiro. Quando voltei, descobri que um dos motoqueiros sentara na minha cadeira. Pigarreei 
e ele comeou a se levantar. Crystal, Raven e Borboleta olharam para mim, agradecidas, como se eu tivesse acabado de salv-las de alguma espcie de tortura. Ao ouvir 
o motoqueiro falar, compreendi que fora isso mesmo que acontecera:
- Se precisarem de qualquer coisa, meninas, basta chamarem o Paulio. Estarei bem ali.
Ele apontou para a mesa onde estavam seus sebosos amigos. Por sorte, a garonete trouxe nossos pedidos
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No momento certo. Tratamos de encher nossos estmagos vazios. Assim que acabamos de comer, Crystal perguntou se no precisaramos de gasolina em breve.
Encherei o tanque aqui, antes de partirmos - respondi. - A caminhonete consome muita gasolina.
Ainda bem que temos o carto de crdito de Gordon.
- No precisa assinar o nome dele? - perguntou Borboleta, apreensiva.
- Usaremos uma dessas bombas em que basta inserir o carto. Vi uma assim quando chegamos.
Crystal pegou o mapa e comeamos a discutir a viagem, o lugar onde pensvamos que estaramos depois de mais um dia, que distncia conseguiramos percorrer no dia 
seguinte, entre outras coisas.
Mas subitamente nosso corao parou. Um carro da polcia estacionou bem na frente da nossa janela. Os guardas saltaram e olharam para a caminhonete de Gordon.
- Ainda  muito cedo para terem espalhado uma descrio - murmurei, olhando para Crystal  espera de confirmao.
- A menos que Megan tenha resolvido acordar Gordon depois que samos, e ele ligou para a polcia - respondeu ela.
Borboleta parecia prestes a chorar.
- Vo nos prender - balbuciou ela.
- Fiquem todas calmas - disse Crystal. - No se comportem de maneira suspeita.
A garonete trouxe-nos o caf e o suco no momento em que os guardas entravam.
- O que eles esto fazendo? - perguntei a Crystal. Ela olhou.
- Foram para o balco. Nem sequer esto olhando para ns.
Soprei o ar dos pulmes e recostei-me.
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- Teremos esse tipo de reao cada vez que encontrarmos policiais - comentei, desolada.
-  por isso que precisamos sair das estradas principais o mais depressa possvel - disse Crystal.
Ela voltou a estudar o mapa. A garonete serviu nossas torradas e bolinhos. Comeamos a comer.
- Para onde vocs vo?
Virei-me e deparei com um dos motoqueiros parado ao lado de nossa mesa.
- Visitar parentes, como eu disse antes - respon-deu Crystal.
- Comearam cedo as frias de vero, hein?
- Isso mesmo.
Lancei meu olhar, que dizia "Caia fora". Mas o rapaz me ignorou e tornou a se concentrar em Raven.
- Onde moram esses parentes?
Os cabelos castanho-escuros, sebentos, presos atrs, tinham fios que pareciam cordas de piano quebradas. O nariz era fino e os olhos escuros bem fundos. Se fizera 
a barba recentemente, no fora muito cuidadoso. Manchas escuras destacavam-se no queixo e nas faces. As costeletas pareciam cobertas de leo de motor.
Raven olhou para Crystal, em busca de ajuda.
- Vamos para uma pequena cidade nos arredores de Filadlfia - disse ela, indicando no mapa.
- Tem um mapa, hein?
Ele se inclinou, virando-se depois para os dois companheiros, que estavam terminando de pagar a conta.
- J estou indo! - Ele tornou a olhar para Crystal-- Conheo essa cidade. Devem entrar na primeira sada  esquerda naquela direo.
O rapaz fez uma pausa, apontando para um dos lados da estrada pela janela, antes de acrescentar:
- Sigam essa estrada por uns quinze quilmetros, at a 1-78. Podem cortar caminho por aqui. - Ele apontou
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Para o mapa de Crystal. - Pouparo oitenta quilmetros da viagem.
-  mesmo? - murmurou Crystal, estudando prontmente o mapa.
-   sim. Somos daqui, e por isso conhecemos os atalhos. Tenham uma boa viagem. Com um sorriso de despedida, ele foi ao encontro dos amigos. Raven, que obviamente 
estivera prendendo a respirao, murmurou:
- Graas a Deus que ele foi embora!
- Talvez no seja um cara to ruim quanto pensamos - disse Crystal. - E se ele estiver certo, nossa viagem ser reduzida em muitos quilmetros. Alm disso, evitaremos 
o trfego mais intenso. Faz sentido.
Olhamos pela janela. Os trs montaram em suas motocicletas, observando-nos. O que tinha o rabo-de-cavalo acenou em despedida, enquanto o trio deixava o estacionamento, 
ruidosamente. Terminamos o caf, as torradas e os bolinhos, pagamos a conta e samos do restaurante, to discretas quanto podamos. Um dos guardas no balco lanou-nos 
um olhar, mas logo voltou a se concentrar em seus ovos mexidos.
- Meu estmago embrulhou quando aquele guarda olhou para ns - comentou Raven, depois que embarcamos na caminhonete. - Brooke tem razo. Vamos suar cada vez que 
encontrarmos um carro de polcia. Crystal tornou a estudar o mapa.
- Vamos tentar o atalho que ele nos indicou. Parece um caminho menos movimentado e talvez no encontremos nenhum carro de polcia por algum tempo.
Boa idia - concordei.
Fomos at as bombas de gasolina. Enchi o tanque, paguei com o carto de crdito de Gordon, inserido na fenda da bomba. Partimos sem olhar para trs.
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-  aqui - disse Crystal, apontando para uma estrada  esquerda, que parecia no ser bem conservada.
- Tem certeza?
- Foi o que ele nos disse - respondeu Crystal. Primeira sada  esquerda depois do restaurante.
- Est certo.
A estrada tinha muitas rachaduras na pavimentao. Depois de apenas dois ou trs quilmetros, s tinha buracos. O que me obrigou a diminuir a velocidade.
- No pode ser por aqui - comentei. - No  de admirar que tenha to pouco movimento. Ningum passa por esta estrada.
- Tenho certeza de que  a estrada que ele indicou - garantiu Crystal. - Foi o que nos disse.
Nesse instante, como se pudessem ouvi-la, os trs motoqueiros apareceram. Dois deles cruzaram a estrada  nossa frente, enquanto o terceiro, o de rabo-de-cavalo, 
veio para o lado da caminhonete. Tive de parar. Os dois  nossa frente pararam suas motocicletas no meio da estrada, junto do pra-choque da caminhonete, e saltaram.
- O que est acontecendo? - perguntei, a voz trmula.
- Vejo que seguiram meu conselho de pegar o atalho - disse Paulio. - Devem estar com muita pressa.
- E da? - indaguei, esperando que ele no percebesse o tremor em minha voz.
- E da que esto numa estrada de pedgio - respondeu ele, sorrindo.
- Como?
Comecei a sorrir, mas me contive quando um dos outros dois abriu a porta do lado de Raven e inclinou-se para dentro.
- Ol de novo - murmurou ele.
Era baixo e corpulento, cabelos castanho-claros, olhos azuis, a boca fina, queixo redondo, marcas de espinhas
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Nas faces, o nariz bulboso. Estendeu a mo e pegou os cabelos pretos de Raven.
No me toque! - exclamou ela, desviando a cabea-
O medo em seus olhos era evidente.
Estou apenas fazendo um elogio. No seja to arrogante, Maria.
- Meu nome no  Maria - murmurou Raven, sem querer falar com ele mais do que o necessrio.
paulio enfiou a mo no bolso e tirou um canivete de mola.
- O que acha de cortarmos um pouco desses cabelos para prendermos em nossas motocicletas, Duke?
- Boa idia.
Duke estava quase no colo de Raven. Seu bafo de usque era to intenso que impregnava o carro. Deixou-me nauseada.
Pelo espelho retrovisor, percebi a expresso de terror de Borboleta e a raiva de Crystal. Estvamos no meio do nada, sem casas por perto, sem nenhuma outra pessoa 
nas proximidades... e, com toda certeza, no havia trfego por ali. Haviam nos enganado quando nos convenceram a aceitarmos seu conselho.
- Quanto dinheiro vocs tm? - perguntou-me Duke.
- Temos toneladas de dinheiro.  por isso que viajamos num carro to bom.
Falei em tom de desafio. Instintivamente, sabia Que nossa situao se tornaria ainda pior se deixasse transparecer algum medo.
- Espertinha, hein? Talvez eu corte seus cabelos tambm... embora no tenha muito.
- Que tal a orelha dela? Voc poderia pendur-la em seu cinto como um trofu, Tony.
O terceiro homem ps o p no pra-choque dianteiro e soltou uma risada.
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- O pedgio  de cinqenta dlares - anunciou Duke. - Mas daqui a cinco minutos aumenta para setenta e cinco.
- O prazo  de dois minutos, Duke - disse Paulio os trs rindo.
- Ele tem razo. Dois minutos. E ento?
- Acho que vou pegar outra estrada - declarei.
- Tarde demais. J esto nesta.
Duke tentou de novo pegar os cabelos de Raven que empurrou sua mo com toda fora.
- Contaremos tudo  polcia se no nos deixarem em paz - ameaou Crystal.
- Quer saber de uma coisa? - Duke mexeu um pouco com a cabea, at contra-la da maneira que queria. - Acho que no faro isso. Certo, quatro-olhos?
- No - respondi. - Vocs esto completamente errados em tudo.
Pisei no acelerador. A caminhonete saltou para a frente. A porta aberta bateu nas costas de Duke, que perdeu o equilbrio e caiu para o lado. O que estava na nossa 
frente conseguiu tirar o p do pra-choque a tempo, mas perdeu o equilbrio e desabou na estrada. A caminhonete derrubou as motocicletas, jogando uma para a esquerda, 
a outra para a direita. Senti as rodas passarem por cima.
Os motoqueiros comearam a nos xingar. Raven fechou a porta, enquanto eu dava marcha  r. Paulio ligou sua motocicleta e avanou para ns. Mas fui direto para cima 
dele, obrigando-o a acelerar para sair da frente. Quase voou para fora da estrada, a motocicleta batendo na vala e dando uma cambalhota no ar. No esperei para ver 
o que mais aconteceu. Avanamos aos solavancos pelos buracos, to depressa que nossas cabeas quase batiam no teto. Acelerei mais ainda assim que avistei a estrada. 
Minutos depois, deixamos aquele caminho esburacado.
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- No acelere tanto, Brooke - advertiu Crystal.
Diminu um pouco a velocidade. Borboleta estava chorando. Raven parecia atordoada. Mantive os olhos na estrada, um pouco tonta com a nossa fuga.
Crystal olhou pela janela traseira.
- No h sinal deles - avisou ela, com um sorriso. - Acho que voc deixou as motocicletas avariadas.
- Continue em frente - balbuciou Raven. - No diminua a velocidade demais.
No diminu. Seguimos em frente, sem ningum falar, apenas os soluos de Borboleta e nossa respirao ofegante povoando o ar.
- Est tudo bem agora, Borboleta - murmurou Crystal, passando o brao em torno dela e comeando a confort-la.
-  melhor observar a estrada e conferir o mapa, Crystal - declarei. - No podemos cometer nenhum erro agora.
- Vamos pegar a sada para a 1-287, a cerca de quarenta quilmetros daqui - disse ela. - Fique atenta.
Quando chegamos l, fiz tudo certo e seguimos para sudoeste. Crystal nos orientou para outra estrada. Pouco depois, nossa direo era para oeste, a caminho da Pensilvnia. 
No havia qualquer sinal dos motoqueiros. Senti-me bastante confiante para recostar e relaxar. Mas Crystal continuava preocupada com Borboleta. Percebi por sua expresso, 
quando olhei pelo espelho retrovisor. Numa reao instintiva, sa da estrada na Prxima parada. Todas respiramos fundo. Borboleta dava a impresso de que se tornaria 
catatnica a qualquer momento.
- Precisamos disso - murmurou Crystal.
Olhei para Raven, que acenou com a cabea. Ns duas fomos tambm para o banco traseiro. As cabeas se juntaram.
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- Somos irms. Sempre seremos irms... Entoamos o cntico, abraadas. Depois de alguns momentos, a tenso pareceu sair de nossos corpos e flutuar para longe.
Recostamo-nos, aliviadas.
- Viram a cara de Duke quando Brooke pisou no acelerador? - indagou Raven, rindo.
- A porta acertou-o com toda fora - disse Crysta
- Gostaria de saber se ele perdeu um pouco de cabelo.
- Senti as rodas passarem por cima de uma das motocicletas - comentei.
- Eles tambm no podem se queixar  polcia, no ? - perguntou Raven.
- O cara de rabo-de-cavalo criou asas - acrescentei.
Rimos de novo. Depois, ficamos quietas por um longo tempo.
- Acho que formamos uma grande equipe - murmurei. - Somos as Superorfteiras... no concorda, Borboleta?
Ela acenou com a cabea, sorrindo.
- Vamos recomear a viagem.
Fui me sentar ao volante, antes de sugerir:
- Que tal uma cano, Raven?
Ela pensou um instante e comeou a cantar. As outras juntaram-se em coro. "Vai dar tudo certo", pensei.
Viajamos por quase trs horas antes de pararmos para almoar e ir ao banheiro de novo, desta vez num restaurante barulhento. Era um pouco mais caro do que eu previra. 
Compreendi que Crystal tinha razo sobre a rapidez com que gastaramos nosso dinheiro. Apesar do carto de crdito de Gordon para a gasolina, viajar ainda era muito 
caro, principalmente com o nosso oramento. Pensei em vrias maneiras de economizar. Sugeri
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Uma lanchonete fast food de galinha para o jantar. Foi ri oi o que  fizemos.
A essa altura, como viajramos durante toda a noite e a maior parte do dia, todas nos sentamos e parecamos  eSgotadas. Ainda faltava algumas horas para anoitecer 
mas eu achava que no tinha mais condies de continuar dirigindo por muito tempo.
- Acho que teremos de dormir mais cedo esta noite - sugeri.
- Boa idia - concordou Crystal. - Procure uma estrada sem sada.
Tivemos de percorrer mais trinta quilmetros antes de encontrarmos um lugar que parecia promissor para todas. Quase passamos adiante, porque a entrada se achava 
oculta por bordos luxuriantes, os galhos formando uma arcada verde natural. A estrada fora outrora pavimentada, mas agora estava coberta por cascalho.
- Perfeito! - exclamou Crystal.
- No h ursos por aqui? - indagou Borboleta, preocupada.
- Os ursos no so normalmente agressivos, a menos que sejam ameaados ou que os filhotes da mame ursa corram perigo - explicou Crystal.
- Normalmente? - repetiu Raven, alteando as sobrancelhas.
-  bem provvel que agora ns afugentemos a maior parte da vida selvagem por aqui - concluiu Crystal.
Entrei no caminho e fui avanando devagar, at encontrar um lugar na beira que parecia seguro.
- E agora? - perguntou Raven.
- Agora vamos limpar o carro e torn-lo o mais confortvel possvel - respondeu Crystal. - Acho que estamos todas cansadas demais para dormir no teto.
Ela tinha razo nesse ponto. Demorou um pouco Para baixarmos o encosto do banco traseiro. As trancas
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estavam enferrujadas e emperradas. Por baixo dos bancos no havia apenas papis de bala, bandejas de hanbrguer e garrafas vazias de cerveja e vinho, mas tambm 
uma bandeja que continha, outrora, alguma comida chinesa, agora endurecida e mofada.
- Vamos dormir com as janelas abertas - props Raven.
- Os mosquitos podem entrar - lembrei. Crystal inclinou a cabea concordando. Ajeitamos tudo para que ela, Raven e Borboleta pudessem deitar-se, confortveis, atrs, 
enquanto eu me acomodava no banco da frente. Eu no esperava mais que dez minutos para que ns quatro pegssemos no sono.
O sol acabara de mergulhar por trs dos bordos, btulas e nogueiras que nos cercavam. A escurido parecia um manto,quente a nos envolver. Havia um silncio profundo. 
Os passarinhos tambm pareciam dormir.
- Fico me perguntando o que Gordon est fazendo neste momento - murmurou Raven.
- Pensando em ns, com toda certeza - respondi. Raven soltou uma risada.
- Eu no quero nem pensar nele - disse Borboleta. Todas grunhimos em concordncia.
- Boa-noite - murmurei.
As outras tambm deram boa-noite. S acordei quando o carro ficou todo iluminado. A luz incidiu em minhas plpebras, desmanchando meus sonhos. Abri os olhos e descobri 
que a claridade no era causada pelo sol da manh, e sim por faris.
"Oh, no!", pensei, sentando no banco. Havia um carro logo atrs de ns.
Antes que eu pudesse acordar as outras, algum bateu na janela do meu lado. Era um velho, espiando com a mo por cima dos olhos. Meu corao disparou. Deixara a 
janela do meu lado completamente fechada.
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Baixei-a devagar. Enquanto fazia isso, as outras se remexeram e acordaram.

Essa no! - exclamou o velho. - Um bando de desordeiros que se perdeu no caminho. O que esto fazendo aqui, dormindo no carro, quando temos espao de sobra l em 
casa? Vamos embora.
Ele apontou para a frente e acrescentou:
- Sigam por esta estrada. Nana ficar feliz em ver vocs todas. E agora vamos embora.
Olhei para Crystal.
-  melhor fazer o que ele diz - sussurrou ela. - Afinal, no podemos atropelar um velhinho na estrada.
Liguei a caminhonete e segui em frente, devagar. Ele foi para seu carro e nos acompanhou, quase colado no pra-choque traseiro.
No havia mais nada que pudssemos fazer.
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5 - Uma viso do paraso

A casa de dois andares que surgiu a nossa frente parecia perdida no tempo. Havia um pequeno jardim na frente, precisando urgentemente de ser cortado, e o mato de 
ser arrancado. As rvores perto da casa, em particular os trs salgueiros-chores, puderam crescer  vontade. Os galhos encostavam em alguns pontos do telhado. Calculei 
que durante o dia as folhas bloqueavam uma boa parte do sol; e quando o vento soprava, os moradores deviam imaginar que galhos enormes arranhavam o telhado.
A casa tinha uma fundao de pedra, sendo a parte externa de estuque spero e granuloso. Havia uma arcada  direita, dando para um pequeno ptio e um jardim. Quando 
os faris do carro iluminaram o lugar, avistei o que parecia ser uma fonte quebrada, parecendo um enorme pires, com um querubim no meio.
As janelas tinham venezianas pretas. Havia, no primeiro andar, luzes acesas por trs de algumas.  direita da casa existia um campo dominado pelo mato alto. Estendia-se 
por alguma distncia, at alcanar um bosque escuro. A garagem, separada, ficava  esquerda. O velho passou por ns, apontando com o dedo o lugar onde queria que 
eu estacionasse, depois entrou no caminho
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para a garagem, com a pavimentao toda rachada e esburacada. Parou ali e saltou, enquanto eu desligava o motor.

Talvez devssemos dar a volta e escapar enquanto ainda temos uma oportunidade - sugeriu Raven.
- Ele pode chamar a polcia, que estaria em nosso encalo em poucos minutos - disse Crystal. - Com toda certeza, a essa altura a polcia j recebeu a nossa descrio 
de Gordon.
- Vamos saber o que ele quer - murmurei.
- No fiquem sentadas a! Saiam! Saiam! - gritou o velho, enquanto se aproximava, esfregando as mos. - Nana est l dentro, ouvindo msica e tricotando alguma coisa 
para as crianas de Gerry.
- Quem  Gerry?
- Meu filho.  o nico que ainda mora por estas bandas. Helen casou e mudou-se para Akron. Burt foi para Atlanta. Acho que Burt nunca vai casar. Vamos entrar e tomaremos 
um chocolate quente.
Olhei para Crystal. Ela acenou com a cabea, e ns quatro samos da caminhonete.
- Mas que coisinha linda! - exclamou o velho, olhando para Borboleta. - Gerry tem uma filha com os cabelos de Cachinhos Dourados que nem voc. Qual  o seu nome?
- Janet - respondeu Borboleta, tmida.
- Janet, Janet...
Ele coou a cabea, como se tentasse localiz-la em sua memria. Tinha um pouco de cabelos brancos e ralos em torno da coroa calva, com enormes sobrancelhas, iguais 
s de Papai Noel. O rosto era tambm redondo e jovial. Estava muito escuro para se divisar mais alguma coisa nele, exceto que devia ter trs a quatro centmetros 
a mais do que Raven, a mais alta das quatro. Os braos eram musculosos, os antebraos compridos,
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as mos grandes. Era meio encurvado, os ombros projetando-se junto ao pescoo largo. Apesar da idade,  ainda havia algo de poderoso no velho, algo que me fez pensar 
num antigo tronco de rvore, envelhecido, plido, mas ainda forte e determinado.
- Vamos entrar.
Ele seguiu na frente por um caminho de ardsia, algumas pedras rachadas e outras salientes, depois de anos de congelamento e degelo.
A porta da frente tinha uma janela multicolorida no centro. Ele apenas girou a maaneta. No estava trancada.
- Nana, temos visitas!
O velho deu um passo para o lado, segurando a porta, a fim de nos deixar entrar. Assim que passamos pela porta, senti os aromas que ainda restavam do jantar. Parecia 
ter sido bife de panela e po feito em casa. A casa irradiava o calor de um cobertor velho, muito usado, mas confortvel e aconchegante. Fotos da famlia ocupavam 
as paredes do pequeno vestbulo. Havia um suporte,  direita, para pendurar chapu e casaco, com um velho aquecedor de ferro batido  esquerda. Uma capa de abajur, 
de tric rosa, fora ajeitada sobre o aquecedor, com alguma correspondncia ainda fechada por cima.
Podamos ouvir o som de uma msica saindo de uma das salas alm da entrada. Crystal sussurrou:
- Debussy.
Ela falou to depressa que pensei no jogo "Informe a Msica". Crystal podia dar o nome de uma msica depois de ouvir apenas duas notas.
Raven fechou a porta no instante em que surgiu a nossa frente uma mulher idosa e magra, os cabelos brancos presos com grampos por cima das orelhas e em torno da 
cabea. Usava um vestido de algodo azul-claro,
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com um enorme alfinete de camafeu no pescoo. A bainha do vestido descia at os tornozelos. As mangas eram trs-quartos, deixando  mostra a faiscante pulseira de 
ouro e pedras preciosas no pulso direito e o relgio  caro no esquerdo.
Os olhos eram enormes, castanho-claros, os lbios quase perfeitos, contrados num sorriso gentil e cordial. A pele parecia extraordinariamente suave, com ps-de-galinha 
profundos nos cantos dos olhos e algumas manchas da idade na testa e nas faces. No usava batom ou qualquer outro cosmtico. No achei que ela precisasse. Devia 
ter sido muito bonita quando era mais jovem.
- Quem so elas, Norman? - perguntou a velhinha, a voz tambm suave e cordial.
- Quatro crianas perdidas, Nana. Encontrei-as dormindo no prprio carro no caminho para nossa casa.
- Oh, no!
- No tivemos a inteno de invadir a propriedade - apressei-me em dizer. - Pensamos que era um caminho que ningum usasse.
- Parece mesmo que nunca usamos. J lhe disse isso, Norman. Devia falar com Gerry para contratar Billy Powers e consertar tudo.
- Gerry diz que vai custar os olhos da cara... e sabe como ele se sente em relao a essa casa. - O velho olhou para ns. - Meu filho no quer que continuemos a 
morar aqui. Diz que o custo de manuteno  muito alto... ainda mais para candidatos ao asilo de velhos como ns.
- Pare com isso, Norman Stevens - protestou Nana. - Gerry nunca disse nada assim.
Norman sorriu para ns.
- E nem precisa dizer. Sei o que ele est pensando.  meu filho. Tenho que saber, no  mesmo? E agora digam seus nomes a Nana.
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Nana sorriu, com as mos cruzadas sobre a barriga, e esperou. Desejei ter perguntado a Crystal se ela achava que deveramos dar nossos nomes verdadeiros, mas no 
houve tempo.
- Sou Brooke - informei.
As outras tambm se apresentaram. Quando Borboleta falou, os olhos de Nana se tornaram ainda mais suaves, o sorriso mais profundo.
- Olhem s para ela! Que coisa preciosa! Imaginem. nem s, dormindo no carro! Quero saber tudo sobre vocs, meninas, e por que dormiam no carro, quando tenho tantos 
quartos disponveis.
Nana falava como se tivesse nos conhecido durante toda a vida.
- Eu estava pensando em preparar um chocolate quente - anunciou Norman.
- Faa isso, Norman Stevens, mas sem sujar minha cozinha - disse ela, com um brilho afetuoso nos olhos.
- Ela vive implicando comigo - comentou o velho, rindo. - H quase sessenta anos.
- Venham comigo - disse Nana, levando-nos para a sala de estar.
Atravancada era a palavra que aflorava de imediato na mente, mas no suja ou desarrumada. Cada mesa, cada prateleira, cada espao disponvel, tudo estava ocupado 
por antigidades, vasos, porta-retratos ou estatuetas. Havia muita coisa de lato e de madeira de lei, cadeiras com almofadas macias e dois sofs, muito usados, 
mas no rasgados. Haviam sido feitas algumas tentativas em vo para polir e reformar os braos das cadeiras e as mesas. Na parede da direita havia uma estante, com 
o que pareciam ser primeiras edies, encadernadas em couro e pano. Percebi que os olhos de Crystal foram atrados para l no mesmo instante. Ela ps-se a
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Verificar as lombadas dos livros, absorvendo os ttulos como uma exploradora literria que acabara de achar um tesouro.
- Sentem onde quiserem - disse Nana. - Norman vai  demorar um pouco para encontrar uma panela e medir as seis xcaras de chocolate quente. Seus olhos j no so 
mais como antes. Gerry no quer que ele continue a dirigir, mas Norman no  de admitir a idade ou uma fraqueza de qualquer tipo. Nunca foi.

- Vocs esto mesmo casados h sessenta anos? - perguntou Raven, arriando-se devagar numa cadeira.
Nana foi se acomodar na cadeira de balano.
- Vamos fazer 62 anos de casados no prximo dia 5 de novembro - anunciou ela, orgulhosa.
Para Raven, era como conhecer uma pessoa sada do Acredite Se Quiser de Ripley. Ela ficou olhando-a com cara de espanto.
- Parece que foi ontem - continuou Nana. - Posso v-lo entrando na casa dos meus pais em Denton, o chapu na mo, debaixo do brao uma pequena caixa de bombons para 
mame e uma garrafa do licor de amora que a me dele fizera para papai. Trazia tambm um buqu de rosas amarelas para mim. Eram muito caras naquele tempo. "Vim pedir 
a mo de sua filha em casamento",  declarara. Percebia-se que ele ensaiara aquilo durante o  dia inteiro. Papai pensara um pouco, s para dar a mpresso de que era 
uma idia que nunca lhe ocorrera tes, quando era uma coisa esperada por todos que nos nheciam e sabiam h quanto tempo namorvamos. Ela sorriu ao recordar.
- "Acha que pode dar uma vida boa a minha filha?", perguntou papai. "Acho, sim, senhor. Ser uma vida de agricultor, mas boa e honesta", respondera Norman. - Nana 
soltou uma risada. - E estamos aqui desde ento.
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- Est querendo dizer que viveu todos esses anos no mesmo lugar? - indagou Raven. - Na mesma casa?
- Isso mesmo, meu bem. Norman no queria dei-xar esta propriedade, no importava o que acontecesse. Planeja morrer aqui... e eu tambm, se o bom Senhor assim desejar. 
 por isso que Gerry fala em vo ao insistir em lares para os idosos e coisas assim. Poderia at uivar para a lua que no adiantaria. E agora, meninas, falem-me 
sobre vocs.
Ela olhou para mim, Raven, Crystal e Borboleta, antes de acrescentar:
- Por que dormiam no carro? De onde vocs so? Para onde vo?
Olhei para Crystal. Ela tinha agora de rebuscar sua imaginao e encontrar uma boa histria de cobertura para ns.
- Somos amigas que estudam numa escola s para meninas no leste - comeou Crystal. - Permanecemos unidas porque somos as mais pobres da escola, com bolsas de estudo. 
Convidei-as para passarem parte das frias de vero em minha casa. Estamos indo para l, tentando economizar ao mximo na viagem. Foi por isso que tivemos a idia 
de dormir no carro, para no gastar o dinheiro no hotel. Achamos que seria seguro e divertido, como acampar.
Fiquei impressionada com a habilidade de Crystal para inventar uma histria. Adquirira uma tremenda imaginao com todos os livros que lera.
- Mas as mes e os pais de vocs no ficaro preocupados se no telefonarem para avisar onde esto?
- J telefonamos, pouco antes de pararmos para passar a noite - respondeu Crystal. - Mas todos sabem que no temos pressa, pois queremos apreciar as paisagens.
Nana sacudiu a cabea e balanou na cadeira.
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- Ah, as crianas de hoje... Quando eu tinha a idade de  vocs sentia medo s de pensar em percorrer cinco quilmetros sozinha. E aqui esto vocs, andando por todo 
o pas.  verdade que se precisa ter muito cuidado hoje em dia.
-  claro que temos - assegurou Crystal. Nana olhou para Borboleta.
- Aposto que voc no  muito mais velha do que minha neta Lindsey. Quantos anos tem, querida?
- Quase dezessete - respondeu Borboleta, a voz apenas um pouco acima de um sussurro.
-  mesmo? Pensei que tinha em torno de doze. Tenho certeza de que sua me sente muita saudade de voc e desses lindos cabelos dourados.
Borboleta comprimiu os lbios e lanou um olhar rpido para Crystal, que se apressou em dizer:
- A me dela morreu. Ela vive com o pai, que est sempre viajando a trabalho.
- Ahn... - murmurou Nana, com um sorriso compadecido. - Sinto muito.
- Borboleta tem muito talento - interveio Raven. - Ser uma bailarina famosa um dia.
- Borboleta?
-  seu apelido - expliquei.
- Voc lembra mesmo uma linda borboleta. Qual  o seu tipo de dana, querida?
- Bal - respondeu Crystal. - Ela  capaz de danar com essa msica - e acenou com a cabea para o toca-disco antigo, ainda ligado.
- Ah, que maravilha! - exclamou Nana, batendo palmas. - Eu adoraria ver.
Crystal olhou para Borboleta, que passou de um olhar de terror para uma expresso de orgulho. Talvez ela no fosse bastante boa para ingressar numa grande
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escola de bal, mas com certeza podia mergulhar por completo na dana, depois que comeava.
- Mostre a ela - exortou Crystal.
- Isso mesmo - acrescentou Raven. - Dance um pouco.
Borboleta olhou para Nana, que sorria em expectativa, depois levantou-se. Assumiu uma posio e todas nos recostamos. Foi nesse instante que Norman apareceu com 
o chocolate quente.
- Aqui est! - anunciou ele.
- Fique calado e sente-se - ordenou Nana. - Vamos ter uma apresentao.
- O que houve? - Ele olhou para Borboleta. - Ah, desculpem...
Norman largou a bandeja numa mesinha e sentou-se. Borboleta comeou. No danou por muito tempo, nem fez nada de especial. J a vramos praticar os movimentos muitas 
vezes, mas para Nana e Norman foi como se uma prima ballerina tivesse entrado na casa. Nana bateu palmas com o maior entusiasmo quando Borboleta terminou.
- Foi muito bom, muito bom... - murmurou Norman. - Voc se apresenta em pblico?
- No - respondeu Borboleta, o rosto vermelho.
- Mas deveria.
- Ela ainda vai se apresentar - assegurou Raven.
- Raven  cantora - disse Borboleta, tentando desviar a ateno do casal idoso.
-  mesmo? - disse Norman, impressionado.
- Ela sabe cantar as msicas da Broadway - acrescentou Borboleta. - Cante aquela cano de O Fantasma da pera. Eu adoro.
- Ahn... est bem - murmurou Raven, hesitante. Levantou-se e foi at a lareira. Norman serviu o
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chocolate quente. Borboleta foi sentar perto de Nana, que inClinou-se para afagar seus cabelos, sorrindo.
Raven comeou, a voz mais melodiosa do que nunca. Todo mundo ficou impressionado, at mesmo ns. Nana tornou a bater palmas. Norman recostou-se, balanando a cabea 
em admirao.
- Vocs so de alguma escola de artes? - perguntou Nana.
- A escola d nfase s artes - declarou Crystal, na voz de professora que podia assumir com a mesma facilidade com que vestia uma blusa.
- Crystal vai ser mdica - informou Raven, querendo que ela se sentisse includa. - Mas s vezes tambm escreve poesia.
-  mesmo? - murmurou Norman, tomando um gole do chocolate quente. - Pois ento vamos ouvir alguma coisa.
Crystal pensou por um momento, correu os olhos pela sala e depois levantou-se.
- Escrevi esta poesia para meus avs, h muito tempo - declarou ela.
Minhas sobrancelhas se altearam abruptamente, como se fossem sair do rosto. Como ela conseguia inventar aquelas coisas to depressa?
- No conheo meu passado, exceto atravs de vocs - comeou Crystal, os olhos no teto. - No conheo meu nome, exceto atravs de vocs. Quando penso em minha voz, 
em meu rosto, por que rio e choro de coisas diferentes, paro e penso em vocs, as razes do meu ser, meu av e minha av, que partilharam seu amor e sonhos comigo, 
sempre que puderam. Mesmo agora, penso neles sempre que penso em mim mesma.
Ela fez uma pausa, baixou os olhos e tornou a sentar-se.
-  lindo, meu bem... - murmurou Nana. - O que acha, Norman?
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- Estou emocionado. Acho que compreendi tudo. Todo mundo riu.
- E agora fale de voc - disse Nana, olhando para mim, em expectativa.
- No canto, no dano e no escrevo poesia.
- Brooke  nossa grande atleta... to boa que pode competir nas Olimpadas - informou Borboleta, feliz.
-  mesmo? - Norman acenou com a cabea para mim. - Tambm fui atleta, na juventude. Nunca fui de ficar dentro de casa... ningum podia me impedir de fazer as coisas 
ao ar livre.
Uma pausa e ele acrescentou, com uma risada amarga:
-  verdade que ningum acreditaria pelo estado em que se encontram as coisas por aqui.
- O gramado bem que precisa ser aparado - concordei.
- No posso negar. H tempo venho adiando esse trabalho.
- Devia se envergonhar, Norman Stevens - repreendeu Nana, gentilmente.
- J no consigo mais manter tudo em ordem - confessou Norman, sorrindo.
- Cuidar de um jardim , de fato, um trabalho rduo - interveio Crystal. - Sabemos disso muito bem, porque cuidar do jardim era uma das nossas tarefas na escola.
- Talvez vocs queiram dar uma ajuda a Norman no jardim pela manh - sugeriu Nana, depois de um momento de silncio.
- De manh?
Olhei para Crystal, que comeou a sacudir a cabea.
- Isso mesmo. No pensaram que eu as deixaria sair pela noite para dormirem num carro, quando tenho dois timos quartos, cada um com duas camas, no ? E as camas 
esto arrumadas, com lenis limpos. Sempre
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deixo tudo preparado para minha famlia, caso resolvam aparecer.
Pela tristeza em sua voz, era evidente que a famlia no lhe fazia visitas freqentes.
-  muita gentileza, mas...
Nana levantou-se, interrompendo Crystal:
- Pela manh teremos um antiquado caf da manh ao estilo do campo. H muito tempo que no preparo nada assim, por ter apenas duas pessoas em casa. Como que nem 
um passarinho, enquanto Norman hoje se sente satisfeito apenas com uma tigela de mingau de aveia.
- E suco de ameixa - acrescentou ele, sorrindo.
- No vamos falar sobre isso agora. Vocs, meninas, devem estar exaustas, depois de acordarem cedo e viajarem o dia inteiro. Vou lhes mostrar os quartos.
Crystal fez meno de falar, mas ela acrescentou no mesmo instante:
- Sem discusso. Por aqui, querida.
Nana passou o brao pelos ombros de Borboleta. Era espantoso como at estranhos podiam captar a necessidade especial de amor e aceitao que ela demonstrava.
Borboleta nos ofereceu um sorriso radiante. Raven olhou para mim. Dei de ombros e ns trs subimos a escada, atrs de Nana e Borboleta.
Cada quarto tinha duas camas com colches macios e travesseiros grandes. Havia um lindo papel de parede azul-claro nos dois quartos. As cortinas eram azul-escuras. 
As camas eram separadas por uma mesinha-de-cabeceira, com um abajur de lato, a copa de babados. Havia quadros a leo de paisagens rurais nas paredes; um dos quadros 
mostrava um homem e uma mulher contemplando uma manada de bois, enquanto em outro duas meninas vinham de um aude carregando baldes.
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Cada quarto tinha tambm duas cmodas com fotos em molduras de pewter por cima. Nana disse que eram de seus filhos e netos. Disse ainda que sentia muita saudade 
e que ficava feliz quando vinham visit-la - Nada  to feliz quanto uma casa cheia de gente da famlia - comentou ela, triste.
Ns quatro trocamos olhares. Se ao menos ela soubesse o quanto queramos isso tambm, pensei. Sentia-me mal por mentir para ela, e percebi que Crystal tambm estava 
contrariada.
- O banheiro fica no outro lado do corredor - informou ela. - Algum precisa de alguma coisa para dormir? Tenho lindas camisolas para emprestar, meninas.
- Seria timo - murmurou Raven, ansiosa para tirar as roupas amarrotadas.
- Eu no preciso - declarei, pensando em dormir com minha T-shirt.
- Nem eu - acrescentou Crystal, tirando uma camisola da mochila que trouxera consigo.
Borboleta deixara suas coisas no carro e disse a Nana que gostaria de usar uma camisola emprestada, se fosse possvel.
- Tenho a camisola certa para voc, querida. Nana abriu uma gaveta numa das cmodas e tirou uma camisola azul e rosa, com um lao na gola.
- Aposto que  do tamanho certo, meu bem. Borboleta pegou a camisola e contemplou-a como se fosse de ouro.
- E agora, meninas - acrescentou Nana -, decidam como se dividir pelos quartos.
- Vamos dormir como na escola - explicou Crystal.
- Algum precisa de mais alguma coisa? - indagou Nana.
Sacudimos a cabea. Estvamos todas cansadas demais agora
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- Vou pegar aquela linda camisola que lhe prometi, querida - acrescentou Nana, ao se retirar.  Borboleta sentou-se numa das camas.
-   muito agradvel - disse ela. - Eu dormia num quarto parecido quando vivia com Celine e Sanford.
- Estou to cansada que poderia dormir num banco de praa - murmurei. - At amanh.
- Ser mesmo certo? - especulou Crystal, em voz alta.
Dei de ombros.
- Para mim . Tenho certeza de que  melhor do que dormir no banco da frente do carro.
- Eu bem que gostaria que este fosse o nosso lar e eles os nossos avs - comentou Borboleta.
Todas ficaram em silncio, concordando em pensamento. Nana voltou com a camisola para Raven.
- Era minha quando eu era mais jovem - explicou. - Espero que goste.
Os olhos de Raven revelavam toda a sua satisfao, enquanto pegava a camisola e a comprimia contra o corpo.
- Obrigada - murmurou ela, esfregando o linho branco no rosto, passando os dedos pelas flores bordadas ao longo da gola.
Ver Raven com aquela linda camisola antiga me deu vontade de tambm pedir uma emprestada. Imaginei que me sentiria como uma princesa numa camisola assim. Mas no 
queria mais saber de coisas bonitas e fingimento. No me permitiria acalentar esperanas por coisas que nunca teria, mas nunca mesmo. Era muito Melhor me sentir 
satisfeita com a vida que eu levava; assim, sabia que no poderia ser desapontada.
Peguei no sono no instante em que encostei a cabea no travesseiro macio, com a fragrncia de flores nas narinas. Foi a melhor noite de sono que tive em muito
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tempo. Pelo que as outras comentaram na manh seguinte, tambm foi para elas.
O aroma de po fresco, caf, ovos e bacon era  melhor do que qualquer despertador. Assim que meu nariz absorveu os aromas, os olhos se abriram abruptamente Raven 
j havia se levantado. Em segundos, meu estmago comeou a roncar.
E, ainda por cima, fazia uma linda manh. Os passarinhos cantavam l fora. O sol entrava atravs da cortina, realando todas as cores no quarto. Que diferena despertar 
aqui, pensei, vendo tantas coisas bonitas, em vez de naquele quarto horrvel na Lakewood House, que chamramos de lar por tanto tempo.
Quando estiquei a cabea para o corredor, fiquei surpresa ao constatar que Borboleta e Crystal j estavam descendo. Raven saiu do banheiro. Pela expresso do seu 
rosto", compreendi que ela tambm sentia-se feliz por estar numa casa aconchegante e segura.
- Depressa, dorminhoca! - exclamou ela, quando me encaminhei para o banheiro. - Tenho tanta fome que posso comer sua parte tambm, se no descer logo.
Ri baixinho para mim mesma. Era maravilhoso ter a velha Raven de volta.
Assim que sentei para comer, Norman entrou pela porta dos fundos, ofegante.
- O que houve com voc, Norman? - perguntou Nana.
-  a droga daquele cortador de grama. Enguiou de novo.
Ele sentou-se com um grunhido.
- Verificou a gasolina? - perguntei.
- Hum... Esqueci de olhar.
Norman levantou-se. Sa atrs. Ele foi direto para o cortador de grama e desatarraxou a tampa do tanque de combustvel. Soltou uma risada sem graa.
- Essa no! - exclamou ele, coando a cabea
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- Tem alguma gasolina por aqui? - perguntei, torcendo para que ele no se  sentisse embaraado demais.
- Acho que tenho um pouco no galpo. Pode deixar que vou buscar.
Fui at o galpo. Depois de entregar a gasolina a Norman, tornei a entrar. Todas esperavam, Nana de p junto da janela, com um sorriso insinuante.
- Deu uma ajuda a Norman, no ? - perguntou ela.
- No foi nada - respondi, sem saber o quanto Nana vira.
Depois do caf da manh, Raven, Crystal e Borboleta ajudaram Nana a tirar a mesa. Sa para ajudar Norman a recolher a grama cortada. Fiquei contente ao ver Raven, 
Crystal e Borboleta sarem para nos ajudar pouco depois. Havia muita coisa para fazer.
Cada uma se revezou em fazer companhia a Nana, sentada na varanda e tricotando. Ela nos serviu uma limonada e depois sugeriu que almossemos na mesa de piquenique 
atrs da casa.
- H anos que no fazemos isso - comentou Norman.
Os dois pareciam to felizes quanto ns. Algumas vezes, durante o almoo, Borboleta e at mesmo Raven quase revelaram a verdade a nosso respeito. Referncias  Lakewood 
House, a Gordon e Louise provocavam perguntas de Nana. Crystal sempre encontrava alguma explicao lgica, mas a situao nos deixava tensas.
- Precisamos reiniciar a viagem - sugeri, ao final do almoo.
- Por que no passam outra noite aqui? Vou assar um peru e preparar meu pur de batata especial.
- Ela  famosa pelo pur de batata - comentou Norman. - Nenhuma torta, Nana?
- Ia ser uma surpresa, Norman. - Ela virou-se
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para ns. - Fao uma torta de ma que j ganhou muitos elogios.
- E prmios em feiras - acrescentou Norman.
- Adoro torta de ma - disse Borboleta.
Ela me lanou um olhar esperanoso. Olhei para Crystal e Raven.
- Mais um dia longe da estrada principal no seria m idia - murmurou Crystal.
Raven fez que sim com a cabea.
- Por que isso? - perguntou Nana. - Por que longe da estrada principal?
- Eu apenas quis dizer mais um dia sem enfrentar o trfego intenso na estrada principal - explicou Crystal.
Os olhos de Nana deslocaram-se de Borboleta para mim e depois para Raven, antes que ela balanasse a cabea com um sorriso suave. Quanto mais tempo ficssemos aqui, 
pensei, mais nossa histria se tornaria inverossmil.
- Talvez seja melhor partirmos depois do jantar - sugeri.
- No pode fazer isso. Mandarei Norman bloquear a passagem se tentar.  melhor viajar durante o dia. E vocs ganharam a estadia, ajudando Norman no gramado. Ficou 
quase como era no tempo em que Norman era mais jovem e podia cuidar de tudo aqui.
- Est bem, Nana - murmurei, cedendo. - Vamos ficar.
Borboleta exibiu um sorriso radiante.
- Talvez Janet queira danar para ns outra vez. Raven tambm poder cantar de novo. E aposto que se deixarmos Crystal sozinha aqui, ela vai escrever outra linda 
poesia. - Nana olhou para o marido. - Ter de buscar algumas compras no armazm, Norman. Talvez Brooke o acompanhe para ajudar.
- Seria timo. - Norman olhou para ns e sorriu. - Alguns avs em algum lugar so afortunados.
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Se pudssemos, contaramos toda a verdade, s para evitar que as lgrimas nos turvassem os olhos.
Fiquei feliz em acompanhar Norman, ouvindo-o falar sobre seus dias como agricultor, sobre a famlia, como conhecera e se apaixonara por Nana, o quanto amava os netos. 
Gostaria de v-los com mais freqncia, tanto por Nana quanto por si mesmo, ele disse. No pude deixar de especular por que os netos no apareciam mais regularmente. 
Pelo que Norman disse, calculei que sua nora no gostava de visitar a casa.
Ele comeou a fazer perguntas sobre minha famlia. Houve momentos em que fiquei acuada. No era to boa quanto Crystal para inventar histrias. De um modo geral, 
era melhor deixar que ela cuidasse de toda a conversa, pois ca em contradies algumas vezes e disse coisas que faziam pouco ou nenhum sentido.
S podia imaginar como minha famlia seria. Disse que no tinha irmos e usei as lembranas de Pamela como referncia.
- Ela parece bastante com a mulher de Gerry - murmurou Norman.
Circulei pelos corredores do armazm, localizando as coisas que Nana pusera na lista. Ele comentou que eu reduzia  metade seu tempo de fazer compras, porque eu 
era capaz de encontrar tudo mais depressa.
- Eu deveria adot-la - gracejou Norman, quando samos.
Quase perdi a respirao. Apressei-me em baixar os olhos, para que ele no percebesse minha expresso. Nunca fora to boa quanto Crystal, muito menos como Raven, 
para disfarar meus sentimentos e pensamentos. Raven costumava dizer que meus olhos eram como duas pequenas telas de televiso, porque meus Pensamentos se projetavam 
ali com a mesma nitidez de Ulum programa de TV.
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O jantar foi maravilhoso. Nenhuma de ns podia recordar algo parecido, nem mesmo quando vivamos  com nossos pais adotivos. Borboleta declarou que era como o Dia 
de Ao de Graas, o que provocou risadas.
Era difcil descrever a sensao de prazer que experimentvamos, mas parecia que Norman e Nana eram mesmo nossos avs, a famlia que jamais conheceramos, e uma noite 
os encontrvamos por acaso. Sentimos como se os conhecssemos durante toda a vida. As risadas eram espontneas, o sorriso e o afeto fluam com a maior naturalidade.
Depois do jantar, Borboleta tornou a danar. Desta vez, no entanto, danou por mais tempo, com um desempenho melhor que qualquer outro anterior. Raven cantou duas 
msicas. Teria cantado uma terceira se pedissem. Crystal escrevera um poema curto sobre a natureza a maneira como esta nos envolve e nos faz sentir vivos e espirituais.
Mantive os olhos fixos em Nana. No podia deixar de me sentir atrada por ela. Era gentil e muito bonita,  sua maneira. Havia uma sinceridade de sentimentos que 
nos faltara durante a maior parte da vida. Quando admirava Borboleta, ouvia Raven e Crystal, seus olhos se enchiam de lgrimas de alegria, o que tambm trazia lgrimas 
aos meus prprios olhos.
Norman tornou a nos agradecer por ajud-lo no quintal.
- Eu deveria contratar vocs para todo o vero - comentou ele, rindo.
- Ah, como gostaria que fosse possvel - acrescentou Nana. - Adoraria se ficassem.
- Eu tambm gostaria - murmurou Borboleta, cujo anseio por um lar e uma famlia era to intenso que no podia se conter.
- Mas temos de seguir para minha casa - inter-veio
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Crystal, semicerrando os olhos para fitar Borboleta Que no mesmo instante olhou para o cho.
- Claro, minha querida. Suas famlias j devem star preocupadas. Tenho certeza de que sua mame e seu papai esto ansiosos por rev-la. Agora, estou um pouco cansada. 
Podem ir para a sala de estar, assistir  televiso, meninas, se quiserem. - Nana se levantou, acrescentando: - Sentimos falta de todos os programas a que assistimos.
- Desculpem - murmurou Crystal.
- No h por que se desculpar. Foi melhor do que qualquer coisa a que poderamos assistir na televiso, no , Norman?
- Um milho de vezes melhor - murmurou ele, acenando com a cabea.
- Farei um bom caf da manh para vocs, meninas.
Nana encaminhou-se para a porta. Parecia cansada e, subitamente, muito velha.
- No precisa se incomodar, Nana - intervi. - Sairemos bem cedo.
- Sempre levantamos cedo - respondeu ela. - E no vo deixar esta casa sem alguma coisa quente no estmago, est bem?
- Est. Obrigado, Nana. Ela sorriu.
- Boa-noite, meninas. Durmam bem.
- Boa-noite, Nana - respondemos em coro. Norman ficou para trs por mais um momento.
- Quero agradecer a vocs por nos visitarem. Foi uma alegria. Uma enorme alegria.
Ele se levantou, com um gemido. Apalpou a parte inferior das costas, sorrindo para mim.
- Vocs me fizeram trabalhar hoje mais do que no resto do ms, meninas. Poderia ser perigoso ter vocs
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aqui por mais tempo. - Ele soltou uma gargalhada. - Boa-noite, meninas.
- Boa-noite.
Ouvimos os dois subirem a escada e depois nos recostamos, deixando o silncio nos envolver por um momento. Crystal foi a primeira a falar:
- Talvez seja melhor partir agora, Brooke.
- No! - murmurou Borboleta.
-  melhor viajar  noite, Borboleta - ressaltou ela. - A despedida ser muito difcil.
- No me importo. E no  certo fazer isso com eles, ir embora sem se despedir.
Borboleta olhou para mim em busca de apoio.
- Crystal tem razo sobre viajar  noite - declarei -, mas Borboleta tambm tem razo sobre o que  certo e o que no .
- Estou apenas avaliando o caso e apresentando minha concluso - respondeu Crystal.
- O que voc acha, Raven? - indagou Borboleta, na expectativa de que Raven desempatasse o impasse.
- No sinto a menor vontade de passar a noite inteira dirigindo um carro com aquela cama macia l em cima  minha espera. E tambm gostaria de assistir  televiso, 
talvez a MTV, para saber o que est acontecendo na msica. Que mal pode haver em passar mais uma noite aqui?
Ningum respondeu, porque ningum podia prever o mal que a luz do dia traria.
Fomos assistir  televiso. Raven foi a ltima a subir para dormir. Tive um sono irrequieto, revirando na cama, dominada pelo sentimento de culpa, porque aceitramos 
a hospitalidade sob uma cortina de mentiras. Quando Raven finalmente se deitou, consegui pegar no sono tambm.
Fomos todas despertadas pelo som de uma voz rspida
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l embaixo. Raven olhou para mim. Sentei na cama. Crystal abriu a porta do nosso quarto sem fazer barulho.
Vistam-se depressa - disse ela. - Fui at a escada, e  escutei.  o filho Gerry, que est furioso por eles terem recebido quatro estranhas em sua casa. Ele diz que 
isso prova que seus pais no tm mais condies de viverem sozinhos aqui. Nana desatou a chorar. Eu ouvi.
- Mas que miservel! - murmurei, pensando que ele falava como Gordon.
- No demorem - acrescentou Crystal. - Borboleta j se aprontou. Vamos sair o mais depressa que pudermos.
- Certo.
Raven e eu samos da cama num instante. Vestimos as roupas e fomos ao banheiro rapidamente. Minutos depois, ns quatro descemos.
Gerry, o filho de Nana e Norman, era um homem enorme, com mais de 1,90m de altura e pesando uns cem quilos. Parecia mais com Norman, mas tinha os olhos de Nana. 
Os cabelos castanho-claros eram cortados bem curtos, fazendo as orelhas parecerem maiores. Usava um casaco esporte marrom-claro sobre uma camisa branca aberta no 
colarinho. Quando entramos na cozinha, ele estava encostado no balco, os braos cruzados sobre o peito. Norman, sentado  mesa e de cabea baixa. Nana trabalhava 
no fogo, mas parecia bastante perturbada.
- Quem so vocs? - perguntou Gerry, antes que pudssemos dar bom-dia ou sermos apresentadas.
- Estamos indo para minha casa - respondeu Crystal. - Eu sou Crystal. Esta  Brooke. Esta...
- No me refiro a seus nomes - interrompeu ele. - O que faziam no caminho aqui de casa, dormindo no carro?
- J expliquei o motivo - interveio Nana. - Sentem-se, meninas. J preparei tudo.
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- Talvez seja melhor partirmos logo - sugeri.
- Tambm acho - declarou Gerry, os olhos cheios de desconfiana e raiva, contemplando-nos.
- Vamos, precisam pr alguma coisa no estmago. - Nana parecia  beira das lgrimas. - Deixe-as comer Gerry. Por favor.
- Aqui no  hotel. Porm desviou os olhos.
- Sentem-se, meninas - insistiu Nana. Norman levantou os olhos e sorriu.
- Isso mesmo - acrescentou o velho. Borboleta foi a primeira a sentar. Raven seguiu-a, olhando para Gerry, depois para Crystal e para mim. Nana nos serviu os ovos 
mexidos.
- No gosto de ver minha me bancando a criada de algum - resmungou Gerry.
- No estou sendo criada de ningum, Gerry. As meninas nos ajudaram muito. Papai no contou como cortou a grama e arrumou o quintal?
- Hum...
Gerry ficou nos observando comer. Era muito desagradvel, todas ns mantendo os olhos baixos, tentando ser cordiais, tentando fazer com que Norman e Nana se sentissem 
bem.
- Esperem um pouco! - exclamou Gerry subitamente. - Onde esto seu relgio e sua pulseira, mame?
- Como? - Nana olhou para os pulsos. - Ahn... Devo ter deixado l em cima.
- Onde, l em cima? - insistiu ele, olhando para ns.
- Na cmoda, onde sempre deixo, Gerry. Eu gostaria...
Ele no hesitou. Deixou a cozinha apressado e foi para a escada.
- No se importem com ele - disse Nana. - Gerry
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desconfia de pessoas estranhas. Sempre foi assim, desde menino. No  verdade, Norman?
- , sim.
- E vive preocupado conosco - acrescentou ela, com um sorriso forado.
- Eu tambm ficaria preocupada - admiti. Comemos um pouco mais depressa, apesar do esforo de Norman e Nana para nos deixarem  vontade. Momentos depois, ouvimos 
os passos pesados de Gerry na escada. Ele parou na porta, com um sorriso irnico.
- No esto na cmoda, mame. E tambm verifiquei na sua caixa de jias.
- No esto? - Ela parecia perplexa. - Tenho certeza de que deixei na cmoda.
Gerry olhou para ns.
- Ningum vai deixar esta casa enquanto o relgio e a pulseira no forem devolvidos.
- No pegamos nada! - protestei.
- Claro que no - acrescentou Crystal. - Por que est nos acusando?
- Por favor, Gerry. Essas meninas...
- No sabe nada sobre elas, mame. H garotas vagando por toda parte hoje em dia, fugindo de casa, fugindo da cadeia, tornando-se pequenas prostitutas.
- No somos assim! - exclamou Crystal, na defensiva.
- No parecem nem um pouco com Mary Poppins. - O rosto de Gerry voltou a ser ameaador. - Quero as jias.
-- No pegamos nada - insisti. - No roubamos nada.
Ele balanou a cabea.
- Claro que no.
- Ei, esperem um instante! - interveio Norman. - Se bem me lembro, Nana, voc tirou a pulseira e o relgio antes de comear a cozinhar ontem  noite.
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-  isso mesmo!
Ela foi abrir ento uma gaveta do armrio ao lado da pia. E l estavam o relgio e a pulseira.
- Aqui esto! - anunciou Nana. - Eu os tinha esquecido nessa gaveta.
Todo mundo permaneceu em silncio por um momento.
- Acho que algum nos deve um pedido de desculpas - declarou Crystal, olhando para Gerry.
- E eu acho que vocs j exploraram meus pais demais.
- Eu no me referia a eles - insistiu Crystal.
- Voc deveria pedir desculpas, Gerry - disse Nana.
- Ahn... No estou gostando nada disso. Vou para o trabalho -agora, papai. Conversaremos mais tarde. - Ele nos lanou um olhar furioso. - Espero que j tenham partido 
quando eu voltar.
- Mas  claro! - respondi, furiosa.
- Acho bom.
Ele virou-se e saiu da casa. Assim que a porta foi fechada, Nana tornou a pedir desculpas por ele.
- Temos de ir embora - disse Crystal. - Est tudo bem. Fico contente por ter encontrado seu relgio e sua pulseira.
-  fcil esquecer as coisas nos dias de hoje - murmurou Nana, desolada.
- No deveramos ficar mais um pouco e ajudar com a loua? - indagou Borboleta.
- No se preocupem com isso - disse Nana. - No tenho mesmo muita coisa para fazer.
Eles saram da casa conosco, mais uma vez desculpando-se por Gerry.
- Talvez possam passar de novo por aqui quando voltarem - sugeriu Norman.
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No pude deixar de sorrir.
Nana abraou Raven e Crystal, deu um abrao especialmente longo e apertado em Borboleta, antes de me abraar tambm. Entrei no carro e liguei o motor. Embarcamos 
todas. Fiz a manobra, virando o carro para a estrada. Os dois ficaram parados lado a lado, observando-nos, acenando, parecendo menores do que nunca.
- Eu gostaria que pudssemos ficar - murmurou Borboleta, triste.
Ningum fez qualquer comentrio.
- S espero que o filho dele no nos denuncie  polcia - comentou Crystal, depois de algum tempo.
Foi uma preocupao que nos acompanhou por quase duas horas de viagem, antes de nos sentirmos mais relaxadas.
Fora uma parada sensacional, pensei. Mas depois observei as outras, vi a tristeza em seus olhos, e pensei de novo. Talvez fosse melhor se no tivssemos conhecido 
Nana e Norman.
O tempo que passramos com eles parecia confirmar o que sempre receramos: nunca teramos uma chance de sermos amadas, de fazer parte de uma famlia. Ser rfs nos 
maculara para sempre.
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6- Um raio de sol

Crystal voltou a estudar o mapa,  procura das estradas mais seguras, porque ainda se preocupava com Gerry, o filho de Norman e Nana, e com a inevitvel denncia 
de Gordon  polcia.
- Mesmo que Louise conseguisse dissuadi-lo por algum tempo, na esperana de que poderamos voltar, pensando que resolvramos apenas fazer um passeio, ele estaria 
furioso a essa altura, ainda mais se tiver seguido a pista falsa daquele mapa. Vamos continuar fora das estradas mais movimentadas, onde h sempre guardas patrulhando.
Ela olhou para o mapa e me orientou:
- Entre aqui. Vamos seguir por esta estrada at eu avisar para pegar outra.
- Podemos fazer um piquenique hoje? - perguntou Borboleta, depois de algum tempo. - Foi divertido comer ontem no quintal com Nana e Norman.
- Parece que vai chover - murmurou Raven, com algum desnimo.
As nuvens escuras que se amontoavam no cu pareciam j ter penetrado no carro. Raven nem sequer notou que eu ligara o rdio. Ficou olhando pela janela, contemplando
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a paisagem, parecendo hipnotizada. Quando olhei pelo  espelho retrovisor para Crystal e Borboleta, constatei que as duas estavam pensativas. Borboleta parecia mais 
triste do que nunca.
- O que est acontecendo l na frente? - indagou Raven subitamente, empertigando-se no banco.
Menos de um quilmetro  frente, na beira da estrada, havia uma pessoa sentada numa mala. Diminu a velocidade e nos aproximamos.
-  algum pedindo carona - informou Raven. - Uma garota. Pare o carro, Brooke.
- No - disse Crystal.
- Por que no? Ela deve estar sozinha, como ns. Quem mais lhe daria carona nesta estrada? E a chuva est prestes a comear.
- No podemos correr nenhum risco - insistiu Crystal.
- Ajudar algum no  um risco. Pare, por favor, Brooke - suplicou Raven. - Bem que estamos precisando dar uma variada na companhia.
Ela lanou um olhar para Crystal. Brooke acrescentou:
- No me importo. Pode ser divertido.
Ao chegarmos perto, verificamos que a garota era jovem, talvez dezessete ou dezoito anos. Usava uma saia curta marrom-clara, botinhas sem meias e uma blusa sem mangas 
e decotada, toda estampada. Tinha um leno verde e branco em torno da testa e dos cabelos amarelos e azuis. A mala marrom desbotada parecia ter sido Jogada de um 
trem em alta velocidade. Era toda arrebentada, a tal ponto que as roupas saam por algumas aberturas. Ela amarrara uma corda em torno para mant-la fechada.
- Est bem - murmurei, parando o carro. - Ela  Pattica.
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A garota exibia apenas um brinco, que parecia ser uma tira de couro fina, com uma pedra azul na extremidade. Os culos escuros azuis escondiam os olhos. No  usava 
maquilagem, mas parecia ter alguns pontos azuis pequenos na face esquerda.
A blusa era justa e revelava que ela no usava suti, apesar dos seios grandes. Tinha braos esguios, com uma tatuagem que parecia ser de um girassol desabrochando 
no antebrao esquerdo. A mo direita estava cheia de anis de metal, nenhum dos quais dava a impresso de ser caro. Apesar da tatuagem, pontos azuis, aparncia e 
roupas esquisitas, era uma jovem bonita. O nariz era perfeito, os lbios cheios e retos, apenas descendo um pouco no canto esquerdo.
- Obrigada por parar - balbuciou ela, ofegante. - H dias que no vejo ningum aparecer por esta estrada. Onde devo largar isso? - e apontou para a mala.
Por um longo momento, ns quatro ficamos olhando para a jovem, sem saber o que dizer.
- Vo me dar uma carona ou no?
- Vou abrir a traseira.
Saltei do carro e fui abrir a porta do bagageiro. Ela jogou a mala l dentro.
- Pode sentar na frente! - gritou Raven, estendendo a cabea pela janela.
A garota deu a volta e entrou, assim que Raven se afastou para o lado. Tornei a sentar ao volante e dei a partida.
- Obrigada, pessoal.
Sorriu para Crystal e Borboleta, que continuavam a fit-la como se ela fosse uma extraterrestre.
- Para onde voc vai? - perguntei.
- Para qualquer lugar longe daqui. E vocs? Olhei para Crystal pelo espelho retrovisor. Ela sacudiu a cabea de forma quase imperceptvel.
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Para a casa de uma amiga minha em Ohio - respondi.
timo. Irei tambm para Ohio. pela maneira como falou, conclu que ela concordaria em ir at para o Alasca, se fosse esse o nosso rumo.
- Qual  o seu nome? - perguntou Raven, a mais fascinada pela garota.
- Sunshine. E o seu?
- Sunshine? Raio de sol? - Raven hesitou, como se seu prprio nome no pudesse ser comparado em valor. - Ahn... meu nome  Raven. Estas so Brooke, Crystal e Borboleta.
- Borboleta? Grande nome. Tive uma amiga que deu  filha o nome de Beetle Bug, porque ela nasceu com olhos to escuros, que parecia um pequeno besouro na neve.
- Borboleta  apenas um apelido - expliquei. - Seu verdadeiro nome  Janet. E voc, qual  o seu verdadeiro nome?
- J disse.  Sunshine. No tenho outro nome.
- Por que estava pedindo carona?
- Porque meu querido namorado, Sky, deixou-me ali. Tivemos uma briga
- Sky de "cu"? - indaguei com um sorriso.
- Ele tinha outro nome. Ormand Boreman. Era o que constava de sua carteira de motorista. Em vez disso, deveria ser Ormand Boring, o Chato.
- Ele deixou voc aqui? - perguntou Crystal. Sunshine virou-se para ela e sorriu.
- Para ser franca, abri a porta e disse que pularia se ele no parasse o carro. Por isso, ele parou e saltei. Sky partiu com a porta ainda aberta.
- Que tipo de namorado  esse? - indagou Borboleta.
- O pior tipo - respondeu Sunshine. - Que os ventos o levem para longe, no ? De qualquer maneira,
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os homens me cansam. Sempre pensam que voc est disponvel para ser agarrada e apertada s porque  bonita.
- Sei como  isso - murmurou Raven. Sunshine olhou para ela, com um pequeno sorriso
No podia haver a menor dvida de que eram almas gmeas.
- Quem so vocs? De onde vm?
- Do norte do Estado de Nova York - respondeu Crystal -, menos eu, que sou de Ohio. E voc?
- Nasci na Califrnia, mas no vou l desde...
- Desde quando?
- Desde que mame e papai se separaram.
- Sinto muito - murmurou Crystal.
- No se preocupe. No h por que sentir pena.
- Voc tem irmos? - perguntou Raven.
- Provavelmente.
- Provavelmente? - repeti. - Como assim?
- Conhecendo meu pai, acho que tenho, em algum lugar. - Ela olhou para mim. - Talvez tenhamos algum parentesco. No posso saber.
- Onde esto seus pais agora? - indagou Borboleta. A aparncia de Sunshine a estava tirando da depresso.
- Na ltima vez que eu soube, mame tinha ido para Rosarita Beach, no Mxico, e papai para o Oregon.
- E no os viu mais nem teve notcias deles at agora? - insistiu Borboleta.
- No. No que me diz respeito, sou rf... e no me importo.
- Diz isso porque de fato no  uma rf - murmurou Crystal.
- O que voc disse?
- Nada.
- Quantos anos tinha quando saiu de casa? - perguntei.
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Dezesseis. Ou talvez apenas quinze. Foi h tanto tempo que nem me lembro mais.
- Que idade voc tem agora? - perguntou Borboleta. - Dezessete?
Sunshine riu.
- Tenho vinte anos.
- Vinte?
- Isso mesmo. J estou velha.
Ela abriu a bolsa pendurada no pescoo e tirou um cigarro de aparncia lamentvel, o papel mal conseguindo segurar o fumo.
- Algum quer dar uma puxada? - indagou ela, enquanto acendia o cigarro.
- No fumamos - respondeu Crystal, incisiva.
- Eu tambm no - declarou Sunshine.
- Isso no  um cigarro - murmurou Raven, com uma sbita desconfiana.
- Tem toda razo.  um baseado.
Com um sorriso, Sunshine ofereceu a Crystal, que sacudiu a cabea, depois a Borboleta, que arregalou os olhos, assustada.
- Ela tambm no quer - respondeu Crystal por Borboleta.
- Nenhuma de ns puxa fumo - disse Raven. - Essa coisa s traz encrenca.
- Com E maisculo! - declaramos Crystal e eu ao mesmo tempo, com uma risada nervosa.
- No tem problema. Uma tragada no pode fazer mal. - Sunshine aspirou a fumaa ao mximo. - Nunca faz mal... e  isso que importa.
Ela inclinou-se para mim. Sacudi a cabea. O cheiro forte impregnou o carro.
- Jogue isso fora - exigiu Crystal, tossindo. Sunshine olhou para mim.
- Por favor - acrescentei.
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Eu no queria parar o carro e expuls-la, mas sabia que teramos de fazer isso se ela insistisse.
- Que desperdcio... - murmurou Sunshine, jogando o cigarro de maconha pela janela.
- Cuidado, voc pode comear um fogo no mato - protestou Crystal, olhando para trs.
- Quem  voc? Uma lder de escoteiros? Raven fitou-a com expresso irritada, e ela se apressou em mudar de assunto.
- O que vocs faziam l no leste?
- Estudvamos numa escola particular - respondeu Crystal no mesmo instante, talvez um pouco depressa demais.
Sunshine olhou para Raven e de novo para Crystal. Alteou as sobrancelhas, tirou os culos escuros lentamente, fitou Borboleta, que se apressou em baixar os olhos.
- Alguma coisa me diz que vocs no esto falando a verdade. No estou certa? - Como ningum dissesse nada, ela acrescentou: - Esto fugindo de alguma coisa?
- No - respondi. - Vamos para a casa de Crystal, em Ohio. Fomos convidadas.
-  mesmo? - Ela olhou para trs e sorriu. - Viajam com pouca bagagem, hein? S vejo algumas fronhas. E sei que no  uma festa de pijama. Tenho certeza de que esto 
fugindo. No precisam me dizer nada. Tenho bastante experincia de pessoas em fuga.
- Eu disse para no dar carona a ela - resmungou Crystal.
- Relaxe - disse Sunshine. - Sou a ltima pessoa no mundo com que precisam se preocupar. H anos que venho fugindo.
Ela recostou-se, rindo.
Apesar da relutncia de Crystal em permitir que
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Sunshine continuasse conosco, no podamos deixar de nos sentir interessadas e intrigadas com a nossa nova conhecida. Ela descreveu suas viagens, os lugares dos 
Estados Unidos em que estivera, sempre pedindo carona e mantendo relacionamentos com homens que a levavam de um lado para o  outro. Depois de algum tempo os homens 
a abandonavam ou faziam alguma coisa que levava Sunshine a abandon-los.
- Quase fui assassinada no Texas. - Ela fez uma pausa. Nenhuma de ns respirava, com medo de interromp-la. - Conheci um caminhoneiro numa parada de caminhes... 
o melhor lugar para se conseguir caronas. At mesmo os que tm adesivos na janela com as palavras No Dou Carona aceitam voc, se pedir com jeito... entendem o que 
estou querendo dizer?
- No - respondeu Crystal, os olhos e os lbios contrados. - O que  que significa?
-  muito simples, Poliana.
Isso deixou Crystal ainda mais furiosa.
- Meu nome no  Poliana!
- V l que seja. Voc mostra um pouco de pele, flerta, enche a cabea do cara com fantasias.
- E o que acontece depois? - perguntei.
- Depende. Se voc realmente gostou do cara, paga a carona. Se no, h sempre meios de escapulir. S que desta vez, no Texas, Roy no quis aceitar um no como resposta. 
E encostou uma faca na minha garganta.
Raven soltou um murmrio aturdido.
- O que aconteceu? - indagou Borboleta. Sunshine olhou para ela.
- Voc quer mesmo saber?
- No - respondeu Crystal por ela.
- Achei que no ia querer, Poliana.
- Mas eu quero saber - interveio Raven. - Devemos ouvir e aprender.
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-- Por qu? - indagou Crystal. - Planeja sair por a pedindo carona em paradas de caminho?
- Nunca se sabe - disse Raven.
-  assim que se fala. Sunshine sorriu para Raven.
- No havia nada que eu pudesse fazer, a no ser deixar que ele se servisse... ou pelo menos comeasse.  preciso saber quando os homens esto no... no momento mais 
fraco, digamos assim. Esperei pela oportunidade, dei-lhe uma joelhada onde di at o fim do ano e fui embora. Perdi algumas coisas.  por isso que s tenho uma mala. 
Mas no ia voltar e pedir a ele que devolvesse minhas coisas.
Ningum falou por algum tempo. Ficamos absorvidas em nossos devaneios, cada uma considerando os momentos aterradores por sua perspectiva pessoal.
- Por que faz isso? - perguntou Crystal, finalmente.
- Fao o qu?
- Viaja por toda parte, pedindo carona a estranhos... ligando-se a estranhos e no sei mais o qu?
- O problema  que no estou matriculada em nenhuma escola particular no leste - respondeu Sunshine. - Vivo por minha prpria conta e risco.
- Ento arrume um emprego, aprenda alguma coisa, leve uma vida normal como as outras pessoas - continuou Crystal. - Muitas pessoas vivem por sua prpria conta e 
risco, e no precisam acabar estupradas e assassinadas na bolia de um caminho.
Sunshine fitou-a nos olhos por um longo momento, depois soprou o ar dos pulmes pelos lbios.
- Todo mundo neste pas acha que sabe o que  bom para todo mundo. Quando no puder contar com mais ningum por algum tempo, venha me procurar. Arrumarei uma hora 
para receb-la em minha movimentada agncia.
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- Passamos a maior parte de nossas vidas sem contar com ningum - murmurou Crystal.
-  mesmo? - Sunshine olhou para ela e as outras. O ceticismo foi substitudo por um novo interesse. - Como assim? Quem so vocs?
 - Somos rfs - explicou Crystal. - Viemos de um lar de adoo. Escutou bem?
- No est brincando? Jura que  verdade?
Ela sorriu como se nossa cotao subisse dez vezes ante seus olhos.
- Por que nunca foi internada num deles? - perguntou Raven.
- Quase fui, uma vez. Prenderam-me por vadiagem numa cidadezinha de Oklahoma. A polcia ia me entregar s autoridades estaduais, mas consegui blefar para escapar. 
Tinha uma amiga em Phoenix, que fingiu ser minha tia e mandou o dinheiro para a passagem de nibus. A polcia engoliu a histria. Peguei o nibus, mas saltei na 
primeira parada. No fundo, no estavam muito interessados. Queriam apenas se livrar de mim. Como eu disse, Poliana,  preciso aprender a viver numa estrada.
- Pare de me chamar de Poliana! - protestou Crystal.
- Sensvel, hein? A primeira regra para quem vive na estrada  no ser sensvel. Voc tem de desenvolver uma carapaa dura como a de uma tartaruga. Virei uma com 
a carapaa para baixo nos arredores de El Paso.
- Puxa, voc j esteve em toda parte - murmurou Raven, impressionada.
- Mas no em Nova York. Tratei de me manter  distncia da cidade de Nova York. Uma pessoa pode ser devorada viva ali.
- Acabamos de passar por l - gabou-se Borboleta. -  linda.
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-  mesmo? Quanto tempo ficaram l?
- Apenas alguns minutos - expliquei. - Fiz a volta errada e acabamos na Broadway.
- Muitas pessoas tentam acabar na Broadway. - Sunshine soltou uma risada. Cutucou Raven, que riu tambm. - Gostei de vocs. Tm algum dinheiro?
- Nossas economias. Recebemos pagamento pelo trabalho no lar de adoo e em empregos de vero.
- Quanto vocs tm?
- Quase mil e quinhentos dlares - respondi.
- Mil quatrocentos e vinte agora - lembrou Crystal.
- Isso mesmo - concordei. - Ela  a banqueira.
- Ahn... - Sunshine tornou a olhar para Crystal. - Parece que o dinheiro de vocs est em mos seguras. No creio que Poliana seja do tipo que desperdice um centavo.
- Se me chamar assim mais uma vez... Sunshine riu.
- Por favor, no zombe dela - pedi.
- Est bem. - Ela virou-se para Crystal. - At gosto de voc... como  mesmo seu nome?
- Crystal. Meu nome  Crystal.
-  quase a mesma coisa que Poliana, mas est bem, Crystal. Mas como quatro rfs arrumaram um carro como este? No que seja to espetacular...
Nenhuma de ns falou.
- Ah, j entendi. Crystal no  to imaculada quanto simula, hein?
- O lugar em que estvamos no era nada bom - expliquei. - E no havia nenhum futuro para ns ali.
- O nome do lugar  Lakewood House e o dono se chama Gordon - disse Borboleta. - Ele  um monstro.
Crystal cutucou-a para evitar que falasse mais alguma coisa.
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- Ele  uma tima companhia - acrescentei. - Tomamos seu carro emprestado para escapar.
- Costumo fazer isso - comentou Sunshine, dando de ombros.
- Fazer o qu? - indagou Raven.
- Tomar coisas emprestadas.  a maneira de sobreviver na estrada. Conheci um cara em Las Vegas, que  uma cidade muito divertida. Ele tomou um carro emprestado, 
mas trocou as placas ao deixar a cidade. Vocs fizeram isso?
- Trocar as placas? Sacudi a cabea.
- A polcia deve estar atenta ao nmero da placa. Troquem as placas com outro carro e tero mais chances de escapar. A maioria das pessoas nem nota que as placas 
foram trocadas.
-  uma boa idia - concordou Raven.
- Nada disso - declarou Crystal. - No vamos fazer qualquer coisa que nos meta em mais encrenca.
- Se a polcia pegar vocs neste carro, Poliana, j tero encrenca suficiente. Trocar as placas no vai piorar a situao.
- No sei, no, Sunshine... - murmurou Raven.
- Eu ajudarei - prometeu Sunshine. -  muito fcil.
Quando olhei pelo espelho retrovisor, vi que Crystal assumira uma expresso preocupada.
- Veremos o que fazer - declarei. - Vamos pensar em um dia de cada vez.
- Exatamente.  o que sempre fao. - Sunshine virou-se para Crystal. - J esto comeando a viver como eu. Vamos nos dar muito bem. Seremos como... irms na estrada.
Paramos para almoar num restaurante que tinha bombas de gasolina na frente. Apesar do tamanho e da
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localizao, tinha bastante movimento e ficou lotado logo depois que chegamos. Crystal queria que fssemos econmicas e escolhssemos com cuidado o cardpio mas 
Sunshine interrompia a todo instante, insistindo que pedssemos tudo que tnhamos direito.
-  um dos lugares mais baratos na estrada - garantiu ela. - Tratem de aproveitar.
- Estou mesmo com fome - resmungou Raven.
- Comemos bastante no caf da manh - lembrou Crystal.
- Mas ainda tenho fome. Quero um milkshake tambm. E Sunshine diz que as batatas fritas daqui so timas.
- J estive aqui uma vez - explicou Sunshine. - Talvez duas.
Pediu ento um hambrguer duplo, batatas fritas, e um milkshake e sorvete de chocolate como sobremesa.
- Voc paga a conta e eu acerto depois - disse ela a Crystal.
Crystal lanou-me um de seus olhares. Como eu no queria fazer uma cena ali, limitei-me a acenar com a cabea. Relutante, Crystal pagou a conta. Deixamos uma gorjeta 
e samos.
- Volto num instante - disse Sunshine, encaminhando-se para o banheiro.
- Vamos embora e deix-la aqui - sugeriu Crystal, assim que entramos na caminhonete. - Nunca receberemos o dinheiro do seu almoo. Ela vai nos criar problemas, Brooke.
- No podemos fazer isso - disse Raven. - Ela deixou a mala no carro.
- Vamos deixar no estacionamento - props Crystal.
- Algum poderia roub-la - protestou Borboleta.
- Roubar aquilo? Duvido muito. O departamento
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rodovirio pode levar para prevenir doenas, mas ningum vai roubar, Borboleta. Vamos fazer isso, Brooke.
No posso, Crystal. Ela est numa situao to ruim quanto a nossa. Deixaremos ela nos acompanhar por  mais algum tempo, e depois diremos que vamos para outro lugar.
- Ela no vai se importar com o lugar para onde vamos - advertiu Crystal. - Ficar conosco enquanto puder. Vai ver s.
- L vem ela - anunciou Raven.
Sunshine veio apressada do restaurante e entrou na caminhonete.
- Podemos ir embora.
Assim que partimos, ela virou-se para entregar algum dinheiro a Crystal.
- Aqui est pelo meu almoo - disse Sunshine, sorrindo.
Crystal pegou o dinheiro, surpresa. Olhou para mim, antes de esfregar as notas por um instante, como se pensasse que podiam ser falsas. Depois levantou os olhos, 
com mais surpresa ainda, at mesmo chocada.
- Onde arrumou essa nota de cinco dlares?
- Como assim? Eu j a tinha. Isso  tudo.
- No, no tinha. Esta  a nota que deixei com a gorjeta. Sei por causa desta mancha de tinta no rosto de Abraham Lincoln.
- Mas o que voc faz? - indagou Sunshine. - Memoriza a aparncia de cada nota?
Ningum disse nada por um longo momento. Depois, Crystal declarou:
- Lembro porque achei estranho que houvesse uma mancha de tinta aqui. Voc pegou a gorjeta da garonete.
- E da? - disse Sunshine. - Ela vai receber gorjetas de pessoas que tm mais condies.
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- Isso  horrvel - insistiu Crystal.
- E imagino que roubar o carro de algum vai lhe valer o Prmio Nobel - respondeu Sunshine.
Crystal ficou vermelha, antes de morder a lngua e se recostar.
- No  certo - murmurou ela.
- Dinheiro  dinheiro, ainda mais quando se est na estrada. Vocs vo aprender. Esperem s para ver.
-  disso que tenho medo - murmurou Crystal. Sunshine riu.
- Deixem-me falar sobre uma ocasio no Kansas - disse ela, sem querer continuar a discusso. - Imaginem o meu desespero. Eu tinha apenas vinte centavos.
Ela foi de histria em histria, falando sobre lugares, pessoas e acontecimentos, desfiando a saga de suas andanas pelas estradas americanas. Inclusive descreveu 
ligaes amorosas eventuais sem o menor embarao ou arrependimento. Logo ficou patente para ns que, em sua opinio, os homens existiam apenas para serem usados, 
que o sexo no passava de uma boa maneira de pagar uma refeio, comprar uma passagem de nibus, ou no passar uma noite solitria no meio do nada.
Para mim e minhas irms, no entanto, isso era mais do que entretenimento, enquanto viajvamos juntas. Era uma descrio do que poderia ser o nosso destino, se no 
tomssemos cuidado. O problema era s um: como ser cuidadosa no mundo de Sunshine, onde nos encontrvamos agora? Levou-me a especular se no deveramos voltar e 
agradecer pelo que tnhamos.
No tornamos a sair da estrada at todas precisarem ir ao banheiro. Crystal voltou a seu papel de navegadora e nos guiou por estradas paralelas s rodovias principais 
pelo mximo de tempo possvel. Prendamos a respirao cada vez que avistvamos um carro da polcia.
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- No se preocupem tanto - disse-nos Sunshine. H tantos carros roubados neste pas, todos os dias, que a polcia no tem condies de verificar todos... e, de qualquer 
modo, devemos criar uma mscara.
Ela se comportava como nossa instrutora, ensinando a sobreviver sem ter praticamente nada.
- Uma mscara? - indagou Borboleta.
Ela no parecia to alarmada quanto ns pelas aes de Sunshine, o que comeava a me preocupar.
- A expresso, entende? - Sunshine pestanejou, parecendo to doce quanto era possvel. - Voc tem de parecer inocente, nunca dar a ningum a impresso de que est 
preocupada que descubram alguma coisa negativa a seu respeito. Apenas relaxe, seja descontrada.
- Como? - insistiu Borboleta.
- Diga a si mesma que todos os outros tambm usam uma mscara e que voc pode fazer a mesma coisa.  verdade. Todo mundo tira alguma coisa dos outros. Algumas pessoas 
fazem isso legalmente, porque tm o governo por trs ou porque sabem como burlar as leis e se aproveitar dos outros. J vi isso acontecer muitas vezes. J ouviram 
falar naquele ditado antigo, que diz que quem no pecou pode atirar pedras?
- Aquele que est sem pecado que atire a primeira pedra? - disse Crystal, sarcstica. - Est na Bblia. Foi Jesus quem falou.
- Eu sabia que era da Bblia - respondeu Sunshine, rspida. - Seja como for, essa  a maneira de pensar. Com isso, pode usar a mscara. Ningum vai atirar pedras, 
queridinha. Acredite em mim.
- Estou surpresa por voc se chamar Sunshine com todo esse pensamento sinistro - comentou Crystal.
Sunshine virou-se para ela e sorriu.
-  a mscara, Poliana. Agora voc comea a entender. Esto vendo? Ela  mais esperta do que vocs pensavam.
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At mesmo eu tive de rir. Crystal recostou-se, mal humorada. No demorou muito para que Raven passasse a contar mais e mais sobre ns. Percebi que isso dei-xava 
Crystal nervosa, mas no pude imaginar que importncia tinha. O que Sunshine faria para nos prejudicar? Ela era uma fugitiva experiente. Ns ramos novatas. Sunshine 
falava como se tivesse se formado na universidade da vida h muitos anos.
 medida que a noite caa, comeamos a pensar onde comer e dormir. As coisas estavam mais complicadas agora que Sunshine viajava conosco.
- Onde vocs dormiram ontem  noite? - perguntou ela.
Raven contou o que acontecera.
- Pois teremos sorte esta noite tambm. - Sunshine tirou um carto de crdito da carteira. - Podemos pagar um quarto de motel.
- De quem  esse carto? - indagou Crystal, desconfiada.
- Meu.
- No acredito.
Sunshine deu de ombros. Tinha uma carapaa muito dura. Nada do que Crystal dizia podia afet-la.
- Quando ele nos conseguir o quarto, Poliana, voc vai acreditar.
- Deveramos dormir no carro - insistiu Crystal.
- No sei, no, Sunshine... - murmurou Raven. - Poderemos ser presas se voc estiver usando um carto de crdito roubado.
Percebi que ela j se preocupava com as poucas vezes em que eu usara o carto para gasolina de Gordon.
- Eu vou alugar um quarto. Se quiserem dormir no carro, o problema  de vocs. - Sunshine deu de ombros. - No  muito seguro dormir no carro.
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Ela fez uma pausa e lanou um olhar para Borboleta-
- Algum pode aparecer e roubar o carro com voc dentro!
Os olhos de Borboleta quase saltaram das rbitas.
- Isso  um absurdo! - protestou Crystal.
- Tudo bem,  um absurdo. Aprendam da maneira mais difcil, se preferem assim.
Continuamos em silncio. O cu escurecia, as nuvens de tempestade ainda pairavam sobre ns. Finalmente um motel surgiu  nossa frente.
- Este  um bom lugar, no muito movimentado - comentou Sunshine. - Ficaro felizes em nos receber. Vamos alugar um quarto e pedir pizzas.
- Acho que  melhor - murmurou Raven, relutante.
Ela olhou para mim. Olhei para Crystal, que estava furiosa, os braos cruzados sobre o peito, o rosto virado para a janela.
-  uma democracia - declarei. - Vamos votar. As que estiverem a favor de passar a noite aqui digam sim.
Todas concordaram, menos Crystal.
- Os sins venceram.
- Desde quando ela vota por ns? - indagou Crystal.
- Ela tem direito a voto, pois vai pagar - declarou Raven.
Parei na entrada do motel e Sunshine saltou.
- No vou demorar - disse ela.
Ficamos olhando, enquanto ela entrava na recepo do motel.
- Como ela pode ter um carto de crdito, Brooke? No tem endereo permanente. Roubou o carto, com toda certeza, e estamos deixando que ela o use
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- Ela  que vai assinar tudo, no ns - ressaltou Raven.
- Esto deixando que ela assuma o comando -. insistiu Crystal. - Vamos nos meter mais e mais em encrencas.
- Estamos na estrada. Temos de sobreviver. Eu no quero voltar. Voc quer? E voc, Brooke?
- Claro que no quero - respondi.
- Nem eu - acrescentou Borboleta.
- Deixe-a fazer alguma coisa por ns em troca da carona que lhe demos - concluiu Raven.
Era bvio que Raven no queria que tirssemos concluses precipitadas sobre Sunshine, pois acreditava que todas as pessoas mereciam uma oportunidade de provarem 
quem eram.
Ficamos observando a porta que dava para a recepo. Cinco minutos depois Sunshine saiu, sorrindo e balanando uma chave de quarto. Entrou no carro.
- Siga at o 32 - disse ela. - Bem em frente.
- No houve nenhum problema? - perguntei.
- No. Por que haveria?
- Voc tinha um documento de identidade? - indagou Crystal, ctica.
- Claro. Tenho vrios.
Sunshine soltou uma risada. Abriu a bolsa e tirou vrias carteiras de motorista, cartes de crdito, at mesmo uma carteira de universidade, com sua foto.
- Onde conseguiu tudo isso? - perguntou Raven.
- Onde pensa que foi? - Ela riu de novo. - Ganhei alguns, peguei outros. Se forem legais comigo, ensinarei como se faz. E querem saber o que mais? O gerente disse 
que h uma pizzaria aqui perto que tem entregador. Mal posso esperar para tomar uma chuveirada quente. E o gerente disse que vai nos mandar uma
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cama de lona. Acho que vocs esto acostumadas a dormirem juntas. Por isso, ficarei com a cama de lona.
Ningum protestou. Como Sunshine previra, o gerente, careca e jovem, levou uma cama de lona para o quarto. Entregou as roupas de cama extras a Sunshine.
- Obrigada. - Ela sorriu, sedutora. - At mais tarde.
- O que vai acontecer mais tarde? - perguntei, depois que ele se retirou.
- Nada. Apenas prometi que o encontraria quando sasse do trabalho, para tomar um drinque num bar aqui perto. Talvez eu v.
- Mas voc disse que prometeu - lembrou Borboleta.
Sunshine riu.
- No ser a primeira promessa que vou quebrar... nem a ltima. Vamos pedir as pizzas. Estou morrendo de fome.
Pedimos duas pizzas e refrigerantes. Enquanto espervamos, tratamos de nos revezar no chuveiro. As pizzas chegaram, e Crystal recorreu ao nosso dinheiro para pagar. 
Tivemos um banquete, todas falando ao mesmo tempo, exceto Crystal, ainda transtornada. Depois, ficamos vendo televiso. Por volta das onze horas, Sunshine anunciou 
que decidira se encontrar com o gerente.
- No vou demorar - garantiu ela. - Pode me emprestar as chaves do carro, Brooke? Quero pegar minha mala e trocar de roupa.
Crystal olhou para mim com uma evidente preocupao. Por isso sa com Sunshine e abri a porta do carro. Ela pegou a mala, tirou a saia e a blusa, e vestiu um jeans 
e um bluso.
- Espero no estar vestida demais para este lugar - comentou ela, rindo. - Durmam bem, meninas. Vou acord-las quando voltar.
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Sunshine saiu.
- J vai tarde - murmurou Crystal.
- Pare com isso, Crystal. At agora ela  a nica que nos deu bons conselhos e nos ajudou.
A chuva que ameaara durante o dia inteiro acabava de desabar, as gotas batendo nas janelas e no telhado com tanta fora que mais pareciam granizo.
- Espero que ela no tenha sido apanhada pela tempestade - comentou Raven.
- Seria uma lio bem merecida - resmungou Crystal.
- Estou exausta - declarei, antes que elas entrassem em outra discusso. Olhei para Borboleta, que j adormecera. - No acordem Borboleta.
Crystal apagou a luz.
- Gosto de Sunshine - sussurrou Raven. - Ela  um pouco maluca, mas  divertida. No acha, Brooke?
- Acho, sim, mas Crystal tambm tem razo. No podemos ficar com ela para sempre, Raven. E estou preocupada com a maneira de como vamos nos livrar dela.
Pelo que aconteceu depois, no precisvamos nos preocupar em encontrar a melhor maneira de nos separarmos de Sunshine.
Todas adormecemos assim que fechamos os olhos. Quando acordamos, descobrimos que Sunshine no usara sua cama de lona. Os lenis ainda estavam dobrados ao lado. 
Raven foi a primeira a notar, quando sentou na cama.
- Vejam! - exclamou ela, apontando. - Sunshine no voltou ontem  noite!
Crystal soltou um grunhido e se levantou, devagar. Borboleta tambm se levantou. Fui a ltima. Ficamos olhando para a cama intacta por um longo momento.
- Esperem um pouco - disse Crystal. - A mala de Sunshine... no ficou junto da porta?
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- Ficou - respondi.
- Quer dizer que ela pegou a mala e foi embora? - murmurou Raven. - Por qu? Crystal sacudiu a cabea.
- No sei, mas estou feliz e...
De repente, alguma coisa atraiu sua ateno. Ela soltou um grito.
- O que foi? - perguntei.
Crystal atravessou o quarto to devagar, que tive a impresso de que ainda sonhava. Levantou a blusa cada no cho, ao lado da cadeira em que a pusera, junto com 
a saia. Sua bolsa desaparecera.
- Nosso dinheiro! - exclamou ela, virando-se para mim. - Brooke, todo o nosso dinheiro desapareceu!
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7 - Em cima da hora

- tudo culpa sua! - gritou Crystal para Raven. - Eu disse que no deveramos lhe dar carona, mas voc insistiu! E agora veja o que aconteceu!
Ela apontava para a cadeira onde estivera sua bolsa. Os lbios de Raven comearam a tremer, os olhos lacrimejaram. Ela virou-se para mim e depois para Borboleta, 
que chorava forte, os braos em torno do corpo, como se estivesse congelando. As plpebras adejaram e depois o choro parou, to subitamente que at pensei que suas 
cordas vocais haviam rebentado.
- Borboleta? - murmurou Raven.
Borboleta caiu novamente sobre o travesseiro, os olhos arregalados, fixos no teto, a boca tambm aberta. Parecia apavorada. O rosto se tornava mais e mais branco 
a cada momento.
- Crystal! - exclamei, saltando da cama. - Est acontecendo alguma coisa com ela!
Fui pegar sua mo, que se encontrava gelada.
- Est tudo bem, Borboleta... Crystal!
- No entre em pnico. - A voz de Crystal soava controlada e profunda. - Se ela perceber que voc ficou em pnico, vai piorar ainda mais.
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Raven permaneceu atrs de ns, esperando, a cabea baixa. Crystal virou-se para ela.
- Traga uma toalha de rosto molhada.
Raven foi para o banheiro. Quando ela voltou, Crystal ajeitou a toalha na testa de Borboleta. Afagou sua mo.
- Vamos, Borboleta, no nos deixe agora. Precisamos umas das outras.
Raven mordeu o lbio inferior, abraando-se, como se tambm estivesse congelando. Todas comevamos a desmoronar, e muito depressa. Passei o brao em torno de Borboleta 
e levantei-a para uma posio sentada. As pupilas pareciam danar dentro das rbitas. Crystal deu a volta para o outro lado.
- O que h de errado com ela? - perguntei a Crystal.
-  apenas outro ataque de ansiedade, s que um pouco mais severo. Fique calma.
Ela daria uma tima mdica, pensei. Crystal virou-se para Raven e acrescentou:
- Depressa!
Raven subiu na cama. Inclinou a cabea, encostan-do-a na minha e na de Crystal. Chegamos mais perto de Borboleta, fazendo o contato fsico, com extrema gentileza. 
Crystal comeou:
- Somos todas irms. Sempre seremos irms. O que acontece com uma, acontece com todas.
Raven entoou junto comigo e logo nos fundimos em uma s voz, uma s esperana, uma s orao. Senti o corpo tenso de Borboleta relaxar um pouco. A pele foi se tornando 
mais quente. Logo ouvimos sua voz acompanhar a nossa.
- Sempre seremos irms. Quando uma fica triste, todas ficamos tristes. Quando uma est feliz, todas esto
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As quatro se separaram. Borboleta piscou rapidamente, olhando de uma para a outra.
- O que vai acontecer conosco? - indagou ela como se o tempo tivesse parado, e o ataque no tivesse ocorrido.
- Voc nos deixou apavoradas - balbuciou Raven.
-  mesmo?
- Esquea, Raven - aconselhou Crystal, com um olhar firme.
Raven, ainda mortificada pelas acusaes de Crystal, atendeu sem hesitar. Borboleta tornou a olhar de uma para outra, confusa.
- O que faremos, Brooke? - perguntou-me ela.
Eu no tinha respostas, e nem Raven, e nem Crystal. Depois de um longo momento de silncio, Crystal foi pegar suas roupas.
- Acho que teremos de voltar.
- No! - gritou Raven. - Nunca mais voltarei!
- Tambm no quero voltar - murmurou Borboleta.
No falei nada. Crystal provavelmente tinha razo, pensei. No poderamos viver de um carto de crdito de gasolina. Alm disso, Gordon muito em breve receberia 
a conta e poria um paradeiro naquilo de qualquer maneira.
- Acham que eu quero voltar? - disse Crystal. - Lembrem-se do que Gordon fez comigo. Mas creio que no temos mais qualquer opo. Com aquele dinheiro pelo menos 
tnhamos um pouco para nos sustentar. Agora no temos mais nada.
- Ainda tenho dois dlares - anunciou Raven.
- Acho que tambm tenho alguns dlares - acrescentou Borboleta.
- Todas temos algum dinheiro. Somando tudo, quanto d? Dez dlares? At onde isso poderia nos levar?
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Ela parecia derrotada.
- Crystal tem razo. S nos resta agora algumas roupas numa fronha.  ridculo pensar que poderamos atravessar todo o pas com isso.
- No podemos voltar - suplicou Raven.
Ningum falou por algum tempo. Todas nos vestimos, usamos o banheiro e samos do quarto. Raven parou na calada, segurando a fronha com as roupas, parecendo desesperada, 
enquanto ns trs entrvamos no carro.
- No seja ridcula, Raven - argumentei. - Voltaremos e pensaremos em outra coisa.
- No, no pensaremos. Se voltarmos, Gordon transformar nossas vidas num verdadeiro inferno... e isso se o Estado no nos separar e nos obrigar a viver em algum 
lugar pior do que Lakewood House. - Ela comeou a fungar. -  tudo culpa minha. Pensei que Sunshine fosse igual a ns; que ela merecia uma oportunidade.
- Ela levou nosso dinheiro, Raven. Ningum est culpando voc. Todas temos de arcar com alguma responsabilidade. Eu tambm concordei em lhe dar uma carona. E agora 
entre no carro, por favor.
- Entre, Raven - implorou Borboleta. - No podemos partir sem voc.
- Sinto muito ter gritado com voc, Raven - disse Crystal. - No posso culp-la por querer ajudar algum.
Raven olhou para Crystal e abrandou. Correu os olhos pela fileira de quartos do motel, depois nos fitou.
-  bem provvel que Gordon mande nos prender - murmurou ela, entrando na caminhonete, relutante.
- Devemos dar uma volta pela rea, para ver se encontramos Sunshine. Eu a obrigarei a devolver o nosso dinheiro.
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- No vamos encontr-la - disse Crystal. - Agora que levou nosso dinheiro, tenho certeza de que no vai mais pedir carona.
- Como ela pde fazer isso conosco? - gritou Raven, enquanto deixvamos o estacionamento do motel. - Achei que ramos iguais a ela!
- No somos iguais a ela - declarou Crystal. - Nossa situao  melhor, Raven. Sunshine est sozinha. Ns temos umas s outras. Como voc acha que ela vai acabar? 
Provavelmente morrer em algum beco escuro.
- Para que lado vamos? - indaguei, quando alcancei a estrada.
Crystal consultou seus mapas.
- Devemos continuar para oeste por cerca de trinta quilmetros. Pegaremos a entrada para uma das rodovias principais, mesmo correndo risco. Agora que vamos mesmo 
voltar, no faz diferena se formos detidas.
O clima fnebre que eu sentira no dia anterior era como uma feliz celebrao se comparado com o nimo que nos dominava hoje. O cu nublado agravava a situao. Comeou 
a chuviscar. No demorou muito para que a chuva se tornasse mais intensa. Chovia tanto em determinado momento que tive de parar no acostamento.
- Espero que ela no tenha conseguido pegar uma carona e esteja agora no meio dessa chuva - murmurou Raven.
Depois suspirou e arriou no banco, enquanto a gua escorria pelo pra-brisa e pelos lados da caminhonete.
- Estou com fome - comentou Borboleta. - No vamos parar em algum lugar para o caf da manh?
- No tenho nenhum dinheiro - disse Crystal. - Brooke, quanto voc tem exatamente?
- Apenas algumas moedas. Talvez noventa centavos. Voc guardava tudo na sua bolsa.
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- Poderamos dividir alguma coisa - sugeriu Borboleta.
- E o que comeramos no almoo e no jantar? - indagou Crystal. - Temos de viajar alguns dias para voltar. Talvez seja melhor nos entregarmos  polcia.
Ningum disse nada. Cada momento transcorrido parecia nos levar para mais perto de um desastre ainda pior do que tudo o que imaginramos. A chuva finalmente diminuiu 
para um chuvisco, mas ainda ventava muito.
- Estou me sentindo uma grande idiota - murmurei. - Por que no percebi logo como ela era?
- No entre nessa - ordenou Crystal. Observei-a pelo espelho retrovisor. Sua expresso era firme. J recuperara o controle. E tinha toda razo. Eu detestava a autocompaixo, 
assim como a desprezava nas outras pessoas. E me sentia ainda pior se me ouvia lamentando e gemendo.
Raven empertigou-se abruptamente.
- Tenho uma idia. Uma ocasio, quando eu estava com Dede, resolvemos sair com Charlie Weiner. No tnhamos dinheiro suficiente para comprar refrigerantes. Charlie 
ento sugeriu que levantssemos o banco traseiro para procurar moedas que poderiam ter cado l atrs. Talvez encontremos alguma coisa agora.
- De que adianta encontrar algumas moedas? - perguntou Crystal.
- Pelo menos poderemos pagar o caf da manh, Crystal. Tambm estou com fome. E teremos algum tempo para pensar.
Raven olhou para mim. Dei de ombros e murmurei:
- Muito bem, vamos levantar o banco traseiro. Ela e eu saltamos e abrimos as portas. Crystal e Borboleta saram. Raven e eu enfiamos os dedos por trs do banco traseiro 
e o puxamos. Conseguimos levant-lo com facilidade. Encontramos uns poucos dlares em moedas, mas tambm descobrimos outra coisa.
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- O que  isso? - indaguei.
No toquei. Raven inclinou-se devagar, enquanto Borboleta espiava por cima do seu ombro e Crystal do meu.
Era um saco de plstico transparente, cheio do que parecia ser farinha de trigo branca. Raven abriu e enfiou um dedo no saco. Olhou para mim enquanto pegava um pouco 
do p branco e levava aos lbios. Arregalou os olhos.
-  cocana! - anunciou ela, levantando o saco. - E uma grande quantidade!
- Cocana? - repetiu Crystal. - Tem certeza?
- Tenho, sim. J vi antes. Mame e seus namorados costumavam deixar um pouco no apartamento. Esta aqui deve valer um bom dinheiro.
- Gordon devia estar vendendo - comentei. Recomeara a chover forte, mas nenhuma de ns parecia se importar. Pensei um pouco e acrescentei:
- Agora compreendo o que ele fazia quando o vi com algum na caminhonete tarde da noite. Aposto que era seu fornecedor ou algum cliente.
- Voc viu? - perguntou Borboleta.
- Vi, sim. Pensei at que ele tinha me visto na janela e fiquei assustada. Puxa, cocana! - Eu me sentia atordoada. - E viajamos com isso bem por baixo de ns!
- E at cruzamos fronteiras de estados - lembrou Crystal. - Vamos jogar fora imediatamente.
Raven comeou a levantar o saco.
- Espere! - exclamou Crystal. Raven hesitou.
- Quer guardar?
- No. Pode me dar.
Raven entregou o saco. Crystal abriu-o, enquanto acrescentava:
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- No podemos deixar apenas na margem da estrada. Algum poderia encontrar e vender, at mesmo para crianas. Seramos as responsveis.
Ela se afastou do carro.
- O que vai fazer? - gritou Raven.
Crystal sacudiu o saco para o vento. O p saiu e comeou a se espalhar pelo cho. A chuva dissolveu-o num instante.
- Trate de se apressar, antes que algum chegue e veja isso! - gritei.
Ela sacudiu o saco com mais fora. Uma pequena nuvem branca apareceu, para logo se dissolver e desaparecer ao vento. Crystal afastou-se da estrada por mais alguns 
passos e ps o saco vazio embaixo de uma pedra.
- Vamos logo embora! - disse ela, quando apareceu um carro na estrada.
Endireitamos o banco traseiro e embarcamos na caminhonete. Dei a partida, enquanto o veculo em sentido contrrio diminua a velocidade. Um homem e uma mulher olharam 
para ns. Pareciam ter em torno de cinqenta anos. No pararam. Fiquei observando o carro pelo espelho retrovisor.
- Espero que nunca venhamos a nos arrepender por ter feito isso - murmurou Raven.
- Vamos nos arrepender de uma poro de coisas que fizemos, mas nunca disso - garantiu Crystal.
- Ei, esperem um pouco! - exclamei, sem parar de guiar. - No podemos mais voltar agora!
- Por que no? - indagou Crystal.
- Gordon pode no nos matar por levar seu veculo, mas por jogar fora a cocana...
- Brooke tem razo, Crystal - interveio Raven. - No h como prever o que ele ser capaz de fazer conosco.
Crystal no disse nada.
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- Podemos procurar a polcia - sugeriu ela depois de um momento. - Vo nos perguntar por que no aparecemos quando estvamos com a droga nas mos - ressaltou Raven.
- Deveramos ter feito isso. - Desolada, Crystal olhou pelo espelho retrovisor, como se pudesse haver algum meio de voltarmos ao lugar e repormos a cocana no saco. 
- Acho que estamos mesmo numa situao crtica.  melhor continuar em frente at pensarmos em outra coisa para fazer.
Junto com as moedas que encontramos debaixo do banco tnhamos pouco mais de onze dlares. Meu estmago tambm roncava. Por isso, quando avistamos a placa do Crossroads 
Restaurant, resolvi sair da estrada.
- Toro para que no seja muito caro - murmurou Crystal.
Quando o vimos, conclumos que no podia ser. No chegava a estar dilapidado, mas era despretensioso: um restaurante num prdio que devia ter sido outrora a casa 
de algum. Havia um estacionamento na frente, duas bombas de gasolina e uma placa que dizia: CROSSROADS RESTAURANT, COMA AQUI E PONHA GS.
- Espero que no seja um comentrio sobre a comida - gracejou Raven.
Crystal e eu rimos. Havia um trailer grande  direita do restaurante, com um pequeno gramado amarelado e um cortador de grama enferrujado na frente. Por trs do 
restaurante havia um pequeno chal, as janelas da frente cobertas por tbuas, um pedao de calha pendendo do lado direito da porta. Havia meia dzia de carros e 
trs pickups no estacionamento quando paramos. A porta de tela estava aberta e podamos ouvir msica country tocando l dentro.
- O que vocs acham? - perguntei.
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Mendigas no podem escolher - respondeu Crystal, jovialmente.
Compreendi que ela tentava fazer com que todas se sentissem melhor. Saltamos do carro e entramos no restaurante. No era to pequeno por dentro quanto pensvamos. 
Havia mesas  direita e  esquerda, mas nenhum reservado. Bem na nossa frente havia um balco com bancos de ao inoxidvel, cobertos por um vinil preto j meio gasto. 
Por trs ficava a cozinha, aberta para quem quisesse ver. Um preto baixo e magro, com duas mechas de cabelos brancos nos lados da cabea, cozinhava ali. Virou a 
cabea com algum interesse, mas logo voltou a se concentrar no fogo, onde havia bolinhos, ovos e bacon impregnando o ar com aromas deliciosos. Meu estmago deu 
saltos-mortais em expectativa; e pelas expresses de Crystal, Borboleta e Raven, compreendi que a mesma coisa acontecia com elas.
Uma mulher alta, com cabelos castanhos malcui-dados, cheios de fios brancos, trabalhava no balco. Ao que parecia, era a nica garonete. Tinha olhos midos, injetados 
e cansados, que combinavam com sua pele plida. No era corpulenta, mas a parte superior dos braos era bem grossa. O busto volumoso forava a blusa branca apertada, 
com os dois botes de cima abertos, deixando  mostra um sulco profundo entre os seios. Percebi ser uma vista atraente para seus fregueses, todos homens. A saia 
preta era to justa que os quadris se delineavam com clareza. Ela fez uma pausa no trabalho e olhou para ns, com as mos na cintura.
- Se vieram comer, escolham um lugar para sentar - ordenou.
Os fregueses, todos olhando para ns, sorriram. Um homem encheu a boca com um pedao de po molhado com gema de ovo, enquanto nos observava seguindo para uma mesa.
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- Parece que voc vai ter de acordar o Danny, Patsy - disse ele. -  uma manh de grande movimento, hein?
- V acord-lo voc - murmurou ela. - Ser como tentar levantar os mortos.
Todos riram.
- Deixe que eu vou acord-lo para voc.
Quem fez a sugesto foi um homem alto e forte em torno dos quarenta anos, sentado em outra mesa. Era evidente que se tratava de um lugar bastante pequeno, pois todos 
os clientes se conheciam e participavam da conversa.
- Se voc fosse acord-lo, Gordy, sei que ele nunca mais seria de qualquer proveito para mim - respondeu a mulher.
- No seria grande perda - comentou Gordy. - Como no  de grande proveito para voc, mesmo agora.
Todos riram novamente.
- No me lembre...
Patsy pegou um prato com bolinhos estendido pelo cozinheiro e foi larg-lo na frente de um fregus que se encontrava no balco. Limpou as mos numa toalha de prato 
e contornou o balco para falar conosco. No tinha cardpio nas mos, mas percebeu no mesmo instante o que eu pensava.
- O cardpio do caf da manh est na parede - informou ela, apontando com a cabea para um quadro-negro  esquerda.
Tudo era bastante barato, mas no teramos dinheiro suficiente se as quatro pedissem. Crystal estudou o quadro-negro.
- O que fazem por aqui? - perguntou Patsy, olhando de mim para Borboleta, Raven e Crystal.
- Estamos viajando e vimos sua placa - respondi-
- Eu disse que valia a pena anunciar! - gritou o homem chamado Gordy.
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Alguns dos fregueses do balco riram mais uma vez.
- Fique quieto - disse a mulher. - Tenho negcios de verdade para tratar aqui.
Ele riu ainda mais. Patsy virou-se para ns.
- Podemos pedir uma poro de panquecas, dois ovos, dois sucos de laranja grandes e dois cafs? - perguntou Crystal.
- Para todas vocs?
- Isso mesmo.
A mulher ficou espantada.
- Quanto dinheiro vocs tm?
- O suficiente para isso - respondeu Crystal.
- No foi isso que eu perguntei!
Crystal sustentou o olhar da mulher por mais um momento, depois olhou para o nosso dinheiro.
- Temos onze dlares e quarenta e trs centavos.
- No total?
- Isso mesmo.
- At onde vo?
Raven comeou a se remexer na cadeira. Borboleta parecia mais apavorada.
- Deveramos ir para a Califrnia, mas fomos roubadas ontem  noite e isso  tudo o que temos.
- Fala srio? - A mulher coou a cabea. - Como foram roubadas?
- Uma pessoa que merecia toda a confiana levou nosso dinheiro enquanto dormamos - expliquei.
- E com isso s tm onze dlares agora, hein?
- E quarenta e trs centavos - corrigiu Crystal.
-  verdade, mais quarenta e trs centavos... - Ela suspirou fundo, balanou a cabea. - Podem me chamar de Dona Corao Mole.
A mulher virou-se para o cozinheiro e gritou:
- Charlie, quatro panquecas especiais! O cozinheiro acenou com a cabea.
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- Mas no podemos pagar! - protestou Crystal preocupada.
- Ningum deixa o restaurante da Patsy com fome - declarou a mulher. -  uma regra da casa.
Ela voltou ao balco. Ficamos observando enquanto servia quatro copos com suco.
-  muita gentileza dela - murmurou Raven, cautelosa, no se sentindo mais disposta a confiar numa estranha muito depressa.
Mais dois fregueses chegaram; e antes de recebermos a comida, outros trs entraram. Patsy estava muito ocupada. Vi quando o cozinheiro terminou de preparar os nossos 
pratos.
- Vou ajud-la - anunciei, levantando-me.
- Vai fazer o qu? - perguntou Raven.
Patsy anotava um pedido, mas viu quando dei a volta para trs do balco. No se queixou quando peguei os pratos e levei para nossa mesa. J trabalhara como garonete 
antes e sabia como carregar quatro pratos. Sentei-me depois de coloc-los na mesa.
- Est uma delcia - comentou Raven, enquanto comia.
- Muito bom mesmo - acrescentou Borboleta. - Os ovos esto no ponto que eu gosto.
Patsy tinha de anotar os pedidos, trabalhar no balco e servir s mesas. O restaurante tinha obviamente uma boa reputao entre os moradores locais, apesar do servio 
lento, porque mais fregueses chegaram e todos pareciam conhec-la. Mostravam-se pacientes, embora ansiosos. Comi depressa e tornei a me levantar, antes que as outras 
acabassem.
- O que vai fazer? - indagou Crystal.
- Ajud-la.
Comecei a tirar os pratos das mesas que os fregueses haviam deixado. Encontrei a bandeja para pratos e
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ovos sujos atrs do balco. Havia do lado um pano mido para limpar as mesas. Assim que acabou de comer, Raven tambm se levantou para fazer a mesma coisa.
Patsy ficou olhando, sorrindo, e balanando a cabea para ns.
- Arrumou ajudantes? - perguntou algum.
-  o que parece.
Depois que tiramos toda a loua suja, comeamos a pr talheres limpos nas mesas. Um rapaz de cabelos vermelho-dourados elogiou Raven por sua competncia como garonete. 
Pelo seu sorriso tmido e um "obrigada" discreto, percebi que ela se sentia lisonjeada. Patsy, ao passar por mim apressada, levando um pedido, murmurou:
- Obrigada pela ajuda.
- Devo perguntar se algum quer mais caf? Patsy gritava mais um pedido para o cozinheiro.
Parou e fitou-me por um momento.
- J trabalhou em restaurante antes?
- J, sim, madame. Durante o vero.
- Est bem, pode oferecer.
Ela foi entregar outro pedido e a acompanhei, perguntando quem queria mais caf. Crystal continuava sentada, aturdida, enquanto Borboleta nos observava com um sorriso 
radiante.
- Bem que precisamos de mais ajuda - falei para Crystal. - Raven parece ocupada.
O rapaz pedira mais caf e continuava dispensando elogios a Raven. Ela parecia um pouco constrangida, mas ao mesmo tempo interessada.
O restaurante comeou finalmente a esvaziar, e Patsy pde organizar melhor seu trabalho. O movimento intenso do caf da manh acabara. Ela serviu caf para um homem 
no balco e depois aproximou-se de mim e de Crystal.
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- Por que vocs esto viajando sozinhas? - perguntou.
- Estvamos indo para a Califrnia, a fim de fazer uma visita de duas semanas a minha tia - respondeu Crystal, com ar desolado. - Todas estudamos na mesma escola 
em Nova York. Nossos pais nos deram dinheiro para a viagem. Deveria ser uma aventura de vero. Agora temos de voltar.
- Quando deveriam chegar  Califrnia?
- No havia data marcada - declarei, enfeitando a histria imaginativa de Crystal. - Poderamos demorar o tempo que quisssemos. Tnhamos todo o vero pela frente.
Era engraado como sempre pensei em Crystal contando histrias criativas, no inventando mentiras. Acho que fazia isso porque sabia que no havia maldade nela, nenhuma 
inteno de fraude. Ela sempre dava a impresso de que gostava de contar aquelas histrias tanto quanto apreciaria inventar um relato para alunos de uma turma de 
ingls.
- Cometemos o erro de dar carona a uma moa ontem e ela nos roubou - acrescentou Crystal, misturando a verdade com a fantasia.
- Entendo... - murmurou Patsy, balanando a cabea.
Olhou para duas das mesas em que os fregueses haviam deixado gorjeta.
- Uma parte daquele dinheiro  de vocs, meninas.
- De jeito nenhum! - protestei. - Voc nos ofereceu a comida. No podemos aceitar.
Ela riu e pensou por um momento, enquanto observvamos Raven despedir-se do rapaz com quem conversara durante todo o tempo.
- Se sua tia pode esperar umas poucas semanas por vocs, bem que estou precisando de uma ajuda aqui.
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Poderiam ganhar o dinheiro necessrio para o resto da viagem at a Califrnia. Tenho um chal por trs do restaurante em que poderiam ficar. No est muito bom. 
Tero de arrumar algumas coisas, mas posso lhes dar toalhas e lenis limpos. Era usado antigamente para receber viajantes... no tempo em que meu marido era vivo.
- Qual foi o problema com ele? - perguntou Crystal.
- Morreu num acidente de carro. O outro motorista estava bbado. Ouviram falar em meu filho Danny. Ele no ajuda muito aqui, infelizmente. No consigo control-lo 
desde que Eddie morreu. Charlie  nosso cozinheiro h mais de dez anos.
- Isso mesmo - interveio Charlie, sorrindo. - Gostei de ver vocs em ao. So autnticas profissionais.
- Este restaurante tinha outrora um movimento maior, antes de abrirem a nova estrada. Naquele tempo podamos contratar um batalho de garons e garonetes. Eu tinha 
at um homem para trabalhar no balco. No posso pagar muito, mas vocs podem ganhar boas gorjetas. Alm disso, teriam casa e comida de graa. Este  o perodo mais 
movimentado do ano para mim.
- Podemos fazer isso, no , Crystal? Raven juntou-se a ns.
- Fazer o qu?
- Ficar aqui e trabalhar por algumas semanas, a fim de recuperarmos o dinheiro que perdemos ontem  noite - expliquei, torcendo para que Raven no dissesse qualquer 
coisa que pudesse contradizer a nossa histria.
-  mesmo? Seria sensacional!
Ela olhou pela janela, sonhadora. Percebeu de repente o que fazia e sacudiu a cabea.
- No sei o que h de errado comigo. Acho que vou molhar o rosto com gua fria. Estou sentindo um calor sbito. Esse trabalho de garonete  mais pesado do que eu 
lembrava.
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Enquanto Raven se afastava, Crystal especulou em voz alta:
- O que ser que deu nela?
Borboleta, que olhava pela janela, virou-se para ns
- Quem  aquele garoto, Patsy?
- Taylor Cummings. - Patsy franziu o rosto. - Ele no deixa escapar um rostinho bonito. Avisem a Raven para tomar cuidado... pois ele  perigoso.
- No precisa se preocupar com Raven - assegurou Crystal. - Ela pode parecer meio boba, mas sabe muito bem quando algum est lhe lanando uma isca.
Em geral eu concordaria com ela, mas agora no tinha tanta certeza.
-  verdade, mas Raven se comportou de uma maneira diferente com aquele rapaz... - murmurei, mais para mim mesma do que para outra pessoa.
- Se  assim, vamos verificar como est o chal - props Patsy. - Charlie, fique de olho aqui. Volto num instante.
- Claro, madame - respondeu ele, saindo da cozinha.
Ao sairmos do restaurante, Raven se aproximou, apressada, observando seu novo amigo se afastar num caminho.
- Vamos mesmo ficar? - perguntou ela.
Havia um inconfundvel tom de esperana em sua voz.
- Talvez. - Estudei-a atentamente. - Vamos dar uma olhada no chal e depois nos aprontaremos para o trabalho.
O chal era pequeno, mas tinha um quarto com duas camas de solteiro e um sof-cama para duas pessoas. A cozinha era apenas uma reentrncia na parede com uma pia 
e um pequeno fogo. A geladeira parecia quebrada, com a porta entreaberta. Como no amos
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mesmo cozinhar nada, isso no importava. O banheiro bm era pequeno, mas tinha uma banheira e um chuveiro por cima. Havia manchas de ferrugem nos ralos e torneiras, 
na pia e na banheira. O ar estava impregnado pelo cheiro de mofo. Havia teias de aranha em quase todos os cantos; uma camada de poeira cobria tudo. -
- Parece um pouco pior do que eu pensava - murmurou Patsy.
- No est to ruim assim - declarou Raven no mesmo instante. - Podemos ficar, no  mesmo, Brooke? Vamos arregaar as mangas e transformar tudo isso num palcio 
rapidamente.
- Daremos um jeito - concordei. - Crystal?
- Vamos conversar.
- Eu compreendo que precisam pensar, meninas - interveio Patsy. - Discutam o assunto e voltem ao restaurante para me dizer que chegaram a uma deciso, qualquer que 
seja.
Assim que ela se retirou, Raven virou-se para Crystal.
- Por que disse isso?  uma possibilidade de ficarmos aqui de graa!
- Ela vai desconfiar se nos mostrarmos ansiosas demais - murmurou Crystal. - Por que quatro garotas cujas famlias tm condies de envi-las para a Califrnia aceitariam 
isto?
Crystal gesticulou com os braos pelo chal.
- Porque acabamos de ser roubadas! - exclamou Raven. -  por isso!
- Pessoas ricas mandariam o dinheiro para voltarmos ou mesmo para continuarmos at a Califrnia, Raven. No podemos nos precipitar.
Ela refletiu sobre a situao por algum tempo, enquanto Raven esperava, na maior ansiedade.
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- Acho que podemos muito bem dormir aqui. - comentou Borboleta.
- Claro que podemos - concordou Raven, olhando para Crystal. - No amos dormir no carro na outra noite?
- Muito bem, vamos aceitar - decidiu Crystal -Faremos parecer que  tudo parte de uma aventura para ns. Mas no diga nada que possa deix-la desconfiada, Raven.
- No direi nada - prometeu ela, erguendo a mo direita.
Crystal acenou com a cabea e depois olhou para mim.
- Talvez d tudo certo; talvez nossa sorte esteja comeando a mudar. Vamos decidir quem dorme no sof-cama.
- Borboleta e eu - respondeu Raven no mesmo instante.
- Raven ronca - queixou-se Borboleta.
- No ronco, no!
- Eu dormirei no sof-cama com Raven - anunciei, determinada a chegar ao fundo de seu estranho nimo.
Todas voltamos ao restaurante para comunicar a Patsy que decidramos aceitar sua oferta. Quando entramos, havia um garoto de uns de dezenove anos, de cabelos compridos, 
tomando um caf fumegante no balco. Usava uma blusa "Grateful Dead", o morto agradecido... e parecia mesmo que o bluso morrera e fora ressuscitado, pois estava 
pudo e desbotado. O traje era completado por jeans e tnis sujos, sem meias.
- Aqui esto elas! - exclamou Patsy. O rapaz virou-se.
- Gostaramos de ficar, Patsy - anunciei.
- timo. Este  o meu filho Danny.
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O sorriso dela contraiu-se numa expresso de desgosto. O rapaz nos contemplou, mais franzindo o rosto que sorrindo, como se estivesse desapontado pelo que via ou 
pelo que ouvira. Tinha uma boca suave, com um lbio inferior parecendo inchado, e um pequeno talho no queixo. O nariz era de Patsy, um pouco mais largo na parte 
superior, mas as orelhas eram maiores e bem pontudas no alto.
Danny no era gordo, nem tinha um fsico imponente, mas j apresentava os sinais de uma barriga de cerveja. No havia dvida de que ele no venceria nenhuma competio, 
exceto se fosse para escolher o homem de aparncia menos higinica at os vinte e cinco anos de idade.
- Pode dar um ol, Danny - murmurou Patsy.
- Ol. - E tornou a se virar para o caf, enquanto perguntava  me: - O que elas vo fazer?
- Quase tudo que voc deveria fazer. Venham comigo, meninas. Vou lhes dar as roupas de cama e toalhas, assim como o material de limpeza. Danny, pode fazer o favor 
de tirar as tbuas das janelas do chal?
Ele soltou um grunhido.
Patsy sacudiu a cabea, desolada. Ns a seguimos at o trailer. No momento em que abriu a porta, ela se desmanchou em desculpas. As roupas de Danny estavam espalhadas 
por toda parte, havia latas de cerveja vazias, pontas de cigarros e pratos sujos na mesa da cozinha. Patsy fez uma tentativa de limpar um pouco a sujeira.
- Pedi a ele que arrumasse tudo antes de sair hoje. Alguns amigos dele estiveram aqui ontem... at tarde da noite.
Ela soltou um gemido e estendeu a mo para a regio lombar, enquanto se empertigava, depois de pegar uma lata no cho.
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- Volto num instante - murmurou Patsy, afastando-se para o fundo do trailer.
- Por que ele  to mau com a me? - indagou Borboleta.
- O que ele precisa mesmo  de levar um bom chute no rabo - murmurei.
Patsy nos trouxe lenis, toalhas e um balde com produtos de limpeza. Entregou a Raven o esfrego e algumas esponjas.
- Avisem-me se precisarem de mais alguma coisa. Por volta das quatro horas comeamos a nos preparar para a turma do jantar. Temos tido um bom movimento ultimamente. 
Sejam bem-vindas ao Crossroads, meninas.
O nome em ingls do restaurante significa encruzilhada... e estvamos mesmo numa encruzilhada, pensei, num lugar em que poderamos recuperar o flego e decidir se 
nos enganvamos com nossos sonhos ou se nos encontrvamos no meio do caminho na busca por um lar de verdade.
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8 - Na sade e na doena

Como Raven e eu j tnhamos experincia como garonete, decidimos que naquele primeiro dia, pelo menos, Crystal e Borboleta ficariam incumbidas de limpar o chal. 
Danny removera as tbuas das janelas, com a maior m vontade. Percebramos no mesmo instante que precisaramos de cortinas ou persianas. Improvisei o uso de toalhas 
para podermos ter alguma privacidade e evitar que o sol nos acordasse cedo demais pela manh.  verdade que em geral teramos de levantar antes do sol nascer, de 
qualquer maneira, para nos prepararmos para a turma do caf da manh. Raven foi a primeira a resmungar por ter de levantar to cedo, embora todas quisssemos continuar 
por baixo das cobertas.
- No fundo no temos nada de livres! - exclamou ela.
Crystal comeou a rir, mas parou de repente, e, assumindo seu ar de professora, disse a Raven que a verdadeira liberdade implicava responsabilidade, no apenas por 
si mesma, mas quase sempre por algum mais.
- Eu sei, eu sei, apenas gostaria de poder dormir um pouco mais - murmurou Raven, bocejando.
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Crystal olhou para mim, como se dissesse "Eu tentei", depois mudou de assunto. Quer gostssemos ou no, teramos de acordar muito cedo enquanto perma-necssemos 
ali.
Charlie sempre chegava antes do amanhecer, preparava a massa de panqueca, os cereais, o mingau de aveia e o caf. Sabia fazer omeletes maravilhosas. Pelo que logo 
constatamos, sua reputao como cozinheiro era o que mantinha os pontuais fregueses fiis ao restaurante de Patsy, junto com os preos atraentes.
- Vocs, meninas, so como um sopro de ar fresco aqui - disse-nos ele. - H muito tempo que no vejo Patsy to alegre e animada.  verdade que ultimamente ela no 
vem tendo muitos motivos para se mostrar alegre e animada.
Na convivncia com Charlie, ningum poderia imaginar que havia depresso e tristeza ali. Por maior que fosse o movimento e por mais afobadas que estivssemos, Charlie 
sempre se mantinha alegre e despreocupado. Era um colega fcil de se trabalhar, paciente e cordial. Nunca perdia a calma quando uma de ns confundia pedidos, mas 
eu percebia que seus olhos se tornavam mais sombrios e o sorriso desaparecia do rosto sempre que Danny aparecia. O rapaz no demonstrava qualquer respeito quando 
falava com ele. Sempre fazia exigncias em vez de pedidos, e, diga-se de passagem, nunca agradecia a Charlie... nem a qualquer outra pessoa.
Todas ns jantamos cedo naquela primeira noite. Perguntei a Patsy onde estava Danny. Ela no sabia e me arrependi no instante seguinte por ter perguntado. Observei 
seus olhos tristes. Danny s apareceu quando nos aprontvamos para receber os primeiros fregueses do jantar. No estava muito limpo, mas pelo menos pusera uma camisa 
de malha lavada, com as palavras Lees 5 X Cristos na frente, e um jeans que no parecia
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muito desbotado nem encardido. Usava os mesmos tnis sujos, sem meias. Fizera uma tentativa de pentear 0S cabelos e se barbeara.
No apenas evitara todos os preparativos para o jantar, como tambm logo deixou claro que no se encontrava ali para trabalhar.
- Parece que no precisar de mim aqui esta noite, me. Vou sair com Terry e Mark. - Antes que Patsy pudesse responder, ele acrescentou: - Preciso de dez pratas.
Danny foi at a caixa registradora, tirou uma nota de dez dlares, lanou um olhar furioso para mim e fechou-a.
- Certo? - resmungou ele para Patsy.
Ela baixou os olhos, enquanto enxugava um prato.
- Aonde vai, Danny?
- J disse que vou sair. E sair  sair. Certo?
Ele olhava para mim, com uma expresso desafiadora.
- Uma pessoa pode sair para perto, sair para longe e sair do seu juzo normal - comentei.
Raven riu.
- Muito engraada - disse Danny. - Lembre-me de rir.
- Por qu? - indaguei. - Perdeu a memria? Ele me lanou outro olhar furioso, depois deixou o restaurante. Quando olhei para Charlie, avistei um sorriso largo em 
seu rosto. Mas Patsy estava desolada.
- No teremos problema, Patsy - apressei-me em assegurar. - Se o movimento for muito grande, chamarei Crystal.
- No estou preocupada com isso. Muitas vezes j tive de cuidar de tudo sozinha. Apenas eu e Charlie defendendo o velho forte... no  mesmo, Charlie?
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- , sim, madame... e no deixamos ningum ir embora insatisfeito. - Charlie olhou para ns. -
pura verdade.
Os fregueses comearam a chegar. O bolo de carne de Charlie era a opo predileta. Patsy o apresentava como o prato especial da noite; mas pelo que ouvimos era sempre 
o prato especial da noite... e com toda razo. Era delicioso. Para nosso espanto, o restaurante ficou lotado em apenas meia hora. Crystal e Borboleta viram o que 
estava acontecendo e vieram correndo para ajudar. Eu disse a Patsy que Crystal poderia ficar na caixa registradora, se ela assim quisesse. Patsy achou que era uma 
boa idia. Borboleta foi incumbida de tirar as mesas. No demorou muito para que tudo estivesse sob controle.
Raven, no entanto, logo se descobriu o foco das atenes e passou a aliment-las, parando junto das mesas para flertar e conversar. Taylor Cummings, que atrara 
sua ateno pela manh e a convidara para sair, voltou  noite. Agora que podia examin-lo melhor, constatei que era um homem bonito, em torno dos vinte e cinco 
anos, com cabelos compridos, louro-ruivos, olhos azuis maliciosos. Tive de admitir que seu sorriso era capaz de derreter gelo.
Patsy veio se postar ao meu lado e sussurrou:
- Ele  conhecido como Trator do Amor, porque j destruiu inmeros coraes femininos. Avise a Raven para tomar cuidado.
Eu no podia pensar em nada mais futil do que tentar advertir Raven em questes de amor e romance. Cada vez que passava por ela, eu comentava que o movimento era 
grande, que precisvamos de toda ajuda possvel.
- J estou indo... - murmurava ela.
Mas era como se Taylor Cummings a mantivesse hipnotizada. Mesmo quando se afastava de sua mesa, a jovem logo era atrada de volta.
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Ele voltar daqui a uma hora para me buscar - informou Raven, depois que Taylor finalmente pagou a conta e foi embora. - Vamos sair para danar.
Voc no o conhece. Como pode sair com um estranho? - Virei-me para Crystal, em busca de ajuda, mas ela se limitou a sacudir a cabea. - E ento, Raven?
- No haver qualquer problema - garantiu ela. - J sa com estranhos antes, Brooke.
- Mas estamos na estrada, Raven... desamparadas.
- Talvez voc esteja desamparada - disse ela, com um sorriso frio e arrogante -, mas, em matria de homens, no estou e nunca estarei desamparada.
No havia mais nada a fazer. Tratei de tirar o assunto da mente.
Ao final da noite, Patsy recebeu muitos elogios sobre a rapidez e eficincia do servio no jantar. Ao conferir os recibos, ela comentou que entrara mais dinheiro 
naquela noite do que em muito tempo, porque houvera revezamento maior s mesas.
- Vocs so uma ddiva do cu, meninas! - exclamou ela.
Depois que o ltimo fregus se retirou e ficamos a ss, sentamos a uma mesa, descansando e comendo a torta de ma de Charlie. Patsy sentiu necessidade de desculpar-se 
pelo comportamento anterior de Danny.
- No sei mais o que fazer com ele. Tenho certeza de que vai acabar se metendo numa encrenca sria.
- Danny est sofrendo de baixa auto-imagem - disse Crystal.
Patsy olhou para ela, enquanto eu pensava: "L vamos ns outra vez".
- No sei como era o relacionamento dele com o Pai, mas voc nos disse que ele se tornou um problema maior depois da morte do seu marido. Provavelmente sentiu-se 
intil, incapaz de tomar o lugar do pai e ser a
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metade do homem que o pai era. Em vez de lutar contra a ansiedade, seu filho desistiu e se desviou para a direo oposta, cedendo s suas fraquezas para conviver 
com elas, por assim dizer.  um mecanismo clssico de defesa psicolgica, sobretudo em adolescentes. Patsy fitava-a boquiaberta.
- Como sabe tudo isso? - perguntou ela.
- Crystal  um gnio - declarou Borboleta, orgulhosa.
- Ela foi a primeira da turma e provavelmente seria a oradora - acrescentou Raven.
- Provavelmente seria? Como assim? - indagou Patsy no mesmo instante.
Se ela no percebeu a maneira como ns trocamos olhares, deve ter a percepo de uma pedra, pensei.
- Ela quis dizer que provavelmente serei - corrigiu Crystal. - No foi isso, Raven?
- Claro que foi. - Raven soltou uma risada nervosa. - Sempre cometo erros gramaticais. Se no fosse pela ajuda de Crystal, seria reprovada todos os anos.
Patsy, no entanto, ainda nos estudava, com um pouco mais de suspeita.
- Ligaram para suas famlias e avisaram onde passaro algum tempo?
- Claro - respondeu Crystal, assumindo o papel de nossa porta-voz. - Mas no contamos que fomos roubadas.
Ouvir Crystal confessar uma pequena fraude contribuiu para dissolver as dvidas de Patsy a nosso respeito. Ela exibiu um sorriso de compreenso.
- Espero que recuperem depressa o dinheiro que perderam, meninas. Como se saram?
- Ganhei quarenta e um dlares - anunciei.
- E eu ganhei trinta e trs - acrescentou Raven.
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Percebi que ela especulava por que eu ganhara tanto, e resolvi gracejar:
Basta conversar menos e trabalhar mais. Raven sorriu, contrafeita.
- Isso  timo. - Patsy olhou para Crystal e Borboleta E com os salrios que pagarei a vocs, no precisaro esperar muito para terem condies de partir de novo. 
J sei que vou sentir saudade. Por isso, talvez seja melhor eu torcer por dias de menor movimento.
Rimos tambm, mas no fundo sabamos que no era nada engraado. Se ela soubesse o quanto precisvamos ser apreciadas daquele jeito, compreenderia que no era uma 
situao que pudssemos considerar como inconseqente.
Subitamente, ouvimos uma buzina l fora. Raven levantou-se de um pulo.
- Deve ser Taylor! - exclamou ela, tirando o avental enquanto se encaminhava para a porta. -  ele mesmo! No vo se importar se eu sair, no ? Juro que estarei 
bem.
Raven sentia-se to feliz, que nenhuma de ns queria acabar com seu entusiasmo.
Mas quando vi a expresso de profunda preocupao no rosto de Patsy, conclu que tinha de avisar Raven, mesmo que ela ficasse zangada comigo por isso. Sa correndo 
e chamei-a antes que ela alcanasse o caminho de Taylor.
- Qual  o problema? - perguntou ela.
-  melhor voc tomar um cuidado extra, Raven. Patsy diz que Taylor  um conquistador.
O desapontamento levou-a a contrair o rosto.
- No posso acreditar. Ele  to simptico... muito mais simptico do que os outros rapazes com quem j sa.
- Acontece que ele no  mais um rapazinho, Raven, e sim um homem. Alm disso, Patsy no mentiria.
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Ela pensou por um momento.
- Tem razo, ela no mentiria. Mas tenho de dar a mim mesma a oportunidade de descobrir. Por que  to difcil para todo mundo acreditar que algum possa estar de 
fato interessado em mim como pessoa, e no apenas por minha aparncia?
A voz saiu um pouco trmula. Ela virou-se e correu o resto da distncia at o caminho.
Raven voltou bem tarde do seu passeio. Estvamos acordadas, esperando na maior ansiedade. Deixamos todas escapar um suspiro de alvio quando vimos o sorriso de Raven 
ao entrar no nosso pequeno chal.
- Ei, por que ficaram acordadas? Pensei que tivssemos deixado o toque de recolher para trs, na Lake-wood House.
- S queramos ter certeza de que voc est bem, que Taylor no se comportou como um patife - explicou Crystal, falando por todas ns.
- Podem dormir sossegadas agora, porque Taylor foi um perfeito cavalheiro, como eu j esperava que aconteceria. Ele gosta de mim. E eu tambm gosto muito dele.
Raven foi para o banheiro, cantarolando baixinho, e comeou a se preparar para dormir. Crystal, Borboleta e eu trocamos olhares e demos de ombros. No final das contas, 
Taylor Cummings no era um problema. Ou pelo menos ainda no.
Na manh seguinte, bem cedo, antes mesmo de o sol iluminar as cortinas que eu improvisara, ouvi o gemido de Borboleta. Crystal ainda se encontrava num sono profundo 
e aparentemente no ouvira nada; e eu sabia que um caminho de bombeiros podia passar ao lado da cama de Raven com a sirene ligada que ela nem piscaria,
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principalmente depois de ter chegado to tarde. Prestei ateno e ouvi outro gemido, ainda mais intenso e mais prolongado. Levantei-me e fui at a cama.
- Borboleta?
Ela tossiu e murmurou:
- Meus olhos doem.
Crystal mexeu-se. Acendi o abajur. E soltei um grito abafado assim que meus olhos se acostumaram  claridade.
- Crystal!
- O que foi?
Ela sentou-se na cama no mesmo instante e olhou para Borboleta, que tinha o nariz escorrendo, fazia uma careta de dor, as faces avermelhadas. Crystal encostou a 
palma da mo na testa de Borboleta.
- Ela est ardendo em febre.
- O que... o que aconteceu? - balbuciou Raven.
- Ainda no  hora de levantar. No pode ser.
- Borboleta est doente. - Virei-me para Crystal.
- O que h com ela?
Borboleta tossiu e fungou de novo. Sem responder, Crystal foi at o banheiro e molhou uma toalha de rosto. Voltou para coloc-la na testa da amiga.
- Onde di, Borboleta?
Raven apareceu na porta, finalmente perguntando o que acontecia.
- O que foi? O que ela tem?
- Meus olhos doem. Aqui...
Ela indicou onde doam. Crystal abriu a camisa de Borboleta para examinar-lhe o peito e a barriga.
- Sabe o que ela tem? - perguntei.
- Acho que sim - murmurou Crystal.
- O que ? - indagou Raven, impaciente. Crystal olhou para ns.
- Acho que est com sarampo.
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- Sarampo? Oh, no! - Os olhos de Raven se encheram de medo. - Todas ns vamos pegar?
- Eu no. J tive.
- Eu tambm - murmurei. - E voc, Raven?
- No sei - respondeu ela, em pnico. - No me lembro se tive sarampo ou catapora.
- Se voc pegar, ento pegou - declarou Crystal, estica. -  melhor se livrar logo disso.
- Mas no  uma doena de criana?
- No - respondeu Crystal. - Os adultos podem ter sarampo se no tiveram quando crianas.
Borboleta gemeu de novo.
- No me sinto bem...
- O que vamos fazer, Crystal? - perguntei..
- No h muito o que fazer, e sim mant-la confortvel, dar-lhe um pouco de acetaminofeno...
- O que  isso? - indagou Raven.
- Apenas Tylenol.
- Ento por que no diz exatamente o que ?
- Porque  o que falei - explicou Crystal, friamente.
- Parem de discutir, vocs duas - interferi. - No temos nenhum, no ?
- Talvez Patsy tenha - sugeriu Crystal. - Ela deve acordar dentro de uma hora.
- Ser que ela no nos obrigaria a ir embora? - indagou Raven. - Temos mesmo de lhe contar?
- No creio que ela faa isso - murmurei. - Qual  a sua opinio, Crystal?
Ela pensou um pouco, enquanto Borboleta se contorcia, em desconforto, tossia e fungava, antes de gemer.
- Patsy pode querer que a levemos a um mdico, o que criaria problemas - disse Crystal. - Talvez Raven tenha razo. Talvez seja melhor no contar nada a Patsy, pelo 
menos por enquanto. Diremos apenas que
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ela est com dor de cabea e um leve resfriado. Se ela vier at aqui e encontrar Borboleta nesse estado,  bem possvel que perceba que  sarampo. Acenei com a cabea, 
concordando.
- Sendo me, ela j deve ter passado por isso com Danny. Mas no poderia ser outra coisa, Crystal? Algo mais grave?
- Teremos de observ-la para saber. Se for... pacincia. Depois que a levarmos para um pronto-socorro ou a um mdico, ser necessria a presena de um pai ou responsvel.
- Oh, no! - exclamou Raven, por todas ns.
- Vamos precisar de um termmetro para verificar a febre - continuou Crystal. - Se subir demais...
- Posso me vestir e procurar uma farmcia - sugeri.
- Ainda  muito cedo, mas alguns postos tm lojas de convenincias que vendem Tylenol - disse Crystal.
- Vou sair para procurar - declarei, feliz em poder fazer alguma coisa por Borboleta.
Depois de me lavar e vestir, parti  procura de uma loja aberta. O sol comeava a nascer. Era de fato a melhor parte do dia. Imaginei a prpria Terra abrindo os 
olhos, recebendo um beijo afetuoso de luz, livrando-se da coberta de sombras, absorvendo sua radincia. A prxima pequena cidade ainda comeava a despertar; s avistei 
nas ruas alguns vira-latas, fungando  procura de sua primeira refeio do dia. No outro lado da cidade, no entanto, encontrei um posto de auto-servio. Na rea 
do pequeno escritrio havia mquinas operadas por moedas que vendiam aspirina, Tylenol e anticidos para o estmago.
A velha Crystal, pensei. Ela previra aquilo. Era muito inteligente, e me proporcionava confiana e um senso de segurana ter algum com a sua experincia
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em nossa pequena famlia. Eu tambm tinha f em seu diagnstico sobre a doena de Borboleta. Crystal queria ser mdica mais do que qualquer outra coisa e passava 
a maior parte de suas horas de lazer estudando como se j estivesse na faculdade de medicina. Seu apetite em aprender nunca acabava.
Quando voltei, Patsy e Charlie j haviam comeado a trabalhar no restaurante. Crystal mandara Raven ir para l, a fim de evitar que Patsy pensasse que havia alguma 
coisa errada. Uma verdade tinha que se dizer sobre Crystal: ela sempre antecipava os problemas em potencial. O aviso sobre Sunshine era o melhor exemplo que eu poderia 
ter, pensei. Nunca mais tornaria a ignorar suas advertncias.
Entreguei o Tylenol, e Crystal deu dois comprimidos a Borboleta.
- Ela no vai sentir fome, mas devemos trazer suco de laranja e gua para que possa beber durante a manh - disse Crystal. - Agora temos de ir para o restaurante. 
V na frente. Quero deixar Borboleta to confortvel quanto for possvel. Vou passar uma esponja mida em seu corpo e tentar diminuir a febre.
- Certo, doutora - murmurei.
Crystal sorriu, mas logo voltou a ficar muito sria.
- Isto pode ser um problema, Brooke.
- Eu sei. Mas a sade de Borboleta  o mais importante.
Patsy ficou curiosa sobre Borboleta, como era de se esperar. Mas Crystal, ao chegar, fez um bom trabalho para dar a impresso de que o problema com Borboleta era 
insignificante.
- Ela vem resistindo a um resfriado h vrios dias. E eu lhe disse que um bom descanso na cama, muito lquido e um mingau de aveia quente ajudariam muito.
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Crystal falava como se j tivesse tirado o diploma em medicina com que tanto sonhava. Patsy acenou com a cabea, olhando para cada uma de ns trs.
-  muito bonita a maneira como vocs cuidam umas das outras.  quase como se estivessem juntas h anos e anos. Parecem mais irms do que amigas.
Quase lhe revelei tudo quando ela disse isso. Tive de baixar os olhos rapidamente.
Crystal no queria pedir-lhe um termmetro. Receava que isso pudesse deix-la preocupada. Assim, logo que acabou o movimento do caf da manh, voltei  pequena cidade, 
parei numa drogaria e comprei um termmetro.
Quando tiramos a temperatura, constatamos que Borboleta tinha uma febre de 38,4C. Ao final da tarde, subira para 39.
- Apesar do Tylenol - lembrou-nos Crystal. - No est sendo fcil.
Crystal e eu continuamos a passar a esponja mida no corpo de Borboleta. Raven continuava apavorada de chegar perto demais, estremecendo ao pensamento de tambm 
pegar sarampo. Vasculhava o crebro na tentativa de lembrar se j tivera sarampo, mas no conseguia.
- De qualquer forma, Raven, talvez seja melhor voc se manter longe - advertiu Crystal. - No podemos nos dar o luxo de ter as duas doentes.
Subitamente, ouvimos uma batida na porta. Todas ficamos imveis.
-  Patsy! - murmurei, dando uma espiada pela cortina improvisada.
Crystal disse a Borboleta para virar de lado e fingir que estava num sono profundo. S depois abriu a porta.
- Como ela est? - perguntou Patsy.
- Dormindo confortavelmente - respondeu Crystal.
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- Pobre menina... Avisem-me se precisarem de alguma coisa. Se quiserem lev-la a um mdico, falarei com o meu e marcarei uma consulta. Ele  muito bom e...
- Acho que ela vai ficar boa logo - interrompeu Crystal.
- Teve febre?
- No.
Crystal falou com veemncia demais, pensei. Os olhos de Patsy tornaram a se encher com aquele brilho de suspeita, enquanto nos observava.
- Como sabe?
- Temos um termmetro - explicou Crystal. - Preparamos um kit de primeiros socorros ao partirmos.
- Est querendo dizer que Brooke no acaba de comprar um termmetro? - indagou Patsy, sorrindo. Ela olhou para mim. - Ouvi quando voc saiu.
- Eu pedi a ela que fosse comprar Tylenol - informou Crystal.
- Eu tenho. Poderia ter me pedido. Guardo por baixo do balco do restaurante. - Ela ficou calada por um momento. Pensei que ia pedir para examinar Borboleta, mas 
apenas acrescentou: - Muito bem, meninas, tratem de descansar. Esta  uma grande noite. Podem me chamar se precisarem.
Ofereci-lhe um sorriso, e Crystal agradeceu. Ficamos observando-a se encaminhar para o trailer por algum tempo. Depois, Crystal fechou a porta, devagar.
- Detesto mentir - murmurou ela. - Inventar nosso passado  divertido;  como contar uma histria, mas s vezes detesto ser uma impostora.
- S espero que ela no fique desconfiada - disse Raven, balanando a cabea.
- Lamento muito ter ficado doente - balbuciou Borboleta.
Todas voltamos para junto da cama.
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- No diga bobagem, Borboleta - declarou Crystal. - Voc no podia evitar.
- Acho que vou pegar - disse Raven, preocupada. Tenho certeza. O que faremos se eu tambm no puder trabalhar? Levaremos uma eternidade para recuperar nosso dinheiro!
- No vamos nos preocupar com as coisas at chegar o momento - aconselhou Crystal. - J temos problemas suficientes para agora e no precisamos de mais.
O que era a pura verdade.
O jantar naquela noite foi bastante movimentado. Bem que fez falta a ajuda de Borboleta. Danny s apareceu quase uma hora depois. Comeou a servir algumas mesas, 
mas logo foi para os fundos do restaurante, quando dois de seus amigos chegaram. Raven comentou que achava que eles estavam fumando maconha. Fora  despensa para 
falar com Charlie e os observara atravs da porta entreaberta.
- No diga a Patsy - recomendei. - No agora. Sempre que tnhamos uma pausa na atividade, Crystal saa para ver Borboleta. Ao voltar, na segunda vez, ela me disse 
que a febre estava em quase 40C.
- Se no baixar dentro de uma hora, Brooke, acho que devemos lev-la para o hospital. Posso no ter acertado. Talvez ela esteja tendo uma reao a algum vrus, ou 
a algo que comeu.
Raven e eu trocamos um olhar. O desastre parecia iminente. Os ponteiros do relgio nos aproximavam mais e mais do momento final, a cada minuto que passava. Trabalhar 
com afinco era a nica maneira de no pensar a respeito. O movimento finalmente diminuiu, e os ltimos fregueses comearam a se preparar para ir embora. Foi ento 
que Danny voltou.
- Onde voc estava? - indagou Patsy. - Viu como
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estvamos ocupadas, Danny. Por que deixou o restaurante?
- Odeio o restaurante!
Os ombros de Patsy penderam, enquanto ela inclinava a cabea para trs, no esforo de conter as lgrimas. Ningum disse nada. Voltamos a trabalhar, ajudando Charlie 
a limpar tudo. Antes de acabarmos, Taylor apareceu, para buscar Raven. Ele a convidara para sair pelo segundo dia consecutivo.
- Talvez seja melhor voc no sair com ele esta noite, Raven - sugeri.
Ela assumiu uma expresso angustiada.
- Brooke, posso cuidar de mim. Alm do mais... - Seus olhos tornaram a assumir uma expresso sonhadora. - ...ningum jamais foi to simptico comigo quanto Taylor. 
Ele gosta realmente de mim. Tenho certeza.
- Sei que tem toda razo, Raven. Apenas no queremos v-la magoada.
Pela sua expresso, era evidente que Raven no ouviria nada do que eu tinha a dizer. Crystal tambm tentou romper a nvoa de paixo que envolvia Raven.
- Por que no fica em casa esta noite, Raven? Borboleta precisa de todo o nosso apoio.
- Querem parar de se preocupar comigo? Nada de ruim vai me acontecer. Alm do mais, Crystal, voc mesma disse que eu no deveria ficar muito perto de Borboleta, 
para no pegar sarampo tambm.
E, dito isso, ela pegou seu suter atrs do balco e foi para a mesa de Taylor. Crystal e eu trocamos um olhar, dando de ombros, derrotadas. Desejamos uma boa diverso 
aos apaixonados, antes de deixarmos o restaurante e seguirmos para o chal.
Quando acordei, na manh seguinte, encontrei Crystal sentada  pequena mesa da cozinha, contando
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as gorjetas. Meio tonta de sono, fui at a mesa e perguntei onde se encontravam as outras.
- Raven est ajudando Borboleta a se lavar. Ela deve ter tido uma noite e tanto, pois exibe um sorriso permanente.
O tom de Crystal era cauteloso. Pela maneira como balanou a cabea, compreendi que se sentia to preocupada quanto eu com as intenes de Taylor.
- Acha que Patsy poderia estar enganada sobre Taylor? - murmurei. - Raven no se apaixonaria por um pilantra.
Antes que Crystal pudesse responder, a porta do banheiro foi aberta e Borboleta e Raven saram. Borboleta ainda estava vermelha, mas pelo menos ria agora, um sinal 
de que talvez estivesse comeando a se recuperar. Raven, por outro lado, parecia desconfiada.
- O que vocs duas estavam fofocando? - perguntou.
Crystal, sempre com rapidez de raciocnio, tinha uma resposta imediata:
- Estvamos discutindo o fato de que deveremos ter dentro de uma ou duas semanas o dinheiro suficiente para partir.
Raven empalideceu. Sabamos que ela pensava em Taylor.
- Eu gostaria que no tivssemos de partir... pelo menos no to cedo.
- Esse homem realmente mexeu com voc, no , Raven?
Eu queria compreender o que acontecera com Raven nos ltimos dias. Nunca estivera apaixonada, e no podia imaginar qual era a sensao.
- Sei que vocs esto preocupadas, mas podem ter certeza de que Taylor  especial. E h alguma coisa... um clima mgico entre Taylor e mim. Sempre sonhei
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em encontrar um dia o homem perfeito, e acho que isso aconteceu agora.
Borboleta finalmente falou:
- Espero que meu corao tambm me leve um dia ao meu Prncipe Encantado.
Um terrvel acesso de tosse dominou-a nesse instante. Crystal levou-a para a cama.
At aquele momento, Patsy aceitara nossas desculpas para Borboleta permanecer no chal. Na manh seguinte, porm, sua desconfiana aumentara. Ainda bem que a febre 
de Borboleta cessara durante a noite, e ela se sentia bastante bem para ajudar no horrio do almoo.
No momento em que pensvamos estar seguras, Patsy fez um comunicado que nos deixou com o sangue gelado.
- Amanh  o dia do pagamento - anunciou ela, alegremente. - Precisarei do nmero da previdncia social e do endereo de cada uma.
Olhamos para Crystal.
- No pode nos pagar por fora, Patsy? - sugeriu Crystal. - Aceitaramos menos dinheiro.
Patsy balanou a cabea devagar, com uma expresso curiosa.
- J devem ter percebido a essa altura que no  assim que dirijo meu negcio. Tudo aqui  legalizado.
Ela nos olhou uma a uma. Parecia esperar que uma de ns cedesse. No pude suportar o silncio por mais tempo e disse:
- Precisamos procurar os cartes da previdncia no meio de nossas coisas. Existe algum problema se entregarmos amanh?
Crystal fitou-me com expresso irritada, enquanto Raven e Borboleta arregalavam os olhos. Patsy deixou-
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deixou-nos sair naquela noite sem fazer mais nenhuma pergunta. Mas assim que chegamos ao chal, Crystal caiu em cima de mim, lvida.
- O que estava pensando, Brooke? Como poderemos apresentar os cartes?
- No pude me conter. Patsy nos fitava com aqueles seus olhos enormes, e pensei que tnhamos de inventar alguma coisa.
Eu sabia que minhas palavras nos meteriam numa encrenca ainda maior, mas em minha opinio j estvamos perdidas de qualquer maneira.
- Suponho que podemos dizer que nossos cartes da previdncia foram roubados tambm... e teremos de inventar os endereos - disse Crystal.
Raven finalmente falou:
- E se Patsy resolver conferir, descobrindo que os endereos so falsos?
- Ela no vai conferir nada - garanti, tentando parecer confiante.
Mais uma vez, tive o pressentimento de que nossas mentiras nos enredavam numa teia impostora da qual nunca mais conseguiramos escapar.
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9 - Em flagrante

Naquela noite Crystal decidiu qual seria o endereo domiciliar de todas ns. Tinha o seu carto da previdncia social e o entregaria a Patsy, explicando que os outros 
haviam sido roubados.
- Acho que assim podemos dar um jeito, mas no sei por quanto tempo mais deveremos permanecer aqui sob falsas informaes. Mentiras so como bolhas. Mais cedo ou 
mais tarde, flutuam at a superfcie.
- Ficaremos no mnimo at termos dinheiro suficiente, no ? - indagou Raven.
Ela andava de um lado para o outro, junto da janela do chal. Taylor no aparecera depois do grande movimento do jantar, e Raven se tornava mais e mais ansiosa.
- No posso fazer nenhuma promessa, Raven - respondeu Crystal, num cuidadoso tom neutro.
- Promessas? Por que todo mundo pensa de repente que estou  procura de promessas?
Raven saiu, batendo a porta.
- Por que Raven est to transtornada? - perguntou Borboleta.
- Acho que ela e Taylor tiveram uma briga - respondi. - Pelo menos ele no apareceu at agora.
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Crystal estava sentada  mesa, trabalhando num oramento cuidadoso, com base no dinheiro que j ganhramos e no que podamos prever. Borboleta queria sair e fazer 
companhia a Raven, mas Crystal disse que seria melhor deixar Raven sozinha por enquanto.
- Em vez disso, voc pode me ajudar. - Ela abriu o mapa sobre a mesa. - Vamos determinar para onde iremos em seguida e o que poderemos encontrar no caminho.
Fui tomar uma chuveirada. Quando nos instalramos no chal, a gua saa marrom e demorara algum tempo para se tornar razoavelmente clara. Corria limpa agora, mas 
no havia muita presso. Tomar uma chuveirada era mais uma aflio do que um prazer. Por um lado, o chuveiro no era bastante alto, o que nos obrigava, com exceo 
de Borboleta, a ficar agachadas. No havia muito espao para os movimentos, e a regulagem da gua quente e fria exigia uma tcnica de laboratrio. Mas dvamos um 
jeito.
Entrei no banheiro e tirei a roupa. Nua, mexi nas torneiras, at deixar a gua bastante aquecida para me agradar, mas no quente demais. Enquanto o fazia, percebi 
algum movimento no canto da pequena janela por cima da banheira. Fiquei imvel. Esperei e olhei de novo. Com toda certeza, era a cabea de algum.
No gritei. Muito calma, fingindo que ainda estava absorvida no chuveiro, recuei at ficar fora de vista. Vesti a blusa e a cala to depressa o quanto pude. Depois 
me abaixei, ficando livre do campo de viso da janela, abri a porta e sa.
Crystal virou-se, com um olhar de total confuso, ao me ver de quatro.
- O que est fazendo?
Levei um dedo aos lbios. Ela e Borboleta ficaram paralisadas de medo e curiosidade. Levantei-me e passei
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pela porta. Contornei o chal para encontrar Dannv e seus dois amigos agachados junto da janela do banheiro, de costas para mim. Nenhum deles me ouvira.
- Divertindo-se? - Quando eles se viraram, acrescentei: - Imagino que  assim que vocs se divertem.  o melhor que podem fazer?
Os dois amigos riram, nervosos, mas Danny no deixou transparecer qualquer embarao ou culpa. Avanou em minha direo.
- S queramos saber se voc era homem ou mulher - gracejou ele.
- Como voc poderia saber a diferena?
Os amigos riram dele.  claridade difusa que saa pela janela do banheiro, pude ver que ele ficou vermelho. Raven, que esperava no estacionamento, veio apressada 
pelo lado do prdio. Crystal e Borboleta a acompanhavam.
- Em geral eu sei - disse ele. - Mas voc  a exceo. Talvez possamos descobrir agora.
Danny lanou um olhar para seus companheiros, que se adiantaram, com sorrisos insinuantes. Ele me segurou pelo pulso e puxou-me.
- Que tal nos mostrar o que voc esconde a por baixo?
Certa ocasio, na nona srie, meti-me numa briga com um garoto. Seu nome era Eddie Goodwin. Vivia me provocando porque eu me candidatara  seleo masculina de basquete 
da escola e quase conseguira entrar. As meninas tinham seu prprio time, mas o treinador, talvez como um meio de sacudir seus jogadores, decidira me dar a oportunidade 
de tentar uma vaga. Eddie telegrafava suas jogadas, e por isso consegui lhe roubar a bola duas vezes. Ele fora o alvo de muitas gozaes dos amigos. Mais tarde, 
abordou-me no corredor. Compreendi que no pretendia apenas me insultar e se
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divertir  minha custa. Faria algo mais, talvez at me agredisse. No lhe dei a chance. Quando ele ficou bastante perto, acertei uma joelhada entre suas pernas. 
Eddie arriou no mesmo instante, contorcendo-se de dor.
Mais tarde, fui chamada ao gabinete do diretor. Como fora a primeira a partir para a agresso fsica, recebi a punio maior. Fiquei suspensa da escola por dois 
dias. No importava que eu me sentisse fisicamente ameaada. Tambm fui punida no lar de adoo. Achei muito injusto, mas ser tratada com injustia nesse mundo no 
tinha nada de excepcional para mim. Claro que bater num garoto daquele jeito no foi muito bom para minha reputao. Serviu apenas para reforar a imagem que a maioria 
dos meus colegas e professores j tinham.
Mas estava cansada de ser humilhada, cansada de ser vista como uma espcie de aberrao, s porque no me ajustava  idia preconcebida de como uma menina devia 
ser. Era como se fssemos robs ou talvez produzidas em massa num laboratrio de gentica, era o que me parecia. Decidira ento preservar minha auto-imagem e auto-respeito, 
independente do custo, mesmo que isso significasse que nunca me tornaria alvo do interesse de algum rapaz bonito.
Os dedos de Danny apertaram meu pulso. Doeu. Senti a pele arder quando ele torceu meu brao. Quando estendeu a outra mo para abrir minha blusa, virei-me depressa, 
levantando o joelho direito na direo de sua virilha. A expresso angustiada em seu rosto revelava uma surpresa total. Largou-me, dobrou o corpo e caiu no cho, 
gritando de dor.
Os dois amigos ficaram observando-o se contorcer como uma serpente que acabara de ser atropelada. Depois me fitaram, cegos de raiva.
- Peguem-na! - ordenou Danny.
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Eles avanaram para mim. Pelo canto do olho, avistei um caixote quebrado. Peguei um pedao que estava cheio de pregos com as pontas de fora. Eles pararam quando 
o levantei como se fosse um porrete.
- Podem ter certeza de que vou usar isso aqui - murmurei, a voz trmula.
Raven nos alcanou.
- O que aconteceu? - perguntou ela, olhando para Danny, agora de quatro no cho, respirando fundo.
- Ele tentou arrancar minha blusa. Vi os trs na janela do banheiro quando fui tomar banho. Ele e seus amigos idiotas esperavam pela grande diverso do ano.
Os amigos de Danny ajudaram-no a se levantar.
- Sua vaca - resmungou ele. - Vai se arrepender.
- No enche!
Enquanto eles se afastavam, Raven comentou:
- Agora voc foi longe demais. O quie Patsy vai fazer?
- Provavelmente me dar uma medalha.
- Voc est bem? - indagou Crystal, quando nos alcanou.
- Claro que estou. Duvido que ele diga qualquer coisa a Patsy, Raven. Teria de explicar para ela o que fazia atrs do chal, junto da janela do banheiro.
Vimos os trs se encaminharem para um carro no estacionamento. Acenderam cigarros, olhando furiosos em nossa direo.
- Vamos entrar - disse Crystal. Relatei toda a histria, em detalhes.
- Esqueci de pendurar uma toalha na janela.  bem provvel que ele j tenha espiado antes.
- Tenho certeza de que  a nica maneira de ele poder ver uma garota despida - gracejou Raven.
Ela continuava a olhar pela janela a todo instante, na expectativa de algum sinal de Taylor. Acabei me acalmando,
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mas no tive coragem de voltar ao chuveiro. Crystal, Borboleta e eu decidimos ir para a cama, mas Raven insistiu em continuar acordada, sentada numa cadeira, recusando-se 
a se deitar porque Taylor ainda podia aparecer. Ficou no escuro, olhando para o estacionamento.
- Ele no vem mais, Raven - comentei, depois de algum tempo. - Por que se torturar?
- Deve ter acontecido algo muito inesperado.
- Claro, claro...
- Est contente, no ?
- No diga bobagem, Raven. Admito que no me senti satisfeita por voc se envolver com algum durante nossa estada aqui, mas no quero que seja infeliz. Apenas me 
preocupo com voc.
- Nunca posso ter um namorado decente. Acho que s vou conhecer rapazes pilantras.
Virei-me na cama e fechei os olhos. Pouco mais de meia hora depois, ouvi-a suspirar fundo, levantar-se e preparar-se para dormir. Raven finalmente meteu-se sob as 
cobertas.
- Brooke...
- O que ?
- Ainda est acordada?
- No. Estou respondendo de um pesadelo. O que ?
- Menti para vocs.
Raven no disse mais nada. Droga, pensei. Sentia-me como um peixe, fisgada. Relutante, virei-me.
- Muito bem, mordi a isca. O que ?
- No sou to experiente quanto fingia. Na verdade..
- O qu, Raven? Na verdade, o qu?
- Ontem  noite foi a primeira vez.
- Ontem  noite? - Comecei a me sentar. - Tomou o devido cuidado, no ?
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- Foi difcil tomar cuidado, Brooke. Nunca aconteceu com voc, e por isso no sabe como . A gente esquece que est indo longe.  to bom que no h tempo de parar. 
Claro que se deve tomar as precaues, mas...
- Mas o qu?
- No houve tempo.
- Ele no usou nenhuma proteo?
- No.
- Oh, Raven, ele  um cafajeste por fazer isso com voc! Por que ele no se preveniu?
- Ele no  um cafajeste - disse Crystal subitamente, do quarto. -  apenas um idiota. No sabe quem voc , mas mesmo assim correu o risco de usar voc sexualmente? 
Isso  estupidez.
No pude deixar de sorrir. A velha Crystal, fingindo dormir, mas ouvindo tudo.
- Fiz a mesma coisa - admitiu Raven. - Tambm fui estpida.
Crystal veio at a porta e nos fitou.
- Tem razo, foi mesmo estpida. Vamos torcer para que agora tenha sorte.
- Estou apavorada - murmurou Raven, depois de uma pausa. - Posso ficar grvida?
- Claro que pode - respondi. - Certo, Crystal?
- Quando vai ficar menstruada, Raven?
- Daqui a trs dias.
- No dever ter problemas. Sempre foi regular, no ?
- Sempre - respondeu Raven, num fio de voz.
- Acho que pode ficar tranqila, Raven - declarou Crystal. - Mas eu no sairia com ele de novo. Uma coisa  certa: Taylor no se preocupou com o que poderia acontecer 
a voc.
Raven no disse nada. Virou-se e comprimiu o rosto contra o travesseiro. Um instante depois ouvimos seus soluos.
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- Desculpem - balbuciou ela. - Desculpem por ser to estpida.  que no posso deixar de ter medo.
Borboleta ainda dormia no quarto e aparentemente no ouvira a conversa. Crystal aproximou-se da cama e olhou para Raven, cujos ombros tremiam com os soluos. Fitou-me 
em seguida e deitou no sof-cama. Encostamos a cabea na de Raven.
- Somos irms - comeou Crystal. - Sempre seremos irms.
Entoamos e nos abraamos, rezando para que Raven tivesse sorte.
Na manh seguinte nos levantamos e nos vestimos sem qualquer comentrio sobre Taylor Cummings. Nem sequer falamos sobre Danny e seus amigos repulsivos. Fora uma 
noite agitada para Crystal, Raven e para mim, por isso nos movimentvamos como zumbis. Fomos para o restaurante e nos absorvemos no trabalho.
Patsy estava a fim de conversar, mais feliz do que nunca, falando sobre o perodo em que fecharia o restaurante e viajaria de frias, para onde pudesse ir.
- Talvez eu visite a Califrnia tambm - comentou ela. - Nunca estive l. Alguma de vocs j conhece a Califrnia?
Como sempre, esperamos que Crystal respondesse. Percebi que isso aguava o interesse de Patsy por ns. Ela nos observava atentamente, enquanto Crystal respondia:
- No. Esta  tambm nossa primeira visita.  por isso que estamos to excitadas.
- Seus pais so muito corajosos por deixarem vocs viajarem assim, sozinhas.
O primeiro fregus ainda no chegara.
- No temos a vida domstica perfeita que inventamos - continuou Crystal.
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Raven e eu limpvamos os talheres e endireitvamos as cadeiras, enquanto Borboleta dobrava os guarda-napos. Era uma informao to nova para ns quanto para Patsy.
- O que isso significa? - perguntou Patsy.
- A me de Borboleta morreu h alguns anos. O pai viaja muito. Meus pais so divorciados, assim como os de Raven. Brooke  adotada. E recentemente sua me adotiva 
foi submetida a uma grave operao. O pai adotivo achou que seria bom para ela viajar conosco, enquanto ele se concentrava na esposa.
Crystal era como uma aranha, tecendo sua teia de vidas pessoais, eventos, tragdias e comdias, para pegar na armadilha os ouvintes, que de nada desconfiavam. E 
foi o que aconteceu com Patsy. Ela fitou cada uma de ns com profunda compaixo, limitando-se a murmurar:
- Ahn...
- Mas estamos bem - acrescentou Crystal. - E estvamos nos divertindo muito at encontrarmos aquela pessoa horrvel... no  mesmo, Brooke?
- , sim. E estou gostando de trabalhar aqui. Todas gostamos.
Borboleta acenou com a cabea vigorosamente. Raven adiantou-se.
- As meninas me disseram que queria me advertir sobre Taylor, Patsy. Eu deveria ter-lhe escutado. Ele  mesmo um canalha.
- Ele a machucou? Porque se fez isso...
- No quero que faa nada. Se e quando Taylor voltar, eu mesma acertarei com ele. Obrigada, Patsy.
- Aposto que voc saber o que fazer com ele - murmurou Patsy, sorrindo.
Os primeiros fregueses chegaram e comeamos a trabalhar. Dois amigos de Taylor apareceram, mas no ele.
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 Vi Raven falando com eles, para depois se afastar, enxugando os olhos. Deixei minhas mesas e fui ao seu encontro.
- O que aconteceu?
- Eles me disseram que Taylor voltou para sua antiga namorada. Saiu com ela ontem  noite. Ele apenas me usou, Brooke. Sou uma idiota.
Dei-lhe um abrao apertado.
- Ele  que sair perdendo. Vamos voltar ao trabalho. Procure no pensar mais naquele idiota.
Ela tornou a enxugar os olhos e acenou com a cabea.
- Obrigada, Brooke.
Voltamos s mesas. Foi outro caf da manh movimentado, com todas as mesas ocupadas e pessoas esperando na fila. Borboleta acabou indo trabalhar no balco. Depois, 
quando fez as contas, Patsy nos disse outra vez que o lucro aumentara.
- Se continuar assim, poderei me aposentar em breve - disse ela, rindo. - Vou ao banco agora para depositar a fria de ontem e a desta manh. Algum precisa de alguma 
coisa da drogaria?
- Acho que no - respondi, olhando para Raven.
- Eu no quero nada - murmurou ela. Permanecemos no restaurante, tomando caf e conversando com Charlie, que queria nos contar sobre suas viagens quando era jovem. 
Tinha histrias sensacionais. Estivera at na China.
- H muita coisa para se ver no mundo, e muito para se aprender - disse ele. - Mas o que se aprende com certeza  o quanto  difcil encontrar um bom amigo. Vocs, 
meninas, parecem ter encontrado umas s outras. Isso vale ouro. No precisam mais viajar, se procuram algo mais valioso do que isso.
Ele fez com que todas nos sentssemos bem. At
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mesmo Raven comeou a se animar. Mas sabamos que levaria algum tempo para que seu corao magoado pudesse ficar curado. J amos para o chal a fim de descansar 
um pouco, quando Patsy voltou. Ainda no fora ao banco. Sua expresso indicava que alguma coisa terrvel acontecera.
- Meu dinheiro desapareceu! - anunciou ela. - Tudo que eu ia depositar!
Patsy parou na nossa frente, os cantos da boca tremendo.
Crystal foi a primeira a se manifestar:
- Danny tambm sumiu?
- No - respondeu Patsy, o que nos surpreendeu. - Ele estava em casa, acordando. Jurou que no sabia de nada.
- Quando viu o dinheiro pela ltima vez? - perguntei.
- Ontem  noite.
Ela continuou parada ali, olhando para ns. Senti um arrepio. Virei-me para Crystal, cujos olhos comeavam a se contrair.
- Procurei em toda parte - acrescentou Patsy. - Vasculhei o quarto de Danny melhor do que um co de caa.
- O que acha que aconteceu? - perguntou Charlie. Patsy hesitou.
- Danny disse que pensava que eu estivera em casa esta manh depois do movimento aqui. Ouviu meus passos.
Ela fitou Borboleta, Raven, Crystal e a mim. Senti um frio no estmago, que se transformou em gelo e subiu pela espinha.
- No pode acreditar que uma de ns... que uma de ns... pegou o dinheiro, no ? - murmurei, na esperana de que ela sacudisse a cabea com veemncia.
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- No quero acreditar em nada de ruim sobre ningum - disse Patsy, quase  beira das lgrimas agora. - Danny insiste que ouviu passos.
- Ele est mentindo - declarou Raven. - Danny contou o que aconteceu ontem  noite?
- No. O que aconteceu?
- Raven... - murmurei.
- No, Brooke, ela precisa saber - insistiu Raven. - Danny e seus amigos foram espiar pela janela do nosso banheiro. Brooke os descobriu quando foi tomar banho. 
E depois eles at tentaram...
- Tentaram o qu?
- Atac-la.
- O qu?!
- No foi nada, Patsy - interrompi. - Eles foram embora quando os enfrentei.
Ela nos fitava com expresso aturdida.
- A melhor coisa a fazer agora  voc ir at o chal e revist-lo, se quiser - disse Crystal, depois de um longo momento de silncio.
- No quero fazer isso, meninas. Quero acreditar que nunca me roubariam.
- E no roubaramos mesmo - enfatizei.
Patsy acenou com a cabea. Esperei que fosse o fim do incidente, mas ela suspirou e olhou para trs por um momento.
- Danny diz que nunca acredito em sua palavra. Diz que sempre o acuso primeiro. Espero que no me interpretem mal, mas se formos juntas at o chal...
- Est certo - disse Crystal, levantando-se. - Vamos agora.
- Isso mesmo - murmurou Raven, levantando-se tambm. - Depois teremos uma conversa com Danny.
- Essas meninas nunca roubariam nada de voc, Patsy - comentou Charlie.
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- Sei disso - respondeu ela, forando um sorriso. - Obrigada, meninas.
Samos todas. Quando comeamos a contornar o restaurante, ouvimos uma porta bater. Era Danny, deixando o trailer, enquanto enfiava uma camiseta de malha pela cabea. 
Ele soltou uma risada zombeteira e nos seguiu.
Entramos no chal. Crystal e Borboleta haviam arrumado suas camas, e eu fechara o sof-cama antes de sairmos para o trabalho. As cobertas e travesseiros estavam 
arrumados ao lado. Exceto pela blusa de Raven, pendurada numa cadeira, nenhuma de nossas coisas estava espalhada. O banheiro tambm se encontrava limpo e arrumado. 
Paramos no meio da pequena sala.
- Pode procurar onde quiser, Patsy - declarei, sem conseguir eliminar o desapontamento do meu rosto e voz.
- Olhe naqueles sacos, mame - sugeriu Danny, indicando as fronhas em que guardvamos nossas roupas.
- Elas no fariam isso, Danny - disse Patsy, balanando a cabea.
- Pois ento eu vou revistar.
E passou por ns. Esvaziou as fronhas no cho. Algumas roupas nossas se misturaram, mas no havia mais nada ali.
- Satisfeito? - indaguei.
Danny olhou para a me e sacudiu a cabea.
- No!
Ele olhou ao redor e foi at a pequena cmoda. Abriu as gavetas, tateando embaixo das roupas ntimas e das meias.
- No aprendeu sua lio ontem  noite? - perguntei, quando ele levantou um suti de Raven.
Danny ficou vermelho.
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- Vamos embora, Danny - suplicou Patsy. - As meninas no pegaram meu dinheiro.
- Por que no conta a ela onde est? - indagou Raven.
Ele rangeu os dentes. Virou-se abruptamente para o sof, como se um fantasma tivesse sussurrado em seu ouvido. Caiu de joelhos e estendeu a mo por baixo do mvel. 
Ficamos observando. Raven comeou a rir, mas de repente ele se levantou, mostrando um saco de depsito bancrio.
- Eu sabia que estava aqui!
O prazer de Danny era doentio. Ele largou o saco no cho, e o dinheiro de Patsy se espalhou.
- No fomos ns! - protestei. - Voc mesmo deve ter posto o dinheiro a!
- Tem razo. Sou um mgico. - Ele olhou para Patsy. - Me, chame a polcia.
- No! - gritou Raven. - No fomos ns, Patsy. Ele est mentindo.
- Se eu tivesse posto o dinheiro ali, por que no fui direto peg-lo? - indagou Danny, olhando para Patsy. Ele fez uma pausa e fitou Raven. - Por que desperdiaria 
tanto tempo procurando em outros lugares, sua espertinha?
- Porque voc estava fazendo uma encenao - respondeu Raven, recuando.
- Vocs  que fizeram uma encenao. Sabiam que minha me sempre deixa aberta a porta do trailer. Ouvi quando entraram esta manh.
- No  verdade, Patsy - declarei, controlando-me ao mximo. - Juro que no fizemos isso.
Ela comprimiu os lbios com toda fora. Parecia a ponto de explodir em lgrimas.
- Chame a polcia, me. Aposto que elas roubam de todo mundo. Eu mesmo vou chamar.
202
- No. Guarde o dinheiro no saco, Danny. Vamos logo.
- Mas...
- Faa o que estou mandando - disse Patsy, a voz firme. - Ponha tudo no saco e me entregue.
-  a prova, me. Voc tem de deixar onde est para a polcia.
- Danny! Por favor, guarde o dinheiro de volta no saco.
- Est cometendo um erro, me, ficando do lado delas, mesmo agora. - O rosto de Danny contraa-se em raiva. - Sempre acredita em todo mundo, menos em mim!
- No estou acreditando em ningum, Danny. Eu...
- Est, sim, sua desgraada!
Ele passou correndo por ns e saiu do chal, batendo a porta com toda fora. Era como se um tornado tivesse acabado de atingir o lugar. Crystal passou o brao pelos 
ombros de Borboleta e puxou-a. Raven olhou para as duas e depois para o cho. Ajoelhei-me para guardar o dinheiro no saco.
- No fizemos isso, Patsy - reiterei, entregando o saco. - No sei como foi parar embaixo do sof.
- Eu sei - anunciou Raven. Patsy balanou a cabea.
- Acredito em vocs, meninas. Juro que acredito. Mas acho que seria melhor para todo mundo se fossem embora agora. Pagarei tudo o que devo. - Havia uma tristeza 
profunda em sua voz. - Preciso dar um jeito em Danny, mas no conseguirei nada se vocs continuarem aqui. Ele parece culp-las por seus problemas. Sinto muito. Eu 
lhes desejo muita sorte. Passem pelo restaurante depois de arrumarem suas coisas.
Ela encaminhou-se para a porta. Todas ns prendemos
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a respirao. Quando Patsy abriu a porta e se voltou, Borboleta separou-se de Crystal e disse:
- No pegamos seu dinheiro, Patsy. No roubaramos de voc ou de qualquer outra pessoa. Por favor, no nos obrigue a ir embora.
O rosto de Patsy contraiu-se, angustiado.
- Sinto muito, querida.
As lgrimas finalmente brotaram de seus olhos e comearam a escorrer pelas faces. Ela respirou fundo e se afastou apressada.
- Aquele idiota, desgraado, pilantra! - explodiu Raven. - Por que ela est fazendo o que Danny quer? Ele jamais gostou de ns, desde o primeiro momento!
- O que mais ela pode fazer? - disse Crystal. - Ele  filho dela. E ns somos apenas estranhas.
Frustrada, Raven foi para o banheiro.
- Vamos arrumar nossas coisas, Brooke - acrescentou Crystal. - Quanto mais cedo partirmos, melhor ser.
No demoramos muito tempo para pr tudo na caminhonete. amos partir sem apanhar nossos salrios com Patsy, mas ela mandou Charlie nos chamar.
- Sei o que o garoto fez com vocs. Danny no  apenas uma ma apodrecendo o restante da caixa. Est apodrecendo todo o barril. - Charlie estava furioso como nunca 
o vramos. - E vou dizer isso a ele.
- Patsy precisa de toda ajuda e apoio que puder obter, Charlie - lembrou Crystal.
- Sei disso.  como nadar com uma pedra pendurada no pescoo.
Dirigimos de volta ao restaurante e saltamos. Patsy esperava perto da porta, com os nossos envelopes na mo.
- No  muita coisa, mas espero que ajude vocs na viagem. Talvez devessem voltar. - Ela olhou atentamente para Crystal. - Deixem essa viagem para outra
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ocasio. Viajar pode ser muito difcil, at mesmo para jovens.
Borboleta parecia prestes a chorar. Patsy abraou-a depois abraou Raven, Crystal e a mim. Havia lgrimas em seus olhos. Ela mordeu o lbio inferior.
- Obrigada pela ajuda. Vocs so boas meninas. Patsy afastou-se. Ficamos paradas ali por alguns momentos, olhando para o restaurante e para Charlie, que nos fitou 
com ar sombrio, antes de voltar ao trabalho. Pareceu-me que ele odiava despedidas tanto quanto ns.
- Vamos embora - sussurrou Crystal.
Tornamos a embarcar na caminhonete, em silncio. Sentei ao volante. O cu nublado que mantivera a manh sombria comeava a se abrir agora. As nuvens se separavam 
a distncia, e o sol ia aparecendo.
- O tempo est melhorando - comentei. - Pelo menos no teremos de viajar na chuva.
Ningum disse nada. Ningum estava prestando ateno ao tempo. Liguei o motor. Quando olhei pelo espelho retrovisor, avistei Danny parado na frente do trailer, os 
braos cruzados, parecendo muito satisfeito.
Parti, virei  direita na estrada, seguindo para oeste. O silncio persistia.
- Acho que  melhor voc consultar o mapa de novo, Crystal - sugeri.
Ela abriu o mapa, ainda calada.
Raven encostara a face direita na janela. Observava a paisagem passando. Respirou fundo algumas vezes, depois fechou os olhos.
- Deve ter sido um recorde - comentou ela, com uma risada trmula. - Trada por dois canalhas em menos de vinte e quatro horas.
- Tenho certeza de que logo voc encontrar algum honesto e sincero, Raven - declarei.
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- Ainda no posso acreditar que Danny fosse capaz de fazer aquilo.
Raven removeu as lgrimas do rosto com um gesto furioso. Borboleta inclinou-se para a frente e ps a mo em seu ombro. Raven virou-se, sorriu para ela, estendeu 
a mo sobre a dela.
- Por que ele foi to mau conosco, Raven? - perguntou Borboleta.
- Porque ele  mau para si mesmo - respondeu Crystal. - Odeia tanto ele mesmo, que odeia todas as outras pessoas, inclusive a me.
- Pensei que ele tinha sorte por ter uma me - murmurou Borboleta.
- E ele tem, mas no sabe disso.
- Nem se importa - acrescentou Raven. Ficamos em silncio de novo, at que Raven sorriu e disse:
 - Querem saber de uma coisa que eu pensei? Talvez no sejamos to desafortunadas assim, no final das contas. Talvez tenhamos uma coisa melhor.
- O qu? - indagou Borboleta.
- Temos umas s outras.
Segui para o sol que surgia entre as nuvens, que tambm, como ns, seguia para oeste.
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10 - De volta  estrada

Recomeou a chover. Guiar j perdera todo o excitamento para mim e se tornara desagradvel e montono, ainda mais nas interminveis rodovias interestaduais, em que 
havia pouco para se olhar, exceto os outros carros. Sentamos um arrepio cada vez que avistvamos uma patrulha estadual, mas nenhum guarda demonstrou qualquer interesse 
por ns, nem mesmo nos lanou um olhar curioso. Eu tomava o maior cuidado para permanecer dentro dos limites de velocidade. As paradas para gasolina, almoo e jantar 
foram os nicos eventos que despertaram algum entusiasmo. Borboleta dormiu bastante. Crystal, que era capaz de ler em qualquer lugar, manteve o nariz grudado num 
livro. Raven, entediada e aflita, amarrava a cara, cochilava e se remexia, indcil. O arrependimento, como uma serpente teimosa, esgueirava-se por nossos pensamentos, 
manifestando-se a intervalos peridicos, atravs de pequenos comentrios, gemidos e suspiros.
- Os veres em Lakewood no eram to ruins assim - murmurou Raven, pouco antes de pararmos para jantar.
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Viajvamos h quase uma hora sem falar nada. O rdio continuava tocando, mas eu j no o ouvia.
- Pelo menos conseguamos escapar de Gordon e Louise quando saamos para trabalhar - acrescentou ela, depois de um momento.
- Isso  espantoso, Raven - comentei. - Eu devia estar sob o efeito de sedativos, porque nunca soube que voc se sentia to feliz ali. Era bastante estpida para 
pensar que voc odiava aquele lugar quase a cada minuto. E devo ter imaginado o fluxo contnuo de queixas que saa de sua boca.
- Eu no disse que gostava - protestou ela, rspida. - Apenas comentei que no era to difcil no vero. Talvez devssemos ter esperado at o outono para fugir.
Crystal baixou o livro.
- Minha esperana  encontrar outro lugar para viver e terminar a escola. Se fssemos embora no outono, estaramos bastante atrasadas quando comessemos numa outra 
escola.
- Escola? - gritou Raven. - Quem se importa com escola?
- No acha que Borboleta ter de continuar a estudar? E eu ainda quero me candidatar a bolsas de estudo - respondeu Crystal, sem perder a calma. - Se eu soubesse 
que voc pensava que nunca mais voltaramos a estudar, no teria concordado em partir.
Raven murmurou alguma coisa em voz bem baixa, depois olhou furiosa pela janela.
- No deveramos ter deixado voc jogar fora a cocana de Gordon - disse ela. - Seria melhor se a deixssemos onde estava. Agora no podemos mais voltar, mesmo se 
quisssemos.
Crystal voltou  sua leitura. Raven fechou os olhos. Borboleta gemeu no sono, enquanto eu olhava para a longa reta na estrada. Tinha a sensao de que afundava
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numa banheira cheia de lama fria. A liberdade no torna as coisas automaticamente melhores para a pessoa, pensei. Ainda era preciso enfrentar a derrota e a frustrao; 
e no se tinha mais ningum para culpar a no ser a si mesma. At eu comeava a ter srias dvidas. Persuadira todas a se meterem num desastre?
Jantamos numa lanchonete e seguimos em frente at cruzarmos a fronteira de Indiana. Todas sentiam-se apreensivas com a perspectiva de dormir no carro. Resolvemos 
ento procurar um motel barato. Encontramos um que parecia ter sido invadido por roedores, mas o preo do quarto com duas camas de casal era de apenas dezessete 
dlares.
O quarto tinha um cheiro de mofo e rano. Crystal comentou que a impresso era de que alguma coisa morrera dentro das paredes. Tentei abrir uma janela, mas estava 
emperrada.
- Ningum abre esta janela h tanto tempo que agora ela no quer se mexer - murmurei.
- Devemos dormir com a porta entreaberta - sugeriu Raven.
Mas Crystal teve medo.
- Estamos no meio do nada e parece no haver mais ningum hospedado aqui.
- Vamos tentar tirar o melhor proveito da situao. Minha interveno foi para evitar outra discusso.
Estvamos furiosas e cansadas, cada uma deixando as outras nervosas.
Quando finalmente deitamos, descobrimos que os colches eram to velhos e surrados que quase arriamos at o cho. Dormimos todas vestidas, usando nossas fronhas, 
em vez das encardidas que estavam nas camas. Apesar do horror do aposento, a viagem e a montanha-russa emocional nos deixaram to cansadas, que logo mergulhamos 
no sono. Nenhuma de ns acordou durante a noite.
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O sol claro da manh passou sem qualquer dificuldade pelas cortinas finas. Mas em vez de nos acolher para um dia novo e quente, serviu apenas para realar a decadncia, 
deteriorao e sujeira do quarto. Relutamos at em usar o banheiro, mas fizemos o que tnhamos de fazer por pura necessidade. Partimos o mais depressa possvel. 
Ao encontrarmos um lugar para o caf da manh, tornamos a nos lavar no seu banheiro.
Nenhuma de ns sentia muita fome. Crystal fez um balano de nossas finanas. Concluiu que, se fssemos bastante frugais - e se Gordon no cancelasse seu carto de 
crdito para gasolina - ainda poderamos chegar  Califrnia.
- Por que ele ainda no pediu o cancelamento? - especulei em voz alta.
Crystal pensou por um momento, para depois dizer:
- H a possibilidade de que ele esteja anotando nossa rota de fuga pelos lugares em que o carto  usado.
Foi o suficiente para que uma nuvem de medo nos envolvesse por alguns instantes.
- Claro que ele estaria sempre um pouco atrs de ns, mas ainda assim...
Crystal deixou o resto da frase pairando no ar, como pingentes de gelo escorrendo em vises de horror.
- Quanto tempo mais poderemos ser frugais? - indagou Raven, levando a conversa de volta ao nosso problema imediato.
- Estou falando em economizar de verdade - disse Crystal. - Esta  a ltima vez que comemos num restaurante. Daqui por diante, compraremos a comida e comeremos no 
carro. Todas gostam de manteiga de amendoim. Este ser nosso almoo... todos os dias.
- Que maravilha... - resmungou Raven. - Sempre
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nos queixvamos da comida na Lakewood HOUSE, mas agora l seria um restaurante de gourmets.
- Se seu corao est to empenhado em voltar, Raven, pode voltar - interferi, com alguma irritao
- Com que dinheiro? Cinco dlares? E o que vai acontecer quando eu chegar l? Gordon vai me usar para prtica de tiro ao alvo? No, obrigada.
- Pois ento pare de falar bobagem. No ajuda em nada ficar nos lembrando a todo instante que estamos numa situao difcil.
- Brooke tem razo, Raven - disse Crystal. - Procure se concentrar no lado positivo.  a nica maneira de combater a depresso.
- Desculpem. No tive a inteno de ser desagradvel. Acontece apenas que... que... ora, nem eu mesma eu sei!
E com lgrimas escorrendo pelas faces, ela seguiu em passos rpidos para o banheiro.
- Por que estamos discutindo tanto? - perguntou Borboleta.
- Porque sentimos medo e assim  mais fcil descarregar nas outras - analisou Crystal. - Mas no se preocupe, Raven vai se recuperar.
No entanto, quando voltou, Raven parecia ainda mais desanimada.
- Preciso de um banho quente - murmurou ela, deixando escapar um profundo suspiro. - Aturaria at mesmo Gordon me olhando na banheira.
Assim que as palavras saram, pude perceber que ela se arrependera de t-las enunciado. Crystal ergueu a cabea de uma forma to brusca e rpida, que at pensei 
que poderia romper a pele do pescoo.
- Acha que exagerei? Foi mesmo horrvel e assustadora a maneira como ele me devorou com os olhos. As mos chegaram a poucos centmetros dos meus seios. E ele comeou 
a babar. Fiquei to contrada de medo que
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quase no conseguia respirar. Tenho certeza de que meu corao parou por um instante. Pensei que ia desmaiar, mas no mesmo instante, disse a mim mesma que, se isso 
acontecesse, ele poderia...
- Desculpe, Crystal - sussurrou Raven. - Sabe que no tive a inteno.
- Vamos logo embora - sugeriu Crystal. - Se continuarmos nos movendo, num instante nos sentiremos melhor.
A viagem no foi muito agradvel, embora Raven se empenhasse ao mximo em alegrar o ambiente. Fez alguns jogos com Borboleta, entoou canes tolas, at se meteu 
numa discusso acalorada com Crystal sobre feminismo. Por algum tempo, nos mantivemos distradas.
Pouco depois de entrarmos no estado de Illinois, a caminhonete comeou a esquentar demais. Notei a agulha da temperatura subindo, diminu a velocidade e parei no 
acostamento o mais depressa possvel.
- O que houve? - perguntou Raven.
- No sei. O mostrador da temperatura disparou.
- Temos de sair desta estrada, Brooke - disse Crystal, enquanto carros passavam por ns. - Chamaremos muita ateno e talvez at da patrulha rodoviria.
Saltei, abri o cap e examinei o motor. No sabia o que procurava, mas tinha certeza de que a gua esguichando de uma das mangueiras no era um bom sinal.
- Sabe qual  o problema? - indagou Crystal.
- Acho que  a mangueira. Olhe s para o esguicho.
- O que isso significa? - perguntou Raven.
- Significa que precisamos de uma nova.
Eu sabia guiar o carro, mas no entendia de mecnica.
- O que vamos fazer? - murmurou Borboleta.
Olhei para a estrada e avistei uma placa bem antiga, anunciando, a um quilmetro de distncia, um posto e uma oficina.
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- Vou caminhar at l para descobrir se o posto ainda existe - sugeri. - Se existir, pedirei a algum para vir consertar a caminhonete.
- No temos condies para isso - disse Crystal - Pode custar todo o nosso dinheiro.
- Vamos esperar para ver. Talvez eles nos deixem pagar com o carto de crdito. Vou s confirmar se o posto no est mais funcionando, depois pensaremos no que fazer.
Crystal conferiu o mapa.
- Deve haver uma pequena cidade aqui por perto. Encontraremos uma soluo -
- Est certo. Fiquem calmas. - Olhei para Raven em particular, enquanto acrescentava: - Voltarei o mais depressa que puder.
Comecei a me afastar e logo passei a correr. Havia apenas uma casa no caminho, mas conclu que no havia ningum morando ali, por causa do mato crescido na frente 
e das janelas escuras. Ao final de uma curva, avistei o posto l na frente. Daquela distncia era difcil saber se ainda funcionava. No vi qualquer pessoa ou carro 
algum perto das bombas. O prdio era velho, a tinta estava descascando.
No entanto, ao me aproximar, ouvi o som de ferramentas eltricas. A porta estava aberta. Parei e dei uma olhada. A princpio no avistei ningum, mas logo um rapaz 
se levantou. Estava agachado junto de um pneu de caminho. Usava um macaco cinza. Calculei que devia estar no final da adolescncia, vinte anos no mximo. Tinha 
cabelos castanho-escuros e abundantes. At mesmo do lugar em que me encontrava pude reparar que seus olhos eram excepcionais, parecendo duas prolas negras reluzentes. 
Os malares eram salientes, o queixo forte, quase quadrado, a boca perfeita. Ele me fitou por um momento como se eu fosse uma iluso.
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- De onde voc veio? - perguntou em seguida. - No ouvi seu carro parar.
- Nosso carro enguiou a cerca de um quilmetro daqui, pouco antes da sada da pista.
A princpio, ele no se mexeu nem demonstrou qualquer interesse. Depois, largou a chave de porca eltrica, limpou as mos num pano e saiu da oficina. Apesar de trabalhar 
dentro do prdio, seu bronzeado era forte e regular. Tinha pelo menos um metro e oitenta de altura, e um corpo rijo e musculoso que o macaco no conseguia encobrir.
- Eu no sabia se a oficina ainda funcionava - comentei, quando ele se manteve em silncio.
Ele continuou a me fitar, com um pequeno sorriso lhe contraindo os lbios. S depois de algum tempo  que explicou:
- No momento s fazemos algum trabalho de lanternagem e um pouco de mecnica. Fechamos as bombas de gasolina h pouco mais de um ano. No h muito trfego por aqui 
hoje em dia. Qual  o seu carro?
- Uma caminhonete Buick 1990.
- No temos mais reboque tambm. Talvez seja melhor vocs chamarem o Automvel Clube.
- No somos scias.
O rapaz tornou a me estudar. Eu me sentia embaraada quando ele me lanava aqueles olhares prolongados e silenciosos. Tive de desviar os olhos. Sentia as faces ardendo.
Ele acenou com a cabea e olhou ao redor, como se esperasse avistar mais algum.
- Onde est sua famlia? Por que a mandaram sozinha?
- Somos apenas eu e trs amigas. Estamos indo para a Califrnia.
- Califrnia?
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Ele sorriu como se eu tivesse acabado de informar que viajvamos para a lua.
- Isso mesmo - gracejei. - Algumas pessoas vo para l.
O sorriso aumentou mais um pouco.
- Tem razo. Afinal,  o estado mais populoso do pas. Bem... - Ele ps as mos nos quadris e olhou para a estrada. - O que aconteceu com a caminhonete?
- Comeou a esquentar. E havia gua esguichando de uma mangueira.
O rapaz alteou as sobrancelhas.
-  mesmo? - Ele sorriu. - Parece que j diagnosticou o problema, doutora.
- Claro que no. Apenas percebi que havia um vazamento... e a gua esguichou em cima de mim.
Mostrei o tnis molhado como prova.
- A mangueira deve ter rompido. Quando foi feita a ltima reviso?
Respirei fundo e desviei os olhos.
- No sei.
- De quem  o carro?
- ... meu, mas no me lembro de quando foi feita a ltima reviso.
- Se eu fosse viajar para a Califrnia, com certeza mandaria fazer uma reviso completa em meu carro.
- Tomamos a deciso de viajar na ltima hora. Ele tornou a sorrir, com uma expresso divertida nos olhos, fixos em meu rosto. Tentei desvi-los de novo, mas seu 
olhar provocou um formigamento em minha espinha, que parecia uma bolha subindo e flutuando em torno de meu corao.
- De onde voc ?
- Do norte do Estado de Nova York.
- E decidiram na ltima hora atravessar todo o pas de carro?
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A voz tinha ceticismo suficiente para abalar a f de um padre.
- Isso mesmo. Foi o que aconteceu. Pode nos ajudar ou no?
Ele no chegou a parar de sorrir para mim, mas se tornou um pouco mais srio.
- Iremos no meu Chevy. Tenho uma corrente que posso usar para rebocar o carro de vocs at aqui. E levarei tambm uma lata com gua.
O rapaz acenou com a cabea para um Impala que tinha a traseira arriada e canos de descarga especiais. A porta do motorista fora preparada para pintura.
-  Betty Lou - disse ele. - Pode entrar. Vou pegar a gua.
- Betty Lou? - repeti, sorrindo.
- Minha namorada.
Ele contornou o lado do prdio para buscar gua. Entrei no carro. Os bancos haviam sido reformados ao estilo dos anos 50. O painel era to impecvel quanto o cho. 
Dois dados brancos, de algodo, pendiam do espelho retrovisor.
O rapaz ps a lata com gua na mala do carro, foi fechar a porta da oficina, sentou-se ao volante e ligou o motor. Soltou um grunhido baixo.
- Uma beleza, no acha? - Era como se estivssemos ouvindo uma orquestra sinfnica. - No uma beleza to grande quanto voc,  claro.
Agora foi a vez dele de desviar os olhos timidamente. O elogio me deixou perturbada. Seguimos em silncio at avistarmos a caminhonete.
-  o seu carro? Acenei com a cabea.
- Isso mesmo.
Ele fez uma volta em U e parou. Saltamos.
- No cheguem muito perto, meninas - recomendou
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ele, enquanto mexia nas mangueiras. - A gua est saindo muito quente. Hum... Parece que a bomba d'gua tambm quebrou.
Percebi por sua expresso que o problema da caminhonete era grave.
- Pode consertar? - perguntou Raven.
O rapaz olhou para ela e depois para mim. Era a primeira vez que um homem se interessava mais por mim do que por Raven.
- Vou rebocar at a oficina. A loja de peas mais prxima fica em Grover, a cinqenta quilmetros daqui.
- No temos muito dinheiro - murmurei. - Aceitaria um carto de crdito?
- No aceitamos mais cartes de crdito. Somos apenas papai e eu... e ele quase no aparece mais na oficina. - O rapaz pensou um pouco. - Talvez eu possa dar um 
jeito.
- Seria timo- exclamei, meus olhos brilhando. Ele fechou o cap e foi abrir a mala do seu carro para pegar a corrente. Raven olhou para mim e, enquanto o rapaz 
prendia a corrente por baixo da caminhonete e depois em seu carro, ela indicou, pela linguagem de sinais, que o achava um gato. Resolvi ignor-la.
- Sente-se ao volante e ponha em ponto morto - disse ele.
Entrei no carro, e Raven seguiu-me.
- Para onde ele vai nos levar? - perguntou Crystal.
Expliquei a situao.
- Ele parece muito simptico, Brooke - comentou Raven, enquanto o mecnico entrava em seu carro e comeava a nos rebocar.
-  bastante simptico - murmurei.
Raven soltou um gemido quando viu a oficina.
- Talvez devssemos ir para outro lugar.
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- Mendigos no podem ser exigentes - declarou Crystal. - Vamos ver se ele consegue consertar.
Todas saltamos quando ele parou.
- H um ferro-velho a cerca de vinte e cinco quilmetros daqui. - O rapaz olhou para sua oficina. - Talvez eles tenham a pea.
Ele virou-se para mim, com um sorriso caloroso.
- Por que no vem comigo? Se vocs quiserem, podem esperar no escritrio. - Ele foi destrancar a porta e virou-se para ns. - Tem Coca-Cola na geladeira, alm de 
biscoitos e outras coisas. H tambm algumas revistas, mas no creio que possam interess-las.
O rapaz arrematou suas palavras com um sorriso malicioso. Raven jogou os cabelos para trs e arregalou os olhos.
- Provavelmente no - murmurou ela.
- Obrigada - disse Crystal.
Ela se encaminhou para o escritrio, acompanhada por Borboleta. O rapaz pediu:
- Pode atender o telefone para mim, por favor?
- Claro.
- Quanto tempo vai levar? - indagou Raven.
- Pode demorar um pouco. Primeiro, temos de encontrar uma bomba que funcione, para depois instal-la. Para ser franco, talvez tenham de passar a noite aqui.
- Passar a noite? - Raven olhou para a estrada deserta. - Onde?
- No sei mais quanto cobram, mas h um lugar chamado Woodside, a uns trs quilmetros ao norte daqui, onde oferecem quartos com direito a caf da manh. Pertence 
a uma velhinha simptica, a sra. Slater. Procurem na lista telefnica durante a minha ausncia.
- Tem certeza de que deve ir com ele? - perguntou-me Raven, enquanto o mecnico voltava para seu carro.
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- No se preocupe. Ele est fazendo tudo para nos ajudar. Alm do mais,  muito simptico.
- Brooke, sou a pessoa que mais tem condies de aconselh-la sobre "rapazes simpticos". No cometa o mesmo erro que eu cometi.
Fiquei corada e tratei de ir para o carro.
- Eu sou Todd - disse ele, quando cheguei ao carro. - Todd Mayton.
- Meu nome  Brooke.
- Prazer em conhec-la.
Ele se afastou em marcha  r, deixando Raven parada ali nos observando, o rosto uma mscara de preocupao.
Foi Todd quem mais falou durante todo o caminho at o ferro-velho. Descobri que ele era o mais moo de trs irmos, os outros vivendo e trabalhando com um tio em 
Indianpolis. A me deixara seu pai quatro anos antes. Ela e o novo marido moravam perto de seus irmos. Era evidente, pela maneira como falava sobre a me, que 
Todd se ressentia do que ela fizera com o pai.
- Ele sempre foi um cara trabalhador, o meu velho. Acho que nossa vida nunca foi muito boa. Ela dizia que a vida com ele a deixou dez anos mais velha do que era. 
 uma mulher bonita, minha me. Quando tnhamos as bombas, muitos homens costumavam guiar por quinze ou vinte quilmetros a mais para abastecer aqui, s porque ela 
operava as bombas, usando um short mnimo e uma blusa de frente-nica. - O tom era de amargura. - Eu era apenas um garoto, mas sabia o que os comentrios deles significavam 
e odiava a maneira como olhavam para ela.
Depois de uma pausa, ele acrescentou:
- Ei, olhe s para mim, falando sem parar! Nunca fao isso. Voc deve ser mesmo especial.
Todd sorriu. Eu sabia, pelo calor que subia por
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meU pescoo e se espalhava pelas faces, que estava corando de novo, como uma rosa vermelha.
- E voc? - indagou ele, quando me mantive calada.
- O que quer saber?
- Para comear, por que quatro garotas saem sozinhas pelas estradas americanas?
Hesitei. Havia alguma coisa nele, na maneira como me abrira seu corao, de bom grado e sem medo, que me fazia resistir  mentira.
- Somos fugitivas - respondi, enfrentando o risco de dizer a verdade.
As outras me matariam, se soubessem disso, pensei. Todd comeou a sorrir, olhou para mim e perdeu o sorriso.
- Fala srio?
- Claro. Somos rfs. No temos famlia. Vivemos h anos numa casa  espera de adoo. Por diversos motivos, decidimos que era tempo de sair de l.
Os olhos de Todd se contraram, enquanto me estudava com a maior ateno.
-  uma piada, no  mesmo?
- Est se tornando. Fomos roubadas durante a viagem, acusadas de roubo e agora temos problemas com o carro. No podemos voltar. E pelo que parece, estamos presas 
num torno, que nos aperta cada vez mais.
Ele no fez qualquer comentrio. Pouco depois, acenou com a cabea para um ptio cercado  nossa frente.
- L est o ferro-velho.
Um homem que parecia beirar os 70 anos empilhava alguns pneus logo depois da entrada. Usava uma camisa de flanela com as mangas enroladas at os cotovelos e um jeans 
com um buraco considervel no fundilho, deixando a cueca  mostra. As rugas em seu rosto pareciam ter sido esculpidas por um bisturi. Tinha uma
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pele da cor de torrada queimada. Quando sorriu, revelou a ausncia de vrios dentes.
- O que est fazendo aqui to tarde? - perguntou ele, quando paramos.
- Um problema de enguio - respondeu Todd. - Preciso de uma bomba d'gua para uma caminhonete Buick 90. Acha que tem, Lefty?
O velho virou-se, coou o queixo sujo com o polegar e o indicador da mo esquerda, e pensou por um momento. Contemplei a pilha de destroos, o mar de metal, borracha 
e vidro. Aos meus olhos, no havia ordem ou razo para que qualquer coisa estivesse em qualquer lugar. Vi destroos antigos misturados com veculos novos, carros 
e caminhes, um nibus escolar virado, perto de um trator John Deere, ao lado de um carro esporte que parecia ter sido destrudo pelo fogo. Passarinhos haviam feito 
seus ninhos em alguns veculos.
- Pegue a freeway para a Golden Gate - instruiu Lefty. - Se bem me lembro, h um Buick ali mais ou menos dessa poca. Johnny recolheu-o perto do Cran-berry Lake 
h cerca de um ano.
- Obrigado. Todd partiu.
- A freeway para a Golden Gate? - repeti. Ele soltou uma risada.
- Uma piada de Lefty. Ele d nomes aos corredores entre os destroos. Se voc j tivesse vindo aqui muitas vezes, como eu, saberia do que se trata. - Todd virou 
 direita, diminuiu a velocidade. - Aqui  a Golden Gate.
Passamos sobre placas de metal, postas ali para se transpor algumas valas profundas. Carros estavam empilhados uns sobre os outros, em alguns pontos at a altura 
de trs,  esquerda e  direita. Ambos ficamos procurando, at que o avistei.
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Ali est! - exclamei, apontando para a direita, a poucos metros do corredor.
O veculo tivera o teto esmagado, o pra-brisa e as janelas estilhaadas, a porta do motorista arrancada.
- Parece que capotou - comentou Todd, ao parar. Saltamos e fomos at l. Ele tentou abrir o cap, mas estava emperrado.
- Vai dar algum trabalho.
- Lefty ajudar? - perguntei.
- Aqui voc procura o que quer e pega pessoalmente. Depois vai para o porto e barganha com Lefty. Tenho algumas ferramentas na mala.
Todd voltou para seu carro. Examinei o cap e verifiquei onde a tranca ficara emperrada. Enquanto ele contornava o Buick destrudo, peguei o martelo e uma talhadeira 
e comecei a bater na tranca. Para minha surpresa, soltou-se num instante. Enfiei os dedos por baixo do cap e levantei-o. Todd parou, com um sorriso espantado, quando 
o capo subiu.
- Precisa de um emprego? - perguntou ele, em tom meio de brincadeira.
- Na verdade, preciso, sim. Estamos quase sem dinheiro.
- D para imaginar. Viajar no  barato.
- Ainda mais quando roubam a gente.
Todd balanou a cabea, sem saber se eu estava inventando ou no a histria. Depois, inclinou-se para o motor, localizou a bomba d'gua e examinou-a por um momento.
- Parece perfeita - murmurou ele.
Fiquei de lado e observei-o retirar a bomba. Enquanto trabalhava, Todd falou mais um pouco sobre si mesmo e o lugar, mas de vez em quando encaixava uma pergunta 
sobre nossa vida como rfs. -
- Quer dizer que os responsveis pelo tal lar de
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adoo no esto procurando por vocs? - pergumtou ele, antes de tirar a bomba.
- A essa altura,  claro que esto.
Todd balanou a cabea e tirou a bomba. Ajudei-o a guardar as ferramentas. Fomos para o porto, onde mostramos a Lefty o que pegramos. Ele examinou a bomba
- Vinte dlares parece justo.
- Parece justo, mas no . Tenho uma nota de dez que  justa.
Todd mostrou a nota.
- Voc est me roubando - resmungou Lefty.
- No seria a primeira vez - respondeu Todd. Lefty soltou uma gargalhada, que logo definhou para uma risadinha silenciosa.
- Seu pai ensinou voc muito bem - disse ele, pegando a nota de dez. - E me sinto generoso hoje.
- Obrigado, Lefty. At outro dia.
- D minhas lembranas a seu pai! - gritou Lefty, enquanto nos afastvamos.
- Obrigada por ser um negociador to bom, Todd. Ele riu.
-  apenas um jogo. Lefty sempre pede o dobro do que vai receber. Todo mundo sabe disso. Voc foi de grande ajuda.
- Seu pai no vai ficar aborrecido por voc estar gastando tanto tempo com a gente?
- Papai quase no vai mais  oficina. Tem um problema na perna. Diabetes. - Todd fez uma pausa, virou-se para mim e acrescentou: - Passa a maior parte do tempo com 
uma garrafa.
- Sinto muito.
- Terei de ir para casa daqui a pouco, mas voltarei depois do jantar e trabalharei no carro. De qualquer forma, acho melhor vocs arrumarem um quarto para passar 
a noite.
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- Est bem. Talvez Crystal j tenha telefonado. Ela  muito eficiente.
Crystal?
Falei um pouco sobre cada uma de ns. Era fcil conversar com Todd; parecia que sempre nos conhecramos. Ele ouviu em silncio, depois me fitou e disse:
- No precisa se preocupar comigo, Brooke. Faam o que julgarem melhor para vocs. No chamarei a polcia.
- Sei disso.
Eu acreditava sinceramente nele; e meu comentrio o fez sorrir.
- Posso voltar mais tarde e ajud-lo, Todd;  s me dizer quando.
- Claro. Como eu disse, se quiser ficar e se tornar minha ajudante...
No pude deixar de rir, s por imaginar.
- Sou eu quem guia a caminhonete. Todas teriam de ficar.
- Ei, seriam garotas demais para mim!
Ambos rimos. Continuvamos a rir quando chegamos  oficina. Raven estava sentada no degrau da entrada do escritrio, dando a impresso de que montava guarda.
- J no era sem tempo! - exclamou ela, no instante em que samos do carro. -  bem tarde. Crystal ligou para a penso e acha que devemos dormir l.
-  uma boa idia - disse Todd. - Vocs tm de passar a noite em algum lugar.
Crystal saiu do escritrio e me transmitiu os detalhes.
- Assumi um risco, Brooke, torcendo para que o conserto no saia por mais de vinte dlares. Quanto vai custar?
A preocupao de Crystal era evidente. Todd ouviu e se aproximou.
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- No se preocupem com o carro. A pea Custou apenas dez dlares. E no vou cobrar nada pela mo-de-obra.
-  mesmo? Isso  maravilhoso!
- Tenho de ir at em casa. Posso lev-las  penso Ah, Brooke, vou precisar de alguma ajuda mais tarde quando trocar a bomba. Quer vir me ajudar?
- Ahn... claro.
Pela maneira como meu corao disparara, era de se imaginar que eu acabara de ser convidada para o baile de formatura da escola.
- Estou com fome - murmurou Borboleta. - S havia algumas barras de chocolate no escritrio.
Todd riu.
-  verdade. Preciso comear a me alimentar melhor. Tero um bom jantar no Woodside.
Entramos em seu carro, e ele nos levou para o que parecia ser uma residncia particular. Havia apenas uma pequena placa para indicar que ali se alugavam quartos.
- Transmitam meus cumprimentos  sra. Slater - disse Todd, quando saltamos.
- Certo - respondi. - Daqui a duas horas?
- Combinado.
Ele partiu. Raven sacudiu a cabea.
- No sei, no, Brooke... Fiquei preocupada em voc sair sozinha com ele. Mas se instalar uma bomba d'gua no motor de um carro  a idia que ele tem para um encontro 
com uma garota, acho que no existe qualquer risco.
Todas riram, enquanto eu ficava vermelha como uma beterraba.
Talvez porque eu tambm sentisse muita fome, considerei a sra. Slater em termos de comida. Ela era apenas cinco ou seis centmetros mais alta do que Borboleta, e 
to rolia quanto um peru de Natal. As bochechas tremiam
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como gelatina quando andava... gingava, seria melhor dizer. Os cabelos eram brancos como a neve, com grampos da cor de chocolate segurando o coque contra a cabea. 
Os olhos eram quase de um verde-menta, brilhantes e cordiais, "olhos de av", como diria Borboleta. Tinha braos que me faziam pensar em enormes pes de centeio, 
dedos que lembravam massa fresca um dos quais aprisionava uma aliana de casamento para sempre nas dobras entre a articulao e a mo.
A casa, pequena, mas agradvel e aconchegante, estava impregnada dos aromas de bolo de carne e torta de ma. Tinha outro hspede, o sr. Franklin, um vendedor.
- Fico contente que Todd tenha recomendado que viessem para c - disse ela. - Como sempre, fiz comida demais para o jantar.
Ela nos mostrou o quarto, com duas camas grandes. Tnhamos um banheiro para partilhar com o outro hspede, e por isso ela pediu que fssemos prudentes. Raven ficou 
feliz, porque poderia tomar uma chuveirada quente e lavar os cabelos, "antes que caiam com o peso da sujeira". Uma pausa, e ela acrescentou:
- Talvez o problema com o carro tenha sido um golpe de sorte, no final das contas.
-  por isso que vivo dizendo para se concentrar no positivo - comentou Crystal, na maior animao.
- Essa no!
Raven se afastou apressada, para ser a primeira a usar o banheiro. Quase ao final do jantar, ela inclinou-se para mim e sussurrou:
- Talvez seja melhor eu ir  oficina com voc, como acompanhante.  bvio que Todd gosta de voc.
- No! - recusei, depressa demais, o que a fez franzir as sobrancelhas. - Todd e eu no temos tempo Para perder com conversa. O carro precisa ser consertado esta 
noite, para ns todas partirmos amanh de manh.
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Raven no parecia convencida. Balanou a cabea devagar.
- Depois no diga que no a avisei.
Crystal sentiu a tenso entre ns e se apressou em dizer:
- Acho que todas aprendemos com sua experincia com Taylor, Raven. Tenho certeza de que Brooke ser cuidadosa.
E, com isso, ela me lanou um olhar sugestivo. Borboleta ps a mo no meu brao.
- Acho Todd muito bonito, Brooke. Voc o deixaria beij-la, se ele pedisse?
- Querem parar com isso? No vou a nenhum encontro romntico, mas apenas ajud-lo a consertar o carro!
Eu me sentia desesperada para que elas mudassem de assunto. No podia esconder as chamas que iluminavam minhas faces. Crystal, no entanto, no podia deixar de me 
gozar.
- Hum... Est me parecendo que ela protesta demais...
Enquanto todas riam, no pude deixar de me indagar: e se Raven estiver certa? E se Todd realmente gostou de mim? Deixaria ele me beijar, como Borboleta perguntara?
Com todos esses pensamentos e dvidas fervilhando em minha cabea, mal ouvi o carro de Todd quando parou na frente da penso. Minhas pernas tremiam quando sa para 
encontr-lo. Ao me virar para a casa, avistei os rostos de Crystal, Raven e Borboleta espremidos contra a janela.
Todas pareciam muito preocupadas, como se pudessem ver meu futuro. E como se estivessem assustadas pelo que viam.
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11 - Novas amizades

- Como  ser uma rf? - perguntou Todd, enquanto seguamos para a oficina.
- Eu nunca soube quem era meu pai e nem imagino se tenho irmos ou irms.
Ele acenou com a cabea.
- E sua me? Chegou a conhec-la?
- No. Esta fita... - indiquei a fita amarrada em meu pulso - ... a nica coisa de que tenho certeza que veio dela. Estava presa nos meus cabelos quando ela me 
abandonou. Algum teve o bom senso de guard-la para mim. Era vermelha e brilhante, mas agora est desbotada.
Paramos diante da oficina e saltamos. Ele destrancou a porta e levantou-a, fazendo o maior barulho. Empurrou o interruptor, e as luzes de non acenderam, depois 
de piscarem por um momento, iluminando o interior, onde fora estacionada a caminhonete de Gordon. O cap continuava erguido. Todd foi at a bancada de trabalho e 
estudou a bomba d'gua por um momento.
- Como estava seu pai?
Ele no olhou para mim ao responder:
- Estava dormindo quando cheguei em casa e continuou dormindo quando sa.
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Todd ligou na tomada uma lanterna com um fio comprido e levou-a at o motor. Segurei-a enquanto ele tornava a examinar a nossa bomba quebrada, antes de escolher 
suas ferramentas, quase da mesma maneira que um cirurgio escolheria um bisturi.
- Aposto que voc tem trabalhado em carros durante toda a sua vida.
- Desde o momento em que fui capaz de segurar uma chave de porca. No devia ter mais de catorze anos quando papai me deixou tomando conta daqui. Ele saa para prestar 
algum servio a algum e aproveitava para uma visita  taverna. Era sempre para tomar apenas uma cerveja, mas acabava ficando l por horas. O trabalho se acumulava. 
As pessoas ficavam furiosas porque seus carros no eram consertados, e eu tinha de inventar histrias.
Todd fez uma pausa, virou-se para me fitar e acrescentou:
- Quer saber de uma coisa?
- O qu?
- Voc e eu no somos to diferentes assim. Tive pai e me, mas era como se no tivesse durante a maior parte do tempo. Passei a cozinhar para mim, cuidar de minhas 
roupas e limpar a casa depois que mame foi embora. At escrevia minhas desculpas para a escola quando faltava s aulas. - Ele sorriu. - Passando tanto tempo aqui, 
aprendi a falsificar a assinatura de papai muito bem. Agora, as pessoas pensam na oficina como mais minha que de papai. E ele no se importa.
Todd pensou por um momento, como se estivesse decidindo se devia ou no dizer mais alguma coisa. Finalmente, voltou a se concentrar no trabalho.
- Compreendo o que est dizendo, Todd, mas pelo menos no teve de viver numa instituio administrada pelo Estado.
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- Vocs quatro devem ter sofrido um bocado naquele lugar para fugirem sem dinheiro, no?
- Tnhamos algum dinheiro.
Relatei o encontro com Sunshine. Ele ouviu sem parar de trabalhar. No demorou muito para remover a bomba quebrada e colocar a substituta usada no motor.
- A estrada no  lugar para voc, Brooke. H muitas coisas assim acontecendo. Espero que encontre logo o que procura e possa se acomodar.
- Eu tambm.
Ele limpou as mos num pano.
- Quer beber alguma coisa? Tenho refrigerante... ou at mesmo cerveja, se preferir.
- Aceito um refrigerante.
Todd foi ao escritrio e voltou com duas Cocas. Sentamos num banco e olhamos para a caminhonete.
- De quem  o Buick? No respondi.
- No  de nenhuma de vocs se todas so rfs, no  mesmo? - insistiu ele, com um sorriso gentil.
- Pertence  criatura que dirige a casa junto com a esposa.
- Gordon Tooey?
- Isso mesmo. Como soube disso?
- Vi o registro no porta-luvas. - Todd tomou um gole da Coca. -  um problema srio, roubar um carro.
- Pode perceber agora como nos sentamos desesperadas.
- Eu entendo, mas como Gordon vai reagir?
- Creio que muito mal. Crystal tem medo de que ele possa vir atrs de ns.
- Vocs esto mesmo em fuga. - Ele tomou outro gole e fitou-me nos olhos. - No parece uma fora-da-lei.
Ficamos olhando em silncio um para o outro por um longo momento. Assim como eu o avaliava, ele tambm
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fazia o mesmo comigo, pensei. Especulei se aquilo  lembrava algum. Nenhum dos dois parecia intimidado  ou embaraado pelo olhar do outro. Sentia-me agora contente 
e  vontade, em vez de inibida. Gostei da maneira como os olhos de Todd se enterneceram, ele me contemplava com ateno, como se quisesse gravar minha imagem em 
sua memria para sempre.
Ele acabou desviando os olhos, para a porta e para o cu noturno, e murmurou:
- Uma linda noite.  a minha poca predileta do ano. O final da primavera aqui  quente, mas no quente demais para ser desconfortvel. Nem muito mido. Passo mais 
tempo olhando para as estrelas ou observando passarinhos. Gosto muito, mas tambm detesto.
- Detesta? Por qu? Torna-se quase potico quando fala a respeito. Crystal adoraria ouvi-lo.
Todd riu.
- Potico, hein? Minha velha professora de ingls ficaria histrica se a ouvisse dizer isso.
- Por que falou que detesta?
- No sei. Talvez porque me sinto mais solitrio do que em outras pocas do ano.
Ele largou a garrafa e voltou a trabalhar no carro. Observei-o ajustar a bomba nova, sentindo meu corao palpitar por modos e ritmos que jamais sentira antes. Levantei-me 
e fui ficar a seu lado, enquanto ele lutava com um parafuso enferrujado.
- Voc no tem namorada?
No mesmo instante em que acabei de falar, desejei poder retirar as palavras. Era uma dessas perguntas que voc prefere no fazer porque teme a resposta, mas que 
sabe que no pode deixar de fazer.
- Tinha. Rompemos h cerca de trs meses. Ela queria me envolver numa coisa para a qual eu no estava preparado.
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Ele jogou leo no parafuso e conseguiu tir-lo com certa facilidade, suspendendo-o como se tivesse acabado de extrair uma pepita de ouro.
- Vitria!
No pude deixar de sorrir. Todd se tornou de repente muito srio e murmurou:
- Voc tem o nariz mais gracioso que j conheci. Era um elogio que parecia surgir da escurido, completamente inesperado, deixando-me sem flego por um momento. 
Todd tornou a se virar para o motor, enquanto acrescentava:
- Aposto que j ouviu isso antes.
- No, nunca ouvi.
Ele me fitou como se no acreditasse, depois voltou a trabalhar. Observei-o, meu corao batendo to forte que pensei no ser capaz de segurar a lanterna com um 
mnimo de firmeza. Todd parecia no notar o quanto minha mo tremia. A bomba usada foi finalmente instalada.
-  hora de testar nosso trabalho, Brooke. Ligue o motor.
Foi o que fiz. Ele ficou examinando o funcionamento da bomba.
- Como est o mostrador?
- Voltou ao normal - respondi. - Mas teremos de esperar para saber se continuar assim.
- Por que no deixa o motor ligado por algum tempo?
Depois de uns poucos minutos, Todd perguntou de novo. Respondi que estava normal.
- Vocs esto com sorte. Pode desligar o carro agora.
Ele comeou a limpar o motor.
- Para onde querem ir, Brooke?
- Los Angeles. Esperamos encontrar um lugar barato para viver e arrumar trabalho. Crystal pretende
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voltar a estudar e queremos encontrar uma escola de bal para Borboleta.
- Borboleta? A pequena?
Acenei com a cabea, e Todd acrescentou:
- Ela parece muito frgil... frgil demais para esse tipo de coisa.
- Tem razo, mas ela conta conosco para proteg-la.
-  suficiente? Desculpe, mas s vezes tenho tendncia a ser brutalmente realista.
- No se preocupe. - Respirei fundo. - No conheo todas as respostas, Todd. Sei que odivamos o lugar em que estvamos e o que acontecia conosco. Todas nos sentamos 
acuadas. Era como se fssemos mercadorias deixadas numa prateleira; mercadorias que ningum queria levar para casa. Talvez tenhamos feito uma loucura. Talvez no 
passssemos de um bando de garotas idiotas, mas assumimos o controle de nossas vidas, mesmo que seja por pouco tempo... e isso  maravilhoso. Quando partimos, eu 
me senti...
- Como? - indagou ele, contendo um sorriso.
- No sei direito. Senti-me livre, poderosa. Senti-me... viva. Acho que parece estupidez.
- No, no parece - declarou Todd, balanando a cabea. - Parece maravilhosa para mim.
Senti o rosto quente. Por que eu tinha de corar desse jeito?
- Posso compreender como se sentiu.
Todd foi at a porta e o acompanhei. Por um momento, ele apenas contemplou a estrada, o bosque, as moitas prximas.
- Este lugar s vezes me deixa num nimo estranho e triste, como se precisasse correr bastante para alcanar as melhores coisas em minha vida, coisas que parecem 
me escapulir. Sinto o mesmo tipo de pnico que voc experimentou... Sinto-me acuado e sozinho.
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Comeamos a andar pela noite, enquanto ele continuava a falar:
- s vezes quando vejo um veculo com placa de outro estado, penso em sair daqui com meu carro e guiar at a gasolina acabar. E onde quer que eu fosse, ficaria ali 
e comearia uma vida nova.
Havia um caminho com a traseira aberta ao lado da oficina. Parecia um remanescente dos anos 60, enferrujado, faltando um pneu traseiro, a janela do passageiro espatifada.
- Por que no faz isso?
A voz de Todd e a minha mal se elevavam acima de um sussurro. Ele deu de ombros.
- Por causa de papai, eu acho. Sou tudo o que resta a ele, embora na metade do tempo nem mesmo tome conhecimento de minha presena. E penso em outra coisa: o que 
vou encontrar por a? Pelo menos aqui tenho alguma coisa. No  muito, eu sei, mas a oficina  minha, sou meu prprio chefe. No so muitos os caras da minha idade 
que podem dizer isso.
Ele alou-se na traseira do caminho e sentou, as mos no colo, a cabea um pouco inclinada. Pus um p no pra-choque e subi para sentar a seu lado, com tanta facilidade, 
que ele riu.
- Voc  bastante gil.
- Posso ficar de ponta-cabea... mas no me pea uma demonstrao.
Ficamos olhando para a estrada, escura e silenciosa.
- No h muito trfego por aqui nesta poca do ano, no , Todd?
- No. - Ele inclinou-se para trs, apoiado num cotovelo, e encontrou uma haste de relva seca, pondo-a na boca. - E voc, Brooke? Deixou algum namorado no lugar 
de onde veio?
- No.
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- Ora, voc deve ter tido vrios namorados.
- Ahn... no houve ningum importante.
- Como assim? Ser possvel? Como os garotos podiam deixar de se apaixonar por voc?
A expresso nos olhos de Todd se tornou sria. Compreendi que ele me fazia outro elogio.
- Era o que eu costumava me perguntar todos os dias - gracejei, com um sbito constrangimento.
Todd riu, mas parou de repente, os olhos fixos nos meus. Na escurido, seus belos olhos cor de bano fais-cavam. Quando se virou, seu corpo chegou mais perto do 
meu. Estvamos separados por poucos centmetros apenas. No desviei o rosto quando seus lbios se aproximaram. Fizemos contato, quase que por acaso a princpio, 
especulativo, suave, rpido. Depois, ele mudou a posio do corpo e me beijou com mais fora, por mais tempo, a mo subindo para meu ombro, a fim de me puxar.
- Gosto de voc, Brooke... e gosto muito.
- Tambm gosto de voc.
- Fico contente porque a bomba de gua do seu carro quebrou.
Tornamos a nos beijar, e depois nos deitamos de costas na traseira do caminho. Todd estendeu o brao. Ajeitei a cabea em seu ombro e virei para me aconchegar nele. 
Por cima de ns, as estrelas cintilavam como velas na escurido. Senti-me tonta ao deitar ali, ouvindo as batidas dos dois coraes. Os lbios de Todd passaram por 
minha testa, desceram para a ponta do nariz, beijando-a, tornando depois a encontrar meus lbios. O novo beijo foi mais longo, mais suave, mais ardoroso. Senti um 
calor subir por minhas pernas, como se estivesse entrando em um banho quente.
Passei os dedos por seus cabelos e desci para a nuca. Ouvi-o gemer, sentindo seu excitamento aumentar.
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Ele chegou mais perto, a mo direita deslizando por meu brao e encontrando o seio. Comprimi o rosto contra seu peito. Todd beijou o alto de minha cabea, mor-discou 
de leve a minha orelha. O que fez com que um delicioso calafrio me percorresse a espinha.
Ele ficou de joelhos e, com extrema gentileza, me guiou para um ponto da traseira do caminho em que ficaramos ocultos de quem passasse pela estrada. Havia um fardo 
de feno ali. Encostei minha cabea. Todd baixou as alas do macaco e tirou a camisa. Seu peito faiscava no escuro, refletindo a luz das estrelas, que tambm brilhava 
em meus olhos.
- Para mim, Brooke, voc  um sopro de ar fresco - sussurrou ele, antes de se abaixar para me beijar de novo.
Seus dedos entraram por baixo do meu bluso. Ergui a cabea para que Todd pudesse tir-lo com mais facilidade. Ele me beijou o pescoo, estendendo as mos para abrir 
meu suti. Quando senti o fecho soltar, meu corao parou por um instante... e depois recomeou como um tambor de parada militar. Todd no afastou o suti de meus 
seios no mesmo instante. Continuou bei-jando-o ao redor por mais alguns momentos, roando nos seios. Nunca antes eu fora to longe com um rapaz. Mal podia respirar.
Nenhuma voz dentro de mim dizia-me para parar. No sentia medo, nenhuma hesitao. Surpreendi-me com minha ansiedade, o desejo de continuar, explorar meus prprios 
sentimentos.
Todd era muito diferente dos outros rapazes com quem eu sara. Cada vez que me tocava, era como se tivesse me pedido primeiro, como se tomasse o cuidado de se certificar 
de que eu tambm queria. Parecia querer que eu lhe tivesse tanto prazer quanto ele tinha comigo. Era o ato de amor naquele nvel romntico, naquele nvel
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de igualdade, sobre o qual as garotas tanto lem, com tanto sonham, mas raramente experimentam. Era o QUE eu tinha agora... e inundava meu corao com um praz que 
eu nunca julgara ser possvel.
Meus mamilos ficaram de repente to duros que at doam. No pude deixar de gemer.
- Brooke... voc  linda... mais linda do que qualquer outra garota que j vi.
Logo descobri que as palavras podiam ofuscar como pedras preciosas. Passavam pelos ouvidos e alcanavam o crebro, mas continuavam at penetrarem no meu eu mais 
profundo e mais secreto. Pressionavam a mulher em mim e ansiei por ele, por meios que s me haviam ocorrido nas fantasias mais ntimas.
Senti a perna de Todd entre as minhas e me comprimi contra ele, ansiosa. Ambos nos contorcemos, nos beijamos, sorvendo um ao outro. Eu me encontrava atordoada. Senti 
vagamente os dedos de Todd abrirem meu jeans. Antes que pudesse det-lo, sua mo entrou por baixo da calcinha e atingiu minha parte mais ntima. No me desviei. 
O excitamento dele agora crescia depressa, sua respirao cada vez mais acelerada. Senti a primeira pontada de medo.
- Todd, nunca fiz isso antes...
- Eu sei, mas nunca desejei tanto uma outra mulher.
Suas palavras eram hipnticas. Mas, finalmente, uma vozinha l no fundo comeou a gritar uma advertncia. Chamou-me pelo nome. Eu gostava de pensar que essa voz 
dentro de mim era como a voz de minha me, alguma coisa que captei quando era beb, escondida no fundo de mim, para ressurgir nos momentos em que eu mais precisava.
Todd abrira a cala e pude sentir sua nudez. Tentou baixar minha calcinha, mas parou de repente, quando no me mostrei to cooperativa como no comeo.
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Estou com medo... - balbuciei. - Sei que estamos indo muito depressa, Todd. Por favor...
Ele se apertou contra mim.
Tem razo... mas acontece que voc vai embora amanh.
- Vou embora, mas no o esquecerei se no quiser que eu esquea.
A respirao de Todd foi se tornando mais lenta. Ele comprimiu a testa contra meu ombro e esperou por um momento, como se estivesse suportando uma terrvel agonia.
- Voc est bem, Todd?
- Estou, sim. Apenas me d um minuto. Deixei-o estendido assim, o corpo dele contra o meu. Ouvamos o corao um do outro, batendo como tambores na selva. Quem podia 
saber as mensagens que trocavam? Todd finalmente voltou a se deitar de costas, puxou o macaco e respirou fundo. Ajeitei o suti e vesti o bluso.
- Desculpe... - murmurei.
- No h nada para se desculpar, Brooke. Voc causou alguma coisa em mim desde o momento em que a vi. No pude me conter. Pode ter certeza de que no costumo agir 
assim.
Ele sentou-se, ergueu os joelhos, abraou as pernas com as mos, baixou a cabea. Era mais fcil para ele abrir seu corao para mim nessa postura.
- Tenho medo de me tornar igual  minha me, desenfreado, imoral.  como se estivesse em meu sangue ou algo parecido. Odiava a maneira como os homens a tratavam 
e no quero tratar uma mulher do mesmo jeito... nenhuma mulher.
Todd ergueu a cabea antes de acrescentar:
- Mas foi diferente com voc. No consegui controlar meus sentimentos.
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- Sei disso. Tambm no consegui.
Pude ver o sorriso de Todd  luz das estrelas.
- Acho que suas amigas devem estar perguntando onde voc se meteu.
- No, porque elas no tm a menor idia do tempo que leva para consertar um carro. No se preocupe.
- Pode voltar agora no Buick.
- No h pressa.
Baixei a cabea para seu colo quando ele esticou as pernas e fitei-o.
- Acho que  a isso que se referem quando falam em amor  primeira vista... e no sei se devo me sentir feliz ou um tolo.
- Sinta-se feliz, Todd.  como eu me sinto.
- Jura que no vai me esquecer? Soltei uma risada.
- Voc vai me esquecer primeiro. Tenho certeza.
- Aceito essa aposta. Assim que se fixar em algum lugar, escreva ou telefone. Irei para l nas minhas primeiras frias.
- Promete?
- Por todas as estrelas do cu. Cada vez que levantar os olhos  noite, poder pensar em mim e na minha promessa. Lembre apenas que estou esperando aqui... e no 
me deixe esperar para sempre, est bem?
- Oh, Todd, no sei onde vamos acabar. Tenho medo neste momento... e sou a lder, a que tem de animar as outras a continuarem.
- Vai encontrar um jeito, Brooke.  o tipo de pessoa que sempre cai de p. Aposto todo o meu dinheiro em voc.
No pude deixar de rir.
- Fala agora como se estivesse apaixonado... porque o amor torna as pessoas cegas para a realidade.
- Quem lhe disse isso?
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- Ningum. Cheguei a essa concluso por mim mesma.
- J disse que sou realista demais. No se aplica no meu caso.
- Claro, claro... Ns fugimos, roubamos um carro, fomos roubadas, no sabemos para onde vamos ou o que faremos quando chegarmos l, mas eu sempre caio de p. Isso 
 ser realista?
- No seu caso, , sim.
Levantei a mo. Todd baixou a cabea para que minha mo pudesse enla-lo pelo pescoo, deixando que o puxasse a uma distncia suficiente para que nossos lbios 
se encontrassem. Foi o nosso beijo mais maravilhoso, porque foi um beijo de juramento, de uma promessa, o beijo destinado a durar por toda a eternidade.
A sra. Slater no havia me dito que trancava a porta depois das onze horas da noite. Foi embaraoso ter de tocar a campainha; e como ningum atendesse, bater e bater. 
Ela acabou aparecendo. Usava um roupo felpu-do, marrom-escuro, de um tamanho pelo menos duas vezes maior do que o dela, com chinelos de homem.
- Desculpe t-la acordado - murmurei.
- No sabia que voc ainda estava fora, minha cara. Sempre tive por norma trancar as portas s onze horas, a menos que algum me avise do contrrio. Pensei que j 
estavam todas l em cima, aconchegadas na cama. Aonde foi?
- Estava consertando nosso carro. Obrigada. Boa-noite.
Passei direto por ela, antes que tivesse tempo de fazer outra pergunta, e subi para o quarto que partilhava com Raven. Encontrei-a acordada, estendida na cama, com 
as mos atrs da cabea, o abajur na mesinha-de-cabeceira aceso.
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- No precisa me contar - disse ela, assim que entrei no quarto. - Posso ver em seu rosto.
- O qu?
Raven riu e olhou para o relgio.
- Quase quatro horas para trocar uma bomba d'gua?
- Foi difcil. A velha bomba tinha enferrujado e...
- Por favor, Brooke. Eu conheo essa sua expresso. Havia um pouco de tristeza nas palavras de Raven.
Ela tambm se sentira apaixonada assim por Taylor, cujo comportamento lamentvel ainda a mortificava.
- Oh, Raven!
Nem eu mesma reconheci minha voz. Ela abandonou o ar jovial, os olhos se tornaram mais preocupados do que curiosos.
- O que foi?
- Acho... acho que estou apaixonada.
- Apaixonada? Mas mal o conhece... Espere um pouco, Brooke. No pode estar falando srio.
Raven sentou na cama, com as mos nos quadris.
- Por que no?
- Por que no? Acaba de conhec-lo, Brooke. Sabe o que pode acontecer se for rpida demais... No vai querer que acontea com voc o mesmo que aconteceu comigo e 
Taylor!
Havia tanta angstia em seu rosto, que eu queria escut-la, mas meu corao insistia em que Todd e eu ramos diferentes.
- Sei que tem as melhores intenes, Raven, e lamento muito que Taylor tenha partido seu corao, mas Todd  diferente... nem um pouco parecido com Taylor.
Ela me fitou nos olhos, depois recostou-se no travesseiro.
- Conte o que aconteceu, Brooke. Quero acreditar que voc tem razo sobre Todd.
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- No fui at l na expectativa de que ocorresse qualquer coisa romntica. - Como os olhos dela se contrassem, tratei de acrescentar: - Juro que no esperava nada, 
Raven. Conversamos um pouco e ajudei-o enquanto trabalhava.
Ela comeou a rir, mas minha expresso irritada a fez calar.
- Desculpe, Brooke. Acontece apenas que uma oficina  o ltimo lugar do mundo em que eu esperaria um encontro romntico.
Raven apertou os lbios com fora e fez o sinal de quem passava um zper pela boca.
- Todd  muito sensvel. Comecei a sentir mais pena dele do que de mim. O pai  um alcolatra, e a me fugiu com outro homem h muitos anos.
- E esse  o seu Homem Certo?
- No se pode culp-lo por seus pais, Raven. Gostaria que fssemos culpadas pelos nossos?
A expresso maliciosa de Raven desapareceu no mesmo instante.
- Tem razo, Brooke.
- Todd rompeu com a namorada h algum tempo. Acho que no era a garota certa para ele... e ainda por cima queria um compromisso srio.
- Ahn, j entendi...
Raven franziu as sobrancelhas.
- O que isso significa, Raven?
- s vezes os homens se mostram mais apaixonados ou mais gentis quando acabam de perder um amor, Brooke. Sofrem com o corao partido e a voc aparece para remediar 
a situao.
- Todd no sofria de corao partido. Se houve sofrimento, a garota  quem sofria.
Raven balanou a cabea, ainda ctica.
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- Conversamos um pouco sobre isso, depois fomos para a traseira de um caminho.
- Como?
- A traseira de um caminho, Raven.
- Ahn...
Ela reprimiu um sorriso com o dorso da mo.
- Vai ficar rindo de mim ou escutar direito?
- Est bem. Desculpe. O que aconteceu?
- Comeamos a nos beijar e...
- E o qu?
- Beijamo-nos e beijamo-nos, mas paramos antes que fosse tarde demais. - Baixei os olhos quando ela se manteve calada. - Eu no queria realmente parar.
- No queria? Isso  mesmo especial. -. Raven pensou por um instante, depois inclinou-se para a frente e tocou em meu ombro. - O que vai fazer?
- Nada. O que posso fazer? Prometi que lhe escreveria do lugar em que parssemos, e ele prometeu que iria me visitar.
Raven recostou-se de novo, pensou mais um pouco e balanou a cabea, sorrindo.
- Acho que ele pode mesmo ir visit-la. Parece ser de fato algum especial. Desculpe se fiquei to desconfiada... mas no queria que voc casse na mesma armadilha 
que eu.
Percebi por seu rosto que ela falava srio e agradeci. Trocamos um abrao. Fui escovar os dentes e me aprontar para dormir.
Mais tarde, no escuro, pouco antes de eu me virar, Raven chamou-me.
- O que ?
-  muito bom, Brooke,  maravilhoso ter algum com quem sonhar.
- E se nunca passar de um sonho, Raven? Ela pensou por um momento.
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- Ser mais do que isso para voc, Brooke. Tenho certeza.
- Como sabe?
- Como sei? Porque estou com inveja.
Havia um tom de pesar em sua voz. Perguntei-me quanto tempo se passaria antes que ela pudesse superar o fato de ter entregue a Taylor uma parte sua to ntima.
- Boa-noite, Raven. Obrigada.
- No precisa me agradecer. Voc  minha irm, Brooke.
- Para todo o sempre.
- As Orfteiras.
E adormecemos, as duas se aventurando pela terra dos sonhos.
Raven no disse nada a meu respeito para Crystal e Borboleta na manh seguinte. As duas haviam dormido logo na noite anterior, e nunca souberam a que horas eu voltara. 
Como sempre, Crystal nos acordou.
- O carro ficou pronto? - perguntou ela, enquanto eu esfregava os olhos para sair dos sonhos.
- J est l fora.
- Vamos tomar o caf da manh aqui. Assim,  melhor voc se apressar.
Cutuquei Raven, que gemeu e resmungou, suplicando para que a deixassem em paz. Crystal tambm a sacudiu, at que conseguimos arranc-la da cama e lev-la para o 
caf da manh, quase como uma sonmbula. Foi um excelente caf da manh, a sra. Slater se mostrando uma simptica anfitri, conversando sobre tudo, do tempo s manchetes 
no jornal deixado em sua porta naquela manh. Sentia-se curiosa a nosso respeito, mas no o bastante para bisbilhotar. Como todas as pessoas que conhecamos, ficou 
encantada com Borboleta, que concentrava nela seu sorriso cativante e olhos meigos, como um farol em busca de afeio.
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Depois, Crystal e eu sentamos na varanda examinando o mapa e planejando at onde poderamos ir  naquele dia, quando faramos outra parada.
- Temos pouco mais de cem dlares agora, Brooke. No sei o que faremos, mesmo que pudssemos chegar a Los Angeles em dois dias.
- Podemos procurar por empregos de garonete Ou talvez vender o carro.
- Vender o carro? Como? No  nosso.
- H pessoas que no se importam.
- No saberamos como ou onde encontrar essas pessoas, Brooke... e no tenciono vender uma coisa que tomamos emprestada.
Enquanto continussemos a dizer a ns mesmas que apenas o pegramos emprestado, no nos sentiramos to culpadas, nem pensaramos em ns como ladras. Crystal tinha 
razo.
- Alguma coisa vai acontecer, Crystal. Pode ter certeza.
Eu prometera passar pela oficina de Todd antes de seguirmos viagem. Mas senti alguma hesitao, pensei at em passar direto. Compreendi, no entanto, que isso o deixaria 
to magoado quanto a mim.
- Pronto! - exclamou Raven, aparecendo na porta. - Califrnia, l vamos ns!
Borboleta saiu com um pacote que a sra. Slater arrumara para ns.
- Ela disse que no podia nos deixar partir sem o almoo - informou Borboleta, enquanto nos encaminhvamos para o carro.
Mais uma vez, encontrvamos pessoas que se preocupavam conosco no momento em que amos partir. Entramos na caminhonete e liguei o motor. A sra. Slater surgiu na 
porta e acenou em despedida quando nos afastamos. Diminu a velocidade ao nos aproximarmos da oficina.
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S vou parar para me despedir - avisei s outras.
S? - murmurou Crystal.
parei e saltei. Todd estava debaixo de um carro, no fundo da oficina. Ouvi-o soltar um grunhido. Um momento  depois, ele interrompeu o trabalho e saiu de baixo do 
carro.
- Estamos indo embora - murmurei.
Todd levantou-se e olhou para o nosso carro. As meninas nos observavam. Ele acenou com a cabea para o outro canto, onde no poderiam nos ver. Fui para l. Assim 
que me virei, ele me beijou.
- Quero que prometa que vai me chamar se passar por alguma situao difcil durante a viagem. Promete?
- Prometo.
- Mandei fazer um carto de visita no ano passado. Tenho uma gaveta cheia. - Ele tirou um carto do bolso do macaco e enfiou no bolso do meu jeans. - D uma olhada 
de vez em quando, para no esquecer de mim.
- No o esquecerei, Todd. No diga bobagem. Pensarei em voc durante todo o tempo.
-  mesmo? - Ele sorriu. - Espero que sim. Telefone assim que chegarem no lugar para onde vo, est bem?
- Combinado.
- Voc  como um milagre que entrou de repente em minha vida e saiu logo em seguida.
- No estou saindo. - Senti meu corao vazio, enquanto nos fitvamos nos olhos. -  melhor eu ir agora.
Minha voz era pouco mais que um sussurro. Baixei os olhos. Todd ps a mo sob o meu queixo e tornei a fit-lo.
- Estou memorizando seu lindo narizinho... memorizando voc toda...
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Trocamos outro beijo. Depois, desvencilhei-me DO seu abrao e voltei apressada para o carro, fazendo um esforo desesperado para reprimir as lgrimas e soluos que 
queriam escapar.
- Est tudo bem? - perguntou Raven. Acenei com a cabea.
- Qual  o problema? - indagou Crystal.
- Nenhum - murmurei, ligando o motor.
- Brooke gosta dele - disse Borboleta. - No  isso, Brooke?
Fitei-a pelo espelho retrovisor e sorri.
- , sim, Borboleta. E parti.
Todd veio at a porta da oficina e ergueu a mo. Registrei a cena dele parado ali, e gravei-a to profundamente na memria que seria preciso uma marreta para arranc-la.
Algum dia tornarei a v-lo, pensei, e ficaremos juntos para sempre. Casaremos e construiremos uma vida, porque no s nos amamos, mas tambm precisamos um do outro. 
Ou aquilo era apenas uma nova fantasia?
Que tipo de casamento eu poderia ter? No tinha pai para me levar ao altar, no tinha me para me ajudar a escolher o enxoval, o vestido, as flores e o bolo.
No tinha mais ningum alm de mim mesma.
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12- Conferindo a realidade

O pneu traseiro direito furou logo depois que entramos na 1-70. Por sorte nossa, Gordon mantinha o estepe cheio. Com a ajuda de Crystal e Raven, consegui troc-lo. 
As porcas estavam to apertadas que ns trs precisamos nos revezar com a chave para afroux-las. No final, Crystal quase que ficou em cima da chave, enquanto Raven 
e eu fazamos fora. Tenho certeza de que era uma cena inslita. Muitos carros passaram, mas ningum parou para ajudar. Crystal achou que era melhor assim, pois 
dessa forma mentiramos para menos pessoas. Claro que ficamos apavoradas com a possibilidade de uma patrulha rodoviria aparecer, mas todos os guardas deviam estar 
tomando caf. No avistamos nenhum carro de polcia naquele momento e nem nos oitenta quilmetros seguintes.
Logo depois do almoo, Crystal levou-nos para a 1-255, por onde chegamos ao estado do Missouri. Logo em seguida pegamos a 1-44, seguindo para oeste. Crystal explicou 
que aquela estrada nos levaria ao Texas, de onde seguiramos para o Novo Mxico, Arizona e finalmente Califrnia.
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Califrnia! Comeava a parecer que nos encontrvamos a caminho da lua.
Toda vez que parvamos para encher o tanque, pensvamos que o carto de crdito j estava cancelado; mas a cada vez era aceito sem qualquer problema.
- Ele est bem perto de ns - previu Raven. - Posso senti-lo nos ossos.
Ningum a contestou. Todas tnhamos ansiedades similares. A todo instante eu espiava pelo espelho retrovisor, na expectativa de avistar a pick-up de Gordon se aproximando. 
Seu rosto estaria quase encostado no pra-brisa, os dentes cerrados entre os lbios lvidos.
Continuei a guiar, fazendo grande esforo para repelir as imagens de minha mente.
O lanche oferecido pela sra. Slater fora to satisfatrio que no tornamos a sentir fome pelo menos at as sete horas da noite. Crystal decidiu que era melhor parar 
num dos supermercados pequenos e comprar saladas prontas. Saiu mais barato e no houve qualquer problema. Depois, antes de voltarmos  auto-estrada, decidimos nos 
permitir uma indulgncia e paramos para comprar creme gelado. O desafio seguinte era encontrar um lugar apropriado para dormir que no consumisse uma parcela substancial 
dos nossos recursos restantes. Quase todos os motis eram caros, inclusive os que se encontravam em pssimas condies, que cobravam mais do que podamos pagar.
- Vamos tentar dormir outra vez na caminhonete - props Crystal. - Isso no vai nos matar.
Desta vez encontrei uma pequena estrada transversal que estava mesmo fora de uso. A pavimentao quase no existia mais e terminava numa campina. Para nossa sorte, 
era uma dessas estradas comeadas mas jamais concludas. O mato alto nos escondia. Trancamos as portas, ajeitamos os travesseiros, deixamos s uma
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fresta das janelas aberta e fomos dormir. Ou pelo menos tentamos dormir. Raven comeou a dizer o que todas pensavam.
- Se tivssemos podido trabalhar mais algum tempo no no restaurante da Patsy, teramos mais dinheiro e no precisaramos dormir numa estrada. Poderamos comer como 
pessoas. E at comprar algumas roupas. Estou com vontade de ir ao banheiro agora. O que devo fazer?
- Imaginar que est num dos acampamentos juvenis que o Estado costumava organizar para ns - sugeri. - A natureza est  espera.
- Eu detestava aqueles acampamentos. De qualquer forma, h mosquitos l fora, sem falar em cobras...
- Lobisomens e vampiros - acrescentou Crystal.
- Fantasmas e duendes - disse Borboleta, rindo.
- E assassinos psicopatas - arrematei. - No vamos esquecer os assassinos psicopatas que tambm se perderam no caminho.
- Vocs todas so muito engraadas, mas lembrem-se de que tambm tero de usar o mato como banheiro - resmungou Raven.
- Era o que nossos ancestrais faziam - disse Crystal. - A idia de encanamentos nas casas  um fenmeno relativamente recente.
- Ora, por favor, no me venha com uma preleo sobre a histria dos banheiros! - suplicou Raven.
Ri tanto, que tambm senti vontade de ir ao banheiro.
- Vamos embora, Raven. Ficarei de vigia para voc, e depois voc faz a mesma coisa por mim.
Logo que acabamos, voltamos  caminhonete e tentamos dormir. Depois do que pareceu ser quase uma hora, soltei um suspiro profundo e bastante alto para que todas 
ouvissem.
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- No consigo dormir - declarou Raven.
- Nem eu - murmurou Crystal. - Pensei que me sentia to cansada que s precisaria de um minuto para pegar no sono.
- Tambm estou acordada - acrescentou Borboleta.
- Vamos conversar - sugeriu Crystal.
- Sobre o qu? - indagou Raven. - E no me diga que  sobre poltica ou cincia.
- Claro que no - respondeu Crystal. - Cada uma poderia contar qual  a coisa que mais deseja encontrar no final deste arco-ris. Quem  a primeira?
- Pode ser voc - disse Raven. - Voc deu a idia.
- Est bem. Quero encontrar uma boa escola na Califrnia, para depois me candidatar a bolsas de estudo nas universidades.
- Que coisa mais chata... - murmurou Raven. Crystal continuou, ignorando-a:
- Tambm quero ir  praia... e surfar. Ela riu.
- No quer conhecer nenhum artista de cinema? - perguntou Raven.
- No, no quero. No tem a menor importncia para mim se os artistas so famosos. Prefiro assistir a uma das conferncias mdicas da UCLA. A pesquisa  muito importante, 
e aqueles mdicos so famosos por seu trabalho em...
- Est dando certo, Crystal - anunciou Raven.
- O qu?
- Estou comeando a sentir sono.
- Muito engraado... - Crystal reprimiu outra risadinha. - Agora vamos ouvi-la, Miss Ave Canora.
A vai Crystal outra vez com seu sarcasmo, pensei. Est armando a cena.
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Est bem - respondeu Raven. - Quero chegar Los Angeles, comparecer  minha primeira audio e ser contratada para assinar um disco antes mesmo de cantar qualquer 
msica.
- Isso no  um objetivo, mas um sonho - interveio Crystal. - Deveria converter essa histria numa plula e vend-la aos insones.
- O que isso significa? Pode compreender o que ela diz, Brooke? Juro que eu no consigo. Alm do mais, qual  o problema de eu ter um sonho?
- Eu gostaria de obter uma bolsa de estudo atltica para uma grande universidade - resolvi falar, antes que elas iniciassem uma discusso acalorada. - Depois de 
algumas semanas, escreveria para Todd. Ele iria ao meu encontro e nos casaramos depois que eu terminasse a universidade. Ento viajaria pelo mundo inteiro comigo 
e com minha equipe olmpica.
- Pense que poderia ter filhos em quantidade suficiente para formar seu prprio time de softball - comentou Raven, rindo.
- No creio que esse jogo esteja nos ajudando a relaxar e dormir - comentei.
- E voc, Borboleta? - perguntou Raven. Houve uma longa pausa.
- Quero apenas encontrar um pai e uma me, talvez uma av e um av - murmurou ela, em seu fio de voz.
Ningum falou por muito tempo.
- Estou cansada agora - murmurei finalmente, fechando os olhos e arriando no banco.
- Eu tambm - disse Raven. - Chega de conversa.
Estava tudo escuro e silencioso, uma brisa minscula passava pelas aberturas nas janelas. Em algum lugar, a distncia, ouvi o que parecia ser o pio de uma
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coruja. Fechei os olhos. O simples desejo de Borboleta ressoava como um poderoso poema dentro de mim.
Deveria ter revelado s meninas o que eu realmente desejava? Queria que no final do meu arco-ris estivesse minha me, que se apresentaria para me levar de volta, 
pedir perdo, contar uma histria que justificaria e explicaria por que me abandonara. Seu remorso seria to profundo que eu a perdoaria. Ela me abraaria e beijaria, 
diria que sonhara em me encontrar de novo desde aquele dia horrvel em que me abandonara na porta de um asilo.
E seguiramos para a frente como se todos aqueles anos de ausncia no passassem de um pesadelo. Em minutos seramos como irms. Ela no ficaria transtornada por 
me descobrir mais interessada em esportes do que em concursos de beleza. Jogaramos tnis e nadaramos, faramos grandes passeios a p pelas praias da Califrnia, 
onde a areia brilha como pequenos diamantes e as pessoas so eternamente jovens.
Como seria maravilhoso ter finalmente algum a quem se pudesse de fato chamar de mame!
A escurido nos envolvia por completo, quatro almas perdidas e assustadas, seguras por um momento, dormindo na caminhonete que pertencia ao homem que todas aprendramos 
a odiar, o demnio em nossos pesadelos, com certeza nos caando, impulsionado por sua raiva implacvel, uma razo para nunca esquecermos de trancar as portas.
Como se pudesse ler meus pensamentos at mesmo no sono, Borboleta teve um terrvel pesadelo quase no mesmo instante em que adormeceu. Acordou aos gritos. Crystal 
tratou de confort-la, assegurando-lhe que estava s e salva.
- O que foi? - perguntou Raven.
Borboleta no podia falar, no queria contar.
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- Est tudo bem, Borboleta - murmurou Crystal. Estamos aqui com voc.
- Ela me deixou assustada - lamentou Raven. - Meu corao parece um pequeno punho batendo dentro do peito.
- Volte a dormir - aconselhou Crystal.
- Voltar a dormir.
- Isso mesmo.
Raven pensou por um momento, compreendeu que Borboleta se acalmaria se o fizssemos, e ficou quieta.
Mas era difcil voltar a dormir. Eu sentia muita pena de Borboleta. Talvez tivesse sido um erro lev-la conosco. Talvez Todd estivesse certo. Ela era frgil demais. 
Nem mesmo nosso amor, nossa companhia, nossa unio e a promessa de continuarmos juntas para sempre eram suficientes.
Afinal, perguntei-me, quem ns pensvamos que ramos?
No ramos ningum.
Como eu pudera ter aquela idia?
A claridade da manh nos despertou. Povoava o carro com tantos raios de sol, que pensei, ao abrir os olhos, que nos encontrvamos no meio do fogo. Tive um sobressalto, 
um grito aflorou aos meus lbios. Depois de um momento, lembrei onde estvamos. Eram apenas cinco e meia da manh. Raven no se mostraria muito feliz se eu a acordasse 
agora, pensei, enquanto ela gemia e se virava, tentando desesperadamente pegar no sono.
Saltei da caminhonete, estiquei o corpo, respirei fundo, aspirando o ar fresco. Crystal veio ao meu encontro. Borboleta tambm dormia.
- Temos de procurar uma soluo, Brooke, trar
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um meio de conseguir dinheiro. No podemos continuar assim. E o que faremos se realmente conseguirmos chegar  Califrnia? No podemos arrumar emprego de imediato; 
e mesmo que fosse possvel, no receberamos o pagamento logo. Como faremos para comer enquanto isso? Quem nos dar um apartamento sem o aluguel adiantado?
Crystal fez uma pausa e confessou:
- Estou acordada h algum tempo, pensando nisso tudo.
- Aonde quer chegar, Crystal?
- Talvez seja o momento de pararmos de nos iludir. Tem sido uma aventura e tanto, mas  s isso. No podemos esperar mais nada, em termos realistas.
- Sabe que no podemos mais voltar, Crystal. Sabe o que acontecer.
- Ser diferente se contarmos tudo  polcia. Vo acreditar em ns, mesmo que tenhamos de lev-los ao lugar em que deixamos a cocana. Pus uma pedra em cima do saco. 
Tenho certeza de que ainda est l. Deve haver resduos suficientes para convenc-los de que dizemos a verdade. Gordon ser preso.
- E se no for?
- Mesmo que no seja, no vo nos deixar no mesmo lugar que ele. Sabero que isso poderia ser terrvel.
- Ser mesmo, Crystal? - Chutei uma pedra e suspirei, as lgrimas subindo-me aos olhos. - Acho que prefiro assumir o risco de passar fome.
- Ou se tornar uma daquelas garotas que Norman e o filho de Nana nos acusaram de ser... vivendo nas ruas? No vai querer isso, Brooke. Temos de...
- O qu?
- Voltar  custdia do Estado por mais algum tempo.  o nosso lamentvel destino. Sinto muito.
- Eu tambm. No diga nada a elas por enquanto.
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Olhei para a caminhonete. - Vamos continuar pelo mximo que pudermos apenas pela...
- Diverso? No creio que Raven e Borboleta ainda estejam achando que  divertido.
- No; no pela diverso, mas apenas para sentirmos que tentamos tudo. Combinado?
- Desde que voc compreenda qual ser o fim, Brooke.
- Eu compreendo.
Reprimi um soluo e respirei fundo. Crystal me abraou. Ela podia ser s vezes muito afetuosa. No era apenas um crebro frio. Era tambm eficiente em manter seus 
sentimentos sob uma blindagem de palavras, lgica e fatos. Eu no tinha a menor dvida de que, em seus momentos de retraimento, Crystal chorava tanto quanto todas 
as outras.
- Vamos acord-las e voltar para a estrada, Crystal. Ela acenou com a cabea e me fitou com  aqueles seus olhos intensos e perceptivos.
- Quase gostaria que fssemos detidas, Brooke. Seria mais fcil do que desistir.
- Sim, seria muito mais fcil aceitar. Borboleta comeava a se levantar no momento em que abrimos as portas. Raven gemeu e virou-se, comprimindo o rosto contra seu 
travesseiro.
- Vamos, Raven, trate de se levantar - declarei. - Temos de endireitar o banco e partir. No quero que algum nos encontre aqui e nos prenda por invaso de propriedade.
Ela sentou-se, com cara de exausto.
- Capataz de escravas... Voc deveria trabalhar no sistema penitencirio.
Junto com Crystal, Raven levantou o banco traseiro, indo depois sentar na frente. Liguei o motor. Voltei de r pela estrada interrompida e partimos. Quando
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avistamos uma placa oferecendo um "caf da manh com tudo o que voc puder comer por um dlar e noventa e nove centavos", Raven suplicou a Crystal que parssemos 
ali.
-  bastante barato, e assim no precisaremos comer no carro, Crystal.
Crystal concordou e paramos. Era uma casa de auto-servio, freqentada em grande parte por idosos.
-  porque eles vivem de uma renda fixa mnima - explicou Crystal.
Muitas cabeas viraram em nossa direo quando entramos na fila e pegamos a bandeja.
-  quase como Lakewood - murmurou Raven.
- Estou perdendo o apetite.
Apesar disso, ela comeu muito bem, voltando ao balco para se servir de mais ovos mexidos. Usamos os banheiros, lavando-nos e nos aprontando para voltar  estrada. 
No estacionamento, perto da caminhonete, havia uma velha usando um casaco que me pareceu muito grosso para aquela poca do ano. Tinha pelo menos uma dzia de grampos 
marrons e pretos prendendo os cabelos grisalhos e ralos, as mechas caindo soltas pelos lados e atrs da cabea. No usava maquilagem, mas tinha faces rosadas. Os 
olhos escuros eram pequenos, com a boca, embora cheia, um pouco torta no canto direito. Quando mencionei isso para Crystal, ela comentou que a mulher devia ter sofrido 
um derrame. Mantinha-se bastante empertigada, em sapatos de saltos grossos... com um mnimo de dez anos de uso.
Segurava uma sacola de compras cheia de roupas, os lados estufados. Ao nos aproximarmos, ela nos fitou com expresso cautelosa, depois sorriu para Borboleta, que 
respondeu com um de seus sorrisos irresistveis.
- Mas que menina adorvel voc ! - exclamou a
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mulher. - Minha neta Donna tem cabelos como os seuS) embora no to dourados. Qual  o seu nome?
- Janet.
- Ser uma linda mulher um dia, Janet. Igual  minha Marion. Ela poderia ser uma artista de cinema. Esto sozinhas, meninas?
- Estamos, sim, madame - respondeu Crystal. Ela me lanou um olhar cauteloso. Encaminhei-me para a porta do carro.
- Perdi minha carona. Cheguei aqui tarde demais e descobri que me deixaram para trs.
Parei e alteei as sobrancelhas. Crystal fez a mesma coisa.
- Quem a deixou para trs? - perguntou Raven.
- Amigos de meu falecido marido. Depois que o marido morre, todos os amigos dele passam a evitar voc como se fosse uma praga. Quando ele era vivo, viviam nos cercando. 
No  a pura verdade?
- Deveria encontrar-se com eles aqui no estacionamento e foram embora sem lev-la? - insistiu Crystal, como se fosse uma advogada consultando uma testemunha.
- No  a primeira vez que me deixam para trs. Quando se fica viva, meninas,  preciso aprender a se virar sozinha mais do que podem imaginar. Mas ainda so jovens 
demais para se preocuparem com a viuvez. A velhice no  nada agradvel. No  a pura verdade?
Raven olhou para mim e depois para a mulher.
- Para onde vai?
- At Morrisville, que fica a uns sessenta quilmetros daqui. Acho que agora terei de caminhar at a estao rodoviria.
- Onde fica? - perguntou Crystal.
- No sei direito. Acho que ... - Ela virou-se
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para um lado, depois para o outro. - Terei de pergumtar l dentro.
- Espere um instante. - Crystal pegou o mapa abriu no cap da caminhonete. - Morrisville... No fica fora do nosso caminho. Podemos lev-la at l, madame
-  mesmo? Seria muita gentileza. A maioria das pessoas no tem mais qualquer gentileza com estranhos. Obrigada, querida. Muito obrigada.
- Pode sentar atrs com a gente - disse Borboleta abrindo a porta.
- Ora, Janet, obrigada. Viu s? Lembrei seu nome. Janet. Lembra minha Donna. J lhe disse isso?
- J, sim - respondeu Borboleta, com seu sorriso mais doce.
A velha entrou, seguida por Borboleta. Raven segurou Crystal pelo cotovelo e puxou-a para trs.
-  melhor ela no nos roubar! Crystal sorriu.
- No h muita analogia aqui, Raven.
- No h o qu? Por que no fala direito como todo mundo?
Crystal soltou uma risada.
- Estou falando mais do que direito.
Crystal embarcou. Raven virou-se para mim, com cara de desespero.
-  preciso andar com um dicionrio quando se est com Crystal. No entendo a metade do que ela diz.  quase como aprender uma nova lngua.
Ri tambm e embarcamos. Deixamos o estacionamento.
- Meu nome  Theresa James - disse a velha. - Morei em Morrisville durante quase quarenta e um anos. Meu marido Eugene era vendedor de sapatos. Costumava dizer que 
vendia boas solas e poupava boas colas. - Ela riu. - No  a pura verdade?
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- Quantos filhos e netos voc tem? - perguntou Borboleta.
- Tenho trs crianas: um filho, Thomas Kincaid Tames, e duas filhas, Marion e Jennie. Jennie  a mais parecida comigo. Uma tima cozinheira. Marion no cozinha. 
Tem empregadas que fazem tudo. Casou bem. O marido constri lanchas de passeio. Moram numa casa que parece um castelo. E ainda fica perto de um lago. Passei parte 
do vero ali e vi meus netos. Tenho cinco, trs meninos e duas meninas. Dois meninos so de Thomas. Ele tem uma filha que acaba de fazer sete anos. Seu nome  Connie, 
e tem cabelos escuros, lisos, no dourados e encaracolados como os seus, minha cara. Ela  muito boa em ortografia. Sempre me mandam suas provas com a nota mxima. 
Penduro na porta da geladeira. J tenho tantas que no consigo mais encontrar a ala da porta. - Ela soltou uma risada. - No  a pura verdade?
Olhei pelo espelho retrovisor e vi que Crystal fazia uma careta. Alteei as sobrancelhas, e ela indicou com gestos que havia um estranho odor. Depois de um momento, 
tambm senti o cheiro. Era de madeira queimada e exalava de Theresa James.
- Meu marido era um excelente vendedor. Nunca perdeu uma venda. Podia arrancar at o ltimo centavo de Rockefeller. Queriam que ele fosse vice-presidente, que passasse 
o dia no escritrio, mas ele disse "no, senhor, muito obrigado. Prefiro continuar na estrada, negociando com as pessoas". Ele adorava a companhia das pessoas, falando, 
trocando idias, como dizia.
- Quando ele morreu? - perguntou Borboleta.
- Morreu... deixe-me pensar... Ei, j tem quase dez anos! No  fcil ser uma viva. Todos os meus antigos amigos olham para o outro lado quando me vem.
- Isso  horrvel... - murmurou Raven.
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- J estou me acostumando, minha cara. s vezes basta fingir que as pessoas tambm no esto ali, como se todos ns fssemos fantasmas. Quando voc envelhece, vira 
um fantasma. No  a pura verdade?
- Eu no deixaria que se tornasse um fantasma se fosse minha av - declarou Borboleta.
- Mas no  maravilhoso? Acho que voc  a criana mais adorvel que j conheci, at mesmo mais meiga do que a minha Donna, que  capaz de arrancar um sorriso at 
mesmo de uma pedra.
Borboleta riu.
- Quando foi a ltima vez que a viu? - perguntou ela.
- Deixe-me pensar... Acho que tem quatro meses. No... talvez seis ou sete meses.
- No ligam para voc todos os dias? - perguntou Crystal.
- Claro que ligam. Meu telefone no pra de tocar. Os vizinhos pensam at que sou bookmaker. Sabe o que  um bookmaker, no , minha doura?
Borboleta sacudiu a cabea, e ela explicou:
-  um homem para quem as pessoas telefonam quando querem apostar num cavalo. Se voc ganha, ele tem de pagar a voc, mas se voc perde, tem de pagar a ele. Tenho 
um irmo que j foi bookmaker. Agora ele est num abrigo para velhos. Nunca mais o vi.
- Por que no? - indagou Raven. - Seu filho ou suas filhas no a levam para v-lo?
- No, porque no gostam dele. Jamais gostaram. Tambm no querem que eu o procure. Dizem que meu irmo  a ovelha negra da famlia, que fez minha me envelhecer 
antes do tempo. As mes podem envelhecer antes do tempo se os filhos so maus. No  a pura verdade?
- Passou o ltimo Natal com seus netos? - perguntou Borboleta.
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- Claro. Fomos todos para a enorme casa de minha filha. Tivemos uma rvore imensa, com montanhas de presentes. Havia um peru capaz de alimentar um exrcito. Fiz 
uma torta de abbora e uma torta de ma. Jennifer fez um po de tmaras e nozes, alm de um pastelo de Yorkshire. Foi uma grande festa, com msica e a lareira 
acesa, como naqueles cartes de Natal que tocam uma pequena melodia quando a pessoa os abre. Claro que passo todos os feriados com meus filhos e netos, os aniversrios 
e... os aniversrios.
Ela fez uma pausa, como se tivesse esquecido o que dizia. Mas logo reencontrou o seu assunto:
- Mas por enquanto moro sozinha em minha casinha, paga h muitos anos por meu marido, que era o melhor vendedor de sapatos do mundo. J contei o que ele costumava 
dizer? Sempre falava que uma boa sola valia mais que uma cola.
Ela riu.
- No  a pura verdade? - disse Borboleta. Todas sorriram. Theresa James soltou uma risada.
Continuou a falar quase que durante todo o percurso at Morrisville. Raven no parava de revirar os olhos para mim, como se eu pudesse det-la ou fosse a culpada. 
Ela acabou ligando o rdio e ps-se a cantar a msica que tocava.
- Tem uma linda voz, minha cara - comentou Theresa James. - Minha Jennie tambm tem uma linda voz, mas no tanto quanto a sua. Poderia cantar numa esquina e recolher 
dinheiro num chapu.
Raven sorriu, orgulhosa.
- Ainda vou subir num palco e ganhar muito dinheiro cantando - declarou ela.
- Tenho certeza que sim. Irei ouvi-la e direi que a conheci quando era... quando era... Esqueci a hora em que deveria estar no estacionamento. Talvez tenha chegado
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mais cedo, no atrasada. Eu me sentiria horrvel se ficarem esperando por mim quando j fui embora. Talvez eu devesse ter ficado, em vez de vir com vocs. Oh minhas 
caras, j no sei mais...
Ningum disse nada. Olhei para Crystal pelo espelho retrovisor. Ela baixou sua janela para deixar um pouco de ar fresco entrar na caminhonete, enquanto balanava 
a cabea.
- Seus filhos deveriam cuidar melhor de voc - disse Raven subitamente.
- No  a pura verdade? Todo mundo me diz isso. As pessoas perguntam por que uma me pode cuidar de trs filhos e trs filhos no podem cuidar de uma me? Talvez 
seja mais difcil cuidar das mes, no acham?
- No - respondeu Borboleta. - Seria mais fcil cuidar das mes.
- Voc  to doce... Seu nome  Janet. Quase que dei  minha filha Jennie o nome de Janet. Procurvamos um nome que comeasse com J. Meu marido disse que podia ser 
Joyce ou Joan, mas eu disse que no. Ocorreu-me de repente que deveramos cham-la de Jennie, em homenagem  minha av pelo lado materno. Ele concordou, embora nunca 
tivesse conhecido minha av. Se a conhecesse, garanto que lhe venderia um par de sapatos.
Ela riu, e Borboleta acompanhou-a quando acrescentou:
- No  a pura verdade?
Todas nos sentamos gratas, quando uma placa avisou que faltavam poucos quilmetros para Morrisville.
- Onde voc mora? - perguntei a Theresa. - Ns a levaremos at l.
-  muita gentileza. Est vendo como pessoas estranhas podem ser simpticas, Janet? Agora moro numa rea exclusiva. Meu marido achou que sempre seria um bom bairro 
e disse: "Vamos investir numa casa aqui-
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Nunca nos arrependeremos..." E foi verdade, no nos arrependemos.  um pouco grande para uma velha como eu, mas estou acostumada quelas paredes antigas, assim como 
as paredes se acostumaram comigo. No poderia me imaginar morando com meus filhos.  timo visitar, mas no podemos esquecer as palavras de Ben Franklin quando disse 
que hspedes e peixes fedem em trs dias. Ela riu. Desta vez, Crystal tambm aderiu ao coro:
- No  a pura verdade?
Todas entoavam isso quando entramos em Morris-ville. O cu escurecera, e uma chuva fina caa. Um dos limpadores de pra-brisa de Gordon estava gasto e arranhava 
um lado. Eu evitava o seu uso o mximo que podia.
- Pode descer direto pela Main Street. Depois pegue a Rua Quatro e lhe mostrarei a casa. Obrigada, minha cara. - Theresa sorriu para Borboleta. - Que doce criana! 
Sabe, minha me dizia que fui uma linda menina. Dizia que todos os homens queriam me dar uma moeda e me pediam para danar um pouco. Meu pai era capaz de assobiar 
sinfonias inteiras. Era um homem feliz e despreocupado, mas nunca soube ganhar uma boa vida. Diferente de meu marido, que vendia sapatos e dizia que uma boa sola... 
uma boa sola...
Ela fez uma pausa, passando a mo pelo rosto.
- Estou cansada... e contente por ter vindo com vocs, meninas.
Cheguei  Rua Quatro e virei  direita. Pareceu-me um bairro pobre. As casas eram velhas, em pssimo estado, os pequenos gramados cheios de falhas, invadidos pelo 
mato e lixo. Um deles tinha at alguns pneus velhos. No vimos muitas pessoas. A chuva comeara a cair um pouco mais forte.
- Eu deveria ter trazido o guarda-chuva. Mas no pensei que pudesse chover.
Com as nuvens escuras por cima, e a chuva persistente,
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o bairro parecia ainda mais melanclico. Os bueiros no estavam limpos. Na frente de uma casa, quatro cachorros haviam virado uma lata de lixo e procuravam os restos 
de comida que pudessem encontrar.
- Voc no mora aqui, no ? - perguntou Raven.
- Oh, no! Moro perto. Quando chegar  esquina vire  esquerda e saltarei. Posso andar um pouco. Foram muito simpticas, mas no devo convid-las a entrar. Minha 
casa est uma baguna e me sinto muito cansada. Vou direto para a cama.
- No se preocupe - disse Crystal. - Temos muita viagem a fazer e precisamos percorrer o mximo de distncia possvel antes do anoitecer.
- Obrigada, minhas caras. Muito obrigada - repetiu.
Ela comeou a se mexer no banco.
-  aqui? - perguntei.
- Obrigada, minhas caras. Muito obrigada. Parei, e Crystal abriu a porta. Theresa comeou a sair. Parou de repente e virou-se para contemplar Borboleta.
- No venda a ningum nenhum de seus cachos. E tome cuidado com os homens que piscam quando sorriem. Adeus.
- Adeus - murmurou Borboleta, com alguma tristeza.
- Adeus - acrescentou Crystal.
Raven tambm se despediu e eu por ltimo. Crystal voltou ao carro. Por um momento, observamos Theresa James afastar-se pela calada. Ela parou perto de um terreno 
baldio. Comecei a dar partida.
-  melhor voltarmos para a Main Street - sugeriu Crystal. - Ali ser mais fcil encontrar a sada para a estrada.
- Certo.
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Avancei pelo caminho de entrada de uma casa para fazer a manobra. Ao voltarmos  rua, avistamos Theresa no lado direito do terreno baldio. Largara o saco no cho, 
ao lado de uma enorme caixa de papelo. Parei a caminhonete.
- O que ela est fazendo? - especulou Raven, em voz alta.
Era o que todas ns queramos saber. Um momento depois, Theresa ficou de quatro e engatinhou para dentro da caixa. Meu corao deu um salto-mortal.
- Crystal... - murmurei.
- Ela  uma sem-teto - explicou Crystal. - Eu j tinha pensado nisso. Havia alguma coisa estranha nela, sem falar naquele cheiro de madeira queimada. Tudo o que 
dizia era um sonho ou...
- Ou o qu?
- Ou ela  o pior tipo de rf que existe, Borboleta; a me esquecida por todos os filhos.
- Como podemos deix-la dormir numa caixa? - gritou Borboleta, enquanto o carro se afastava.
- O que podemos fazer, Borboleta? - indagou Raven. - No podemos sequer ajudar a ns mesmas.
A verdade nua e crua caiu como uma chuva gelada. O silncio tornou-se de repente mais alto do que as trovoadas.
- No  a pura verdade? - murmurou Crystal.
- No  mesmo? - acrescentei. E seguimos em frente.
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13 - A isca foi lanada

Depois que deixamos Theresa James, experimentei a sensao de que nos encontrvamos  deriva, flutuando pelo espao, sem destino, levadas pela fora do motor da 
caminhonete. Nosso objetivo se tornara muito vago, o propsito perdido e confuso. Sentia que no levaria muito tempo para que a predio de Crystal se consumasse. 
Teramos de desistir, nos entregar, ficar  merc daquela impessoal agncia do governo que servira por tanto tempo como nossos pais substitutos.
A realidade tinha um jeito de me deixar atordoada. Theresa falara sobre velhos, vivos e vivas que se tornavam invisveis. De uma estranha maneira, eu acreditava 
que era exatamente isso o que acontecera e continuava a acontecer conosco. Sem famlia para nos sustentar, ramos na verdade invisveis. Podamos muito bem ter nmeros 
em vez de nomes. Nunca se percebe como  grande o papel que uma famlia desempenha nas relaes costumeiras at que no se tem nenhuma. Ao nosso redor, os outros 
alunos da escola falavam dos pais, irmos e irms, tias, tios e primos. Havia sempre algum que fazia alguma coisa, que se parecia com outro algum, ou dizia alguma 
frase brilhante ou estpida.
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O que mais interessava a meus colegas de escola era o quanto eu conhecia ou me lembrava de meus pais verdadeiros. Eu no sabia absolutamente nada sobre meu pai, 
o que a maioria parecia aceitar ou compreender. Havia diversos alunos filhos de divorciados, e muitos tinham pouco contato com os pais. O que mais os intrigava, 
porm, eram as minhas vagas referncias  mulher que chamava de me.
Depois de viver com ela somente pouco mais de um ano, nada tinha que pudesse mencionar expressamente. Contava apenas com meus sonhos e alguns detalhes que extrara 
dos administradores do orfanato. Descobrira que ela ainda no tinha vinte anos quando eu nascera. No vinha de uma famlia rica e, pelo que pude adivinhar, estava 
sozinha na ocasio. Talvez tivesse sido repudiada por minha causa. No sei por que chegara a uma concluso sobre seu paradeiro, mas certas indicaes me levavam 
a pensar que ela tambm fora para a Califrnia.
No fundo do meu corao, eu torcia e rezava para encontr-la ali. Claro que sabia que o estado era enorme e muito populoso. Ou seja, minhas chances eram mnimas; 
apesar disso, era o meu sonho. No podia contar a Crystal ou a Raven, nem mesmo a Borboleta, embora elas fossem minhas irms. Seria como ficar nua, exposta, tirar 
a armadura. Como a garota mais corajosa que elas conheciam podia ser to fraca e sentimental?
- Qual  o problema? - perguntou-me Raven abruptamente.
Viajvamos h quase duas horas, o rdio ligado, a chuva passando para aguaceiro e voltando a chuvisco. As nuvens no horizonte eram escuras, como marshml-low queimado. 
De vez em quando o vento tangia a chuva para formar lenis de gua que se despejavam sobre a estrada. Tnhamos de caminhar devagar.
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- Por qu? - indaguei, olhando para ela. Raven virou-se um pouco no banco e lanou um olhar para Crystal.
- Voc est chorando. H lgrimas no seu rosto. Levei a mo ao rosto e senti as gotas quentes.
Surpreendeu a mim mais do que a Raven. Apressei-me em enxugar os olhos.
- No sei - murmurei. - Alguma coisa deve ter cado em meus olhos.
- Nos dois?
- Isso mesmo, nos dois.
Falei num tom rspido. Raven virou-se, como se tivesse levado um tapa, e olhou pela janela.
- Devemos nos conceder uma indulgncia esta noite e dormir em camas quentes - sugeri, tentando compensar a rispidez com Raven. - Com direito a televiso e banho 
de chuveiro quente. Vamos nos sentir muito melhor.
- Se fizermos isso, restar pouco dinheiro para a comida e quase nada para o outro dia - comentou Crystal.
- No me importo - declarou Raven. - Deixarei para me preocupar com a comida depois. Posso mendigar.
- Mendigar? - repetiu Crystal. - Voc se rebaixaria a esse ponto?
- Talvez sim, talvez no. - Raven sorriu, jovial. - Deixem tudo comigo.
-  a ltima coisa que devemos fazer - resmungou Crystal, cansada de brincadeiras.
Raven quase deu um salto ao se virar no banco, furiosa.
- O que est querendo dizer com isso? Por que tem de ser sempre a Miss Tragdia e Depresso?
- No estou sendo trgica, mas apenas dizendo
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que mendigar as refeies no  suficiente para nos manter.
A calma de Crystal deixou Raven ainda mais enfurecida.
- E o que ser suficiente, Crystal? Se tem todas as respostas, por que no as divide conosco?
- Vocs duas querem parar com isso? - gritei. - No estamos agindo como as Orfteiras.
- Orfteiras... - resmungou Raven. - Que nome mais idiota!
- Voc achava que era timo - lembrou Borboleta.
- Foi antes de eu crescer.
- E quando ocorreu essa milagrosa maturidade? - perguntou Crystal, sarcstica.
- Ouviu isso, Brooke?
- Pedi para vocs duas pararem! - exclamei, diminuindo a velocidade ainda mais. - Se no pararem, vou encostar e... O que  aquilo?
Raven tornou a se virar e espiou pelo pra-brisa.
-  uma mulher, acenando - disse ela. - Parece histrica.
 direita, pouco antes de uma sada, uma mulher em torno dos quarenta anos balanava os braos, angustiada. No usava capa ou casaco para proteger-se da chuva. Os 
cabelos castanho-claros j estavam encharcados, os fios grudados na testa e orelhas. Parecia to desesperada que seria capaz de pular na frente dos carros, se ningum 
parasse logo. Dois carros passaram, mas no diminuram a velocidade para descobrir o que ela queria.
- Pare o carro - disse Crystal.
Passei para o acostamento e reduzi a velocidade. A mulher veio correndo.
Raven baixou sua janela.
- Graas a Deus que algum parou! - A mulher limpou a chuva do rosto. -  meu marido. Ele se sentia
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tonto e entrou neste atalho. Assim que paramos, tombou sobre o volante. Minhas duas filhas esto com ele mas no h qualquer trfego naquela estrada. Pensei em voltar 
at aqui, acenar para algum e pedir ajuda Mas vocs so as primeiras a pararem, embora eu j esteja aqui h vrios minutos.
- Entre logo e nos mostre onde ele est - disse Crystal, no seu tom de voz de comando, enquanto abria a porta.
A mulher embarcou e segui pelo atalho. No precisamos andar muito depois da curva. A van fora estacionada meio torta no lado direito da estrada, a sinaleira ainda 
piscando. Havia uma menina sentada na grama do acostamento, chorando.
- Levante-se, Denise! - gritou a mulher. A menina se levantou lentamente. - Mandei que ficasse com papai!
- Ele no quer falar - balbuciou a menina. Crystal tambm saltou e avanou para a van.
Havia um homem de quarenta e poucos anos arriado sobre o volante, o rosto virado para ns, os olhos fechados, a boca contorcida. Achei-o meio azulado, principalmente 
nos lbios.
A outra menina, com apenas cinco ou seis anos, estava enroscada no banco.
- George! - gritou a mulher. - Oh, Deus! Crystal verificou o pulso do homem e depois virou-se para mim.
- Brooke, venha at aqui e me ajude a deit-lo.
A mulher recuou quando me adiantei. Abraou a filha Denise. Espantou-me como Crystal podia parecer eficaz e competente, at mesmo para pessoas completamente estranhas.
George era um homem alto, com mais de um metro e oitenta, e pesando no mnimo noventa quilos. Nos-
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esforo era grande. Olhei para Raven, que veio correndo nos ajudar. Juntas, com todo cuidado, conseguidos tir-lo do banco e estend-lo de costas.
Crystal comeou a agir no mesmo instante. At mesmo Raven, Borboleta e eu ficamos surpresas e impressionadas. Eu no sabia que ela era capaz de realizar um ressuscitamento 
cardiopulmonar. Crystal ajoelhou-se ao lado dele, ps a mo direita em sua testa, a esquerda sob o queixo. Observei-o. Era um homem bonito, de cabelos grisalhos 
nas tmporas. Crystal olhou para mim, com ar preocupado, depois prestou ateno na respirao do homem. Sem hesitar, apertou seu nariz e encostou a boca na dele. 
Soprou duas respiraes profundas. O peito do homem subiu.
Borboleta chegou mais perto de Raven, que passou o brao em torno de seus ombros.
- Ele est morto? - balbuciou a mulher. Crystal encostou as pontas dos dedos no pomo-de-ado do homem, desceu-os para o sulco ao lado da traquia. Procurava por 
uma pulsao.
- Ele morreu? Oh, Deus, George!
Crystal tornou a me fitar, parecendo agora mais triste do que nervosa. Percebi em seus olhos, que haviam se tornado reflexos dos meus, de Raven e de Borboleta. Todas 
havamos perdido nossos pais. Nenhuma queria testemunhar aquilo.
- Acho que ele sofreu uma parada cardaca - murmurou Crystal.
Ela abriu a camisa do homem e ps as mos em seu peito, uma por cima da outra.
- Temos de lev-lo para um pronto-socorro o mais depressa possvel.
- No sei guiar essa coisa - murmurou a mulher.
- E no quero tir-lo daqui. - Crystal olhou para mim. - Brooke?
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Olhei para o painel e acenei com a cabea. Depois sentei ao volante e liguei o motor.
Enquanto isso, Crystal comeara a bombear o peito do homem. Contou at quinze e depois soprou mais duas respiraes, antes de bombear outra vez.
A menina mais velha passou a chorar mais forte. Borboleta foi tentar confort-la, enquanto a mulher ia para a filha caula, que parecia em estado de choque. Raven 
foi para junto dela. Ficamos observando Crystal trabalhar.
- No sei para onde ir...
Continuei a guiar at encontrar uma loja de convenincias, onde parei.
- Vou descobrir onde fica o hospital mais prximo. Sa correndo. Havia apenas um cliente na loja, alm do homem baixo, de cabelos grisalhos e bigode escuro, por 
trs do balco.
- Precisamos chegar a um hospital o mais depressa possvel!
- Hospital? Siga por mais trs quilmetros, vire a esquerda, percorra oito quilmetros at chegar ao semforo, depois vire  direita. Comear a ver as placas cerca 
de um quilmetro e meio depois. O que aconteceu?
- Ataque do corao.
Voltei correndo para a van. No era difcil gui-la, mas no tivera tempo de ajustar o banco e meu p mal alcanava o freio. Tentei endireit-lo enquanto dirigia.
- Como ele est? - perguntei.
- Acho que tem pulsao, mas muito fraca - respondeu Crystal. - O hospital fica longe?
- No.
Era mais difcil guiar a van do que a caminhonete. Quase perdi a entrada porque ia muito depressa. Os pneus rangeram. Meu corao disparou. Pensei que amos capotar 
ou um pneu explodiria.
- Desculpem...
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Havia um veculo compacto na minha frente, quase se arrastando. Toquei a buzina, na esperana de que a mulher ao volante chegasse para o lado. Mas ela no reagiu. 
Tive de esperar para arriscar uma ultrapassagem. Assim que achei seguro, desviei a van para o lado e ultrapassei o carro. No tinha a menor idia da potncia da 
van. Descobri que sua acelerao era lenta. Um carro se aproximava em sentido contrrio. Nenhum dos dois tinha para onde se desviar. Murmurei uma orao, mantive 
o p no acelerador e joguei a van para a direita no ltimo segundo. O outro motorista tocou a buzina, furioso.
- Desculpem... - murmurei de novo.
Tenho certeza de que s mais uns poucos minutos transcorreram at alcanarmos o hospital, o que pareceu levar mais tempo por causa da tenso. Segui as placas que 
indicavam EMERGNCIA e parei to perto da porta quanto possvel. Depois saltei e entrei correndo.
Duas enfermeiras conversavam junto a uma mesa.  direita havia um homem sentado, segurando o brao. Dava a impresso de sentir muita dor, mas ningum parecia notar 
ou se importar.
- Trouxe um homem que sofreu um ataque do corao! - gritei.
As enfermeiras pararam de falar. Um atendente saiu de uma sala de exames. Os trs vieram em minha direo.
- Onde?
- L fora, na van! Depressa, por favor! Minha amiga vem aplicando a tcnica de ressuscitamento, mas no sabe se est dando certo!
Outro atendente apareceu. Pegaram uma maca e saram para o veculo. Momentos depois, tornaram a entrar no hospital, empurrando a maca com o homem, todas ns seguindo 
atrs.
- No se preocupe - disse Raven para a mulher. - Ele vai ficar bom agora.
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- Oh, Deus!
As duas filhas permaneciam sob seus braos - a menor ainda atordoada, a mais velha enxugando os olhos injetados.
- Quem pode identific-lo? - perguntou a mais velha das duas enfermeiras, deslocando-se para o outro lado do balco.
- Eu posso - respondeu a mulher. - Ele  meu marido, George Forbas. Sou Caroline Forbas.
A enfermeira cumprimentou-a, sorrindo gentilmente.
- Preciso que a senhora preencha esta ficha o mais completamente possvel - disse ela.
Caroline olhou freneticamente para o aposento onde tinham levado seu esposo. Um jovem mdico chegou apressado e entrou no aposento, seguido por outra enfermeira 
e mais um ajudante.
- Eu cuidarei de Sophie - disse Raven, referindo-se  filha caula. - Venha comigo, Sophie. Vamos sentar ali e dar uma olhada nas revistas.
Ela pegou a mo da menina, que a seguiu at as cadeiras. Borboleta foi atrs.
- V sentar junto com Sophie, Denise - disse Caroline.
Relutante, Denise afastou-se. Crystal e eu permanecemos com Caroline.
- Obrigada, meninas - murmurou ela, agradecida. - Muito obrigada.
- No foi nada - disse Crystal. - No precisa nos agradecer.
Caroline olhou para a enfermeira.
- No consigo pensar direito.
- Ela tem de fazer isso agora? - perguntei  enfermeira.
- Ter de esperar enquanto o mdico lhe examina o marido, que  o que costumamos fazer nessas ocasies -
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respondeu a enfermeira, secamente. Depois aoontou a cadeira ao lado de uma mesa. - Mas pode ievar para l. No precisa se apressar, sra. Forbas.
Caroline sentou-se diante do formulrio. Virei-me para Crystal, que parecia assustada como eu jamais a vira antes.
- Qual  o problema? - perguntei em voz baixa, no querendo chamar ateno.
- Lembro-me de quando meus pais adotivos morreram. Eu estava na casa de uma amiga, estudando para uma prova de matemtica. Algum telefonou. No me lembro quem foi, 
mas a me de minha amiga apareceu na porta do quarto e disse: "Crystal, houve um terrvel acidente. Sabe qual  o telefone do seu tio Stuart em Albany?"
Crystal respirou fundo.
- "Tenho certeza de que est no Rolodex de meu pai", respondi. "Vou procurar." Morvamos na casa ao lado. Lembro-me que sa correndo sem sequer pensar nas conseqncias. 
Nem vagamente me ocorreu que ambos haviam morrido. Era bem jovem na ocasio, e j pensava na morte como uma coisa estranha, reservada somente aos idosos, mas no 
em algo que atingia as pessoas mais prximas.
Balancei a cabea, ouvindo, enquanto observava Raven fazer milagres com Sophie, e Borboleta conversar com Denise, evitando que a menina chorasse. Ocorreu-me que 
estvamos to apavoradas quanto elas. Crystal mal falava sobre seu passado daquele jeito, muito menos com tanto nervosismo. De vez em quando Raven parava de falar 
e olhava para Caroline, seus lbios tremendo. Respirava fundo vrias vezes. Os olhos de Borboleta tambm procuravam os meus a todo momento em busca da mesma segurana.
J perdramos pais demais. Era inconcebvel ficar
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sentada impassvel observando algum se encaminhar para uma espcie de portal do pesar.
- Corri de volta  casa de minha amiga e entreguei o nmero do telefone  sua me - continuou Crystal. - Percebi a maneira estranha como ela me fitava, mas mesmo 
assim no fiz perguntas. Em vez disso, fiquei parada ali, escutando, enquanto ela telefonava para o irmo de meu pai.
A angstia de Crystal era evidente.
- "Stuart", disse ela, "aqui  Vera Raymond, vizinha de Thelma. Estou bem, obrigada. Houve um terrvel acidente, Stuart. Um acidente de carro. Karl e Thelma... Os 
dois morreram. Sinto muito. Isso mesmo. Aconteceu h poucas horas. Um motorista bbado numa pickup. Sinto muito." Tenho tudo gravado na memria, Brooke. Muitas vezes 
revivo a cena, com flash-backs angustiantes. s vezes basta uma campainha de telefone para que todo o episdio me volte.
Fez uma pausa.
- Foi assim que soube que eles haviam morrido. Por um momento, foi como ouvir o relato sobre a vida de outra pessoa. No compreendi direito, Brooke. Prestei ateno 
a cada palavra. Ouvi-a dizer: "Isso mesmo. Ela est aqui. O que querem que eu faa?" Ela escutou, acenou com a cabea, depois virou-se e fitou-me, como se tio Stuart 
dissesse alguma coisa que eu nunca saberia o que era. Como ela sabia que eu era adotada, no podia ser isso. No sei o que ele falou, mas ela olhou para mim e balanou 
a cabea. "Eu compreendo", disse ela. "Mas o que quer que eu faa enquanto isso, Stuart?  mesmo?" Uma pausa. "Est bem. Vou descobrir e cuidarei de tudo. Sinto 
muito."
Crystal baixou os olhos para o cho.
- A mulher desligou. Explicou que meus pais haviam morrido e que meu tio no viria me buscar. Dissera-lhe
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para chamar o juizado de menores. Naquela tarde eles vieram me apanhar. Foi assim que voltei ao sistema. Compareci ao funeral, mas depois nunca mais tornei a ver 
nenhum dos parentes.
- Sinto muito, Crystal. Ela deu de ombros.
- Creio que se pode dizer que tive sorte. Minha vida, por mais difcil que seja imaginar isso, provavelmente seria pior se eu fosse viver com pessoas que no me 
queriam.
Caroline levantou-se e levou os papis para a recepo.
- Por que est demorando tanto? - perguntou ela. A enfermeira limitou-se a pegar os papis e virou-se para registrar as informaes no computador. Caroline olhou 
para ns e fomos ao seu encontro. O mdico finalmente veio da sala de exames da emergncia. A enfermeira da recepo entregou o formulrio preenchido por Caroline. 
Ele deu uma olhada, balanou a cabea e virou-se para Caroline.
-  a sra. Forbas?
- Sou, sim. Como est meu marido? Est vivo?
- Sua situao  estvel agora, sra. Forbas. Vamos lev-lo para a unidade de tratamento cardaco. Vamos esperar que o especialista o examine e nos d um diagnstico. 
Quem fez o ressuscitamento?
- Foi ela - respondeu Caroline, indicando Crystal.
- Fez um excelente trabalho, minha jovem. No tenho a menor dvida de que salvou a vida dele. Deve se orgulhar. Onde foi que aprendeu?
- Na aula de primeiros socorros na escola. O mdico riu do seu tom modesto.
- Voc  a prova dos motivos pelos quais os estudantes devem prestar mais ateno. Diga isso  sua professora.
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Observamos George sair da sala de exames, a mscara de oxignio cobrindo seu rosto. Caroline correu para ele. Virou-se um momento antes de entrarem no elevador.
- Podem ficar mais um pouco com as meninas?
- Claro - respondi.
Ela desapareceu com o marido e o atendente no elevador. Fomos sentar junto com Raven e Borboleta procurando distrair Denise e a pequena Sophie.
A chuva voltou a cair. No a notamos at o vento comear a sopr-la contra as janelas. As meninas, cansadas da provao emocional, acabaram dormindo; Sophie, a menor, 
com a cabea no colo de Raven. Ns nos sentamos exaustas e atordoadas. Borboleta cochilava a intervalos. Raven recostou-se, com os olhos fechados, os dedos na testa. 
S Crystal procurou aproveitar o tempo de uma maneira produtiva, lendo nmeros atrasados da revista Time.
Nenhuma de ns prestou ateno aos dois guardas na recepo, falando em voz baixa com a enfermeira. Quando as portas do elevador abriram e Caroline apareceu, a enfermeira 
acenou com a cabea, e os guardas foram abord-la. Conversaram por um momento e depois vieram at ns.
- Obrigada por esperarem, meninas, e por tomarem conta de Denise e Sophie. A enfermeira l em cima fez a gentileza de ligar para o gabinete do xerife, porque no 
sei guiar a van e temos de ir para um motel. O guarda Donald as levar at seu carro. No sei como posso agradecer. - Ela olhou para Crystal. - Pode me dar seu endereo, 
para que eu lhes mande alguma coisa mais tarde?
- No h necessidade - respondeu Crystal muito depressa. - Como est o sr. Forbas?
- Descansando muito bem. Os mdicos acham
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que ele vai se recuperar. Seu estilo de vida ter de mudar  claro. No pode mais fumar, esse  o comeo.
- Eu disse a papai para deixar de fumar - murmurou Denise. - Aprendemos sobre isso na escola.
- Eu sei, querida. - Caroline acariciou o rosto da filha, afetuosa. - Agora ele vai escut-la.
- Eu a levarei at o motel - anunciou um dos guardas. - Vamos, Dave?
- Meninas, venham comigo - disse o guarda mais alto.
Raven lanou-me um olhar nervoso, mas Crystal nem pestanejou. Tratamos de nos despedir das meninas. Raven e Borboleta abraaram Sophie, que ficou triste por elas 
terem de ir embora. Depois, sem mais comentrios, seguimos o guarda para seu carro.
- Trs de vocs podem ir atrs. - O guarda sorriu. - No fiquem nervosas por sentarem atrs de uma grade, sem maanetas nas portas. Em geral os suspeitos ficam atrs.
Raven arregalou os olhos com ansiedade. Crystal pegou a mo de Borboleta e abriu a porta. Coube a mim sentar na frente com o guarda.
- Ento vocs fizeram uma boa ao - comentou ele, sentando-se ao volante. -  sempre bom testemunhar uma coisa assim. Restaura minha f nos jovens. Na maior parte 
das vezes, eles entram no meu carro por motivos muito piores.
Ele riu, ligou o motor e saiu do estacionamento do hospital.
- Voc  a motorista?
- Isso mesmo.
O guarda fez a volta e foi andando devagar.
- Todas vocs so de Nova York?
Virei-me e olhei para Crystal. Alguma de ns dissera isso? Ela comprimiu os lbios, os olhos se contraindo em suspeita.
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- Somos - respondi, cautelosa.
- Esto bem longe de casa, no ?
- Vamos visitar parentes.
- Ahn...
Ele virou em outra rua e acelerou. No podia ter certeza, porque me sentia nervosa e excitada ao mesmo tempo, mas pareceu-me que ele seguia numa direo diferente 
daquela por onde viramos.
- Quando recebemos o telefonema do hospital, eu patrulhava nas proximidades do lugar em que deixaram seu veculo. Vi a placa. - Ele me lanou outro olhar, fez uma 
volta. -  por isso que sei que so de Nova York.
- Ahn...
Sorri e olhei para Crystal, mas ela no parecia aliviada. Continuou a olhar fixamente para a frente, com uma expresso de intensa expectativa.
O guarda fez mais uma volta, levando-nos por uma rea mais povoada. Logo avistamos lojas e postos de gasolina. Subimos uma ladeira, deixando a comunidade para trs.
- Isto  um atalho? - perguntei. - Tenho certeza de que no viemos por este caminho.
- Sempre que encontramos um veculo abandonado em uma de nossas estradas, o procedimento normal  fazer uma verificao da placa.
Ele lanou outro sorriso em minha direo.
- Essa no! - murmurou Raven, recostando-se e olhando pela janela.
- Voc no  Gordon Tooey, no  mesmo? - perguntou o guarda, depois de um momento.
- No.
Fiz um esforo para engolir um caroo que se formara em minha garganta.
- E aposto que ningum l atrs  Gordon, hein? - acrescentou ele, olhando as trs pelo espelho retrovisor.
- Claro que no - disse Crystal.
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Avistei a delegacia logo  frente. O guarda olhou para mim.
- Vamos parar aqui porque algumas pessoas tm perguntas para fazer a vocs. Aposto que sabem quais so essas perguntas, no ?
- Sim, senhor - murmurei, baixando os olhos. Ele riu.
- No importa o que acontea, meninas, reitero o que disse antes.  um prazer ver jovens praticarem uma boa ao. Claro que isso torna tudo mais desconcertan-te, 
mas sem dvida  uma boa coisa.
O guarda parou no estacionamento da delegacia.
- Estamos presas? - perguntei, depois que ele desligou o motor.
- Em geral investigamos, fazemos perguntas, procuramos as provas e depois prendemos as pessoas. Tudo o que tenho neste momento so quatro pessoas de aparncia muito 
suspeita. E agora vamos ver se esclarecemos tudo e encontramos algum sentido na confuso.
Ele abriu a porta para Crystal, Borboleta e Raven. Ns quatro o seguimos para a frente do prdio.
- Est tudo bem - murmurou Crystal. - Aconteceu apenas o que conversamos.
Raven fitou-a como se ela tivesse enlouquecido. Depois me fitou, como se eu a tivesse trado... trado a todas.
Fomos levadas para uma sala de reunies. Havia uma parede de vidro no outro lado. Eu j assistira a muitos filmes para saber que pessoas podiam nos observar do outro 
lado sem serem vistas. Uma recepcionista entrou primeiro e nos ofereceu refrigerantes. Crystal pediu ch e ns outras escolhemos Sprites.
- O que vai acontecer conosco agora? - perguntou Borboleta, num fio de voz, enquanto tomava seu refrigerante.
- Podemos ir para a cadeia - respondeu Raven, com o medo estampado em sua voz.
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Borboleta olhou para Crystal e depois para mim
- No vamos tirar concluses precipitadas - disse Crystal. - Devemos descobrir primeiro o que eles tm a dizer e perguntar.
A porta foi aberta nesse instante, fazendo entrar uma mulher com pouco mais de quarenta anos, usando um uniforme de policial.
Ela no usava revlver, mas trazia um par de algemas preso no cinto. Carregava uma prancheta e tinha uma rgida postura militar.
- Sou a tenente Mathews.
A mulher apontou para o crach por cima do seio esquerdo. Sentou na nossa frente e estudou cada rosto por um momento, antes de baixar os olhos para a prancheta.
- Quem  Brooke Okun?
- Sou eu.
Ela me fitou como se quisesse memorizar o meu rosto.
- Janet Taylor?
- Eu - respondeu Borboleta.
Outro olhar demorado, antes que ela tornasse a consultar o que tinha na prancheta.
- Raven Flores?
- Prazer em conhec-la - disse Raven.
Os olhos da tenente Mathews se contraram, antes de se desviarem para Crystal.
- E voc  Crystal Perry?
- Isso mesmo.
- Muito bem, meninas. - A tenente Mathews largou a prancheta na mesa. - J soube que acabaram de ajudar uma famlia, que fizeram uma coisa maravilhosa. Assim, sei 
que no estou lidando com delinqentes. Mas a menos que eu oua alguma explicao em contrrio, todas so suspeitas de roubo de carro. E mais: levaram
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O carro atravs de fronteiras estaduais. Alm de ningum ter carteira de motorista. Algum desses fatos  inverdico?
- No roubamos o carro - disse Raven. - Apenas o tomamos emprestado por algum tempo.
A tenente Mathews no sorriu. Examinou algumas pginas e dobrou-as em seguida.
- Todas esto sob a tutela legal do Estado. Chamei um representante do servio de proteo  infncia, que est a caminho.
- Ento por que no esperamos at ele chegar antes de continuarmos a falar sobre nossa situao? - indagou Crystal.
Ela tirou os culos e limpou-os. Sua frieza no nos valeu qualquer simpatia, nem o sorriso presunoso de Raven. Nem sequer o terror absoluto de Borboleta nos valeu 
alguma compaixo. Baixei os olhos, o corao batendo forte.
- A melhor coisa que vocs podem fazer por si mesmas, agora,  contar a verdade - declarou a tenente Mathews. - Ningum quer tornar a situao pior do que j est. 
Foi voc quem guiou durante todo o tempo?
- Todas ns guiamos - interveio Raven, protetora. - At mesmo Borboleta. Viajava sentada numa almofada para poder ver por cima do volante.
- Posso lhe assegurar, srta. Flores, que daqui a pouco no achar nada to engraado.
Houve uma batida na porta. Ela olhou para ns, em vez de responder. A batida soou de novo. Finalmente ela se levantou e foi abrir a porta. Um homem alto e magro, 
que parecia mais apavorado do que ns, fitou-nos em silncio. Usava um terno marrom-escuro e gravata. O rosto era estreito, com um nariz que podia ser uma pista 
de esqui. A boca se contraa para baixo nos cantos, emoldurando o queixo, que era arredondado, os ossos delineados contra a pele clara. Tinha olhos
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azul-claros e deslocou-os de um rosto para outro, as linhas da boca aprofundando-se ainda mais.
- Muito bem, sr. Glashalter, elas so suas, por enquanto. Eu diria que precisam muito de uma orientao
A tenente Mathews fitou-nos e depois se retirou. Ele entrou na sala, com sua pasta, e sentou-se na cadeira desocupada pela policial.
- Ol, meninas. Sou Clarence Glashalter, o representante do servio de proteo  infncia. Tenho algumas informaes sobre vocs, mas preciso que respondam s minhas 
perguntas. Sei que roubaram o carro do homem que tomava conta de vocs. Correto? - Ele no esperou por nossa resposta. - E seguiram para oeste durante dias. Para 
onde pretendiam ir?
- Tentvamos alcanar a Califrnia - respondi. Ele acenou com a cabea, como se fosse um propsito legtimo.
- Por qu?
-Para escapar dos lares de adoo para sempre - declarou Raven.
- Roubando o carro do homem que tomava conta de vocs?
- Ele no  exatamente o Mister Imaculado - insistiu Raven.
- Bom... - Clarence Glashalter consultou suas anotaes. - Mas parece que ele  o Mister Perdo. Acaba de nos dizer que est disposto a retirar todas as acusaes 
contra vocs se voltarem para casa. Vem de avio at aqui para buscar seu carro.
- Voltar? - murmurou Raven. - Prefiro ir para a cadeia.
Glashalter fitou-nos e percebeu o mesmo desejo em cada uma. Balanou a cabea.
- Ele alega que a esposa gosta muito de vocs e ficou transtornada, at doente. No me parecem monstros. - Uma pausa e acrescentou, sorrindo: - Alm do
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mais, no creio que queiram ir para a cadeia por roubarem um carro.
- Queremos, sim - insistiu Raven. - Vamos sobreviver. Enquanto permanecermos juntas, poderemos sobreviver. Somos irms.
- Eu compreendo. - Clarence Glashalter tornou a sacudir a cabea. - Mas vocs quatro no iriam para o mesmo lugar.
Borboleta soltou um gemido, depois olhou para mim e para Raven em desespero.
- Isso no  engraado, meninas. No  um jogo.
- O que devemos fazer? - perguntou Crystal.
- Devem pedir desculpas, voltar e se comportar. Talvez eu consiga uma suspenso da sentena. Foi um ponto favorvel para vocs terem ajudado aquela famlia.
- No queremos voltar! - exclamou Raven. - No podemos voltar! Ele  um monstro!
- Se vocs tm queixas legtimas contra seus pais de adoo deveriam comunicar aos conselheiros em Nova York, e no roubar um carro para atravessar o pas. Tm que 
seguir os procedimentos legais. Tenho certeza de que os conhecem. Esto todas no sistema h algum tempo e...
- Ah, o sistema... - resmungou Raven. - Fugirei de novo.
Os olhos do sr. Glashalter se contraram.
- S iria se meter em mais encrenca... e pode ter certeza de que no encontrar outra oportunidade como esta, se no quiser cooperar.
- Vamos cooperar - prometeu Crystal no mesmo instante. - Obrigada por nos ajudar.
O sr. Glashalter retomou seu sorriso artificial e olhou para Crystal.
- Uma sbia deciso, minha cara. Assim poderei fazer tudo o que for possvel para ajud-las.
- O que far agora? - indagou Crystal.
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- Por enquanto, quero que esperem quietas, enquanto  Explicarei a situao ao xerife e conversarei com o assistente do promotor distrital. Talvez demore um pouco, 
mas acho que posso dar um jeito, desde que vocs continuem a cooperar.
No havia qualquer ameaa velada em sua voz. Ele se levantou e acrescentou, antes de sair:
- Voltarei daqui a pouco.
Assim que ele saiu, Raven virou-se para Crystal.
- Por que no contou a ele o que encontramos na caminhonete? Por que no explicou o motivo de no querermos voltar com Gordon Tooey?
- Porque no acreditariam em ns, Raven. Pense no que pode acontecer depois... Gordon muda de idia, insiste nas acusaes e nos separam. Quer que isso acontea?
- Claro que no - respondeu Raven. - Mas...
- No h nenhum "mas". Apenas devemos ser pacientes e prudentes, esperar por outra oportunidade.
- Mas sabe o que Gordon vai querer... e tambm quando descobrir o que fizemos...
- O que ele vai fazer? Denunciar-nos por jogar fora sua cocana?
- Detesto pensar no que ele vai fazer - murmurou Raven, olhando para mim em busca de ajuda.
- No momento, Raven - declarei -, no temos outra opo.
-  fcil dizer isso agora! - gritou Raven. - Mas lembrem-se de que daqui a pouco Gordon Tooey estar passando por aquela porta!
Ningum disse nada.
A trovoada de nossos coraes enchia os ouvidos. Era suficiente.
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14 - Os maus fazem isso

Cada vez que a porta se abria, prendamos a respirao na expectativa de deparar com Gordon. Depois que o sr. Glashalter se retirou, no entanto, a primeira pessoa 
a entrar foi o guarda que nos trouxera do hospital. Trazia sacos com hambrgueres e batatas fritas, alm de refrigerantes. Os aromas deliciosos deixaram meu estmago 
agitado.
- Pensei que podiam estar com fome. Parece que passaro algum tempo aqui. - Ele ps os sacos em cima da mesa e recuou, sorrindo. - Vamos, comam enquanto est quente. 
Com os cumprimentos do condado.
Olhei para Crystal. Ela acenou com a cabea. Fizemos a distribuio dos hambrgueres e batatas fritas. O guarda ficou parado ali, observando-nos. Percebi que as 
engrenagens comeavam a se movimentar na cabea de Raven. Olhei para Crystal, que parecia to ansiosa quanto eu.
- Vamos supor que voc encontrasse drogas no carro de algum e no contasse  polcia - disse Raven. - Isso  crime?
Acho que o pedao de hambrguer que eu acabara de engolir transformou-se em pedra na minha garganta.
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-  sempre um crime reter provas ou no comuni car um crime que sabe estar sendo cometido - respondeu ele. - Por qu?
- Eu apenas queria saber.
- H drogas naquela caminhonete?
O guarda teria de ser mais estpido do que uma anta para no fazer essa pergunta, pensei.
- No - murmurou Raven.
- Mas havia? - Ele esperou um pouco. - Se havia, talvez ainda se encontrem resduos.
- E se no houver resduos? - indagou Crystal. - No pode provar que havia alguma droga, no  mesmo?
- No, no se pode provar, na ausncia de provas materiais ou de testemunhas.
Crystal lanou um olhar furioso para Raven.
- Falei de outro carro. De um namorado meu, l em Nova York.
- Nesse caso,  melhor larg-lo como se fosse uma batata quente. Se ele for apanhado com a droga e voc estiver em sua companhia, voc tambm vai se dar mal. - O 
guarda olhou para Borboleta. - Aposto que voc gostaria de tomar uma casquinha de sorvete. Qual  o seu predileto?
- Gosto de morango.
- Algum mais vai querer? Melhor me dizer logo enquanto ainda  tempo.
- Quero uma casquinha de baunilha - pediu Raven.
Crystal e eu recusamos. Ele saiu.
- Foi uma estupidez o que voc fez, Raven. Pode imaginar o que teria acontecido se desmontassem a caminhonete, com Gordon observando, e nada encontrassem? Gordon 
entenderia que sua cocana desaparecera e ficaria ainda mais furioso. Tenho certeza de que, nesse caso, ele insistiria nas acusaes contra ns.
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- Apenas queria saber se no havia outra maneira de escapar - protestou Raven. - Sabe que no quero fazer nada que possa nos separar.
- Estou com medo... - balbuciou Borboleta, os lbios tremendo. - Nunca fui presa antes.
- E no est presa agora. - Crystal olhou para Raven. - Ningum mais vai fazer ou dizer qualquer coisa.
Ficamos em silncio por algum tempo.
- Tambm estou com medo - admitiu Raven. - Sinto muito, mas estou.
- Tudo vai acabar bem - assegurei. - No se preocupem.
- Muito bem, no vou me preocupar. Voc chamar o supermecnico e ele vir voando em seu... Como  mesmo que ele chamou o carro? Betty Lou?
Fitei-a nos olhos, irritada, lgrimas de raiva ardendo contra as plpebras. Raven baixou os olhos e cruzou os braos.
O guarda voltou com os sorvetes e disse que acabara de receber um aviso de que Gordon estaria ali dentro de uma hora. Tornou a se retirar em seguida.
- Como ele pode chegar aqui to depressa? - indagou Raven, olhando para Crystal.
- Ele deve ter voado de algum lugar prximo. - Ela fez uma pausa. - O carto de crdito.
Raven virou a cabea para mim, num movimento brusco.
- Isso mesmo. Ele vem nos seguindo pelo carto de crdito.
- Foi uma boa idia no incio, Raven - argumentei, na defensiva. - Todas achamos que era. E que diferena faz agora se ele vai chegar dentro de uma hora ou quatro? 
Ele est vindo. No h nada que possamos fazer para evitar isso.
- Brooke tem razo, Raven - interveio Crystal. - Vamos parar de brigar, por favor.
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- No quero voltar com ele - murmurou Borboleta, olhando de Raven para mim. - No quero, Crystal! No quero.
Ela comeou a sacudir a cabea com tanta fora que pensei que ia partir o pescoo.
- Oh, no! - exclamou Raven. - Se ela entrar num daqueles estados catatnicos agora...
- Vamos nos juntar! - disse Crystal.
Ela era como uma fogueira fumegante em que se jogasse um balde de gua fria. Levantamos e rodeamos Borboleta. Seus olhos j comeavam a revirar. Passamos os braos 
ao redor e baixamos a cabea para a dela.
- Somos irms - entoou Crystal. - Vai dar tudo certo. Sempre estaremos bem enquanto permanecermos juntas. Somos fortes.
- Somos irms - murmuramos Raven e eu. - Vamos ficar bem.
Borboleta apertou nossas mos e ficamos unidas, como se pensssemos que o cho sumiria de baixo dos nossos ps.
- O que esto fazendo? - Era o sr. Glashalter. No o ouvramos voltar. Interrompemos o cntico e nos separamos. - O que  isso? Alguma espcie de feitiaria?
Voltamos aos nossos lugares. Borboleta parecia muito melhor. A cor retornara a seu rosto, ela j no respirava com tanta dificuldade.
- No  nada - respondeu Crystal. - Apenas confortvamos umas s outras. Costumamos fazer isso.
Ele nos fitou em silncio por um longo momento, depois sentou na frente de Raven.
- J acertei todos os detalhes. As autoridades esto de acordo. Sero entregues a seu pai de adoo, que mais uma vez assumir a responsabilidade por vocs. As questes 
de guiar sem habilitao e conduzir um carro roubado atravs das fronteiras estaduais sero arquivadas,
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mas os detalhes sero transmitidos  agncia de vocs em Nova York. Tm muita sorte por escaparem com tanta facilidade.
- Acho que tiramos a sorte grande na loteria - murmurou Raven, bastante alto para que todos ouvissem.
-  melhor comear a apreciar os favores que as pessoas lhe prestam, mocinha - disse Glashalter, rspido. - No vai conseguir nada nesse mundo s porque est aqui.
Sua boca se contorceu toda, como se o rosto fosse feito de cera. Os ombros de Raven se empinaram, enquanto ela se inclinava para a frente.
- Raven! - advertiu Crystal.
Ela sabia que Raven estava prestes a explodir, e no havia como saber o que sairia de sua boca desta vez. Raven olhou para Crystal, recuou, passou os braos em torno 
de seu corpo, mordeu o lbio inferior.
O sr. Glashalter deu por terminado o trabalho que fazia e saiu para esperar Gordon. Pouco depois, a tenente Mathews veio nos chamar.
- Seu pai de adoo chegou, meninas - anunciou ela. - Vamos embora.
Crystal se apressou em pegar a mo de Borboleta. Levantamos e seguimos a tenente Mathews. Gordon estava encostado na mesa de controle, com um sorriso enorme. Usava 
um casaco marrom-claro e um macaco de brim. Parecia cansado, os cabelos caindo sobre a testa, a barba por fazer, olheiras escuras. Imaginei-o guiando dia e noite 
numa perseguio implacvel.
- A esto elas, as minhas meninas! No sabem como Louise est preocupada com vocs. Eu deveria estar muito zangado. - Virou-se para o controlador e balanou a cabea. 
- E estaria, se no ficasse me lembrando de todas as bobagens que fiz quando tinha a idade delas.
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O despachante riu tambm. Gordon olhou para tenente Mathews, que o fitava com desconfiana, numa repulsa evidente.
-  isso que me torna um bom pai de adoo. Compreendo os adolescentes. - Ele riu de novo, antes de perguntar ao despachante: - Preciso fazer mais alguma coisa?
- No. J assinou tudo, sr. Tooey. Pode lev-las. So todas suas.
- Isso mesmo, so todas minhas. O que  uma sorte. Vamos embora, meninas. Temos uma longa viagem de volta para casa e muitas explicaes a dar no caminho.
Ele se adiantou, e nos encaminhamos para a porta. Borboleta tinha a cabea baixa e apertava a mo de Crystal com tanta fora, que pude ver seus dedos ficarem brancos.
Lancei um olhar para a tenente Mathews. Por um momento, pensei que ela falaria ou perguntaria alguma coisa, impedindo-nos de partir. Mas ela hesitou, e Gordon se 
interps entre ns.
- Vamos logo, Brooke - disse ele, os olhos frios. - Conhece o caminho.
Alcancei as outras e deixamos a delegacia. A caminhonete de Gordon fora estacionada bem na frente.
- Vocs trs, atrs - ordenou ele a Raven, Crystal e Borboleta. - Voc vai na frente comigo, Brooke.
Entramos, e Gordon se apressou em ligar o motor e dar a partida. No disse nada at estarmos bem longe, na estrada.
- Acho que vocs se divertiram muito, at demais. - Ele olhou para mim. - Sei que foi voc a motorista, Brooke. Certo?
Em vez de responder, virei o rosto e olhei pela janela.
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- Todas poderiam ficar na cadeia. Prestei um grande favor a vocs, e agora quero um favor em troca.
Gordon cutucou meu ombro com o indicador da mo direita, comprido e grosso. Estremeci. Ele olhou para as outras.
- Fizeram at um mapa falso e me mandaram pela pista errada. Muita esperteza, meninas. Posso ver que tenho gnios em minhas mos.
Ele guiou em silncio por algum tempo, antes de acender um cigarro e recostar-se.
- Muito bem, meninas, j estamos bem longe da delegacia. Tive de ir  garagem da polcia para pegar minha caminhonete. Assinei os papis e sa de l. Parei no meio 
do caminho, a fim de procurar uma coisa que tinha deixado nela. E adivinhem o que aconteceu? - Gordon olhou para mim e sorriu. - Vamos, Brooke, d um palpite.
- No est me assustando, Gordon - declarei, imprimindo  minha expresso todo o desafio de que era capaz.
- No estou assustando voc? Pois muito bem! Ele bateu no painel com a mo, usando tanta fora que pensei que o deixaria rachado. Em seguida bateu com o punho, no 
apenas uma vez, mas trs vezes, em rpida sucesso. O carro todo tremeu. Alguma coisa no porta-luvas chocalhou. Quase esperei que as janelas se espatifassem. Era 
uma demonstrao impressionante de violncia fsica. Todas gritaram, inclusive eu, s que meu grito foi interior. Meu corao batia forte, a garganta parecia entalada 
com um bloco de carvo me arranhando. Borboleta desatou a chorar, enquanto Raven, a brava e desafiadora Raven, baixava a cabea. S Crystal parecia ter recuperado 
o controle no momento em que Gordon parou.
Ele tornou a se recostar, na maior calma, parecendo
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to relaxado que me levou a pensar que a cena talvez tivesse ocorrido apenas em minha imaginao. Gordon era um louco, pensei, o que o tornava ainda mais perigoso.
- Quer que eu a assuste? - indagou ele. -  isso o que quer, Brooke?
- No, Gordon.
- Ainda bem. Porque se tiver de assust-la, vou ficar ainda mais furioso do que estou agora... e no sei como poderia me tornar mais furioso sem rasgar voc em pedacinhos.
A voz saiu controlada, atravs dos dentes cerrados.
- O que voc quer de ns? - perguntou Crystal, em seu comportamento sereno.
- O que eu quero? Quero o que  meu, Crystal. Quero o que vocs encontraram debaixo desse banco. Onde est?
- No encontramos nada debaixo do banco! - gritou Raven.
Gordon apontou um dedo para ela atravs do espelho retrovisor.
- No me trate como um idiota, Raven, ou comearei por voc. Mas talvez prefiram... - Ele fez uma pausa, com um sorriso frio. - ...que eu pare o carro, saia com 
a nanica e pergunte a ela. Sei que ela vai me contar tudo. No  mesmo, nanica?
O rosto de Borboleta ficou vermelho como uma ma. Crystal passou o brao por seus ombros e disse:
- Procurvamos moedas, e a princpio nem sabiamos o que era.
- Moedas? - Gordon sorriu e sacudiu a cabea. "" Muito bem, aceito isso. E depois?
- Depois que sabemos o que era, ficamos to apavoradas que paramos na beira da estrada e o enterramos.
- Enterraram?
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- No queramos que alguma criana o encontrasse e no queramos ser apanhadas com aquilo no carro.
Gordon ficou pensativo por um momento, depois diminuiu a velocidade, foi para o acostamento e parou. Depois de uma tragada no cigarro, virou-se para ns.
- Onde enterraram? Ou vo me dizer que esqueceram?
- Claro que lembro onde foi - declarou Crystal, a voz firme, sem piscar.
Olhei para ela e alteei as sobrancelhas. Como ela podia dizer isso? O que aconteceria se levssemos Gordon ao lugar verdadeiro e ele descobrisse que esvaziramos 
o saco?
- Pois ento me leve at l.
- No poderei encontrar no escuro.
A noite caa depressa agora. A camada de nuvens impedia que o luar iluminasse a estrada. Gordon fitou-a nos olhos, mas Crystal nem estremeceu. A velha Crystal, pensei; 
quando Gordon se metia em jogos mentais com ela, no tinha como ganhar. Ele recostou-se por um momento, pensando.
- Muito bem. Vamos parar no primeiro motel para passar a noite. Amanh encontraremos o que  meu, e depois... J sei o que faremos, meninas. Deixarei que fujam de 
novo, s que desta vez no comunicarei s autoridades. O que acha disso, Raven? No se sente feliz?
- Me sinto, sim - respondeu ela, os olhos faiscan-do de angstia e raiva.
- Nada mais justo - acrescentou Gordon. - Eu consigo o que quero, vocs conseguem o que querem.
- E Louise? - indaguei. - Pensei que tivesse ficado com o corao partido quando fomos embora.
Ele me lanou um olhar irritado.
- Ela vai superar. Sempre supera.
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Gordon deixou o acostamento.
- Sei que vocs no gostam. No tem problema. Nunca pedi para ser um pai de adoo afetuoso. A idia foi de Louise. Nunca foi fcil dirigir aquele lugar quando era 
uma penso. Os pais de Louise me tratavam como um empregado, nunca como um genro. Quando sa da marinha sabia fazer uma poro de coisas. Tinha o meu valor. No 
foi por culpa minha que o lugar entrou em declnio. Os clientes deixaram de vir, no havia mais dinheiro. Foi ento que Louise teve a idia do lar de adoo. Aceitei, 
 verdade, mas ter vocs por l durante todo o tempo no era nada agradvel. No peo desculpas por aproveitar uma oportunidade. Sempre foi esse o meu lema, meninas, 
aproveitem as oportunidades.
Ele soltou uma risada, lanou um olhar para mim e para Raven.
- Vocs tm muita coragem, devo admitir. Acho que nos compreendemos agora. Vamos nos dar muito bem. Ali est. - Gordon indicou a placa luminosa que anunciava um 
motel. - Vamos descansar, e amanh nos separaremos como amigos. Combinado?
Nenhuma de ns disse nada. Ele pegou a sada para o motel. Olhei para Crystal.
E agora?, tive vontade de perguntar. Mas teria de esperar at mais tarde. Gordon alugou dois quartos. Mas quando paramos diante das portas, ele disse:
- Sei como vocs so, meninas. Por isso, faremos um trato: uma de vocs passar a noite no meu quarto.
- O qu?! - gritou Raven, dominada pelo terror. - Ficar num quarto com voc?
- No me entendam errado. S quero que uma de vocs fique onde eu possa v-la. Assim saberei que as outras no fugiro. So muito unidas, no  mesmo? - Gordon olhou 
para as trs, depois para mim. - Quem vai ser?
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Crystal parecia absolutamente apavorada, ainda mais do que Borboleta. Tive medo por todas ns, medo do que ele poderia nos obrigar a fazer.
- Talvez seja melhor eu ficar com a nanica - acrescentou Gordon.
Estive a ponto de poder ouvir o grito aterrorizado de Borboleta. Apressei-me em declarar:
- Eu ficarei com voc. Ele sorriu.
- timo. Vamos ter uma boa noite de descanso, hein, meninas? Temos muito o que fazer amanh... muito mesmo.
Gordon abriu um quarto para Raven, Crystal e Borboleta, o outro para ns dois.
- Posso ficar um pouco com elas? - perguntei.
- No, no pode. No quero me preocupar com isso. Trate de entrar e v para a cama. As outras tambm vo deitar-se agora... e no tentem me enganar, entendido? Vamos 
logo!
Todas estremeceram. Raven pegou minha mo.
- Posso trocar de lugar com voc, Brooke. Sou capaz de control-lo melhor.
- No se preocupe, Raven. Ficarei bem. Mas obrigada. Cuide de Borboleta.
Entrei no quarto. Gordon pegou alguma coisa na traseira da caminhonete e me seguiu.
- Use o banheiro primeiro - ordenou ele.
Fui para o banheiro. Quando sa, ele tinha a televiso ligada e estava estendido numa das camas. Tomava usque sem parar de uma garrafa pequena.
- No trouxe sua camisola? - perguntou ele, quando puxei as cobertas da outra cama.
- No durmo de camisola.
Gordon sorriu, os olhos fixos em mim de uma maneira que me deixava bastante nervosa. Fiz um esforo
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para no deixar transparecer. Com Gordon, era sempre melhor parecer corajosa e destemida. Era o tipo de homem que dava o bote nas fraquezas e se aproveitava da bondade 
e inocncia.
- De quem foi a idia dessa fuga? - indagou ele - Foi Crystal quem armou o plano?
- No. A idia foi minha.
- E para onde pensou que poderiam ir? Quem poderia estar esperando por vocs de braos abertos hein? Quem?
Virei-me para fit-lo.
- No h ningum nos esperando, Gordon. Apenas queramos escapar de voc e de Louise, de tudo que havia na Lakewood. Queixa-se de que no tem sido um piquenique 
para voc. Tambm no tem sido para ns. Sabemos que voc e Louise faro tudo para evitar que algum nos adote.  um beco sem sada para ns. Por isso decidimos 
que era melhor ir embora.
- E roubaram meu carro! - O rosto dele se tornou ainda mais feio do que j era. - Por que o meu carro?
Ele bateu no peito com tanta fora que ouvi o barulho. Por um momento, senti que era em mim que batia. Gordon  uma bomba-relgio, pensei.
- Tenho pessoas dependendo de mim em Nova York, pessoas que ficaram furiosas comigo por causa do que vocs fizeram. Por que no pegaram um nibus? Pode ter certeza 
de que ningum se importaria se fizessem isso.
Senti um calafrio. Se dissesse a coisa errada, ou se fizesse a coisa errada, no havia como prever como seria sua reao. De qualquer forma, pensei, Gordon tinha 
razo. Fora um erro levar seu carro. Ele no se importaria se no fosse por isso, e poderamos ter chegado  Califrnia. Por outro lado, no entanto, seria muito 
mais fcil nos apanhar num transporte pblico.
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- Crystal diz que vocs o enterraram. Ela est dizendo a verdade?
- Est.
-  melhor eu descobrir que isso  verdade amanh, Brooke, ou vai haver o diabo. Se mentiram, vo se arrepender mais do que se tivessem vivido em Lake-wood para 
sempre, muito mais do que se fossem para a cadeia. No tenha a menor dvida quanto a isso. Entendido? Hein? Hein?
- Entendido.
Meu corao disparou outra vez. Desejei poder conversar com Crystal, descobrir se ela tinha algum plano para o dia seguinte. At que ponto ela pensava que poderia 
lev-lo? E o que aconteceria quando finalmente parssemos?
Ouvi-o levantar-se e se postar ao lado da minha cama. Abri os olhos. Gordon me contemplava da maneira mais estranha. Era como se tentasse decidir alguma coisa, sendo 
atrado para direes opostas.
- J esteve com um homem alguma vez? Fechei os olhos.
- Acho que a resposta  no. Ainda  virgem. Aposto que pensa nisso todas as noites, hein? Aposto que fica acordada em sua cama, pensando em como deve ser. Talvez 
at imagine que faz, hein? Hein?
- Deixe-me em paz, Gordon. Vamos fazer o que voc quer amanh. Portanto, deixe-me em paz.
Sua voz era mais suave agora, mas tambm mais sinistra. Comeava a me assustar terrivelmente.
- Voc menstrua como todas as outras garotas, no ? J pensou alguma vez em ter filhos?
As lgrimas eram quentes, pesadas sob as minhas Plpebras. Mantive-as fechadas, fazendo um esforo enorme para no soluar.
- Eu poderia lhe ensinar... mostrar como  que se
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faz, melhor do que qualquer adolescente seria capaz Num instante. - Ele estalou os dedos. -  diferente com um homem de verdade. A experincia  importante em coisas 
desse tipo.
No me mexi. No abri os olhos, mas podia senti-lo se aproximar. Desejei poder me transformar numa bola e rolar para longe. Quando seus dedos encostaram em meus 
cabelos, sentei na cama abruptamente, envolvi-me com o cobertor, comprimi os joelhos contra o peito.
- Pare com isso! - gritei.
Ele continuou esttico, a boca entreaberta, os olhos arregalados.
- Se me tocar de novo, gritarei to alto que vai atrair o gerente ou pessoas dos outros quartos. Juro que vou. A polcia ser chamada e no lhe mostraremos coisa 
alguma amanh.
Gordon ainda hesitou por um instante, abrindo e fechando os olhos.
- Fique calma, menina. No estou to desesperado assim. Mas acabou de desistir da melhor coisa que poderia acontecer em sua vida.
- No  verdade! Tenho um namorado, e um dia casarei com ele!
Ele riu. A raiva tomou o lugar do medo, envolveu-me por completo, trazendo a sensao de que me encontrava banhada em sangue. Se ele tentasse outra vez me pegar, 
jurei, arrancaria seus olhos. Gordon percebeu algo em meu rosto e recuou um pouco.
- Ahn... - Ele estremeceu, tomou outro trago da garrafa de usque, olhou para o banheiro. - Volto num instante. No pense em ir a qualquer lugar.
Gordon me apontou seu dedo comprido como se fosse uma faca, antes de se afastar. O calor se desvaneceu do meu rosto e tornei a relaxar. Sabia que no dormiria naquela 
noite. Passaria o tempo todo acordada,
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com medo de que ele tentasse alguma coisa. Crystal, Crystal, o que vamos fazer? Deveramos ter corrido o risco com a polcia. Como podemos proteger Borboleta, se 
nem a ns mesmas somos capazes de proteger?
Ele tropeou, quando saiu do banheiro, e resmungou um palavro. No olhei em sua direo. Passou por minha cama e continuei de costas para ele, mas prendi a respirao. 
A televiso continuava ligada, o claro refletido na parede por cima de mim.
Subitamente, Gordon me agarrou pelo brao direito. Comecei a gritar, mas ele tapou minha boca com a outra mo. Aproximou sua boca malcheirosa da minha. Meu estmago 
ficou embrulhado. Quase vomitei o hambrguer que comera na delegacia.
- No vou tocar em voc, Brooke. Mas tambm no vou correr nenhum risco. Quero dormir um pouco esta noite e sei como vocs so traioeiras. No grite, Brooke, ou 
acertarei a sua cara com este punho para valer.
Ele suspendeu a mo enorme, enfatizando a ameaa. Tirou a outra mo da minha boca. Prendi a respirao. Senti-o torcer meu brao e depois vi quando passou uma pequena 
corda em torno do meu pulso.
- No vai conseguir escapar de mim, Brooke. - Enquanto dava o n, ele se gabou: - Isto aqui  um n de marinheiro, um oito.
Depois de me prender, Gordon passou a outra extremidade da corda pelo prprio pulso e voltou para sua cama. Havia margem suficiente para eu me virar, se quisesse.
- E se eu precisar ir ao banheiro?
- J foi. Agora ter de esperar at de manh. E cale a boca, pois quero dormir.
Gordon tomou outro gole prolongado de usque, quase esvaziando a garrafa, depois recostou-se e fechou
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os olhos. Olhei para o n. Estava to apertado que seria pior do que uma algema, pensei. Frustrada, continuei deitada, os olhos abertos. Ele no desligara a televiso. 
Os programas foram se sucedendo, at comear um de entrevistas, j de madrugada. Quando tornei a olhar para Gordon, constatei que ele tinha os olhos fechados, com 
o brao pendendo pelo lado da cama.
Soltou um gemido no sono e virou-se um pouco antes de comear a roncar. Pensei nas meninas. Crystal e Raven teriam entoado o nosso cntico com Borboleta, no quarto 
ao lado? Continuavam acordadas, pensando, apavoradas, no que poderia ocorrer no dia seguinte? Que plano Crystal teria bolado?
Tornei a olhar para Gordon e decidi que precisava tentar alguma coisa. Devagar, deslocando-me quase que apenas um centmetro de cada vez, sa da cama e fiquei de 
quatro no cho. Aproximei-me da cama de Gordon. Examinei a maneira como ele prendera a corda em seu prprio pulso. Depois, comecei a desat-la, to lentamente que 
tive a impresso de levar horas s para desenrolar as primeiras voltas. Ele soltou um grunhido e virou-se para o outro lado. Prendi a respirao e esperei. Gordon 
no acordou, mas agora eu precisava ficar de p e me inclinar por cima da cama para alcanar seu brao. A qualquer momento, pensei, seus olhos se abririam e ele 
faria alguma coisa terrvel comigo.
Finalmente soltei a corda do pulso de Gordon. Puxei-a e enrolei-a em torno do meu brao. No havia tempo agora para tentar tir-la de meu prprio pulso. Atravessei 
o quarto na ponta dos ps at seu casaco, para pegar as chaves da caminhonete. Gordon virou-se de novo, resmungou palavras ininteligveis, o brao pendeu pelo lado 
da cama, na mesma posio anterior. Esperei e escutei, prendendo a respirao. Os roncos eram regulares e profundos.
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Movendo-me como se estivesse sobre um colcho de ar, fui at a porta, virei a tranca devagar, at abri-la, com um pequeno estalido. Pensei que o rudo poderia acord-lo, 
por isso vigiei seus olhos. As pupilas deslocaram-se com vigor por baixo das plpebras, mas ele no os abriu. Continuou a roncar. Abri a porta apenas o mnimo necessrio 
para me esgueirar, e tornei a fech-la depois de sair. Meu corao batia to depressa que tive de parar para recuperar o flego.
J era de madrugada, tudo estava quieto. S um outro quarto e o escritrio estavam com as luzes acesas. Fui at o quarto das meninas e bati de leve, na esperana 
de que elas ouvissem. Esperei e bati de novo.
- Quem est a? - sussurrou Raven.
- Sou eu.
Ela abriu a porta e entrei. Crystal e Borboleta estavam deitadas numa das camas, cobertas. Seus olhos se arregalaram, surpresos, quando me viram. Indiquei que deviam 
manter silncio.
- Gordon me amarrou a ele - murmurei, mostrando a corda em meu pulso -, mas tirei a corda do pulso dele quando ele pegou no sono.
- Amarrou voc a ele? - disse Crystal. - Oh, Brooke, ficamos to preocupadas!
- Ele ficou ainda mais louco do que antes, Crystal. No sei o que poder fazer amanh. Peguei as chaves do carro. - Levantei-as para mostrar. - Podemos escapar?
- Quer roubar o carro novamente? - indagou Crystal. - Oh, Brooke, no!
- O que voc tinha planejado para amanh, Crystal? Porque se no for uma grande idia, correremos um risco ainda maior. Foi o que ele me disse. Qual  o seu plano?
- No sei - confessou ela. - Esperava que alguma coisa me ocorresse esta noite.
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- No ter nenhuma idia e no podemos perder mais tempo. Portanto,  isso que precisamos fazer.
Tornei a levantar as chaves da caminhonete.
- Ele mandar a polcia atrs de ns outra vez - disse Raven.
- Deixarei a corda da maneira como ele me amarrou. Mostrarei  polcia e contarei o que mais ele queria fazer comigo depois.
- O qu? - perguntou Raven.
- No pergunte - disse Crystal, lanando um olhar para Borboleta. Ela pensou um pouco. - Vamos embora. Levante-se, Borboleta.
As duas saram da cama e calaram os sapatos. Abri a porta e escutei. Parecia que o caminho estava livre. Gordon ainda dormia, pensei. Ou melhor, rezei. Acenei com 
a cabea e nos encaminhamos para a caminhonete, com o mnimo de barulho possvel. Destranquei-a e abri as portas, sempre com o maior cuidado. Entramos e inseri a 
chave na ignio. Raven ps a mo sobre a minha.
- Espere, Brooke. Ele vai ouvir quando voc ligar o motor.
- Talvez no. Bebeu demais. Acho que est morto para o mundo por enquanto.
- No posso nem imaginar sua raiva quando acordar e descobrir que mais uma vez levamos seu carro - comentou Crystal.
- Imagine o que acontecer quando revelarmos que sua droga no existe mais.
Olhei para Raven. Ela respirou fundo e acenou com a cabea. Todos os olhos desviaram-se para a porta do quarto de Gordon.
Virei a chave. O motor pegou. A porta do quarto de Gordon continuou fechada. Sem acender os faris, sa de r da vaga e acelerei pouco a pouco atravs do estacionamento.
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Raven no despregava os olhos daquela porta assustadora.
- Ele no nos ouviu - anunciou ela, num sussurro tenso.
Quando alcanamos a sada, acendi os faris e disparei pela estrada. Era uma estrada secundria, sem lampies e com poucas casas. Tambm no havia placas. No momento, 
eu perdera todo e qualquer sentido de direo.
- Meu corao est batendo to depressa que acho que vou desmaiar - balbuciou Raven.
Creio que nenhuma de ns deixou escapar o ar dos pulmes por no mnimo dez minutos. Imagens do rosto feio de Gordon perto do meu, naquele quarto de motel, surgiam 
 minha frente. Acelerei ainda mais, os pneus rangendo nas curvas, ao passar pelo acostamento, fazendo um tremendo esforo para controlar o carro.
- O que vamos fazer? - perguntou Raven. - No temos dinheiro nem carto de crdito.
- No me importo - declarei. - Temos de nos afastar de Gordon.
- Para onde vamos?
Raven olhou para trs, na direo do motel, como se esperasse v-lo correndo em nosso encalo. Borboleta abraava Crystal.
- Para longe - respondi. - O mais depressa que pudermos.
A nica coisa em que eu podia pensar era pr o mximo de distncia entre Gordon e ns. Qualquer coisa que viesse depois disso teria que ser melhor. Claro que teria.
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15 - Um osis no deserto

O medo nos manteve sob um vu de silncio. Os faris da caminhonete cortavam a escurido, mas sem casas e janelas acesas, sem outros veculos e atividades, ns nos 
sentamos sozinhas na noite, distante de qualquer sinal de civilizao. As rvores assomavam como sentinelas aguardando o cu clarear. Eu tinha a sensao de que 
guiava  procura de um tnel que nos passasse de um mundo para outro. No demorou muito para que a linha de rvores desaparecesse, substituda por longos campos 
ridos. As casas que avistvamos pelo caminho estavam escuras ou vagamente iluminadas, os moradores ainda aconchegados em suas camas. Quando olhei pelo espelho retrovisor, 
descobri que Borboleta adormecera nos braos de Crystal. Raven encostara a cabea na janela, os olhos fechados. Afundramos todas num poo de torpor.
O terreno tornou a mudar, dessa vez parecendo mais rochoso. O cu era cada vez mais claro, agora com algumas nuvens tnues pairando atravs das estrelas. Eu no 
guiava mais to depressa. Os pneus zumbiam, at que a estrada se tornou mais irregular, e passamos a ter solavancos ocasionais.
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- Onde estamos? - perguntou Raven, depois que um solavanco mais violento sacudiu a caminhonete.
- No sei. No vi nenhuma placa nos ltimos quilmetros. O que voc acha, Crystal?
- No tenho mais o mapa. Passamos pela ltima casa h cerca de vinte ou trinta minutos.
- Alguma coisa deve aparecer em breve - sugeri, como um raio de esperana.
Continuamos pela mesma paisagem montona, sem encontrar nada diferente. Ao contrrio, a paisagem se tornou ainda mais primitiva. Avistei cactos, e depois uma longa 
e escura linha de montanhas contornando o horizonte a oeste. Borboleta acordou quando passamos por outro trecho esburacado da estrada, a caminhonete tremendo toda.
- Estou com sede, Crystal - murmurou ela.
- Eu tambm, mas no vejo nenhum lugar em que possamos pedir um pouco de gua - disse Raven. - Onde estamos?
Um novo tipo de medo comeou a se expandir em meu estmago. Em nosso frenesi alucinado para escapar de Gordon Tooey, eu no prestara nenhuma ateno ao rumo que 
seguamos. Agora, sem placas para nos dar qualquer indicao de nosso paradeiro ou para onde seguamos, estvamos de fato perdidas. Parecia que s conseguamos ir 
de mal a pior.
-  melhor acharmos o prximo sinal de vida, pararmos e descobrirmos onde estamos - sugeriu Crystal.
Acenei com a cabea e continuei em frente, a estrada se revelando agora apenas um pouco melhor que um caminho de terra.
- Talvez devssemos voltar, Brooke - disse Raven.
- J percorremos uma longa distncia desta estrada - respondi. - E no encontrei nenhum desvio.
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- Me parece que esta estrada no leva a lugar nenhum - interveio Crystal, inclinando-se para a frente - Raven talvez tenha razo, Brooke.
 Nossa ansiedade comeava a entrar em ebulio. Todas nos inclinvamos para a frente agora, observando o caminho,  procura de qualquer sinal esperanoso. Dois coelhos 
atravessaram a estrada, as pernas parecendo molas. Os pneus rangiam agora sobre pequenas pedras.
- Acho que conseguimos... - murmurou Raven.
- Chegamos  lua.  o que isto aqui parece.
-  rocha derretida que aflorou  superfcie da terra atravs de fendas ou fissuras - explicou Crystal. - Lava. Um lugar muito parecido com a superfcie da lua.
- Obrigada - disse Raven, sarcstica. - Eu precisava mesmo dessa explicao.
- Parece com a lua porque ningum vive aqui - comentou Borboleta.
Eu j no podia guiar to depressa como antes. A estrada nos jogava de um lado para o outro.
- Isso  loucura, Brooke. Acho que devemos voltar e... - Raven parou de falar quando o motor falhou. - Oh, no! O que est acontecendo agora?
Olhei para o painel; era o que eu deveria ter feito antes de avanarmos tanto por aquela estrada. Em nossa pressa, nunca me ocorrera que poderamos ficar sem gasolina.
- O tanque est vazio - balbuciei.
- Vazio? - repetiu Raven. - Estamos sem gasolina?
-  isso o que significa um tanque vazio - comentou Crystal, sarcstica.
- Brooke...
- Sinto muito, mas no me lembrei de olhar. Com todo aquele desespero...
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- Ningum a est culpando, Brooke - interrompeu Crystal, em tom brusco.
- O que devemos fazer agora? - gritou Raven. - Saltar e pedir carona?
A caminhonete andou mais um pouco at parar. Ningum disse nada.
- Isto  uma estrada - declarei finalmente. - Tem de levar a algum lugar.
- E da? - indagou Raven.
- E da que podemos saltar e andar.
- Andar?
- No temos muitas opes neste momento, no ?
- Estou com sede - lembrou Borboleta.
- Talvez seja melhor permanecer no carro e esperar que algum passe - props Raven.
- Ningum vai passar a esta hora, Raven - disse Crystal. - E pode haver algum lugar num ponto mais adiante da estrada. Brooke tem razo. Vamos saltar e andar.
- Est bem! - resmungou Raven.
Ela empurrou a porta e saltou. Fizemos a mesma coisa. Por um momento, ficamos todas paradas ali, no escuro, apenas com as estrelas sobre nossas cabeas. Havia claridade 
suficiente para divisar a estrada que se estendia  frente, como uma fita azul-escura longa e sinuosa, passando por cima da colina seguinte.
- Estamos em alguma espcie de deserto - comentou Crystal.
- Isso  timo - murmurou Raven. - Talvez possamos em breve ver uma miragem. E ainda por cima faz frio.
Ela passou os braos em torno do prprio corpo, para se esquentar.
- Vamos pegar nossas coisas - disse Crystal, referindo-se s fronhas com as roupas. - Podemos vestir mais alguma coisa para nos manter aquecidas.
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Abri a traseira da caminhonete e procuramos camisetas extras entre as roupas. Borboleta trouxera o seu pequeno casaco rosa; seria a mais agasalhada. Crystal sugeriu 
que deixssemos todo o resto.
- Acho que no precisamos carregar tudo.
- Est bem - concordei. - Todas prontas?
- A natureza  meu lugar predileto para me perder - resmungou Raven.
Comecei a andar e elas me seguiram, Crystal e Borboleta logo atrs, Raven na retaguarda. A estrada no passava agora de cascalho e terra. Artemsias e pequenos cactos 
eram toda a vegetao que podamos ver. O plat parecia se prolongar pela eternidade, as montanhas muito distantes. Subimos uma encosta e mais outra, quase nos arrastando. 
Falvamos pouco. Calculei que devia ser umas quatro horas da madrugada. A nica coisa que me deixava um pouco animada era a viso do cu. Eu nunca o contemplara 
to cheio de estrelas... com mais estrelas do que jamais vira antes.
Crystal comeou a descrever algumas constelaes, s para manter nossas mentes ocupadas. Raven reclamou que no podia v-las e achou que Crystal inventava.
- Voc precisa se concentrar um pouco, Raven - disse Crystal. - No so difceis de distinguir.
- Tambm vejo a Via-lctea - comentou Borboleta, o que a lembrou de um copo de leite gelado e como sentia sede.
Contornamos uma curva e descobrimos que a estrada seguia reta pelo que pareciam ser quilmetros e mais quilmetros. Havia uma srie de blocos de rocha a direita, 
a algumas centenas de metros de distncia. Afora isso, porm, tudo parecia um deserto, sem casas, sem nada.
- Podemos morrer aqui - resmungou Raven. - Foi uma idia estpida. Deveramos ter ficado no carro-
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- No quero ter de voltar tudo de novo - disse Borboleta. - Voc quer, Crystal?
- Ao chegarmos l, provavelmente j teria amanhecido. Podemos muito bem descansar ali.
Crystal indicou os blocos de rocha. Concordei com a sugesto.
Talvez porque tivessem passado o dia inteiro expostas ao sol forte, as rochas estavam quentes ao contato. Encontramos um pequeno espao plano entre dois blocos e 
nos sentamos. Quase no mesmo instante em que nos acomodamos, alguma coisa correu por cima do bloco  direita. Raven soltou um grito.
- O que foi aquilo?
- Parecia um rato saltador - disse Crystal, muito calma.
- Um rato? Por que h ratos? - resmungou Raven. - No h barracos ou latas de lixo.
Crystal riu.
-  um tipo diferente de roedor, Raven. So parecidos com os camundongos silvestres.
- Pois eles que procurem outro lugar.
- Este  o habitat natural deles, no o nosso. Somos hspedes aqui.
- Ah, somos hspedes! Obrigada, obrigada, Crystal, mas prefiro ser hspede na casa de pessoas.
- Eu tambm - murmurou Borboleta. - Eu gostaria de voltar  casa de Norman e Nana. Quando vivia com os Delorice, eu tinha avs, mas eles quase no apareciam e nunca 
me convidaram para dormir em sua casa. Acho que no gostavam de mim.
-  bem provvel que no gostassem da idia de uma neta adotada - comentou Crystal. - No era por voc. No gostariam de ningum que os pais adotivos levassem para 
casa.
- Tentei fazer com que gostassem de mim. Costumava
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danar para eles. Mas nunca me convidaram para ir em sua casa.
A tristeza de Borboleta era to grande, que resolvi interferir:
- Eles  que saram perdendo, no voc.
Ns quatro nos aconchegamos. Borboleta se enros-cou toda, e eu disse a ela que podia pr a cabea em meu colo, se quisesse. Ela queria. Raven sentou-se com os joelhos 
levantados, a cabea baixa por um momento. Depois, soltou um suspiro profundo.
- Sempre seremos sozinhas - disse ela. - No importa o que fizermos, o que tentarmos, sempre acabaremos assim, sozinhas.
- Falar desse jeito no vai nos adiantar coisa alguma agora, Raven - aconselhou Crystal.
Raven olhou para ela.
- S por uma vez, Crystal, uma nica vez, eu gostaria de ver voc agir como um ser humano, no como uma espcie de computador em forma de pessoa. No me diga que 
est sentada aqui, perdida em algum lugar do deserto, sem dinheiro, sem qualquer plano em sua brilhante cabea, sem sentir um pouco de pena de si mesma... e sem 
estar muito assustada. No me diga isso.
- Claro que no vou dizer - respondeu Crystal no mesmo instante. - Provavelmente estou mais assustada do que vocs. E mais deprimida. Mas no vejo qualquer utilidade 
em me lamentar e gemer.
- Pelo menos voc pe para fora, Crystal - explicou Raven. - Pelo menos voc deixa todo mundo saber que tem os mesmos sentimentos. No acha que isso tem alguma utilidade?
Pela primeira vez em muito tempo, achei que Raven estava certa. E creio que Crystal tambm pensou assim. Ela permaneceu calada por um longo momento, antes de dizer:
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- Est bem. Admito que estou com medo. J tive medo muitas vezes. Lembro que fiquei apavorada logo depois daquele desastre de carro em que meus pais adotivos morreram, 
quando ningum me queria. Os agentes do Estado foram me buscar, e l estava eu, indo para outra instituio, para viver de novo no meio de estranhos. Uma parte de 
mim queria ter um ataque, quebrar tudo, chorar um rio. Mas no o fiz.
- Talvez devesse ter feito - comentou Raven.
- Tem razo. Talvez as pessoas tivessem me tratado com mais bondade. Talvez no seja to ruim assim pedir simpatia e compreenso quando se precisa. Talvez eu nem 
sempre esteja certa.
Crystal parou de falar e recostou-se, as mos atrs da cabea. No mesmo instante removeu uma lgrima do rosto.
- No precisa cair num berreiro agora - disse Raven. - No  isso que estou pedindo.
Quase soltei uma risada.
- Nunca falei isso - continuou Crystal, olhando para o cu -, mas muitas vezes desejei ser mais parecida com voc, Raven.
- Comigo?
- Isso mesmo. Vejo como  popular com os rapazes. Sei que  bonita. Algum dia algum vai se apaixonar tanto por voc que lhe dar tudo o que quiser. Vai receber 
as coisas numa bandeja de prata, Raven. Enquanto que eu terei de ganhar, trabalhando muito para conseguir. No me importo com isso, mas seria uma mentirosa se no 
admitisse que do seu jeito  mais fcil.
Raven fitava-a atravs da escurido.
- No acha que eu gostaria de ser um pouco mais parecida com voc, Crystal? No acha que eu gostaria que as pessoas vissem alm da minha aparncia?
- Talvez possamos fundir-nos em uma s pessoa,
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dando uma  outra o que achamos que  positivo - comentou Crystal.
- J fizemos isso - disse Raven.
Crystal fitou-a em silncio por um momento, depois sentou-se e abraou-a.
- Vou acabar vomitando se vocs duas comearem a se desmanchar em elogios mtuos - gracejei.
Elas riram.
- Ainda estou com sede - queixou-se Borboleta. O que nos fez rir de novo. Afaguei seus lindos cabelos. Raven cantarolou uma cano que sua me costumava lhe entoar 
quando era pequena. Borboleta fechou os olhos. Todas nos aconchegamos umas nas outras e tambm fechamos os olhos.
- Se descansarmos um pouco - murmurou Crystal -, a situao vai parecer mais esperanosa pela manh.
- Ratos saltadores... - murmurou Raven.
No pude deixar de sorrir. Trabalhei muito para tirar a corda do pulso e finalmente consegui. Depois fechei os olhos tambm, e logo adormeci.
Quando abri os olhos, imaginei que Raven tinha razo. Comearamos a ver miragens em toda parte. Tornei a fech-los e abri de novo, mas ele continuava ali, um homem 
na casa dos trinta anos, usando um chapu de cau-bi, os cabelos presos num rabo-de-cavalo. Estava montado num lindo cavalo preto e branco, usando uma camisa azul-escura, 
colete ejeans. Tambm tinha uma pistola no coldre e um emblema no colete. Tinha a pele morena, e os olhos eram de um tom verde-esmeralda. Contemplava-nos calmamente, 
enquanto o cavalo mastigava o que devia ser com certeza a nica vegetao em quilmetros ao redor. O animal bufou. Raven acordou, logo seguida por Crystal. Borboleta 
esfregou os olhos e sentou-se.
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- Aquela caminhonete enguiada l atrs  de vocs? - perguntou o homem.
- No est enguiada - expliquei. - Ficou sem gasolina.
Ele balanou a cabea e sorriu.
- Teriam de percorrer uns oitenta quilmetros a mais antes de sarem da reserva e encontrarem lojas e postos de gasolina.
- Reserva? - repetiu Crystal. O homem acenou com a cabea.
- No viram a placa?
- No, senhor.
- Pois esto numa reserva dos navajos. Sou um Agente da Paz dos ndios.
Borboleta chegou mais perto de mim. O homem percebeu seu medo.
- Quem so vocs, meninas?
-  uma longa histria. Ele sorriu.
- Esta  a terra das longas histrias. Podem andar um pouco?
- Podemos.
- timo. Sigam-me. - Ele olhou para Borboleta. - Gostaria de ir no cavalo comigo, pequena?
Ela comeou a sacudir a cabea, mas Crystal disse:
- Pode ir, Borboleta. Voc est muito cansada.
- Pode montar. O Jake  um cavalo to manso quanto um cavalo de brinquedo.
O homem desmontou e conduziu o cavalo at Borboleta.
- Faa um carinho nele. No tenha medo.
Borboleta, ainda tmida, estendeu a mo para afagar o cavalo. O homem tirou do bolso um torro de acar.
- D isso a ele, e Jake se tornar seu maior amigo.
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O homem entregou-lhe o torro de acar, e Borboleta comeou a estend-lo para o cavalo.
- Espere um instante - disse ele. - Estenda mo assim e deixe o acar na palma. Jake pegar com mais facilidade.
Borboleta seguiu as instrues. O cavalo pegou o torro de acar, depois focinhou a mo estendida. Ela soltou uma risada.
- Est vendo? J so grandes amigos. Vamos embora.
Ergueu-a para montar no cavalo. Borboleta fitou-nos com uma mistura de exultao e medo. O homem montou por sua vez e olhou para ns.
- Venham comigo.
Ele virou o cavalo e comeou a contornar os blocos rochosos.
- Fomos presas por um ndio? - murmurou Raven. - O que mais nos resta?
- Sermos escalpeladas - sugeriu Crystal.
- No tem a menor graa! - exclamou Raven, correndo atrs de ns. - Absolutamente nenhuma, Crystal!
Logo depois da colina avistamos uma casa de rancho, um curral com cavalos, algumas galinhas num cercado, uma garagem e um estbulo. Era um osis no deserto, um gramado 
extenso, algumas rvores ctricas por trs da casa, e o que parecia ser um riacho.
- Estvamos to perto e no sabamos disso... - murmurou Crystal.
O policial ndio conversava com Borboleta, que acenava com a cabea. Entregou as rdeas a ela, ensinou-a como fazer parar o cavalo, e a vir-lo para um lado e para 
o outro. A risada de Borboleta era to revigorante quanto lhe seria um copo de gua gelada.
Quando chegamos  casa do rancho, ele desmontou e ajudou Borboleta a descer.
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- Meu nome  Tommy. Tommy Edwards. S minha esposa e eu vivemos aqui. O nome dela  Anita. Por aqui, meninas.
Ele subiu os degraus na frente, atravessou a varanda para a porta. O aroma de alguma comida deliciosa nos envolveu no instante em que entramos na casa.
Tommy Edwards sorriu para ns.
- Ovos com bacon. Anita!
Ns quatro nos aconchegamos umas nas outras. Crystal tinha um pouco de terra na testa. Os cabelos de Raven estavam desgrenhados. Ainda usvamos trs camisetas. Eu 
tinha certeza de que formvamos uma cena e tanto.
Anita Edwards veio da cozinha, enxugando as mos num pano de prato. Vestia um macaco e uma camisa de algodo azul-clara. Os cabelos eram to compridos e negros 
quanto os de Raven. Os olhos tambm eram escuros. As feies eram pequenas, o nariz e a boca to perfeitos quanto os de qualquer outra mulher comum. Tinha malares 
salientes e a pele um pouco curtida. Apesar de no aparentar mais de trinta anos, havia algum sinal de velhice em seus olhos, uma expresso de cansao e angstia. 
Contemplou-nos com o maior interesse e depois olhou para Tommy.
- Encontrei-as no meio das rochas. O carro enguiou e elas tiveram de andar. Dormiram ali a noite passada. - Antes que a mulher pudesse perguntar, ele acrescentou: 
- Acho que se perderam. No sabiam que estavam na reserva.
Anita se adiantou. Tinha lbios cheios. Havia neles uma insinuao de sorriso afetuoso, mas era como se tudo tivesse de ser mantido sob um controle rgido, a aparncia, 
as palavras, os sentimentos.
- Venham comigo e mostrarei onde podem se lavar - disse ela.
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- Boa idia. - Tommy fitou-nos com uma expresso mais oficial. - E depois tomaremos o caf da manh
- Por aqui.
Anita levou-nos atravs da casa. A cozinha era nos fundos, a sala  esquerda e os quartos  direita. Passamos tambm pelo que parecia ser um escritrio. As paredes 
eram cobertas por objetos de artesanato do Oeste americano, lindas peles, mantos, mscaras rituais, armas de fogo, arcos e flechas. Tigelas e estatuetas espalhavam-se 
pelo cho. Havia arte nativa americana at no banheiro.
- Podem entrar - disse ela, enquanto ia buscar algumas toalhas.
- Obrigada - murmurei.
Ela nos entregou as toalhas e disse que fssemos para a sala de jantar assim que acabssemos.
- Vou tomar um banho - disse Raven, olhando para o chuveiro, ansiosa.
-  vontade - falei.
Apenas lavei as mos e o rosto, assim como Crystal e Borboleta. Fomos para a sala de jantar na frente, agora usando apenas uma camiseta. Anita j pusera mais quatro 
lugares  mesa.
- Sentem-se ali - disse ela, indicando as cadeiras nos lados da mesa. - Onde est a outra amiga?
- Resolveu tomar uma chuveirada - informei.
Anita alteou as sobrancelhas e chegou o mais perto possvel de um sorriso ou risada. Tommy voltou antes de Raven sair do banheiro.
- Estou faminto como um urso - disse ele, piscando para ns.
Raven entrou, parecendo revigorada, os cabelos presos atrs da cabea. Apontei sua cadeira e ela sentou-se no instante em que Anita trazia a travessa de ovos com 
bacon.
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- Esto com fome, meninas? - perguntou Tommy.
- Estou mais faminta do que um urso - respondeu Raven.
Ele soltou uma risada.
- Por que no nos informam seus nomes agora? Foi o que fizemos. Enquanto isso, Anita despejou gua em nossos copos.
- No esperem por mim - disse ela, voltando  cozinha.
- Ouviram o que ela disse, meninas. Vamos comer. Tommy estendeu a travessa para Crystal, que murmurou:
- Obrigada.
Todas ns agradecemos ao nos servirmos. Anita finalmente sentou-se e comeu. Os movimentos eram mecnicos, ela parecia no sentir qualquer apetite. Quando j estvamos 
quase acabando, Tommy disse:
- Agora, meninas, podem contar como vieram parar aqui. De onde so?
Raven olhou para Crystal, que olhou para mim. Borboleta vinha observando Anita com interesse. Notei que ela tambm observava Borboleta, um pequeno sorriso insinuando-se 
em seus lbios.
- Vai acabar descobrindo de qualquer maneira, sr. Edwards. - Achei que era melhor contar tudo de uma vez. - Fugimos de um lar de adoo em Nova York, levando o carro 
do responsvel. Fomos apanhadas anteontem.
Tommy recostou-se e olhou para Anita, que sacudiu a cabea.
- Foram apanhadas, mas vieram para c? No estou entendendo.
- Nosso pai de adoo veio nos buscar. Mas estava mais interessado num pacote de cocana que escondera sob o banco traseiro do carro do que em ns, que a
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encontramos por acaso e a jogamos fora. Ficamos com medo de dizer a ele. Fingimos que amos lev-lo para o lugar em que enterrramos o pacote. Ontem  noite depois 
que ele nos levou para um motel, fugimos de novo. E de repente nos vimos sem gasolina.
- Ficamos apavoradas e queramos apenas fugir para bem longe, sem prestar ateno para onde amos - acrescentou Crystal.
-  uma histria incrvel - murmurou Tommy.
- Por que voltavam com ele? - perguntou Anita.
- Se no concordssemos em voltar com nosso pai de adoo, iramos para a cadeia por roubar o carro e porque tivemos medo de nos separarem - explicou Raven.
- Somos irms - ressaltei. - Temos de permanecer juntas.
- Estamos sem nenhum dinheiro - disse Crystal. - Temos medo do que ele far conosco, ainda mais agora.
- Entendo... - Tommy pensou por um momento. - Parece que temos uma situao complicada.
- Ele vai nos encontrar? - perguntou Borboleta.
- No aqui. - Tommy olhou para Anita. - Vou dar alguns telefonemas.
Ela acenou com a cabea.
- Posso ajud-la com a loua? - perguntou Borboleta a Anita.
- Ahn... obrigada.
O rosto de Anita se iluminou com um sorriso genuno. Borboleta comeou a tirar a mesa. Tommy levantou-se e se retirou.
- Acho que vamos voltar para a cadeia - disse Raven, quando sentamos na sala de estar.
- O que mais podemos fazer? Ningum nos quer, e voltar para Lakewood no  o que queremos. Estou cansada... - Crystal arriou ainda mais na cadeira. -" Cansada de 
tanto lutar.
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- Que maravilha! - exclamou Raven.
Os olhos de Raven deslocaram-se para o console da lareira. Ela se levantou e foi dar uma olhada nas fotos que estavam l. Continuei sentada, com a sensao de que 
poderia explodir em lgrimas a qualquer instante.
- Ei, eles tm uma filha! - disse Raven de repente. Ela levou a foto dos trs para nos mostrar.
- Por favor, no mexam em meus retratos - disse Anita da porta.
- Oh, desculpe... - murmurou Raven. - Eu apenas admirava sua filha. Onde ela est? Dormindo?
Borboleta entrou e deu uma olhada na foto.
- Isso mesmo, dormindo - respondeu Anita, friamente. - Debaixo da terra.
Olhamos para ela, incapazes de dizer qualquer coisa. Anita percebeu que a notcia nos deixara entristecidas e abrandou um pouco.
- Quando a perdemos, ela tinha pouco mais de trs anos. Completaria cinco anos no prximo ms. Tinha um problema com uma vlvula do corao.
- Lamentamos muito, sra. Edwards - disse Crystal.
Anita tirou o retrato das mos de Raven e contemplou-o por um momento.
- O nome dela era Annie, em homenagem  minha me. Agora esto juntas.
Ela ps a foto de volta no consolo da lareira e virou-se para nos fitar, linhas profundas cortando sua testa, enquanto a dor da perda voltava.
- Um dia a luz se apaga em nossa vida.  como uma vela bruxuleando, at que de repente um vento sopra e fica apenas a escurido.
Anita segurou as lgrimas e comprimiu os lbios. Depois, respirou fundo.
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- Meu marido vai ajud-las. Podem esperar aqui OU l fora, fiquem  vontade.
E saiu.
- Ela  muito triste - comentou Raven.
-  mesmo; ela olhou para mim na cozinha e desatou a chorar - revelou Borboleta. - E depois me disse para deixar a loua ali e voltar para junto de minhas irms.
- Eu me sinto triste por ela - murmurou Raven. O ar ao nosso redor parecia opressivo demais para respirar.
- Vou sair - anunciei, levantando-me.
L fora, olhei ao redor e avistei um trator estacionado ao lado do estbulo, com a tampa do motor levantada. Havia ferramentas no cho. Curiosa, fui at l. Parecia 
que Tommy Edwards estava trocando as velas. Vi que ele deixara o manual ao lado das ferramentas. Sentei no cho e estudei-o, pensando em Todd e na saudade que eu 
sentia.
- H sempre alguma coisa para se fazer num rancho - disse Tommy, saindo da casa e se aproximando.
Larguei o manual e levantei-me apressada.
- No tive a inteno de assust-la, Brooke. Tive de entrar em contato com o escritrio do FBI para falar sobre o carro de seu pai de adoo e tudo o que me contaram. 
O FBI deve tomar conhecimento de todos os crimes cometidos ou envolvendo as reservas ndias. Fazemos o policiamento aqui, mas achei que era melhor falar com eles. 
No quero que as outras meninas fiquem apavoradas por causa disso.
- Pode deixar que explicarei a elas.
- Vo examinar a caminhonete de alto a baixo, para verificar se resta alguma evidncia. Tambm falei com o servio de proteo  infncia. Vo mandar algum aqui 
mas demorar um pouco. A pessoa ter de vir de Albuquerque, pois eles esto com poucos funcionrios.
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- No importa quanto tempo vai demorar. Acho que nenhuma de ns se importa.
Tommy comeou a trabalhar no trator. Voltei para a casa, a fim de dar a notcia. Encontrei Raven saindo pela porta dos fundos.
- Qual  o problema? - perguntou Raven, ao ver minha expresso.
- Tommy me disse que teve de entrar em contato com o FBI.
- O FBI?
- Eles devem ser informados sobre qualquer crime nas reservas ndias. No  apenas por nossa causa.
- No est preocupada, Brooke?
- Com o qu?
- Talvez nos prendam por no entregar a cocana. Podemos ir para uma penitenciria federal.
- Duvido muito. Onde esto Crystal e Borboleta? Temos de contar a elas.
- Borboleta voltou  cozinha para ajudar Anita.  curioso como ela no fica inibida com Anita. Talvez seja porque sente pena dela. Crystal diz que Borboleta  atrada 
para a tristeza de outras pessoas como a mariposa para uma chama.
Sorri.
- Acho que  verdade.
Ouvimos a porta do estbulo ser aberta. Viramos para avistar Tommy saindo com um palomino. O cavalo mancava da perna direita posterior.
- Como vocs esto? - gritou ele.
- Estamos bem - respondi. Raven e eu nos aproximamos.
- O que aconteceu com seu cavalo?
-  uma gua. Pisou num buraco de roedor. O veterinrio diz que vai ficar boa, mas precisa fazer pelo menos meia hora de exerccio duas vezes por dia. - Ele olhou 
para Raven. - Acha que pode fazer isso?
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- Fazer o qu?
- Apenas andar com Pony Tail num crculo.
 - Eu?
Raven olhou para mim e depois para Tommy.
- Isso mesmo. Ela  mansinha.
Ele estendeu as rdeas para Raven, que as pegou e olhou para a gua e depois para mim, antes de comear a andar, com uma expresso de medo e excitamento. A gua 
seguiu-a, obediente.
- Mantenha esse ritmo! - gritou Tommy. Raven acenou com a cabea e continuou a andar, parecendo mais orgulhosa do que em qualquer outra ocasio.
- Eu disse a Tommy que ia explicar a Borboleta sobre o FBI - informei a Raven, quando ela passou perto de mim.
Tornei a me encaminhar para a casa. Ao me aproximar, Crystal saiu pela porta da frente com um livro na mo. Ela me viu, sorriu com curiosidade, olhou para Raven.
- Borboleta est bem?
- Muito bem. Anita est lhe mostrando como trabalhar em seu tear.
- Tenho ms notcias, Crystal. Tommy ligou para o FBI. No podia deixar de faz-lo.
Crystal acenou com a cabea, como quem j esperava por isso.
- Sabia que ele tinha de comunicar o caso. Antes que pudssemos entrar para conversar com Borboleta, avistamos um carro se aproximando  distncia. Provavelmente 
o representante do servio de proteo  infncia, pensei. Era um carro azul-escuro, e dois homens de terno saltaram para conversar com Tommy. Ele virou-se e chamou 
ns duas. Raven continuava a andar com a gua em crculos, e Borboleta estava l  dentro com Anita.
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- Brooke, Crystal, estes so os agentes especiais Wilkins e Milton, do FBI. Querem conversar com vocs sobre seu pai de adoo e o que encontraram no carro dele.
- Claro - respondi. - Mas Raven deve participar tambm da conversa.
Tommy pegou a gua, e Raven veio se juntar a ns na varanda. Relatamos tudo aos agentes do FBI, a fuga da Lakewood House, como encontrramos a cocana, onde a jogramos 
fora, o que acontecera depois. Tommy voltou para a varanda depois de levar Pony Tail para a baia.
- Nosso tcnico de laboratrio encontrou os resduos de cocana - informou o agente Wilkins a Tommy. - As meninas esto dizendo a verdade. O que far com elas?
- Entrei em contato com o servio de proteo  infncia e eles mandaro um representante.
- Est certo. Mas queremos ser informados do paradeiro delas.
Observamos os dois homens do FBI se afastarem.
- Fizeram o que era certo, meninas - comentou Tommy.
- L est Borboleta - disse Raven, olhando para o galinheiro.
Ela caminhava em nossa direo, num excitamento evidente, Anita ao seu lado, carregando um cesto.
- Peguei os ovos! - gritou ela. - Eu mesma!  preciso empurrar um pouco as galinhas, mas elas no bicam!
Havia uma expresso diferente no rosto de Anita. Era como se tivesse despertado de um sonho. Os olhos pareciam mais brilhantes, os lbios mais suaves, mais dispostos 
a se contrarem num sorriso.
- Vamos fazer um bolo - anunciou ela.
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- Vou ajudar - declarou Borboleta. - Certo, Anita?
- Certo. Almoaremos dentro de meia hora. - Ela olhou para o marido. - Estar aqui?
- Claro. Talvez depois eu leve as meninas para um pequeno passeio nos cavalos.
- Se elas quiserem... - murmurou Anita.
- Montar a cavalo? - disse Crystal. - No sei montar.
- Ora, Crystal, no venha com essa! - disse Raven. - Se eu posso, voc tambm pode.
- Desde quando sabe montar? - indagou Crystal.
- Posso montar sem qualquer problema. - Raven olhou para Tommy. - No posso?
- Claro que pode.
- Posso ir tambm? - indagou Borboleta. Tommy olhou para Anita.
- Pode, sim. Tommy vai selar a Princesa para voc.
Anita encaminhou-se para a casa. Borboleta seguiu-a, apressada. Percebi pela expresso de Tommy que alguma coisa significativa fora dita.
- Qual  a Princesa? - indaguei, olhando para o curral.
- A pnei. Era de Annie, nossa filha. Ningum mais a montou desde que Annie... desde que Annie morreu.
Ele fez uma pausa, para depois acrescentar, com um espanto evidente:
- Incrvel! Anita jamais admitiu essa possibilidade... pelo menos at hoje.
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16 - O lar, finalmente

- Vamos fazer um piquenique! - anunciou Borboleta, excitada, quando entramos na casa.
- No  exatamente um piquenique - explicou Anita, da porta da cozinha. - Apenas almoaremos no ptio l atrs, onde temos mesas de piquenique.
- Podemos ajudar? - indagou Raven.
- Tudo do que precisamos est no balco da cozinha - informou Anita. - Borboleta vai lhes mostrar.
Orgulhosa por ter recebido um papel de liderana, Borboleta levou-nos at os pratos e talheres, os jogos americanos, limonada fresca, po feito em casa e condimentos. 
Cada uma se serviu como quis aps Borboleta nos indicar a mesa.
O ptio nos fundos da casa oferecia um cenrio maravilhoso para se comer. Dali se podia avistar as montanhas. Notamos que os picos continuavam cobertos de neve. 
O riacho passava perto, a gua borbulhan-do bastante alto para que ouvssemos. Anita saiu da casa, acompanhada por Tommy. Carregava uma panela de barro grande, que 
ps na mesa. Sentamos. Tommy parecia muito satisfeito.
- Devo agradecer a vocs, meninas, por ter a minha sopa predileta no almoo.
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- Fao esta sopa muitas vezes, Tommy Edwards - disse Anita.
Ela pegou a concha e comeou a servir a sopa nas tigelas.
- O cheiro  delicioso - comentou Raven. - o que ?
- Sopa de galinha, abacate e limo tortilla - informou Anita, servindo a si mesma e sentando-se.
- Saborosa como sempre - murmurou Tommy, depois da primeira colherada.
- Est uma delcia - comentei, com sinceridade.
- Ajudei a preparar! - informou Borboleta, radiante. - No foi, Anita?
Ela olhou para Borboleta e sorriu.
- Janet cortou e fritou as tortillas.
- A tortilla  uma comida ndia, no ? - perguntou Raven.
- Do sudoeste, mexicana - informou Tommy. - Todos partilhamos suas origens.
- Vocs dois so navajos de sangue puro? - indagou Crystal.
Anita olhou para Tommy, que sorriu e disse:
- H controvrsias a respeito.
- Li sobre os navajos naquele livro de vocs - continuou Crystal. - A tribo  dividida em mais de cinqenta cls. Achei interessante que a descendncia seja traada 
pela linha feminina.
- Isso mesmo - confirmou Tommy. - Somos os primeiros libertadores femininos autnticos.
- Tambm so a segunda maior tribo de ndios dos Estados Unidos - acrescentou Crystal.
- Crystal  uma estudante fantica - comentou Raven. - Basta lhe dar um dia e ela saber mais a seu respeito do que voc prprio jamais soube.
- Acontece que no gosto de desperdiar tempo - disse Crystal, na defensiva. - Por isso, leio.
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- Sinto-me lisonjeado por voc querer saber mais a nosso respeito - declarou Tommy. - E provavelmente saber em breve mais do que eu.
- Com toda certeza - acrescentou Anita. Tommy fitou-a e sorriu. Anita pareceu se dar conta de que fizera um comentrio engraado e baixou os olhos no mesmo instante. 
Era como uma vela tentando se acender de novo. Cada vez que havia uma pequena centelha de esperana, ela se apressava em sufoc-la com o sentimento de culpa.
- Esta regio pode no ser rica em gs ou petrleo, mas para mim  rica em outras coisas - comentou Tommy.
- Sempre me interessei pelos nativos americanos - disse Crystal. - Acha que o vento  espiritual?
- Creio que h alguma coisa de espiritual em toda a natureza - respondeu Tommy. - Quanto mais a pessoa se afasta da natureza, mais se afasta do que  espiritual. 
 por isso que vivemos aqui.
- Adorei este lugar! - exclamou Borboleta.
Ela dava a impresso de que havia algo prestes a explodir em seu corao de tanto alvoroo. Todos ficaram em silncio. Foi nesse momento que o telefone tocou.
- Vou atender - disse Tommy, levantando-se e entrando na casa apressado.
- Voc tem trajes ndios? - perguntou Raven a Anita.
- Trajes? Tenho, sim... acho que se pode chamar assim. Talvez voc queira ver. Eu lhe mostrarei depois do almoo. Minha me fez para mim h muito tempo. Acho que 
pode caber em voc.
-  mesmo?
Os olhos de Raven se encheram de excitamento. Anita sorriu. Era como se o seu rosto descongelasse lentamente.
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- Era do servio de proteo  infncia - informou Tommy, ao voltar.
- J esto a caminho? - perguntei, desolada.
- No. No podero vir hoje. Pediram que eu as levasse ao xerife, para que sejam despachadas para Albuquerque.
- Despachadas? - repetiu Anita, antes que pudssemos reagir. - O que elas so? Mercadorias?
- Eu disse que as meninas podiam passar a noite aqui. - Fitou Anita e esperou. -  possvel?
- Claro - respondeu ela. - Nem precisava perguntar.
Com lgrimas nos olhos, ela se ergueu e comeou a levar as coisas para a casa. Borboleta tambm se levantou no instante seguinte, pondo-se a recolher tigelas e pratos. 
Quando estava com os braos cheios, ela seguiu Anita para a cozinha. Tommy continuou sentado e disse, falando devagar, em voz baixa:
- Anita no tem passado bem desde a morte de Annie. H ocasies em que no consegue parar de chorar. Em certos momentos ela se torna to retrada que sinto que no 
est mais aqui. No fiquem aborrecidas com ela.
- Claro que no! - exclamei.
- Nunca! - acrescentou Raven.
- Compreendemos o que significa perder algum que se ama - murmurou Crystal.
Tommy sorriu.
- Sei disso, meninas. Vamos at o curral para selar alguns cavalos. Posso lhes mostrar uma parte da reserva antes de partirem.
- No podemos ir no jipe? - suplicou Crystal.
- No  a mesma coisa. Vo querer sentir como , ter uma experincia autntica. - Tommy sorriu de novo. - No est querendo aprender tudo sobre ns?
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O rosto de Crystal murchou.
- Pare de se preocupar - acrescentou Tommy. - Vai se sair muito bem. Eu lhe darei o Cavalo Sem Nome.
- Sem nome? - repetiu Crystal. - Por que ele no tem um nome?
- Nunca fica quieto por tempo suficiente para que possamos faz-lo entender um nome.
- O qu?
Todo mundo riu. Levantamo-nos e ajudamos a levar o resto das coisas para a casa. Mais tarde, Anita saiu para observar Tommy selar os cavalos para ns e a pnei para 
Borboleta. Ele comeou com uma pequena preleo sobre equitao.
- Seus cavalos seguiro o meu. So treinados para fazer isso. Portanto, no se preocupem. O importante  nunca entrar em pnico, nunca transmitir medo ao animal. 
Ele vai sentir e ficar nervoso. Voc  quem est no controle.
Tommy ajudou Borboleta a montar na pnei. Ela parecia ter sido instalada num trono. Nunca a vramos to radiante e feliz. Quando tornei a olhar para Anita, ela estava 
parada de braos cruzados, contemplando a cena com um pequeno sorriso.
Tommy lhe gritou alguma coisa numa lngua que no entendamos. Ela sacudiu a cabea.
- Tome cuidado com elas, policial Tommy Edwards - advertiu Anita.
Ele soltou uma risada.
- Muito bem, meninas, faam o que eu mandei.
Cutucamos os cavalos com a parte de trs dos sapatos. Eles partiram atrs de Tommy. Todas nos sacudamos. Crystal se segurava como se sua vida dependesse daquilo.
- Tommy disse para no segurar na sela - lembrou Raven.
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- Sei o que ele disse! - resmungou Crystal.
Ela prendeu a respirao, fechou os olhos e continuou parecendo apavorada, enquanto seguamos na direo das montanhas. Nem em nossos devaneios mais delirantes poderamos 
nos imaginar cavalgando, com um nativo americano navajo nos mostrando seu mundo de maravilhas naturais.
Apesar de seus medos, Crystal gostou do passeio tanto quanto as outras. Ela e Tommy conversaram sobre pedras e animais, o deserto e o povo navajo. Raven era uma 
amazona natural e Borboleta dava a impresso de que poderia atravessar toda a eternidade na pnei. No fomos muito longe, mas assim nos pareceu. Paramos para descansar 
no meio do passeio. Tommy aproveitou-para nos fazer mais perguntas sobre nossa vida em Lakewood. Crystal explicou por que nos sentamos encurraladas. Foi quando 
Tommy revelou que tambm fora adotado.
- Mas ainda fiquei na famlia - disse ele. - Fui adotado por meus tios.
- O que aconteceu com seu pai e sua me? - perguntou Raven.
- Fui um filho ilegtimo. Meu pai nunca me reconheceu, e os pais de minha me ficaram transtornados. Talvez tenham percebido o sorriso de Anita quando me perguntaram 
se eu era um navajo de sangue puro. Houve quem achasse que eu no era. Mas creio que o mais importante  o que voc tem no corao. Isso dir s pessoas quem voc 
realmente . Todo o resto  superficial. Tenho certeza de que entendem o que isso significa.
- Se no entendssemos, Crystal se apressaria em explicar - comentou Raven.
Tommy soltou uma risada.
- Vocs tm um tipo diferente de sinal de sela, meninas.  o que deriva de viajarem juntas. - Ele fez
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uma pausa. - Mas aposto que lutariam como um puma acuado se algum tentasse separ-las.
-  verdade - murmurei.
Ele balanou a cabea, com ar de tristeza.
- A posio do sol indica que j so trs e meia.  melhor voltarmos. Tenho algumas tarefas para realizar e uma pequena patrulha a fazer antes do jantar.
Montamos e comeamos a voltar, observando o sol alcanar o topo das montanhas. As sombras tornaram-se mais longas em alguns pontos, povoando as fendas e os vales 
com uma suave escurido. Um falco voou pelo cu por cima de ns, num largo crculo. Tommy informou que o falco podia avistar um rato-do-deserto mesmo daquela altura.
Aquele lugar era um mundo estranho e maravilhoso, pensei. Por algum tempo, fizera com que esquecssemos nossos sonhos. Raven no falara em se tornar uma cantora 
famosa, Crystal no mencionara a escola, e eu parara de fantasiar o encontro com minha me verdadeira.
Anita nos esperava quando voltamos. Pensvamos que bastava desmontar e no haveria mais problemas, mas Tommy explicou que tnhamos de andar com os cavalos por mais 
algum tempo. Tambm quis que o ajudssemos a tirar os arreios.
- Voc tem de cuidar bem das coisas que ama por aqui ou no as ter por muito tempo - disse ele.
- s vezes nem isso ajuda - comentou Anita.
Os olhos dos dois se encontraram por um momento. Tommy desviou o rosto. Borboleta pediu para voltar  casa com ela, a fim de poder se lavar e ajudar no preparo do 
jantar.
- Tambm vou arrumar as camas - acrescentou Anita.
Depois que elas se afastaram, perguntei a Tommy:
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- No foi possvel fazer nada por Annie?
- Tentamos tudo. Ns a levamos para o maior hospital para ser operada. Mas seu corao era pequeno demais. Anita ficou com medo de ter outra criana. Acha que nascer 
com o mesmo defeito ou outro parecido. Ela  mais supersticiosa do que eu.
- H meios de examinar o feto enquanto se desenvolve, para se determinar se tem algum problema - explicou Crystal.
Ele sorriu.
- H um toque de tambor diferente no corao de Anita agora. Talvez possa mudar em breve.
Depois que terminamos de cuidar dos cavalos, entramos na casa para nos lavar. Anita arrumara os dois quartos de hspedes para ns. Numa das camas havia um lindo 
vestido de couro de gamo, decorado com contas turquesas. Ela disse a Raven para experiment-lo. Tive de admitir que Raven ficou fantstica. Foi o que todos acharam.
- Talvez voc tambm tenha sangue navajo - comentou Tommy, rindo.
Raven perguntou se poderia usar o vestido no jantar. Anita permitiu. Antes do jantar, Borboleta perguntou a Anita sobre os tambores que estavam num recanto da sala 
de estar. Para espanto de Tommy e prazer nosso, Anita tocou um tambor e entoou um canto navajo de moer milho. Sua voz era profunda e rica. Pude sentir sua herana, 
orgulhosa e viva, ainda vibrando no corao machucado. Tommy mostrou a Borboleta alguns passos de uma dana cerimonial. Em poucos segundos ela j dava os passos 
to bem quanto ele, se no melhor. Anita riu de verdade, o som rachando as camadas da glida tristeza que haviam coberto as paredes daquela casa por tanto tempo.
Para o jantar, Anita preparara, com Borboleta ao
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seu lado na cozinha, fajitas de galinha, com arroz e feijo. Era um banquete mexicano, como nunca havamos experimentado antes.
- Meu estmago agradece por vocs terem se perdido na reserva, meninas - declarou Tommy.
- Tommy Edwards, vou escalpel-lo se fizer essas meninas pensarem que no cozinho para voc nos outros dias!
Ele riu e ergueu os braos.
- Estou brincando, meninas... e podem ter certeza de que ela cumpriria a ameaa!
Era extraordinria a diferena no clima ao caf da manh e agora no jantar. Estvamos todos mais relaxados. Fora um dia maravilhoso, surpreendentemente feliz. O 
telefone tocou outra vez, antes de acabarmos de tirar a mesa. Tommy voltou para nos informar que o FBI encontrara Gordon Tooey.
- Ele voltou para Nova York - informou Tommy, lanando um olhar para Anita.
- E o resto? - perguntou ela.
- Havia algum muito zangado com ele. No precisam mais se preocupar com a possibilidade de Gordon Tooey vir atrs de vocs, meninas, nunca mais.
Apesar do nosso medo e averso a Gordon, a notcia era chocante. Trocamos olhares, sentindo um aperto no corao.
- Louise dever perder o lar de adoo - comentou Crystal.
-  mais do que provvel - concordou Tommy. - No podem deixar de revogar sua licena. H uma grande necessidade de lares de adoo em todo o pas e esse problema 
 cada vez maior.
- Para onde vo nos mandar agora? - especulou Raven.
O clima descontrado e feliz antes predominante se
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dissipou como fumaa, substitudo por um ambiente pesado, sem sorrisos, de movimentos lentos e mecnicos. Raven decidiu tirar o vestido de ndia. Depois, foi se 
juntar a Crystal e a mim na varanda. Borboleta ainda ajudava Anita a arrumar tudo.
- Para onde quer que nos mandem, no ser por muito tempo - comentou Crystal. - Assim que completarmos dezoito anos, teremos de cuidar de ns mesmas. Eu irei para 
a universidade. Talvez voc v viver com Todd, Brooke.
- No sei. No nos falamos desde aquele dia.  provvel que ele j tenha me esquecido.
- No, se sentia realmente alguma coisa por voc - disse Raven. - Ainda vou tentar fazer carreira no show business. No me importa o que tiver de fazer. Trabalharei 
como garonete, faxineira, qualquer coisa, at conseguir minha grande oportunidade. E se isso nunca acontecer, irei morar com voc e Todd.
- Parem de se intrometer na minha vida, vocs duas - protestei. - Tambm tenho coisas para fazer antes de sossegar. Ainda tenciono ir  Califrnia.
- Como vai fazer para encontr-la? - perguntou Crystal.
Virei-me para ela.
- Como sabe o que quero fazer?
- J deixou escapar muitas insinuaes a respeito, Brooke. E hoje em dia  mais fcil encontrar algum do que no passado. Talvez voc consiga.
Ela se inclinou e segurei sua mo. Peguei tambm a de Raven. Ficamos sentadas, com as estrelas cintilan-do por cima de ns no cu do deserto. Em algum lugar, a distncia, 
ouvimos um uivo estranho. Crystal disse que era um coiote.
- Ela est certa - confirmou Tommy, saindo das sombras. No sabamos h quanto tempo ele estava ali.
- Como conhece o som, Crystal?
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- Consta de um software que usei quando fiz um trabalho para o curso de cincias.
- Sua escola , sem dvida, diferente da escola em que estudei.
- A que horas vamos partir amanh? - perguntei.
- Logo depois do desjejum, devemos lev-las para o escritrio do xerife, em Gallup.  ali que o pessoal da proteo  infncia de Albuquerque ir busc-las. Vocs 
so maravilhosas. Tenho certeza de que se sairo bem em qualquer lugar.
Ficamos em silncio.
- Estou cansado - acrescentou Tommy. - Sempre levantamos com o sol por aqui. At amanh.
- Boa-noite, Tommy - murmurei. Continuamos sentadas por mais algum tempo, at decidirmos que tambm nos sentamos muito cansadas. As camas eram bastante confortveis, 
os quartos revestidos com painis de carvalho amarelo, os mveis ao estilo do sudoeste. O ar noturno era fresco, propcio para um sono agradvel, s que nenhuma 
de ns teve facilidade para desligar a ansiedade. Antes que Raven e eu sequer tentssemos dormir, Crystal veio nos dizer que Borboleta se comportava de uma maneira 
estranha.
- Ela no quer falar - informou Crystal. - Est toda enroscada na cama.
- Todas ns estamos exaustas - disse Raven. - Voc tinha razo.  extenuante fugir, e tambm um esforo demasiado para uma garota frgil como Borboleta.
- Anita deu para ela um autntico colar ndio. Borboleta colocou-o para dormir.
- Isso  timo - murmurei. - Anita  muito mais simptica do que eu pensei a princpio.
- Todas as pessoas que conhecemos parecem magoadas de um jeito ou de outro - comentou Crystal.
Era uma dessas declaraes profundamente filosficas
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que ela era capaz de plantar em minha mente e deixar ali, para crescer por conta prpria.
Crystal voltou a seu quarto. Raven e eu permanecemos caladas, nem mesmo desejamos boa-noite uma para a outra. Ela virou-se e adormeceu antes de mim. Passei algum 
tempo escutando o vento e vi uma pequena nuvem passar sob o quarto de lua. Acabei fechando os olhos e mergulhei no sono. S acordei quando meu corpo foi vigorosamente 
sacudido. Abri os olhos no mesmo instante. Deparei com Crystal ao lado da cama, em pnico.
- Ela est catatnica de novo, pior do que jamais vi! Depressa, Brooke!
Saltei da cama e acordamos Raven. Era como despertar os mortos. Mas quando ela soube qual era o problema, ficou logo alerta. Fomos cercar Borboleta. Como Crystal 
descrevera, ela se contrara toda, as pernas dobradas contra a barriga, os braos virados para dentro, as mos se apertando como garras, os olhos comprimidos, os 
lbios grudados, um filete de saliva escorrendo do canto direito. Parecia at que nem respirava. Um mpeto de pnico apertou meu corao.
- Oh, Crystal, nunca a vi assim antes! O rosto est plido demais, os lbios cada vez mais roxos...
Crystal balanou a cabea.
- Seu estado  mesmo terrvel.
Demos as mos e encostamos a cabea em Borboleta. Crystal iniciou o cntico.
- Somos irms. Sempre seremos irms. Nada pode nos magoar enquanto permanecermos juntas.
Raven e eu a acompanhamos. Nossas vozes foram se tornando mais e mais desesperadas ao encerrarmos um coro sem que houvesse qualquer alterao.
- Crystal!
- Vamos continuar tentando.
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Entoamos o cntico ainda mais alto, o desespero se acumulando em nossas vozes.
- O que est acontecendo? - indagou Anita da porta.
Paramos no mesmo instante. Borboleta continuava catatnica. Anita entrou no quarto e olhou para ela.
- O que est acontecendo? - perguntou outra vez.
- Ela fica assim s vezes - explicou Crystal. -  um problema emocional. Sempre conseguimos ajud-la, juntando-nos e entoando nosso cntico. Mas agora no est dando 
certo.
- Oh, Deus! - exclamou Anita. - Ela est fazendo parar o prprio corao, a respirao! Tommy! TOMMY!
Ele veio correndo para o quarto. Assim que viu Borboleta e ouviu a explicao, pegou-a no colo e disse:
- Vamos lev-la para o hospital.
- Depressa, Tommy! - gritou Anita.
Fomos para o jipe. Anita segurou Borboleta no colo, enquanto ns trs nos apertvamos atrs. Tommy partiu aos solavancos pela estrada de terra. Mesmo assim, Borboleta 
continuou com os olhos fechados. Anita embalava-a e beijava sua testa. Afagava seus cabelos, apertava-a com fora. Ns trs trocvamos olhares, todas pensando a 
mesma coisa. Se Borboleta morresse, seria porque decidramos fugir. De cabea baixa, rezamos de mos dadas. O jipe sacudia-se todo, enquanto Tommy acelerava o mximo 
possvel.
E de repente, milagrosamente para ns, Borboleta gemeu. Anita multiplicou os beijos, murmrios e gestos de conforto. Embalou-a mais e mais, sempre chamando-a, at 
que Borboleta abriu os olhos. A cor retornou a seu rosto.
- Ela est melhor, Tommy - anunciou Anita, rindo atravs das lgrimas. - Ela est melhor.
- Apesar disso, convm lev-la ao hospital.
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No entanto, ao chegarmos, Borboleta j se encontrava plenamente alerta. At entrou andando no pronto-socorro, segurando a mo de Anita. Ns trs esperamos com Tommy 
no saguo, enquanto Anita a levava para a sala de exames.
- Esta foi a primeira vez que no conseguimos traz-la de volta - lembrou-nos Crystal. - Foi Anita quem conseguiu.
Tommy arregalou os olhos, balanou a cabea. Quase uma hora depois Anita veio nos dizer que Borboleta passava bem.
- Todos os sinais vitais so bons. O mdico acha que a crise foi causada por um choque psicolgico, o que no significa que no  grave. Ela precisa de muito cuidado 
e carinho. - Anita disse isso mais para o marido do que para ns. - E ela no ter isso no lugar para onde vai, Tommy.
Ele se limitou a acenar com a cabea.
Depois, Tommy decidiu nos levar para tomar o caf da manh numa lanchonete ali perto. S que ningum tinha fome. Deixamos mais no prato do que pusemos no estmago. 
A viagem de volta ao rancho foi mais vagarosa, mais quieta. Ao chegarmos, arrumamos as poucas coisas que tnhamos, e ficamos esperando que Tommy nos levasse para 
o gabinete do xerife.
- Anita me deu o vestido - murmurou Raven, mostrando o traje de pele de gamo. - Disse que me pertence porque fica muito bem em mim. Tommy e Anita foram muito bons 
para ns. Fico contente que a gasolina tenha acabado aqui, Brooke.
- Eu tambm.
Chegou a hora de partir. Anita decidiu nos acompanhar e sentou-se na frente com Borboleta. A assistente social nos esperava no gabinete do xerife. Era uma mulher 
simptica, em torno dos quarenta anos, cabelos
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castanho-escuros, crespos. Foi se isolar numa sala com Tommy e Anita, para tratar dos detalhes. Passaram um bocado de tempo l dentro. Pude ver, atravs do vidro, 
que a mulher, sra. Wilson, falava ao telefone. Conversou mais um pouco com Tommy e Anita. Depois, Tommy saiu sozinho.
- Vai demorar mais um pouco - avisou ele.
- Para onde vo nos levar? - perguntei.
- Ainda no ficou decidido, mas tudo indica que voltaro para Nova York. No se preocupem... no ser para a Lakewood House. - Ele fez uma pausa. - A sra. Wilson 
gostaria de falar com Janet.
Borboleta, que ficara de cabea baixa durante a maior parte do tempo, levantou os olhos, surpresa.
- No tem problema? - perguntou Tommy. Borboleta olhou para Crystal, que acenou com a cabea. Tommy pegou a mo dela e levou-a para a sala. Depois voltou e convidou-nos 
para tomar um sorvete.
- Temos uma mquina de sorvete antiga aqui. Fomos para uma drugstore com a mquina de sorvete antiga e reservados no fundo.
- O que est acontecendo? - sussurrei para Crystal.
Ela deu de ombros e indagou:
- Qual  a novidade de ficar esperando por causa de detalhes burocrticos, Brooke?
Tommy nos trouxe os sorvetes e sentamos num reservado vermelho, com botes cromados.
- Cada vez que venho aqui, tenho a sensao de que voltei ao passado numa mquina do tempo - comentou ele.
- O lugar  simptico - admitiu Raven, olhando ao redor.
- Vocs passaram por muitas coisas juntas, no  mesmo? Foram anos, pelo que sei.
-  verdade - confirmou Crystal. - Houve ocasies
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em que torcamos para que nos separassem e levassem cada uma para um lar maravilhoso. No entanto,  medida que os anos foram passando, compreendemos que seria cada 
vez menos provvel.
Ela relatou a Tommy a oportunidade mais recente que Borboleta tivera de ser adotada e como Louise a sabotara
Ele sacudiu a cabea.
-  muito triste quando as pessoas so cruis com as crianas. Preciso perguntar uma coisa a vocs. Pelo pouco tempo que nos conhecemos, sei que Borboleta nunca 
faria qualquer coisa sem a aprovao de todas. Perguntamos  sra. Wilson se podamos ficar com ela, como seus tutores provisrios, para depois adot-la como nossa 
filha.
- Pediram isso? - balbuciou Raven.
- O que ela disse? - acrescentou Crystal.
- Est descobrindo o que tem de ser feito, mas h uma boa possibilidade. O que vocs acham?
Ningum disse nada por um momento.
- Ficaramos muito felizes por ela - disse Crystal finalmente. - De qualquer forma, Tommy, no continuaremos juntas por mais tempo. Completaremos dezoito anos em 
breve e sairemos do sistema. Borboleta merece encontrar um lar cheio de amor antes que isso acontea.
- So muito generosas, meninas. Eu gostaria de poder ficar com todas, mas isso seria muito difcil de conseguir. Alm do mais, tenho a impresso de que preferem 
um lugar com mais ao: uma oportunidade melhor de educao para voc, Crystal, um lugar em que possa se realizar como cantora, Raven, e j sei que Brooke fala muito 
em ir para a Califrnia... e est ansiosa para encontrar um certo rapaz. Talvez voc deva at ligar para ele agora.
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Tommy tirou um punhado de moedas do bolso e acrescentou:
- No seria bom avis-lo de que voc est bem? Olhei para as moedas, como se fossem pepitas de ouro, e depois para o telefone pblico.
- Ligue logo - exortou Raven.
No esperei por mais insistncia. Levantei-me numa frao de segundo. Todd atendeu o telefone ao primeiro toque da campainha.
- Por acaso eu me encontrava no escritrio - disse ele. - Onde voc est?
Contei tudo o que era possvel espremer em dois minutos e depois prometi-lhe que tornaria a telefonar assim que soubesse para onde eu ia.
- Onde quer que esteja, Brooke, eu irei at voc. Vou sentir muita saudade.
- Eu tambm.
Todos tinham sorrisos tolos quando voltei  mesa.
- E ento? - indagou Raven.
- Betty Lou s est esperando a informao do local.
Raven soltou uma risada. Crystal sorriu e me abraou.
- Obrigada, Tommy - murmurei.
- Eu  que agradeo, meninas. Vocs me ajudaram a ter de volta minha Anita. No se enganem quanto a isso. Precisamos de Borboleta mais do que ela precisa de ns.
Ele tinha lgrimas nos olhos. Ns tambm.
Borboleta nos esperava quando voltamos. Tommy foi para a sala com Anita e a sra. Wilson, para continuarem a conversar. Papis eram despachados por aparelhos de fax. 
O processo comeara.
- Anita quer que eu fique com ela - anunciou Borboleta para ns.
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- J sabemos, Borboleta - disse Crystal. -  maravilhoso, se tambm quiser. Voc quer?
- Quero, sim... mas no quero deixar vocs.
- No pense que no tornaremos a v-la - declarou Raven, procurando confort-la.
- Assim que pudermos, viremos visit-la - acrescentou Crystal. - Tommy j nos convidou.
-  mesmo?
- , sim - confirmei. Borboleta sorriu.
- Vou cuidar da pnei pessoalmente. Todas rimos e a abraamos.
Tommy, Anita e a sra. Wilson finalmente saram da sala. Fora tudo acertado. Borboleta poderia ficar no rancho enquanto eram cumpridas as formalidades.
- E ns? - perguntou Crystal.
- Vou lev-las para Albuquerque, onde ficaro alojadas at voltarem para Nova York. Tenho certeza de que iro para um bom lugar quando chegarem l.
Crystal no riu, mas lanou para a sra. Wilson um dos seus olhares de "No diga besteira!", o que arrancou um sorriso meu e de Raven.
Ns a seguimos para o carro. Raven decidiu sentar na frente. Crystal e eu fomos para o banco traseiro. Antes, abraamos e beijamos Borboleta mais uma vez. Depois, 
abraamos e beijamos Tommy e Anita.
- Assim que for possvel, providenciaremos para que vocs nos visitem - prometeu Tommy.
- Seria timo - respondi. - Crystal mal pode esperar para montar a cavalo de novo.
Tommy riu. Anita segurava a mo de Borboleta, que apertava seus dedos, as duas dando a impresso de que haviam encontrado razes para continuar vivendo, amando e 
apreciando tudo o que era bom e belo neste mundo.
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Partimos no carro da sra. Wilson, em silncio.
Eu pensava em minha me verdadeira e qual seria a sensao de segurar sua mo. Perguntei-me o que Raven e Crystal estariam pensando. Desejei que fosse em alguma 
coisa boa. Percorrramos um longo caminho para acalentar pensamentos tristes. O cu  nossa frente parecia mais azul do que o normal. O fato de Borboleta ter encontrado 
um novo lar nos proporcionava uma esperana renovada.
Podamos e deveramos estar otimistas? Ousaramos nos sentir assim?
Subitamente, sem aviso, Crystal inclinou-se e pegou minha mo. Olhamos uma para a outra e sorrimos.
- Ela no parecia feliz? - indagou Crystal.
- E muito - disse Raven.
Ela virou-se para trs, as lgrimas escorrendo pelas faces. Pegou nossas mos.
- Somos irms - comeou Crystal.
- Sempre seremos irms - acrescentamos Raven e eu.
- As Orfteiras! - exclamamos ao mesmo tempo. E nossos risos ressoaram pela estrada que nos levava a novas promessas e a um novo futuro.
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17 - Eplogo

Todd e eu voamos de nossa nova casa no Illinois para Albuquerque. Raven veio de Los Angeles, onde acabara de assinar um contrato para seu primeiro CD e ganhara um 
pequeno papel num filme. Crystal fora aceita em Harvard num programa de bolsas de estudo especiais. Ela trabalhava na biblioteca, o que lhe proporcionava um pequeno 
rendimento adicional. Combinamos que nos encontraramos no aeroporto e alugaramos um carro juntas. Nunca deixramos de manter contato. Crystal gostava de escrever 
longas cartas. Eu guardava todas as que recebia, dizendo a Todd que um dia seriam valiosas. Eram muito bem escritas, detalhadas, proporcionando-me a sensao de 
que me encontrava a seu lado, aprendendo, experimentando a vida universitria. Raven rabiscava linhas em cartes-postais, mas na maioria das vezes preferia telefonar; 
e eu fazia a mesma coisa. Todas telefonvamos para Borboleta, at mesmo Crystal, porque o som de sua voz era importante para ns, assim como nossas vozes para ela.
Borboleta estava prestes a terminar o curso superior. Dentro de um ms se tornaria assistente social. Ela queria usar a experincia de sua vida para ajudar os jovens.
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J nos encontrramos duas vezes antes, mas quase um ano e meio transcorrera desde a ltima visita. Pouco mais de um ano depois de Borboleta comear a viver com Tommy 
e Anita, esta engravidara. Nascera um menino, a quem deram o nome de Steven. Foi logo substitudo pelo apelido de Popeye, porque ele adorava espinafre e tinha braos 
muito fortes para um beb. Era tudo o que Annie no fora, ou seja, uma criana saudvel. A superstio fora desfeita. Sabamos tambm que Anita estava convencida 
de que fora por causa da energia positiva que Borboleta incutira na vida do casal.
Todd e eu fomos os primeiros a chegar. Estvamos esperando, quando o avio de Raven pousou e ela passou pelo porto. Tornara-se mais histrinica do que nunca, to 
exuberante quanto podia, usando um vestido amarelo decotado e sensual, exibindo os lindos cabelos lisos, os saltos altos ressoando no cho. Ao que parecia, ela fizera 
o maior sucesso com um dos tripulantes que viera no mesmo vo, que chegou a suplicar que mudasse sua passagem, a fim de viajar com ela em seu vo de volta para Los 
Angeles.
- Brooke! - gritou ela ao me ver.
Raven correu para os abraos, e nos enlaamos e giramos, como adolescentes.
- Oi, Todd.
Ela deu-lhe um beijo algo fervoroso, que o surpreendeu tanto quanto a mim. Depois, segurando meus braos, acrescentou:
- Voc est maravilhosa, Brooke. Pensei que a essa altura iria encontr-la gorda e grvida.
- Ainda no estamos preparados para isso, Raven. Foi o que eu disse em nossa ltima conversa. Resolvemos ampliar a oficina e fazer alinhamento de direo.
- Ah,  isso mesmo, alinhamento de direo. Tambm alinhei meus dentes. - Ela passou os braos pelos
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nossos. -  muito importante manter a aparncia o melhor possvel. No importa o que digam; a verdade  que sempre procuram os melhores rostos e os melhores corpos. 
O talento  secundrio... no que eu no trabalhe o meu talento.
- Parabns pelo contrato com a gravadora.
- Venho trabalhando nisso noite e dia. Apresentei-me num pequeno nightclub em Hollywood. Foi assim que arrumei o papel no filme. Quanto tempo vai levar para Crystal 
chegar? Detesto esperar.  tudo o que fao hoje em dia.
Todd consultou seu relgio.
- Mais trinta minutos. Fomos tomar um caf.
- D para acreditar que nossa pequena Borboleta vai se formar na universidade? - indagou Raven, quando sentamos a uma mesa.
- Por que no? - perguntei.
- Ora, Brooke, voc sempre foi muito... muito realista.
Ela soltou uma risada. Fez uma pausa e contemplou-nos por um momento.
- Fico contente por voc estar feliz, Brooke. Espero um dia encontrar algum que me deixe to feliz assim.
- Vai encontrar, Raven, se realmente quiser. Ela sorriu, arrematando com uma gargalhada.
- Tem razo, se eu realmente quiser. No posso pensar nisso agora. Estou no show business.
Raven ps-se a contar histrias de Hollywood, falando to depressa e com tanta ansiedade, que senti que tentava desesperadamente me convencer de estar feliz com 
as decises que tomara. Finalmente chegou a hora de receber Crystal no porto de chegada. Ela foi uma das dez primeiras pessoas a desembarcar, carregando
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uma pasta com as matrias que precisava estudar. No parecia muito diferente, ainda se descuidando dos cabelos, sem maquilagem, nem mesmo batom, e usando culos 
de lentes grossas.
Em seguida aos abraos e beijos, Todd foi providenciar o carro. Pouco depois, estvamos a caminho do rancho, como passramos a nos referir  propriedade.
- Talvez eu me especialize em psiquiatria - comentou Crystal.
- Por que no estou surpresa? - gracejou Raven. - Voc vivia analisando todo mundo. Pode muito bem ganhar dinheiro com isso.
Todd riu. Ao perceber que tinha uma audincia atenta, Raven continuou com suas piadas. Crystal e eu trocamos um olhar e sorrimos. Apesar de nossa idade e da passagem 
do tempo, ainda nos comportvamos como as Orfteiras, juntando nossas mos sempre que podamos.
Borboleta saiu correndo pela porta da frente no instante em que o carro parou. S se tornara sete centmetros mais alta, mas seu rosto amadurecera, junto com o corpo 
gracioso. Todas nos abraamos como se estivssemos prestes a enfrentar o mal outra vez. Tommy e Anita saram, ela com o filho no colo. Entramos na casa, Todd e Tommy 
carregando as malas.
Pensei que nunca ficaramos sem assunto para trocar entre ns. ramos impelidas por uma necessidade de revelar s outras todos os eventos importantes e significativos 
em nossas vidas, por mais irrelevantes que pudessem parecer para as outras pessoas. A conversa se prolongou pelo almoo, at que chegou o momento de Borboleta se 
preparar para a cerimnia de formatura. Todas nos aprontamos. Raven surpreendeu ao aparecer com o vestido de ndia feito pela me de Anita.
- Vai mesmo us-lo? - perguntei. Raven olhou para Anita.
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- Eu teria o maior orgulho de us-lo, se Anita no se importar.
- Claro que no me importo. Voc fica ainda mais linda nesse vestido, Raven.
Era tudo que Raven precisava ouvir. O vestido teria de ser arrancado  fora de seu corpo depois do elogio. Entramos em nosso carro e seguimos Tommy, Anita, Borboleta 
e o pequeno Steven at a escola. Tudo fora preparado para uma cerimnia ao ar livre. Comentei que sentia um frio no estmago por Borboleta. Crystal admitiu a mesma 
coisa.
- Voc est nervosa, Crystal? - disse Raven. - No imagina o que  ficar nervosa... se nunca se preparou para uma audio.
- Isto  a mesma coisa que uma audio - disse Crystal, os olhos fixos em Raven.
- Tem toda razo.
Raven acalmou-se quando a msica comeou, os formandos avanando pelo corredor em direo ao palco. Os cachos dourados de nossa pequena Borboleta eram deslumbrantes 
sob o chapu. Olhei para Anita e Tommy, de mos dadas, os rostos radiantes de orgulho.
Quando o nome de Borboleta foi chamado, aplaudimos com entusiasmo. Os olhos do pequeno Steven exibiam um brilho divertido. Anita fez com que ele acenasse para o 
palco. Borboleta fitou-nos, com um sorriso radiante.
Ela no tivera mais nenhum ataque desde que passara a viver com Tommy e Anita. Era sem dvida uma flor transplantada para um solo frtil, saudvel e forte, desenvolvendo-se 
para realizar todo o seu potencial.
Acho que o mesmo acontecia com todas ns agora, at mesmo com Raven, que, com certeza, encontraria seu caminho para alguma felicidade. Todos na audincia aplaudiram 
quando a turma inteira recebeu seus diplomas.
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Olhei ao redor para os felizes pais e mes, irms e irmos, parentes e amigos.
H muito tempo, por motivos diversos, nossos pais e mes nos haviam doado, por assim dizer, a um sistema impessoal, condenando-nos  busca interminvel de uma nova 
famlia. Tentamos de tudo. Mantivemos a esperana e rezamos. Mas demorara muito para Borboleta, e nunca chegara a acontecer para Raven, Crystal e para mim. Mas acabamos 
descobrindo que, durante a prpria busca, encontrramos uma famlia: encontrramos a ns mesmas.
Por um exato momento, no gramado de uma escola no sudoeste americano, a quilmetros e quilmetros do lugar em que comeramos, ns nos juntamos mais uma vez. Comprimimos 
nossos prprios corpos, abraadas, e repelimos as trevas.
Certa ocasio, quando Crystal e eu ficramos sozinhas  noite, olhando por uma janela da Lakewood House, ela dissera:
- Eu costumava sonhar com a me que jamais conheci. Ela no tinha rosto,  claro. No sonho estou sempre apertando sua mo, enquanto ela sempre tenta se desvencilhar. 
Eu me esforo ao mximo para segur-la, mas finalmente tenho de largar. Sofro a sensao de que estou caindo. E  nesse momento que acordo.
Ela virou-se para mim e sorriu.
- Sempre me senti assim, mesmo com meus pais adotivos. Mas depois fui trazida para c, ns quatro nos encontramos e, de repente... parei de cair, Brooke.
"Eu tambm", pensei.
Sabia que ela tinha razo, mesmo naquele tempo.
Nossa queda terminara.
FIM
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Data de concluso da leitura: 3 de julho de 2008.
